DigLitWeb: Digital Literature Web

F-A

The Three Voices (Fig 4)  

A de Autores Esta página web contém anotações sobre autores relevantes para os problemas do hipertexto, novos média, edição electrónica e literatura electrónica.

A for Authors This webpage contains annotations on authors whose ideas are relevant for hypertext, digital media, electronic textual editing, and electronic literature.

   

 

 


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Berners-Lee, Tim

Bolter, Jay David

Bush, Vannevar

Drucker, Johanna

Engelbart, Douglas

Hayles, N. Katherine

Heim, Michael R.

Joyce, Michael

Landow, George P.

Lanham, Richard A.

Leibniz, Gottfried

McGann, Jerome

Moulthrop, Stuart

Nelson, Theodor Holm

Robinson, Peter

Saussure, Ferdinand

Shillingsburg, Peter L.

 


Berners-Lee, Tim (n. 1955)

Tim Berners-Lee nasceu em Londres a 8 de Junho de 1955 e frequentou a Emanuel School em Wandsworth. É um ex-aluno do Queen's College da Universidade de Oxford, onde construiu um computador de maneira revolucionária, que incluía ferro, um processador M6800, uma televisão velha, entre outras coisas. Foi também em Oxford que foi apanhado a “piratear” informações com um amigo e foi banido de usar o computador da universidade. Trabalhou na Plessey Telecommunications Limited em 1976 como programador, e em 1978 trabalhou na D.G. Nash Limited em programas de configuração de fonte e num sistema operacional.

Formado em engenharia de sistemas, com larga experiência em telecomunicações e em programação de editores de texto, Tim Berners-Lee, enquanto bolsista do laboratório do Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (CERN, baseado na Suiça), colocou em funcionamento, em 1989, o primeiro computador-servidor de Web na Internet, a rede mundial de computadores interligados usada pela comunidade académica. A nova rede foi baptizada de World Wide Web (WWW), a "teia de difusão mundial". A ideia era facilitar a comunicação entre os pesquisadores espalhados pelo mundo e facilitar a troca de documentação dos projectos internos do CERN, a partir do programa desenvolvido por Berners-Lee, que é baseado no sistema de hipertexto (processo de leitura no qual o texto não forma uma sequência única e pode ser lido em várias ordens, através de interconexões entre as partes). O hipertexto era já a tecnologia consagrada para a organização e apresentação de material escrito em formato electrónico. A proposta de criar um sistema de hipertexto para o CERN foi aceite e Berners-Lee passou a desenvolver o projecto.

De modo a facilitar a partilha de informação dos investigadores do CERN que utilizavam a Internet como meio preferencial de comunicação, Tim Berners-Lee desenvolve um novo protocolo de acesso à Internet que tinha o inconveniente de obrigar os utilizadores a codificar os seus documentos num formato específico, onde o texto seria pontuado por códigos (etiquetas – tags) de controlo, de acordo com regras específicas (para definir estas regras, Berners-Lee baseou-se no SGML, uma invenção da IBM para “descrição” em abstracto da estrutura de conteúdos): ao conjunto das regras chamou-se HTML. Estes documentos seriam gravados no disco rígido de um computador com acesso permanente à Internet (o que era o habitual nesses meios: os computadores com acesso à Internet tinham acesso permanente). Cada um deles seria dotado de uma localização específica, definida a partir do seu nome de ficheiro no disco rígido, da estrutura de directórios e do domínio ou endereço IP (sempre únicos) em que se encontrava enquadrado. A essa localização URL, acrescenta-se ainda o protocolo de acesso à informação.       

Era necessário criar um novo protocolo que permitisse o acesso adequado à informação neste formato e o seu carregamento. O protocolo é o HTTP. As ligações hipertextuais (links) entre documentos dependeriam dos URLs. Como estes haviam sido desenhados para descrever um qualquer documento numa qualquer máquina, estava estabelecida uma plataforma que permitiria à partida, ligar qualquer documento a qualquer outro. Esta possibilidade de referências automáticas a outros documentos (assumindo que eles permaneceriam no mesmo sítio...) era uma característica preciosa para os investigadores, que tipicamente têm de se haver com milhares de referências.

Para tornar isto tudo uma realidade, era agora necessário passar à prática, o que significava arranjar um engenheiro. Com a ajuda de Robert Cailliau, Tim Berners-Lee criou um servidor e um cliente (um browser...) para o seu protocolo e começou a experimentar o sistema. Para popularizar o sistema, desenvolveu-se ainda uma aplicação que convertia com relativa facilidade documentação já existente para o novo formato. Estávamos em 1991 e nos dois anos seguintes a nova facilidade de disponibilização automática de informação tornou-se muito popular entre a comunidade de físicos nucleares. Bastava-lhes colocar os seus relatórios numa máquina do seu sistema, avisar por correio-e a sua disponibilidade e o seu URL, e quem estivesse interessado e podia facilmente aceder à informação, sem qualquer necessidade de usar o papel.          

Tudo isto foi desenvolvido de acordo com as “normas” e a “etiqueta” da Internet, o que queria dizer que todo o corpo teórico subjacente a esta invenção era de domínio público. Alguns meses depois, havia um browser, também gratuito, para Windows, o mais popular sistema operativo do mundo. Ao browser, chamado Mosaic, juntou-se, para a maior parte dos utilizadores, um pequeno shareware australiano (o Trumpet Winsock, criado por um programador da Tasmânia) muito eficiente na resolução do problema do acesso à Internet por modem, de um computador com o Windows 3.1 (naquela altura, o acesso à Internet ainda não estava incorporado no sistema operativo; claro que esta oportunidade de negócio acabou por ser anulada pela Microsoft).

Ao contrário de quase todos os outros, Tim Berners-Lee preferiu orientar a sua vida para o acompanhamento rigoroso da sua invenção, para lhe assegurar um lugar sólido no panteão das conquistas da humanidade. A estratégia, desse ponto de vista, parece estar a frutificar. A TIME, por exemplo, considera-o um dos 20 mais importantes cientistas (e uma das 100 pessoas mais influentes) do nosso século, ao lado de Einstein (relatividade), Fleming (penicilina), Turing (computador) ou Freud (psicanálise), entre outros. Em 2004, venceu o Millennium Technology Prize, o que lhe rendeu 1,2 milhões de euros.

Fontes:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Tim_Berners-Lee

http://ieee.cincinnati.fuse.net/reiman/03_2000.html

http://uweb.und.nodak.edu/~kayla.marsden

http://www.estudar.org/pessoa/internet/02www/people-tim_berners_lee.html

http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=010150040419

[Susana Basílio]

 

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Bolter, Jay David (n. 1951)

Professor do Georgia Institute of Technology, Jay David Bolter é um dos mais notáveis teorizadores do espaço electrónico como novo espaço de escrita, sendo também co-autor de um dos programas de hipertexto adoptado por algumas das primeiras obras de hiperficção, o programa StorySpace (primeira versão, 1987, Eastgate Systems). Bolter tem analisado não apenas aquilo que designa como a “remediação” da palavra impressa que ocorre no hipertexto, mas o conjunto de processos simbólicos associados às formas e géneros electrónicos, incluindo o livro electrónico, a ficção interactiva, o hipertexto educativo, a arte digital, os jogos de computador e os sítios e páginas web. Durante a década de 90, a World Wide Web e as aplicações de hipertexto originaram um sistema global de hipertexto, amplificando processos e formas hipertextuais que tinham até então sido descritos a partir de redes e sistemas mais circunscritos e localizados.

À semelhança de outros teorizadores do hipertexto, Bolter tem realçado o modo como as práticas visuais e combinatórias de muitos poetas e ficcionistas (de Mallarmé aos concretistas, de Sterne a Calvino) antecipam o espaço de escrita topográfica e combinatória hipertextual. Bolter tem analisado também a retórica da multinearidade, da interactividade, da transparência e da hipermediação na cultura digital. A sua obra principal, Writing Space: Computers. Hypertext, and the Remediation of Print, de 1991, foi republicada em 2001 numa edição revista e actualizada (Mahwah, New Jersey, Lawrence ErlBaum Associates Publishers). Refiram-se ainda, em co-autoria com Richard Grusin, Remediation: Understanding New Media (Cambridge, Massachusetts, MIT Press, 1999; 2ª ed. 2000) e, em co-autoria com Diane Gromala, Windows and Mirrors: Interaction Design, Digital Art, and the Myth of Transparency (Cambridge, Massachusetts, MIT Press, 2003). Remediation: Understanding New Media é um dos estudos seminais sobre as múltiplas dimensões dos média digitais, no qual Grusin e Bolter expandem a noção de remediação para compreender de forma integrada as mudanças nas formas de representação, desde a imprensa e da pintura renascentista à fotografia, ao cinema, à televisão, à realidade virtual e a outras formas digitais. Com base numa dialéctica entre imediação, isto é, transparência, e hipermediação, ou seja, exibição do próprio meio, a reflexão de Bolter e Grusin constrói uma poderosa teoria integrada de novos e velhos média, ligando as propriedades formais e técnicas dos média às práticas sociais, económicas e artísticas que os constituem.

Understanding hypertext as the remediation of printed forms (and of earlier technologies and forms of writing) allows us to recast the debate. Electronic writing in general and hypertext in particular can be both old and new, because the process of redemption must acknowledge both their connection with and their difference from print. […] Hypertexts such as the World Wide Web refashion the voice of the text as we have known it in print and in earlier technologies of writing; they turn vocal writing into spatial writing. The excitement and immediacy of the text is no longer an aural experience, as it was when texts were in manuscripts and as it has remained, however muted, in the printed book. Instead, the World Wide Web offers us the experience of moving through a visual and conceptual space different from the space of the book, although this experience still depends on our intuitive understanding of that earlier writing space. Indeed, we depend in a variety of ways on our knowledge of print in order to read and write hypertexts.

Jay David Bolter, Writing Space: Computers. Hypertext, and the Remediation of Print (Mahwah, New Jersey, Lawrence ErlBaum Associates Publishers, 2001), p. 45. Homepage: Jay David Bolter

[MP]

 

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Bush, Vannevar (1890-1974)

Vannevar Bush é apontado como um dos primeiros autores a antever um sistema de indexação associativa semelhante ao hipertexto, num artigo publicado na revista Atlantic Monthly em Julho de 1945, intitulado “As we may think”. Pensando nos problemas originados pelo crescimento exponencial da quantidade de informação, Bush imagina uma forma de registar, indexar e aceder à informação que ultrapasse duas das principais limitações da artificialidade dos sistemas de indexação e acesso então existentes: a hierarquia rígida das classes e subclasses, e a sua localização num único lugar. Bush pretende que o novo sistema se aproxime do funcionamento da mente humana, uma vez que esta selecciona a informação por associação, a partir de uma intrincada teia de associações, em vez de a seleccionar por indexação hierarquizada. Imagina portanto uma máquina, o “memex” (memory + index), capaz de automatizar esse processo. O “memex” seria ao mesmo tempo um arquivo e uma biblioteca particular, com componentes de memória e de processamento, teria um écrã e um teclado, seria composto por microfilmes com registo de todo o tipo de documentos, funcionaria segundo um sistema de indexação por código, tornaria possível a anotação sobre os próprios documentos e permitiria grande rapidez de acesso. O aspecto em que o “memex” se aproxima do hipertexto é precisamente no conceito de indexação por associação: Bush imagina a criação de ligações entre documentos, a construção de percursos entre documentos, a possibilidade de comunicação entre diferentes utilizadores do memex e a partilha das associações criadas.

The real heart of the matter of selection, however, goes deeper than a lag in the adoption of mechanisms by libraries, or a lack of development of devices for their use. Our ineptitude in getting at the record is largely caused by the artificiality of systems of indexing. When data of any sort are placed in storage, they are filed alphabetically or numerically, and information is found (when it is) by tracing it down from subclass to subclass. It can be in only one place, unless duplicates are used; one has to have rules as to which path will locate it, and the rules are cumbersome. Having found one item, moreover, one has to emerge from the system and re-enter on a new path.

The human mind does not work that way. It operates by association. With one item in its grasp, it snaps instantly to the next that is suggested by the association of thoughts, in accordance with some intricate web of trails carried by the cells of the brain. It has other characteristics, of course; trails that are not frequently followed are prone to fade, items are not fully permanent, memory is transitory. Yet the speed of action, the intricacy of trails, the detail of mental pictures, is awe-inspiring beyond all else in nature.

Man cannot hope fully to duplicate this mental process artificially, but he certainly ought to be able to learn from it. In minor ways he may even improve, for his records have relative permanency. The first idea, however, to be drawn from the analogy concerns selection. Selection by association, rather than by indexing, may yet be mechanized. One cannot hope thus to equal the speed and flexibility with which the mind follows an associative trail, but it should be possible to beat the mind decisively in regard to the permanence and clarity of the items resurrected from storage.

Consider a future device for individual use, which is a sort of mechanized private file and library. It needs a name, and to coin one at random, "memex" will do. A memex is a device in which an individual stores all his books, records, and communications, and which is mechanized so that it may be consulted with exceeding speed and flexibility. It is an enlarged intimate supplement to his memory.

It consists of a desk, and while it can presumably be operated from a distance, it is primarily the piece of furniture at which he works. On the top are slanting translucent screens, on which material can be projected for convenient reading. There is a keyboard, and sets of buttons and levers. Otherwise it looks like an ordinary desk.

Vannevar Bush, “As We May Think”, in Atlantic Monthly (July 1945), pp. 47-61.

[MP]

 

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Drucker, Johanna (n. 1952)

Johanna Drucker foi professora de história e teoria da arte nas universidades de Columbia, Yale, Texas em Dallas, do Estado de Nova Iorque em Purchase e Harvard. Entre 1999 e 2009, foi professora de Estudos dos Média na Universidade da Virgínia, programa de estudos que criou em 1999. Ocupa actualmente a cátedra Breslauer Professor of Bibliographical Studies na Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Drucker é autora de obras sobre tipografia e modernismo, de uma colectânea de ensaios sobre poética visual e experimental, de um estudo sobre livros de artista, de uma história das escritas alfabéticas e de uma história do desenho gráfico. Publicou ainda obras sobre teoria da arte moderna e sobre arte contemporânea. É também a principal editora do arquivo digital Artists Books Online. Em The Visible Word (1994), Drucker analisou a experimentação modernista dos anos 10 e 20 como uma investigação sobre a natureza da linguagem escrita, que abriu dimensões da materialidade do signo linguístico obliteradas pela ênfase fonética e fonológica da linguística saussureana. Das suas obras, refiram-se Theorizing Modernism: Visual Art and the Critical Tradition (New York: Columbia Univeristy Press, 1994), The Visible Word: Experimental Typography and Modern Art, 1909-1923 (Chicago: The University of Chicago Press, 1994), The Century of Artists’ Books (New York: Granary Books, 1995, introdução em http://www.granarybooks.com/books/drucker2/drucker2.4.html), The Alphabetic Labyrinth: The Letters in History and Imagination (London: Thames and Hudson, 1995), Figuring the Word: Essays on Books, Writing, and Visual Poetics (New York: Granary Books, 1998) e Sweet Dreams: Contemporary Art and Complicity (Chicago: Chicago University Press, 2005). É também poeta, ficcionista e artista gráfica, autora de dezenas de obras tipográficas, que fazem uso quer da tipografia digital, quer de prelos manuais e tipos de metal. Os seus livros mais recentes são uma história do desenho gráfico, em co-autoria com Emily McVarish: Graphic Design History: A Critical Guide (Prentice Hall, 2008); e um conjunto de ensaios sobre estética e computação: SpecLab: Digital Aesthetics and Projects in Speculative Computing (Chicago University Press, 2009).

Nos últimos anos, Johanna Drucker tem aplicado as ideias derivadas da sua reflexão sobre a significação gráfica à textualidade topográfica do meio digital. Drucker enfatiza designadamente o conceito de linguagem configurada, isto é, a ideia de que a estrutura de um texto é parte da informação textual (do nível do sistema de diferenças que produz a letra ao nível do dispositivo gráfico que define o documento). A aparente imaterialidade do texto digital resultaria da diferença entre o modo de armazenamento da informação electrónica sob a forma de código-máquina e a materialidade fenomenológica da sua configuração textual. Segundo a hipótese formulada por Drucker, mesmo a sequência binária e a sua localização na máquina poderiam ser entendidos como informação configurada, uma vez que são representáveis diagramaticamente por formas visualizáveis (imagens, mapas, localizações). A textualidade digital obrigaria portanto a repensar a natureza informacional da significação gráfica e linguística em geral. Os seus projectos mais recentes continuam a investigar as possibilidades críticas da digitalidade na construção de espaços electrónicos de análise e interpretação, isto é, na aplicação daquilo que designa como computação especulativa às humanidades.

Ultimately, one of the intimations of immateriality is the way it promises to change material form – and, as such, offers new possibilities for reconceptualization of language as information in the traditional media as well as in hypertext and electronic formats. The configured features of languages seem poised to play an ever more significant role in these formats.

Johanna Drucker, “Intimations of Immateriality: Graphical Form, Textual Sense, and the Electronic Environment” (2002), in Elizabeth Bergmann Loizeaux and Neil Fraistat, eds., Reimagining Textuality: Essays on the Verbal, Visual and Cultural Construction of Texts, Madison: University of Wisconsin Press, 2002,  p. 175. Homepage: Johanna Drucker

[MP]

 

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Engelbart, Douglas (n. 1925)

Douglas Engelbart nasceu a 30 de Janeiro de 1925 próximo de Portland - Oregon, onde cresceu numa pequena fazenda. Actualmente, Douglas vive numa região próxima da Baía de San Francisco, perto dos seus filhos e netos. Em 1942 completou o ensino secundário e foi para a Universidade do Estado de Oregon, onde começou a estudar Engenharia Eléctrica. Durante a Segunda Guerra Mundial foi para a Marinha Americana, passando assim 2 anos nas Filipinas como técnico de radar. Em 1945, leu o artigo de Vannevar Bush, As We May Think, do qual resultou a sua visão de que instrumentos baseados num computador poderiam aumentar o intelecto humano, melhorando portanto a nossa capacidade total para enfrentar os problemas e objectivos, quer individuais, quer da sociedade. Após completar seu curso de Engenharia Eléctrica em 1948, estabeleceu-se na península de San Francisco, onde trabalhou como coordenador eléctrico no laboratório da NACA Ames (precursora da NASA).

Durante os anos 50 e 60, dedicou-se a desenvolver o rato, muitos das características que se podem encontrar em todos os GUI's (Graphic User Interface), sistemas de auxílio integrados, correio electrónico, teleconferência e hipermédia interactivo. Em 1955, Douglas obteve seu doutoramento e permaneceu em Berkeley como professor assistente. Um ano depois Douglas saiu de Berkeley e foi para o Silicon Valley. Em 1957, tornou-se investigador no Instituto de Pesquisa de Stanford e lá registrou algumas patentes por trabalhar com componentes magnéticos do computador. Em 1963, criou o esqueleto para um sistema hipermédia interactivo, num artigo intitulado A Conceptual Framewok for an Argumentation of Man's Intellect. Em 1965, Engelbart criou sua maior contribuição para a informática: o rato. A sua primeira versão era de madeira, tinha apenas um botão e movia-se sobre pequenas rodas. Antes de ele existir, tudo era feito no teclado, o que exigia muito do usuário.

Em 1968, deu por completo o NLS (N Line System), que foi a primeira realização do conceito de Douglas Engelbart para o Augmentation System (AS). O NLS foi pioneiro em muitas das características que hoje integram os modernos sistemas multimédia on-line: rato, windows, e-mail, processamento de texto e hipertexto. Em Dezembro de 1968, na histórica conferência Joint computer Conference, realizada em São Francisco, no estado da Califórnia, Engelbart além de realizar a primeira demonstração do uso do rato, introduziu conceitos experimentais que acabariam por mudar o rumo da evolução dos computadores: videoconferência com computador e vídeo, groupware, hipermédia, hipertexto, e as ideias básicas daquilo que viria a ser a Internet. Engelbart é internacionalmente conhecido por ter revolucionado a forma como o ser humano interage com o computador. Para Engelbart, o hipertexto era uma parte muito importante do seu AS, que iria permitir aos utilizadores expandir a informação que lhes era disponibilizada, facilitar a criação colaborativa e tornar-se um foco crítico para a comunidade, todos eles elementos chave da Rede.

O engenheiro também contribuiu com o seu génio para outros projectos. Em 1969 surge a ARPAnet (precursora da internet), que tinha como objectivo inicial a criação de uma rede que fosse indestrutível aos bombardeiros e que interligasse pontos estratégicos com fins militares, como por exemplo centros de pesquisa e tecnologia e centros de inteligência nacional. A ARPAnet foi criado devido a solicitações do departamento de defesa dos EUA. Em 1988, Douglas Engelbart fundou, com a sua filha Christina Engelbart, o Bootstrap Institute para promover alta performance nas organizações e desenvolver novas tecnologias, com a mesma meta do desenvolvimento do NLS, cujas funcionalidades avançadas pouco foram exploradas pelas pessoas da época. Somente 30 anos depois é que foram plenamente exploradas, talvez porque Engelbart estivesse muito à frente do seu tempo.

Com a criação do Windows pela Microsoft e o lançamento da versão 3.1, em Abril de 1992, estava garantido o lugar do rato nos computadores, até porque também navegar na internet sem o rato seria algo impossível. Nessa mesma época, Douglas Engelbart vendeu a patente do "X-Y Position Indicator" por US$10.000. Actualmente, com 80 anos feitos em 2005, Douglas Engelbart ainda é o director da sua própria empresa, o Bootstrap Institute, que está sediada em Fremont na Califórnia e que promove o conceito de Collective IQ e o desenvolvimento do que Douglas Engelbart chama de Open Hyper-Document Systems (OHS) e HyperScope, uma subsidiária do OHS.

Fontes:

http://en.wikipedia.org/wiki/ _Engelbart

http://web.mit.edu/invent/iow/engelbart.html

http://www.bootstrap.org

http://sloan.stanford.edu/MouseSite/1968Demo.html

http://www.ibiblio.org/pioneers/engelbart.html

http://www.thocp.net/biographies/engelbart_douglas.html

[Susana Basílio]

 

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Hayles, N. Katherine

N. Katherine Hayles é Professora de Inglês e Media Arts na Universidade da Califórnia em Los Angeles. Em How We Became Posthuman (1998), Hayles combina a análise da desmaterialização da informação com as ideias de organismo cibernético e de desconstrução do sujeito, para descrever a condição pós-humana a partir dos desenvolvimentos tecnológicos e da ficção científica da segunda metade do século XX. Nesta obra, a história da inteligência artificial e dos computadores serve de contexto para perceber a natureza virtual e mediada do sujeito favorecida pelas tecnologias digitais de informação, que tornaram contíguo o humano e o cibernético. Katherine Hayles organizou os volumes Chaos Bound: Orderly Disorder in Contemporary Literature and Science (Ithaca: Cornell University Press, 1990), Chaos and Order: Complex Dynamics in Literature and Science (University of Chicago Press, 1991) e Nanoculture: Implications of the New Technoscience (Bristol: Intellect Books, 2004). É autora de The Cosmic Web: Scientific Field Models and Literary Strategies in the Twentieth Century (Ithaca: Cornell University Press, 1984), How We Became Posthuman: Virtual Bodies in Cybernetics, Literature, and Informatics (University of Chicago Press, 1998, prólogo em http://www.press.uchicago.edu/Misc/Chicago/321460.html), Writing Machines (Cambridge, MA: MIT Press, 2002, suplemento web em http://mitpress.mit.edu/e-books/mediawork/titles/writing/writing_book_sup.html), My Mother Was a Computer: Digital Subjects and Literary Texts  (Chicago: University of Chicago Press, 2005) e Electronic Literature: New Horizons for the Literary (Notre Dame, Indiana: University of Notre Dame, 2008). [MP]

Homepage: N. Katherine Hayles

 

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Heim, Michael R. (n. 1944)

Michael Heim desenvolveu uma filosofia da realidade virtual e das formas de produção do sujeito e do real criadas pela comunicação no ciberespaço. Propõe a noção de conhecimento desincarnado [disembodied knowledge] para tentar perceber a virtualização do sujeito que ocorre nas interacções no ciberespaço. Esta possibilidade de transformação do corpo em informação, acentuando a presença do sujeito perante si mesmo característica da pesquisa modernista, depende, no entanto, de uma transcendentalização do ciberespaço, que ignora a materialidade económica e social da rede de comunicações que o define. Iniciada com uma reflexão filosófica sobre os processadores de texto, a sua atenção centrou-se entretanto na realidade virtual, na World Wide Web e na telepresença mediada por avatares, isto é, identidades gráficas que interagem em ambientes artificiais tridimensionais. A sua metafísica do ciberespaço encontra-se desenvolvida nas obras Electric Language: A Philosophical Study of Word Processing (New Haven: Yale University Press, 1987, 2ª ed. revista 1999), The Metaphysics of Virtual Reality (Oxford University Press, 1993) e Virtual Realism (Oxford University Press, 1998). Heim é também autor de uma tradução inglesa da obra de Martin Heidegger, The Metaphysical Foundations of Logic (Indiana University Press, 1984). Freelancer, Heim tem leccionado seminários em várias instituições, incluindo o Art Center College of Design em Pasadena, Califórnia. Actualmente lecciona na Universidade da Califórnia, Irvine. Na obra The Metaphysics of Virtual Reality, Heim adapta o platonismo ao ciberespaço.

Cyberspace is Platonism as a working product. The cybernaut seated before us, strapped into sensory-input devices, appears to be, and is indeed, lost to this world. Suspended in computer space, the cybernaut leaves the prison of the body and emerges in a world of digital sensation.

This Platonism is thoroughly modern, however. Instead of emerging in a sensationless world of pure concepts, the cybernaut moves among entities that are well formed in a special sense. The spatial objects of cyberspace proceed from the constructs of Platonic imagination not in the same sense that perfect solids or ideal numbers are Platonic constructs, but in the sense that inFORMation in cyberspace inherits the beauty of Platonic FORMS. The computer recycles ancient Platonism by injecting the ideal content of cognition with empirical specifics. Computerized representation of knowledge, then, is not the direct mental insight fostered by Platonism. The computer clothes the details of empirical experience so that they seem to share the ideality of the stable knowledge of the Forms. The mathematical machine uses a digital mold to reconstitute the mass of empirical material so that human consciousness can enjoy an integrity in the empirical data that would never have been possible before computers. The notion of ideal Forms in early Platonism has the allure of a perfect dream. But the ancient dream remained airy, a landscape of genera and generalities, until the hardware of information retrieval came to support the mind's quest for knowledge. Now, with the support of the electronic matrix, the dream can incorporate the smallest details of here-and-now existence. With an electronic infrastructure, the dream of perfect FORMS becomes the dream of inFORMation.

Filtered through the computer matrix, all reality becomes patterns of information. When reality becomes indistinguishable from information, then even Eros fits the schemes of binary communication. Bodily sex appears to be no more than an exchange of signal blips on the genetic corporeal network. Further, the erotic-generative source of formal idealism becomes subject to the laws of information management. Just as the later Taoists of ancient China created a yin-yang cosmology that encompassed sex, cooking, weather, painting, architecture, martial arts, and the like, so too the computer culture interprets all knowable reality as transmissible information.

The Erotic Ontology of Cyberspace, in The Metaphysics of Virtual Reality, Oxford University Press, 1993, 82-108. Homepage: Michael R. Heim

[MP]

 

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Joyce, Michael (n. 1945)

Professor do Departamento de Inglês do Vassar College, no Estado de Nova Iorque, Michael Joyce é autor de um dos primeiros textos de hiperficção, o romance Afternoon, a story (1987), escrito com a aplicação StorySpace, desenvolvida pelo próprio Michael Joyce, em colaboração com Jay David Bolter e John B. Smith. Além de ter publicado diversas obras de hiperficção, Joyce tem dedicado particular atenção ao potencial didáctico e pedagógico do hipertexto, explorando as possibilidades de aprendizagem em ambiente hipermédia. Seja através da construção colaborativa de hipertextos, seja pela flexibilidade na distribuição e modularização da informação, o meio digital parece especialmente adequado para gerar o equivalente dos manuais (isto é, o tipo de antologias de documentos que constituem o corpo de conhecimentos de uma disciplina ou de um programa de ensino, com a vantagem adicional de maximização dos elementos associativos internos e externos), e para fomentar práticas cognitivas e metacognitivas, reforçando a individualização dos percursos de aprendizagem e criando fóruns de comunicação e publicação que transcendem certas limitações da sala de aula.

As ideias de Michael Joyce acerca da natureza e das potencialidades pedagógicas e poéticas do conhecimento em rede encontram-se desenvolvidas nas obras Of Two Minds: Hypertext Pedagogy and Poetics (Ann Arbor: The University of Michigan Press, 1ª ed. 1995; 2ª ed. 2002) e OtherMindedness: The Emergence of Network Culture (Ann Arbor: The University of Michigan Press, 2000, 2ªed. 2001). Das suas obras de ficção electrónica hipertextual, refiram-se Afternoon, a story (Watertown, MA: Eastgate Press, 1990, 1ª ed. 1987), Twilight, a symphony (Watertown, MA: Eastgate Press, 1996), Twelve Blue (Watertown, MA: Eastgate Systems, 1996), On the birthday of the stranger (1999), e Going the Distance (2001). [MP]

Homepage: Michael Joyce

Richard Ferguson's Webliography for Michael Joyce

 

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Landow, George P.

Especialista na arte e na literatura do período vitoriano, George P. Landow foi durante muitos anos professor da Universidade de Brown e trabalha actualmente na Universidade Nacional de Singapura. Landow foi um dos precursores na utilização de redes de computadores e programas de hipertexto para o ensino. Os seus primeiros projectos datam de 1985. Inicialmente limitados apenas à rede da Universidade de Brown, foram transferidos a partir de 1992 para a World Wide Web, originando The Post-Colonial Web <http://www.postcolonialweb.org/>, The Victorian Web <http://www.victorianweb.org/> e Cyberspace, Hypertext, and Critical Theory <http://www.cyberartsweb.org/cpace/>. Estas redes de documentos, que se têm expandido desde então, resultaram do trabalho conjunto de docentes e estudantes dos cursos de Landow. A possibilidade de envolver os estudantes na construção da aprendizagem através da produção de textos que são partilhados de forma colectiva e cumulativa num arquivo em linha representa, de facto, uma prática pedagógica concretizável em hipertexto. O trabalho desenvolvido em cada curso é assim susceptível de ser corrigido e aumentado consecutivamente, alargando a comunidade de aprendizagem no espaço e no tempo. Landow publicou também vários ensaios de teoria do hipertexto, nos quais argumenta que o hipertexto permite testar as intuições e conceitos pós-estruturalistas relativos à natureza da significação textual e da leitura. As suas obras contêm também reflexões valiosas sobre a relevância e as consequências do hipertexto para a produção e distribuição do conhecimento nas Humanidades.

As suas ideias sobre hipertexto encontram-se sistematizadas na obra Hypertext 2.0: The Convergence of Contemporary Critical Theory and Technology (Baltimore, Johns Hopkins UP, 1997; edição revista da obra originalmente publicada em 1992, com o título Hypertext) e Hypertext 3.0: Critical Theory and New Media in an Era of Globalization (Baltimore, Johns Hopkins UP, 2006, nova edição revista da obra de 1997). Em co-autoria com Paul Delany, é também organizador de duas das primeiras obras de reflexão sobre os efeitos da tecnologia digital nos estudos literários: Hypermedia and Literary Studies (Cambridge, MA: MIT; 1ª ed. 1991, 2ª ed. 1995) e The Digital Word: Text-Based Computing in the Humanities (Cambridge, MA: MIT, 1993). Outros exemplos do seu trabalho pioneiro no domínio do hipertexto didáctico são os CD-ROM The In Memoriam Web (sobre o poema “In Memoriam” de Lord Tennison; Watertown, MA: Eastgate Systems, 1992) e The Dickens Web (sobre o conjunto da obra de Charles Dickens; Watertown, MA: Eastgate Systems, 1992). A teorização de Landow representa o momento apologético na reflexão sobre o hipertexto electrónico (característico do discurso crítico nas décadas de 80 e 90), que as revisões sucessivas não conseguiram eliminar por completo.

In S/Z , Roland Barthes describes an ideal textuality that precisely matches that which has come to be called computer hypertext - text composed of blocks of words (or images) linked electronically by multiple paths, chains, or trails in an open-ended, perpetually unfinished textuality described by the terms link, node, network, web , and path: "In this ideal text," says Barthes,

the networks [réseaux ] are many and interact, without any one of them being able to surpass the rest; this text is a galaxy of signifiers, not a structure of signifieds; it has no beginning; it is reversible; we gain access to it by several entrances, none of which can be authoritatively declared to be the main one; the codes it mobilizes extend as far as the eye can reach, they are indeterminable . . . ; the systems of meaning can take over this absolutely plural text, but their number is never closed, based as it is on the infinity of language" (emphasis in original; 5-6 [English translation]; 11-12 [French]).

Like Barthes, Michel Foucault conceives of text in terms of network and links. In The Archaeology of Knowledge, he points out that the "frontiers of a book are never clear-cut," because "it is caught up in a system of references to other books, other texts, other sentences: it is a node within a network . . . [a] network of references" (23).

Like almost all structuralists and poststructuralists, Barthes and Foucault describe text, the world of letters, and the power and status relations they involve in terms shared by the field of computer hypertext.

George P. Landow, Hypertext 2.0: The Convergence of Contemporary Critical Theory and Technology, Baltimore, Johns Hopkins UP, 1997, pp. 3-4. Homepage: George P. Landow

[MP]

 

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Lanham, Richard A. (n. 1936)

Professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles, Lanham é autor de várias obras sobre retórica, tendo entretanto alargado o seu interesse aos efeitos das novas tecnologias sobre os modos de escrever e falar característicos da literacia das Humanidades. Nas décadas de 80 e 90 desenvolveu a noção de literacia digital, isto é, de uma forma de literacia dependente do computador e das práticas e formas culturais associadas à cultura digital. As suas ideias a este respeito encontram-se na obra The Electronic Word: Democracy, Technology, and the Arts (Chicago: Chicago University Press, 1994, excerto em <http://ccat.sas.upenn.edu/jod/texts/lanham.sample>), que prossegue a reflexão sobre o currículo e as humanidades iniciada na obra Literacy and the Survival of Humanism (New Haven: Yale University Press, 1983). Vejam-se ainda as suas reflexões sobre o problema de definição de um currículo na era digital: The Implications of Electronic Information for the Sociology of Knowledge” (1993) e A Computer-based Harvard Red Book: General Education in the Digital Age.” (1997). [MP]

 

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Leibniz, Gottfried (1646-1716)

Filósofo, matemático e historiador alemão, Gottfried Leibniz é justamente considerado um dos maiores pensadores do seu tempo. A sua lógica universal pretendia eliminar as fronteiras do conhecimento através da tradução de conceitos e ideias em símbolos, possibilitando maior velocidade comunicativa por força do ultrapassar da linearidade da linguagem verbal e da tendência equívoca da linguagem natural. Leibniz idealizava assim um conceito matemático que possibilitasse a codificação do conhecimento universal, caminho que seria fundamental para atingir a Verdade. Michael Heim considera que esta conceptualização antevê a transferência de informação hoje possibilitada pela Internet:  

Like mathematics, the Leibnizian symbols erase the distance between the signifiers and the signified, between the thought seeking to Express and the expression. No gap remains between symbol and meaning. Given the right motor, the Leibnizian symbolic logic (…) can function at the speed of thought. At such high speed, the felt semantic space closes between thought, language, and the thing expressed.

Michael Heim, “The Erotic Ontology of Cyberspace”, in The Metaphysics of Virtual Reality, Oxford University Press, 1993, 82-108.

Heim adapta também a teoria da Mónades de Leibniz à sua concepção platónica do ciberespaço, considerando que aquela contém os fundamentos filosóficos das relações estabelecidas entre as ciber-entidades. Esta teoria do filósofo alemão, expressa em A Monadologia (1714), pretendia definir a natureza plural do Universo. Neste, um conjunto de entidades designadas Mónades relacionam-se de forma harmoniosa garantindo um fluxo recíproco de informação. Este princípio de ligação em rede garante que qualquer transformação sucedida no Universo seja sentida por todas as entidades que o constituem. A existência e coesão das Mónades realizam-se por força da Mónade suprema (Deus), a super-inteligência infinita que encerra toda a realidade. A Mónade é, no entanto, dotada de uma certa liberdade, sendo responsável pelas suas acções na procura e na gerência do conhecimento. Michael Heim identifica a Mónade com o cibernauta:  "The monad knows throught the interface. The interface represents things, simulates them, and preserves them in a format that the monad can manipulate in any number of ways."

A obra de Leibniz, que escreveu principalmente em Latim e em Francês, é vasta e muito influente nas gerações de filósofos seguintes. Sublinhem-se os seguintes títulos: Dissertatio de Arte Combinatoria, 1666; Discour de Métaphysique, 1686 (publicação póstuma); Monadologie, 1714. [Miguel Sousa Santos]

 

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McGann, Jerome (n. 1937)

Jerome McGann é professor da Universidade da Virgínia. Foi galardoado em 2002 pelo National Humanities Center com o Prémio Richard W. Lyman pelo seu trabalho no uso da tecnologia nas humanidades. A sua vasta bibliografia inclui obras fundamentais no campo dos estudos textuais contemporâneos, com especial incidência nos problemas editoriais de obras dos períodos Romântico, Vitoriano e Modernista. Organizou a edição completa dos poemas de Lorde Byron (Oxford: Clarendon Press, 7vols, 1979-1993) e as obras completas de Dante Gabriel Rossetti (Yale University Press, 2002). McGann foi um dos primeiros críticos a teorizar sobre as potencialidades editoriais e críticas da textualidade digital. Muitas das suas ideias foram testadas no arquivo hipermédia dedicado à obra do poeta e pintor inglês Dante Gabriel Rossetti, The Rossetti Archive <http://www.rossettiarchive.org>, um projecto realizado entre 1993 e 2008. Publicou ainda diversos ensaios sobre poesia e poética contemporânea. Dos seus livros, refiram-se: The Textual Condition (1991); Black Riders: The Visible Language of Modernism (1993); The Poetics of Sensibility: A Revolution in Literary Style (1996); Radiant Textuality: Literature after the World Wide Web (2001); Byron and Romanticism (2003); The Scholar's Art: Literary Studies in a Managed World (2006); e The Point is to Change It: Poetry and Criticism in the Continuing Present (2007).

McGann considera que as obras estão codificadas bibliograficamente e que esta codificação não é irrelevante para a significação literária, uma teoria designada como teoria social da edição. Tem defendido a utilização da edição digital como ferramenta de representação e de investigação da materialidade gráfica e social do códice capaz de transcender as limitações inerentes ao livro impresso. Em Radiant Textuality (2001), McGann sublinha a necessidade de invenção de instrumentos críticos digitais para investigar a materialidade bibliográfica e linguística da significação literária, argumentando contra a dicotomia entre conhecimento conceptual e conhecimento poético, e valorizando a dimensão performativa do acto crítico. (Cf. Manuel Portela, Radiant Textuality: Literature After the World Wide Web, in Comparative Critical Studies, Volume I, Issue 3 (Edinburgh University Press, 2004), pp. 371-376.)

Computerization allows us to read "hardcopy" documents in a nonreal, or as we now say a "virtual", space-time environment. This consequence follows whether the hardcopy is being marked up for electronic search and analysis, or whether it is being organized hypertextually. When a book is translated into electronic form, the book's (heretofore distributed) semantic and visual features can be made simultaneously present to each other. A book thus translated need not be read within the time-and-space frames established by the material characteristics of the book. If the hardcopy to be translated comprises a large set of books and documents, the power of the translational work appears even more dramatically, since all those separate books and documents can also be made simultaneously present to each other, as well as all the parts of the documents.

Jerome McGann, “The Rationale of Hypertext” [1996], in Radiant Textuality: Literature after the World Wide Web, New York: Palgrave, 2001, pp. 56-57. Homepage: Jerome McGann

[MP] 

 

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Moulthrop, Stuart (n. 1957)

Stuart Moulthrop nasceu em Baltimore, Maryland, em 1957. Licenciou-se na Universidade George Washington em 1979 e doutorou-se na Universidade de Yale em 1986. Foi professor nas universidades de Yale, Texas, e no Georgia Institute of Technology. Encontra-se desde 1994 na School of Communications Design da Universidade de Baltimore. Foi co-editor do inovador jornal de humanidades on-line Post-modern Culture entre 1995 e 1999. Escreveu vários artigos sobre hipertexto, entre eles “Rhizome and Resistance: hypertext and the dreams of a new culture”, “Traveling in the Breakdown lane: a principle of resistance for hypertext” e “Everybody’s Elegies”. Moulthrop é autor de algumas das primeiras obras de hiperficção: Victory Garden (1991), Dreamtime (1992), Hegirascope (1995), Hegirascope 2 (1997) e Reagan Library (1999). O autor valoriza o potencial transformador do hipertexto mas critica a sua promoção despreocupada. Para Moulthrop, as potencialidades do hipertexto incluem a sua capacidade para colocar em questão práticas tradicionais de raciocínio e a sua aptidão para produzir novos instrumentos críticos. Usa a metáfora de “Breakdown” para expressar o poder formidável do hipertexto, um poder que advém da instabilidade estrutural. Os “breakdowns” defraudam as expectativas dos leitores, alteram o curso esperado da leitura e oferecem possibilidades para mudanças de paradigma. [Tiago Jerónimo]

Homepage: Stuart Moulthrop

 

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Nelson, Theodor Holm (n. 1937)

Ted Nelson foi professor no Vassar College, na University of Illinois, no Swarthmore College, na Strathclyde University, na Southampton University e na Keio University, em Tóquio, no Japão. Actualmente é professor visitante da Universidade de Oxford, integrado no Oxford Internet Institute. Autor associado ao desenvolvimento inicial do hipertexto, é-lhe atribuída a primeira utilização da palavra “hipertexto”, numa conferência proferida  em 1965. Nelson anteviu o potencial metacognitivo do hipertexto como um sistema aberto de textos que se reconstelam constantemente através da criação associativa e aleatória de novas ligações. Apesar de considerar os sistemas de hipertexto actuais demasiado hierárquicos e de apontar as limitações das páginas de HTML e XML que dominam a WWW, Nelson nunca conseguiu de facto concluir a sintaxe puramente associativa (e visionária) que imaginou para o seu projecto Xanadu (iniciado em 1960), designação adoptada do poema “Kubla Khan”, de Coleridge. A reflexão sobre o potencial de organização associativa das redes de computadores e do hipertexto electrónico surge na obra pioneira Literary Machines, uma edição de autor de 1981 (novas edições, revistas, em 1987 e 1993). Na primeira edição, este livro testemunha também o poder informacional do códice, já que Ted Nelson procurou representar na organização material do livro os princípios associativos que estava a descrever, criando um hipertexto tipográfico. Na definição de Nelson, ‘literária’ recupera o sentido etimológico original, isto é, referente a todas as formas textuais, que lhe permite redefinir literatura como ‘um sistema em curso de documentos interligados’. Ao fazê-lo, Nelson projecta no computador e na sua utopia hipertextual uma visão libertária das possibilidades desse espaço virtual de re-inscrição múltipla e de associação aberta que caracterizaria o espaço electrónico da escrita.

Da sua bibliografia, refiram-se ainda os livros Computer Lib/ Dream Machines (1974), The Home Computer Revolution (1977) e The Future of Information (1997); os artigos 'A File Structure for the Complex, the Changing and the Indeterminate' (1965), 'As We Will Think' (1972), 'Electronic Publishing and Electronic Literature' (1978), 'The Heart of Connection: Hypermedia Unified by Transclusion' (1995), 'Transcopyright: Dealing with the Dilemma of Digital Copyright' (1997), 'Xanalogical Structure, Needed Now More than Ever: Parallel Documents, Deep Links to Content, Deep Versioning and Deep Re-Use' (1999), 'A Cosmology for a Different Computer Universe: Data Model, Mechanisms, Virtual Machine and Visualization Infrastructure' (2004); e a página web TransLiterature (2007). No artigo de 1999, Nelson sintetiza o conjunto de ideias que têm fundamentado a sua utopia hipertextual, de ligações simétricas e profundas que maximizem a lógica associativa e a actualização permanente do universo de documentos electrónicos nas suas representações visuais e semânticas:

Serious electronic literature (for scholarship, detailed controversy and detailed collaboration) must support bidirectional and profuse links, which cannot be embedded; and must offer facilities for easily tracking re-use on a principled basis among versions and quotations.

Xanalogical literary structure is a unique symmetrical connective system for text (and other separable media elements), with two complementary forms of connection that achieve these functions -- survivable deep linkage (content links) and recognizable, visible re-use (transclusion). Both of these are easily implemented by a document model using content lists which reference stabilized media.

Theodor Holm Nelson, 'Xanalogical Structure, Needed Now More than Ever: Parallel Documents, Deep Links to Content, Deep Versioning and Deep Re-Use', in Computing Surveys, 31 (4), December 1999 (Association for Computing Machinery).Homepage: Ted Nelson

[MP]

 

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Robinson, Peter

Co-director do Institute for Textual Scholarship and Electronic Editing, da Universidade de Birmingham. É um dos responsáveis pelo The Canterbury Tales Project, um projecto pioneiro no desenvolvimento de software de análise filogenética para edição digital de manuscritos com uma história textual complexa. Foram já publicados facsimiles digitais e novas edições electrónicas de partes da obra de Chaucer: The Wife of Bath's Prologue on CD-ROM (1996), The General Prologue on CD-ROM (2000), The Hengwrt Chaucer Digital Facsimile, (research edition, 2000; e standard edition, 2003), Caxton's Canterbury Tales: The British Library Copies (2003), The Miller's Tale on CD-ROM (2006) e The Nun's Priest's Tale on CD-ROM (2006). Estão previstas para os próximos anos as seguintes edições: A Digital Fascimile of Cambridge Dd.4.24; The Franklin's Tale on CD-ROM; The Merchant's Tale on CD-ROM; e The Multitext Edition of the Canterbury Tales.

Peter Robinson colabora ainda com Prue Shaw nas edições da Divina Commedia e Monarchia, de Dante, e com  William Coleman e Edvige Agostinelli, na edição da Teseida, de Boccaccio. Robinson é o fundador das Scholarly Digital Editions e co-autor de várias ferramentas digitais de transcrição, análise e edição textual, designadamente dos programas COLLATE, ANASTASIA (em código aberto desde Junho de 2004) e EDITION. COLLATE foi desenvolvido por Peter Robinson com o objectivo de proceder à colação, análise e publicação de textos preservados em múltiplas versões. Este projecto tem por base a recolha de diferentes versões de um mesmo texto para, posteriormente, proceder à sua colação. A versão actual de software do COLLATE aceita cerca de 2000 versões do mesmo texto e tem mecanismos de regularização, que podem ser usados na produção de um ficheiro com equivalências linguísticas, sem alterar a variante original dos documentos. O software faz uso de um sistema de marcadores, que pode ser convertido em XML. Por fim, o COLLATE pode produzir ficheiros “output” para edições em papel ou publicações electrónicas, com auxílio do programa Anastasia, que traduz o código SGML/XML para o formato de destino. Estes dois programas foram entretanto integradas no programa EDITION, uma ferramenta para produzir edições digitais.

No que diz respeito aos princípios de edição electrónica, Peter Robinson propõe estas cinco proposições:

1. The use of computer technology in the making of a particular edition takes place in a particular research context

2. A digital edition should be based on full-text transcription of original texts into electronic form, and this transcription should be based on explicit principles

3. The use of computer-assisted analytic methods may restore historical criticism of large textual traditions as a central aim for scholarly editors

4. The new technology has the power to alter both how editors edit, and how readers read

5. Editorial projects generating substantial quantities of transcribed text in electronic form should adopt, from the beginning, an open transcription policy.

Peter Robinson, 'The Canterbury Tales and other Medieval Texts', in Electronic Textual Editing (TEI, Text Encoding Initiative, 2006)

[Ana Catarina Garrido, MP]

 

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Saussure, Ferdinand (1857-1913)

Ferdinand Saussure leccionou na Universidade de Genebra entre 1907 e 1911, altura em que veio a revolucionar as teorias construídas à volta de uma das capacidades humanas mais distintas: a linguagem. Saussure não assistiu à publicação da sua obra Cours de Linguistique Générale (1916), pois este livro foi apenas reconstruído após a sua morte, graças a apontamentos de alunos seus. Neste livro, Saussure construiu as fundações da Linguística moderna e estabeleceu a ciência dos sinais: a Semiologia. Saussure procurou afastar-se da linguística diacrónica, que visava o estudo da origem e da evolução da língua com base num estudo comparativo entre várias famílias de línguas. Pretendia tornar a linguística numa ciência com um objecto de estudo definido: o signo linguístico. Procurando rebater a concepção de linguagem como uma nomenclatura, Saussure afirmou que o signo linguístico tem uma dupla-articulação. É composto por uma imagem acústica, ou a impressão psíquica de um som (significante) e por um conceito ou representação mental do objecto, a qual formulamos graças a uma formação sócio-cultural (significado). As palavras não são nomes das coisas, nem as coisas os significados das palavras. Isto é particularmente visível em palavras que remetem para sentimentos: a que objecto se refere a palavra “angústia”? A linguagem depende rigidamente da interacção social dos seus falantes, só assim o indivíduo pode aprender o seu uso contextual.

Segundo Saussure, a ligação entre as duas faces do signo linguístico tem um carácter arbitrário, ou seja, uma letra não tem qualquer relação motivada com o som que representa. A escrita tem um significado que não se esgota na representação de um som. Para Saussure ela é um sistema de representação, cujos elementos têm diferentes funções. É através das diferenças entre si que eles se distinguem.

Um texto é mais do que um conjunto letras. É preciso ter em conta os elementos paratextuais, que também surgem carregados de significado. O texto não está apenas codificado linguisticamente, mas também bibliograficamente. A natureza da materialidade electrónica veio a evidenciar esta realidade. O layout de um texto tem o seu significado próprio. O leitor depara-se com um conjunto de links que permitem a sua mobilidade na rede, funcionando como um código semiótico. A sua marcação tem um significado próprio, que vai além da dupla-articulação do signo linguístico. O próprio computador não reconhece a dupla-articulação da linguagem humana, ele funciona segundo um código binário (1 e 0). A sua função é apresentar graficamente no ecrã uma palavra que terá sido digitada pelo utilizador. O computador não tem em conta a polissemia das palavras, em vez disso ele cria um texto alfanumérico, desconhecendo a dupla articulação da linguagem. Sendo assim, a cultura digital exprime uma convergência de diferentes média não se limitando apenas ao discurso ou à sua representação fonética. Existe assim um hibridismo, uma materialidade diferente da materialidade fonética omnipresente nas culturas escritas. A linguagem da máquina é uma metalinguagem, que codifica a informação para além da escrita. O hipertexto pôs certamente em causa a concepção que temos de signo linguístico, desafiando a escrita e a sua hegemonia e criando novas linguagens gráficas. Cabe agora aos humanistas, engenheiros informáticos e web designers juntarem esforços no sentido de criar novas ferramentas críticas capazes de analisar a natureza multimédia deste tipo de textos.

A linguistic sign is not a link between a thing and a name, but between a concept and a sound pattern. The sound pattern is not actually a sound; for a sound is something physical. A sound pattern is the hearer’s psychological impression of a sound, as given to him by the evidence of his senses. This sound pattern may be called a “material” element only in that it is the representation of our sensory impressions. The sound pattern may thus be distinguished from the other element associated with it in a linguistic sign. This other element is generally of a more abstract kind: the concept.

Saussure, Ferdinand, Course in General Linguistics: translated and annotated by Roy Harris, London: Gerald Duckworth & Co. Ltd., 1998, p. 66.

[Daniela Maduro]

 

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Shillingsburg, Peter L.

Actualmente professor na DeMontfort University, em Leicester, Inglaterra, Peter L. Shillingsburg foi um dos fundadores da Society for Textual Scholarship em 1979. Shillingsburg publicou vários ensaios relativos aos problemas da edição electrónica e foi um dos redactores das normas de edição electrónica adoptadas pela Modern Language Association (cf. <http://sunsite.berkeley.edu/MLA/principles.html> e <http://sunsite.berkeley.edu/MLA/guidelines.html>). Justamente pela natureza complexa das edições críticas e pelos problemas de representação gráfica dos conflitos documentais gerados pelo processo de transmissão, alguns críticos textuais têm visto na edição electrónica um meio adequado para superar as limitações do códice. Para isso têm desenvolvido procedimentos de codificação das características bibliográficas e das propriedades textuais que permitam simular no ecrã a materialidade particular de manuscritos, edições tipográficas e outros objectos textuais. Ao mesmo tempo defendem o desenvolvimento de instrumentos de indexação e pesquisa que permitam ler e estudar as edições electrónicas a níveis diferentes de complexidade. De facto, projectos de edição electrónica em curso têm permitido o contacto com representações digitais que reconstituem os processos de transmissão de inúmeros originais, quer do período manuscrito, quer do período tipográfico. O incentivo recebido por uma disciplina como a história do livro na década de 90 resulta precisamente das virtualidades oferecidas pela digitalização para a representação e estudo da produção bibliográfica. Shillingsburg organizou a edição de várias obras do romancista inglês oitocentista William Makepeace Thackeray e é também autor de uma biografia de Thackeray, publicada em 2001. No domínio da crítica textual, publicou Scholarly Editing in the Computer Age: Theory and Practice (Georgia University Press, 1986; Ann Arbor: University of Michigan Press, 2ª ed. 1996, 3ª ed. 1999) e Resisting Texts: Authority and Submission in Constructing Meaning (Ann Arbor: University of Michigan Press, 1997). A sua obra mais recente analisa as práticas actuais de edição electrónica de textos literários: From Gutenberg to Google: Electronic Representations of Literary Texts (Cambridge: Cambridge University Press, 2006). [MP]

 

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