TALÁBRIGA

Luís Seabra Lopes*

Ruínas do monte do Marnel

A cidade de Talábriga, que os autores antigos situam na região do Vouga, é uma espécie de antepassada romana de Aveiro. Infelizmente, apesar de andar na mira dos investigadores desde o século XVI, o problema da localização de Talábriga tem sido difícil de solucionar. Em diversos estudos, apontei as fraquezas da conjectura tradicional, segundo a qual Talábriga se situaria na zona da Branca ou Albergaria-a-Nova, e propus a sua identificação com o castelo do Marnel. Os argumentos apresentados parecem-me bastante sólidos. Neste artigo apresento uma compilação das principais conclusões dos meus trabalhos anteriores sobre o assunto.

I. Introdução

A história de Talábriga parece começar com um episódio heróico de resistência à dominação romana. Com efeito, em 138 aC., o consul Décio Júnio Bruto empreendeu a primeira grande campanha militar pelo actual território português. Apiano de Alexandria incluíu na sua Romanorum Historiarum a narrativa dessa campanha, a qual se estendeu a toda a região compreendida entre os rios Gualdalquivir e Minho. Bruto, em vez de enfrentar as populações das montanhas, que fácilmente se refugiavam, preferiu conduzir a campanha pelas zonas mais desafogados do litoral e foi atacando as cidades. Talábriga aparece referida no último capítulo da narrativa de Apiano:

«Entre outras cidades que se rebelaram foi Talábriga a que mais vezes o fez. Brutus, voltando ali, os habitantes da cidade pediram-lhe clemência e confiaram-se ao seu arbítrio. Em primeiro lugar mandou que lhe entregassem os trânsfugas dos romanos, os prisioneiros e todas as armas, além dos reféns; depois ordenou que saíssem da cidade com mulheres e filhos. Logo que acabaram de o fazer, cercou-os de tropas e arengou-os, dizendo-lhes que quantas vezes se rebelassem, tantas vezes mais violentamente a guerra lhes seria feita. Amedrontados e convencidos de que mais asperamenente se vingaria deles, Brutus acalmou-se contentando-se só com estas recriminações. Tomou-lhes os cavalos, mantimentos, dinheiro público e mais apetrechos bélicos, restituindo-lhes depois a cidade, o que eles já não esperavam. Depois de tantos feitos, Brutus voltou a Roma ».

A destemida resistência oferecida pelos habitantes ajudou a mitificar a povoação, tornando ainda mais urgente determinar a sua localização.

Convém, todavia, referir que não é totalmente segura a identificação da Talábriga a que se refere Apiano com a Talábriga do Vouga. Na verdade, parece ter existido um castellum Talabriga a norte do Douro, no território dos brácaros, precisamente onde se passam os acontecimentos narrados por Apiano no capítulo anterior ao que se citou acima. Contudo, é preciso não esquecer a profunda dualidade cultural existente no território português na época da conquista romana, no século II aC. Às regiões do sul e do litoral a partir do Vouga, mediterranizadas e com muitos centros urbanos, contrapunham-se o interior e o norte com um cariz tribal, castrejo e pastoril. Apiano, no pequeno capítulo dedicado ao norte do Douro, não refere cidades, apenas fala de um povo, os brácaros. O próprio Plínio, já no século I dC., quando descreve o litoral da Lusitânia, apenas refere cidades a partir do Vouga, sendo a primeira Talábriga. Entre Vouga e Douro, Plínio não refere cidades, mas sim dois povos, os Túrdulos Velhos e os Pesures. Assim, parece-me pouco provável que o Talabriga oppidum de Apiano pudesse ficar a norte do Douro.

A passagem em que Plínio refere Talábriga é a seguinte: «A Durio Lusitania incipit: Turduli veteres, Pæsuri, flumen Vagia, oppidum Talabrica, oppidum et flumen Aeminium, oppida Conimbrica, Collipo, Eburobritium [...]». A estas cidades situadas no litoral entre Vouga e Tejo chamou Pompónio Mela as cidades dos Túrdulos (Turdolorumque oppida ).

Informações mais detalhadas sobre a localização de Talábriga encontram-se no chamado Itinerário de Antonino, um roteiro do império, preparado ao longo do século III, que indica estradas, cidades e distâncias. Segundo esta fonte, Talábriga ficava junto à estrada que ligava Olisipo a Brácara Augusta. Mais precisamente, a cidade do Vouga ficaria entre Emínio e Lancóbriga, a uma distância de 40 milhas da primeira e de 18 milhas da segunda. Por sua vez, Lancóbriga, cuja existência se conhece apenas pela referência do Itinerário de Antonino, ficaria a 13 milhas de Cale, que deverá procurar-se em Gaia ou no Porto.

II. Talábriga não pode ter-se situado na Branca

As primeiras conjecturas e controvérsias sobre a localização exacta de Talábriga surgiram no século XVI, perfeitamente integradas no movimento renascentista de culto das civilizações antigas e de procura dos seus vestígios. Insurgindo-se contra autores que faziam corresponder Talábriga a Talavera de La Reina, em Espanha, o antiquário Gaspar Barreiros defendeu em 1561 que umas ruínas, que encontrou em Cacia, próximo de Aveiro, eram o que restava de Talábriga. Nos dois séculos seguintes, os mais variados autores concordaram com a localização de Talábriga em Aveiro ou próximo.

Gaspar Barreiros procurou, com notável sentido crítico, identificar a localização de Talábriga. Porém, a sua tese não é consistente com os dados do Itinerário de Antonino, pois, a distância que deveria separar Talábriga de Cale, 31 milhas ou 46 Km, obrigaria a colocar Talábriga um bocado a norte do Vouga.

Félix Alves Pereira chamou a atenção para este facto, num pormenorizado estudo publicado em 1907 n'"O Arqueólogo Português". Nesse estudo, o autor definiu a situação conjectural de Talábriga com base nas restrições impostas pelo Itinerário, isto é, esta cidade da Lusitânia deveria ficar na intersepção de dois círculos: um centrado em Emínio e tendo de raio 40 milhas, e outro centrado em Cale e tendo de raio 31 milhas. O espaço assim definido exclui Cacia, ou qualquer outra povoação próxima de Aveiro, e exclui ainda as margens do Vouga. Segundo esta tése conjectural, a freguesia da Branca, do concelho de Albergaria, teria grandes possibilidades de conter nos seus limites as ruínas deste oppidum romano.

Em 1942, Alberto Souto publicou um trabalho, sobre a romanização do Baixo Vouga, em que manifestou total concordância com as conclusões de Alves Pereira. Souto foi mais longe, propondo que Talábriga deveria procurar-se em Cristelo da Branca. Em defesa desta hipótese, referiu a configuração topográfica do local (um pequeno planalto entre duas ravinas), a existência de vestígios romanos e o próprio significado arqueológico do topónimo Cristelo. Entretanto, como Cristelo ficava um pouco afastado do suposto traçado da estrada romana e, ainda por cima, em rigor, ficava já fora da zona de intercepção definida por Alves Pereira, Alberto Souto acabou por propôr que, embora Talábriga se situasse em Cristelo, a sua mansio seria em Albergaria-a-Nova.

Recentemente, Vasco Mantas defendeu também que Talábriga deveria procurar-se na zona de Albergaria-a-Nova. Em vários artigos recentes, tenho argumentado que a tese conjectural de Alves Pereira não é aceitável. Por um lado, e ao contrário do que este arqueólogo pensou, o Itinerário de Antonino contém necessariamente um erro em alguma das distâncias entre Emínio e Cale. Com efeito, sendo de 104.5 Km ou 70.5 milhas a distância em linha recta entre Coimbra e Gaia, não pode estar correcto o comprimento de 71 milhas que o Itinerário indica para a estrada entre as duas cidades. Aliás, no início do século, a estrada real media cerca de 78 milhas entre os mesmos pontos e na idade média parece que era ainda mais longa. Por outro lado, a localização de Talábriga na zona da Branca, portanto bastante a norte do Vouga, vai contra o citado testemunho de Plínio que obriga a situar esta cidade a sul do Vouga.

A localização de Talábriga em Cristelo da Branca é indefensável. Em primeiro lugar, Cristelo fica cerca de 1.5 milhas para norte do ponto em que, em linha recta, se cumprem as 40 milhas indicadas pelo Itinerário. A hipótese da localização da mansio de Talábriga em Albergaria-a-Nova não é apoiada nem pela antiguidade da povoação (seguramente posterior ao século XII) nem na existência de vestígios romanos. Mesmo que Albergaria-a-Nova fosse povoação antiga, com origem comprovadamente romana, nunca poderia ter sido a mansio de Talábriga, pois, a distância a Coimbra por estrada excede considerávelmente as 40 milhas indicadas pelo Itinerário. Por exemplo, no começo do século, a distância de Coimbra a Albergaria-a-Nova pela estrada real, cujo traçado coincide, em grande parte, com o traçado da estrada romana proposto por Vasco Mantas, era de 43.7 milhas. Portanto, mesmo que a distância indicada pelo Itinerário para o segmento Emínio-Talábriga seja um arredondamento por defeito da distância real, a distância de Coimbra a Albergaria-a-Nova excede-a em mais de 3 milhas. Ora, como a distância em linha recta entre Coimbra e Albergaria-a-Nova é precisamente 40 milhas, não vejo como se poderá anular essa diferença de 3 milhas.

Em defesa da hipótese de que a mansio de Talábriga seria em Albergaria-a-Nova, Mantas refere ainda a proximidade do monte da Senhora do Socorro (2 milhas para sul), que identifica com o montis Meison Frido (também Mansio Frigida, Meigonfrio) referido em alguns documentos medievais. A tal mansio frigida seria a mansio de Talábriga, situada em Albergaria-a-Nova. Na realidade, o estudo cuidadoso da documentação de Albergaria-a-Velha mostra que o montis Meison Frido deve ser identificado, não com o monte da Senhora do Socorro, mas sim com o pico de cota 97m junto ao qual se situam as povoações de Frias de Baixo e Frias de Cima. Neste ponto se situava também a fonte denominada Fontanini de Meigonfrio num documento medieval. O monte de Frias é o limite tradicional entre Albergaria-a-Velha e Paus. Entre este monte e Albergaria-a-Nova contam-se, em linha recta, mais de 6 milhas, ficando de permeio Assilhó, a vila de Albergaria-a-Velha e o próprio monte da Senhora do Socorro. Portanto, o topónimo medieval Meison Frido de forma alguma pode apoiar a existência de uma eventual mansio de Talábriga em Albergaria-a-Nova. Aliás, a ter alguma relação com Talábriga, mais fácilmente o topónimo Meison Frido apoiaria a localização de Talábriga no Marnel, que dista apenas 2.5 milhas do monte de Frias.

Vista panorâmica do monte do Marnel

 

III. Talábriga situava-se no Marnel

Como se vê, todos os argumentos até agora apresentados a favor da localização de Talábriga na região de Albergaria-a-Nova carecem de fundamento. Esse facto levou-me a procurar uma localização mais adaptada aos dados conhecidos. Em primeiro lugar, a detecção de um erro no Itinerário de Antonino fez-me atribuir maior importância ao passo de Plínio citado acima, o qual obriga a situar Talábriga a sul do rio Vouga. Ora, é precisamente a sul do Vouga, mais precisamente no monte do Marnel, freguesia de Lamas do Vouga, Águeda, que se situa a mais importante estação arqueológica romana da região.

A importância das ruínas do Marnel e a sua localização a sul do Vouga sugerem claramente que a verdadeira localização de Talábriga seria no Marnel. De resto, o monte do Marnel era o local que melhores condições oferecia para servir de capital da região do Vouga. Situado entre os rios Vouga e Marnel, e não longe da antiga foz do Vouga, o monte era quase uma ilha, apenas ligada a terra pelo extremo oriental. Estrategicamente, a localização de Talábriga nesse ponto, dominando, quer o trânsito fluvial no Vouga, quer o trânsito terrestre na estrada Olissipo-Brácara e na estrada, também romana, que do Marnel partia em direcção a Viseu, não podia ser melhor.

Por outro lado, analisando a distribuição dos marcos de fronteira e dos marcos miliários até agora encontrados, verifiquei que o território de Talábriga coincidia em grande parte com a chamada terra de Vouga, que se documenta desde a reconquista de Coimbra (século XI) até finais da idade média. Ora a sede da terra de Vouga era precisamente a civitas Marnel. Também isto me parece um forte argumento a favor da localização da cidade romana no Marnel. Mais ainda, estendendo-se o território de Talábriga desde o rio Antuã até à Mealhada, dificilmente poderia Talábriga situar-se em Cristelo ou Albergaria-a-Nova, povoações que ficam no extremo norte deste vasto território.

Parece-me que os argumentos já apresentados deixam pouca margem de manobra para os seguidores de Alves Pereira. Surgiu, entretanto, um argumento que me parece verdadeiramente decisivo. Com efeito, Ptolomeu, no segundo quartel do século II, portanto cerca de um século antes da redacção do Itinerário de Antonino, reuniu uma enorme massa de informações com vista à construção de uma mapa do mundo conhecido nesse tempo. Cada ponto a assinalar foi definido pelas suas coordenadas astronómicas com base em tempos de viagem, distâncias por estrada, duração dos dias mais longos, etc. Ora, as coordenadas das cidades da estrada Olisipo-Brácara permitem reconstituir o guia dessa estrada utilizado por Ptolomeu.

Entre esse guia e o Itinerário de Antonino existem apenas três diferenças. Uma dessas diferenças é precisamente na distância de Talábriga a Lancóbriga. Enquanto o Itinerário indica apenas 18 milhas, o guia utilizado por Ptolomeu indicava 30 milhas. Ora a distância tradicional por estrada entre o Marnel e Fiães anda precisamente em torno deste último valor. A distância entre Talábriga e Cale seria, pois, de 43 milhas, sendo precisamente esta a distância entre o Marnel e Gaia pela antiga estrada real.

Em conclusão, enquanto o Itinerário apresenta distâncias erradas e contradiz Plínio, que situou Talábriga a sul do rio Vouga, Ptolomeu leva-nos inequivocamente a situar Talábriga no Marnel. As ruinas do Cabeço da Mina, um dos pontos culminantes do monte do Marnel, são os mais importantes vestígios romanos até agora encontrados entre Coimbra e Gaia. Estes vestígios, outros encontrados no vizinho Cabeço de Vouga, e o mais que se vier a descobrir ali próximo, nomeadamente nas margens do pequeno rio Marnel, são o que resta de Talábriga.

O facto de a distância em linha recta entre Coimbra e o Marnel ser cerca de 32 milhas e a distância por estrada entre Emínio e Talábriga ser de 40 milhas, segundo o Itinerário, sugere que a estrada se afastaria bastante da linha recta, facto que uma série de outras observações parece confirmar. Na verdade, a análise da distribuição dos vestígios romanos, do povoamento medieval e dos centros de poder local na idade média sugerem claramente que a estrada romana seguiria pela margem esquerda do Cértima até Sangalhos, onde se deveria situar uma mansio, e acabaria por cruzar o rio Águeda entre Ois e Travassô. O percurso mais natural por esta directriz mede muito aproximadamente as 40 milhas do Itinerário. Este traçado mais longo deverá ter resultado da necessidade de evitar a travessia do rio Águeda no centro da sua várzea bem como as travessias dos numerosos afluentes da margem direita do rio Cértima.

Para maiores detalhes, vejam-se as minhas publicações anteriores sobre Talábriga:

«Talábriga: Situação e Limites Aproximados», Portvgalia, Nova série, vol. XVI, Instituto de Arqueologia, Porto, 1995, p. 331-343.

«Talábriga e as Origens da Terra de Vouga», Beira Alta, vol. LV, 1-2, Assembleia Distrital de Viseu, 1996, pp. 169-187.

«As Coordenadas de Talábriga», Estudos Aveirenses, nº 6-7, Aveiro, 1996, pp. 149-164.

Correcções ao Itinerário de Antonino entre Olissipo e Brácara Augusta, São João da Azenha, 1997.

«O Problema da Localização de Talábriga», Munda, nº 34, Coimbra, 1997, pp. 57-60.

Construí também a página http://sweet.ua.pt/~lsl/talabriga.html ("Talábriga: a Capital Romana do Vouga") que pretendo ir mantendo actualizada.

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* Docente no Departamento de Electrónica e Telecomunicações da Universidade de Aveiro


Ficha Técnica

 

Autor: Luís Seabra Lopes

Título: Talábriga

Revista: O Cyberarqueólogo Português

Endereço: http//www.uc.pt/aia/marnel.html

Data de edição: 25 de Junho 1998

Local de edição: Coimbra

Composição: António J. M. Silva

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