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This Late Age of Print: Hipertexto Electrónico – Organização e Utilização de Textos

Isabel Maria Graça Lourenço 


 

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1. Introdução

2. Hipertexto: Breve Génese do Conceito

3. Hipertexto e Teoria Crítica: Abordagens Confluentes

4. Reconfiguração das Concepções de Leitor, Escritor, Autor, Propriedade Autoral, Originalidade e Publicação

5. Conclusão

Bibliografia e Webografia

 

 


1. Introdução

 

Com este trabalho, pretende-se explicar o que é o hipertexto electrónico e de que forma altera a organização e a utilização de textos, tendo sempre presentes as citações que servem de enquadramento ao tema seleccionado. Aquando da leitura da bibliografia mencionada no final, da definição de um plano de trabalho, e, finalmente, durante o tempo de escrita, foram múltiplas as associações estabelecidas entre os textos lidos. Parecia impossível definir hipertexto electrónico sem abordar a sua organização e a sua utilização. Teoria literária estruturalista e pós-estruturalista e hipertexto entendido como forma predominantemente visual, que disponibiliza, no écran do computador, informação textual de natureza diversa, passível de ser combinada e manipulada por aqueles que a ela acedem, revelavam-se, em vários pontos, áreas confluentes. Mente humana a funcionar por associação? Relação muito próxima entre os aspectos focados no decurso do Seminário que agora termina e que conduziu a uma “leitura hipertextual” de todos esses documentos? A verdade é que se tornou necessário impor uma ordem ao desenvolvimento do que se pretendia expor. Sem que se tenha perdido de vista a inter-relação que todos esses aspectos, como veremos, estabelecem, optou-se pela organização deste trabalho em capítulos. Ainda assim, foi frequente a tentação de referir vários assuntos em simultâneo, por estarem tão proximamente relacionados e, em vários momentos, se abordaram aspectos que mais à frente seriam retomados.

Partiu-se da referência à génese do conceito de hipertexto que, dada a natureza e dimensão deste trabalho, não poderá deixar de ser breve. Prosseguiu-se, tentando demonstrar que hipertexto electrónico e teoria crítica contemporânea têm vindo a confluir, o que por vezes sucede sem que os autores de trabalhos nestas duas áreas tenham consciência disso. No texto de Barthes, ao longo do qual “o comentador traça (…) zonas de leitura, para nelas observar a migração dos sentidos, o aflorar dos códigos, a passagem das citações”, vemos semelhanças com o universo do hipertexto electrónico, na sua aproximação entre leitura e escrita.

Ao constatar que os trabalhos de Vannevar Bush, Theodor Nelson, Andries Van Damm, associados ao hipertexto electrónico, e de Roland Barthes e Jacques Derrida, associados à teoria literária estruturalista e pós-estruturalista, revelam aspectos convergentes, aquilo que, aos olhos de George P. Landow, surge como mais interessante não é, contudo, essa confluência. Se, por um lado, a teoria literária teoriza o hipertexto electrónico que, por sua vez, dá corpo a essas teorias, o que o autor mais valoriza na segunda das citações que introduzem este trabalho, é a possibilidade de o hipertexto surgir como um “laboratório” no qual essas teorias podem ser testadas (Landow 2). De entre estes aspectos testáveis pelo hipertexto, apontam-se como mais importantes os referentes à textualidade, à narrativa, aos papéis e funções do leitor e do escritor, cuja reconfiguração teve inevitáveis implicações na literatura, na educação e na política. A reconceptualização desses aspectos resultante da passagem da cultura tipográfica para a electrónica não podia, por isso, deixar de ser abordada.

Com a expressão “This late age of print”, utilizada por Jay David Bolter para designar a época de transição da cultura tipográfica para a electrónica que ainda atravessamos, não se pretendeu remeter a segunda para a condição de subsidiária da primeira. Sabendo embora que o hipertexto herdou algumas das convenções da escrita tipográfica, ele representa, como foi já aflorado no parágrafo anterior, uma nova forma de texto que exige do leitor que seja activo e aumenta enormemente as possibilidades da mensagem.

 

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2. Hipertexto: Breve Génese do Conceito

 

Quando em 1945 Vannevar Bush apresentou, no seu artigo “As we may think”, a sua concepção do que denominaria “memex”, pretendia fazer face à necessidade de criar máquinas de armazenamento de informação mecanicamente ligadas, no sentido de ajudar os académicos a enfrentar o que, à época, se tornara uma explosão de informação, progressivamente mais difícil de manipular. A enorme quantidade de informação resultante da pesquisa realizada em diversos campos da ciência ultrapassava em muito a capacidade humana de apropriação e utilização de todos esses dados. Além disso, Bush teve oportunidade de constatar que os sistemas de indexação, alfabética ou numérica, ligados à cultura tipográfica eram artificiais e rígidos e dificultavam o acesso à informação por obrigarem a que um documento só pudesse estar arquivado num dado lugar. Contudo, a sua maior fraqueza era o facto de não funcionarem como a mente humana, isto é, por associação, característica que permite ao cérebro transitar de ideia para ideia, procedendo a sucessivas associações, suscitadas pela informação a que vai progressivamente acedendo.

Como veremos mais à frente, Bush descreve o funcionamento da mente humana em termos semelhantes aos que utilizará para explicar o seu conceito de textualidade: “the human mind (…) operates by association (…) in accordance with some intricate web of trails carried by the cells of the brain” (Bush 10). Michael Joyce, ao referir-se à história das definições de hipertexto avançadas por diferentes autores, refere que estas são, por vezes, contraditórias entre si. Contudo, um número consistente de entre elas aproxima o modo de funcionamento do hipertexto e da mente humana: “…hypertext in some sense represents the workings of the human mind” (22). Jay David Bolter, encarando o hipertexto como uma nova tecnologia da escrita, considera que os seus símbolos electrónicos são como “an extension of a network of ideas in the mind itself ”(citado em Joyce 23). Esta última ideia remete-nos para a convicção de Bush de que as memórias, se não forem activadas, vão desaparecendo com o tempo. Podemos ainda associá-la a uma outra ideia que este autor partilha com Douglas Englebart e Theodor Nelson: a de que a função dos computadores é complementar o conhecimento humano e não suplantá-lo. Neste sentido, a “memex”, com os seus “trails of links” impede o enfraquecimento das memórias, ao permitir o armazenamento, associação, consulta rápida e flexível da informação, bem como a introdução de comentários e o registo dos “trails” seguidos para futuras utilizações. De acordo com Bush, “[A memex] is an enlarged intimate supplement to [the individual’s] memory” (citado em Landow 8). 

Ao apresentar a sua concepção de “memex”, a qual vinha a ocupar o seu pensamento já desde os anos 30, Bush estabelecia as bases do que viria a ser conhecido como hipertexto, expressão que seria cunhada nos anos 60 por Theodor Nelson. A constatação de que seria necessário um mecanismo associativo na indexação da informação, semelhante ao funcionamento da mente humana, influenciou o desenvolvimento de sistemas de hipertexto subsequente.

 

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3. Hipertexto e Teoria Crítica: Abordagens Confluentes

 

A ideia de rede (“network”) constitui o elemento central da confluência entre a teoria literária estruturalista e pós-estruturalista e os processos criados pela ligação da informação em hipertexto.[1] Trata-se de um conceito fundamental em ambas as áreas que vai permitir aos autores de cada uma delas apresentar uma nova concepção de textualidade, dos papéis e funções do leitor e do escritor. Vejamos como essa confluência se manifesta.

Vannevar Bush, como foi já referido anteriormente, explica o seu conceito de textualidade em termos muito semelhantes aos do funcionamento de mente humana e da “memex”. A sua concepção envolve duas dimensões, a leitura e a escrita, ao permitir ao leitor, a cada momento, introduzir notas e comentários suscitados por aquilo que lê: “Bush (…) reconceived reading as an active process that involves writing” (Landow 8).

Bush introduziu a noção de blocos de texto ligados por “links”. Para explicar o seu contexto de textualidade, recorreu aos termos “link”, “linkages”, “trails” e “web”. De acordo com este autor, o utilizador opera segundo “endless trails” de “links”, verificando-se uma radical reconfiguração da prática da leitura e da escrita, em que ambas as actividades se aproximam, como vimos, mais do que é possível no livro. Introduzindo três novos elementos, indexação associativa (“links”), trilhos desses “links” (“trails”), conjuntos ou redes desses “trails” (“sets “ or “webs”), está consciente de que o conceito de textualidade virtual é essencial para as mudanças que postula.

O trabalho de Bush influenciou outros autores ligados aos primórdios do hipertexto electrónico, designadamente Theodor Nelson, Douglas Englebart, Andries Van Damm e outros. Este autor explicitara já a possibilidade de estabelecer múltiplas ligações numa leitura que pretendia multilinear: “It is exactly as though the physical items had been gathered together from widely separated forces and bound together to form a new book… It is more than this, for any item can be joined into numerous trails” (Landow 9).  Theodor Nelson, por seu lado, concebe hipertexto como englobando três aspectos: “a form of electronic text, a radically new information technology and a mode of publication” (Landow 3). Por hipertexto, entende uma escrita não-sequencial, um texto que se ramifica e permite ao leitor fazer escolhas e construir percursos de leitura, num ambiente interactivo. Assim entendido, o hipertexto surge como “text composed of blocks of text (…) and the electronic links that join them” (3). É um texto plural e aberto, baseado na infinidade da linguagem.

Vannevar Bush e Theodor Nelson referem a necessidade de abandonar sistemas conceptuais baseados nas ideias de “center”, “margin”, “hierarchy”, “linearity”e substituí-los pelas ideias de “multilinearity”, “nodes”, “links”, “networks”. O mesmo princípio é defendido por autores associados à teoria crítica contemporânea.

Efectivamente, à semelhança de quase todos os  pós-estruturalistas, Michel Foucault e Roland Barthes concebem o texto em termos de “network” e “links”. A textualidade ideal de Barthes, isto é, o texto composto por blocos de palavras ou imagens ligados por “links”, “nodes”, “network”, “web” e “path”, aberta e perpetuamente inacabada, vai ao encontro do que é o hipertexto. Pressupõe uma nova atitude em relação à leitura e à escrita. Ao ler o texto, o leitor deve ter presente um objectivo a alcançar, não um objecto a ser conhecido, o que pressupõe a leitura como uma actividade, um processo de construção de sentidos. O mesmo sucede relativamente à noção de Michel Foucault de livro como inserido num sistema de referências a outros livros, outros textos, outras frases. As suas fronteiras não estão claramente demarcadas: “it’s a node within a network… [a] network of references” (Landow 3).

Nos “physical items (…) gathered together…” referidos por Bush e nos “blocks of texts” apontados por Nelson é possível reconhecer as “lexias” de Barthes. Pelas suas características, o texto ideal deste último autor aproxima-se do hipertexto: é um texto plural e reversível que não tem início e ao qual acedemos através de múltiplas entradas, das quais nenhuma pode ser considerada a principal, constituído por muitas e interactivas “networks” e em que nenhuma delas se sobrepõe às restantes.

A noção de “networked text” de que fala George Landow (6) remete para a noção de intertextualidade. No caso de um artigo de natureza académica, a intertextualidade é explícita, por exemplo no recurso a notas de rodapé e nas indicações bibliográficas incluídas no final do texto. Em ambos os casos, ainda que lido de forma sequencial, um texto tipográfico em que tenham sido incluídas as referidas notas apresenta os princípios básicos do hipertexto, constituindo esta leitura aquilo a que Landow chama a “basic experience”, o “starting point” do hipertexto (4). Ao sermos confrontados com uma nota, abandonamos o texto principal no sentido de a lermos, ou em rodapé ou no final, sendo que ela pode conter uma citação, um comentário, uma informação. Em todos estes casos, o leitor segue o “link” para o outro texto e movimenta-se fora do texto principal.

Do mesmo modo, existem na literatura exemplos de quebra de linearidade, de narrativas de encaixe ou interpoladas, de possibilidade de escolha de um percurso de leitura pelo leitor. Em algumas obras, títulos, subtítulos, epígrafes, sumários servem de “mapa topológico” à leitura. Noutras, o fragmento constitui-se como importante relativamente ao todo da obra.[2] Enquanto contextualizado psíquica, cultural, política e socialmente, o texto tipográfico insere-se numa rede de referências, surgindo também como uma estrutura dinâmica cujos início e fim podem não limitar necessariamente o leitor, na medida em que o podem remeter para esse contexto. Numa forma não electrónica, a obra literária também pode proporcionar a experiência da intertextualidade implícita pela alusão a outras obras ou textos, que o leitor reconhece, ainda que não sejam explicitamente mencionados através de uma citação ou nota de rodapé.

Quando se refere ao hipertexto, Landow caracteriza-o como um sistema fundamentalmente intertextual que tem a capacidade de sublinhar a intertextualidade de um modo que o livro não consegue. Os “links” electrónicos ligam blocos de informação contextual como comentários críticos, textos comparativos, fazendo, no processo, com que se perca qualquer referência ao que é interior e exterior, principal e secundário. O hipertexto explicita as interligações que um texto pode produzir, ampliando-as. Com isso, “hypertext (…) permits one to make explicit, though not necessarily intrusive, the linked materials (…)” (35).  Num ambiente electrónico, caracterizado pela fragmentação e pela multiplicidade de percursos de leitura, os textos ligados entre si são visualizados no decurso desses trajectos, tornando palpável a intertextualidade.

Thaïs Morgan sublinha o facto de a intertextualidade hipertextual desviar a atenção do primado autor/obra/tradição para outro constituído por texto/discurso/cultura. Com isso, a intertextualidade liberta o texto literário de determinismos psicológicos, sociológicos e históricos, “opening it up to an apparently infinite play of relationships” (Landow 35). Ao permitir ao leitor essa abertura e ao libertá-lo para criar e percepcionar interligações, hipoteticamente, o hipertexto amplia essas ligações que um texto pode produzir até ao infinito.

Esta ideia de libertação de um dado contexto é também central em Derrida, ligando-se aos conceitos de “citabilidade” e “separabilidade”. Ao considerar que uma nova forma de texto, mais rica e mais livre depende daquilo a que chama “discrete reading units” (Landow 33) (as lexias de Barthes), citáveis e passíveis de ser separadas do seu contexto, deixa antever a dimensão hipertextual de um texto que, libertando-se de um contexto, pode estabelecer nova rede de ligações com outros contextos com o mesmo carácter infinito que foi já referido a propósito do hipertexto: “the implication of such citability, separability, appears in the fact, crucial to hypertext, that, as Derrida adds, ‘in so doing it can break with every given context, engendering an infinity of new contexts in a manner which is absolutely illimitable’” (Landow 34). Apesar de separadas, estas unidades podem complementar-se na construção de sentidos.

À noção de Derrida de que o texto tem sempre uma dimensão hipertextual, estabelecendo uma rede de referências a outros textos que se citam e apropriam constantemente, estão também ligadas as noções de intertextualidade, de texto aberto e da irrelevância da distinção entre o que é interior e exterior a um dado texto, já referidas a propósito de hipertexto. A esta concepção de textualidade ligada às noções de citabilidade e separabilidade, se junta a de descontinuidade, isto é, a da utilização da técnica de assemblage, com base naquilo a que chama “methodology of decomposition” (Landow 34). Pedaço a pedaço, as unidades de leitura discretas, colocadas entre aspas ou parêntesis, libertam-se de um contexto que as limita, para sucessivamente estabelecerem novas ligações e, com isso, novos contextos. Formam “… the structure of an interlacing, a weaving or a web, which allow the different threads and different lines of sense or force to separate again, as  well as being ready to bind others together.” (Landow 35) A ideia de texto ligada ao entrelaçar de fios que formam uma rede é também apontada por Heim ao referir-se ao texto electrónico: “Text derives originally from the Latin word for weaving and for interwoven material, and it has come to have extraordinary accuracy of meaning in the case of word processing” (Landow 25). Todas nos conduzem à ideia de multivocalidade ou polifonia que verificamos também no hipertexto: entre o conjunto de percursos possíveis que compõem o tecido hipertextual, não é possível sobrepor nenhum deles aos restantes.

Derrida tem uma “visão topológica” do texto que conduz à noção de “descentramento da leitura”. O texto surge como um mapa, com uma multiplicidade de pontos de entrada, sem margem, centro ou hierarquia predeterminados. Em Glas, põe em prática este conceito de leitura não-sequencial, composta por nós, redes e “links”. Para este autor, não se trata aqui da “morte da ideia do centro”. O que propõe é recolocar o centro não como entidade particular, mas como função. O centro passa a ser pensado como ausência de: uma vez que qualquer dos elementos da estrutura pode ocupar o seu lugar, ele deixa de ser centro. Se esse centro ocupasse um lugar fixo, significaria a ausência de permuta, da mobilidade de que cada elemento de uma rede goza: “I didn´t say  that there was no center, that we could get along without a center. I believe that the center is a function, not a being – a reality, but a function. And this function is absolutely indispensable” (apud Landow 38). Nesta concepção revemos as características do texto ideal de Barthes.

Em hipertexto, o centro torna-se uma função. O sistema hipertextual criado a partir das ligações entre unidades de texto não possui um “eixo de sentido”, um centro. É o leitor quem, de acordo com os seus interesses e objectivo, determina, de uma forma activa, o eixo da narrativa. Deste modo, o hipertexto pode ser considerado um sistema descentrado e, a todo o momento, recentrável: “One of the fundamental characteristics of hypertext is that it is composed of bodies of linked texts that have no primary axis of organization. (…) Although this absence of a center can create problems for the reader and the writer, it also means that anyone who uses hypertext makes his or her own interests the de facto organizing principle (or center) for the investigation at the moment. One experiences hypertext as an infinitely decenterable and recenterable system” (Landow 37).

A ausência de um centro regulador definitivo associada às ideias de multilinearidade e fragmentação confere ao texto um carácter rizomático. Gilles Deleuze e Félix Guattari propõem uma nova forma de livro baseada no conceito de rizoma que configura uma tecnologia de informação mais eficiente e eficaz. Ao explicar a natureza do rizoma, referem: “A plateau is always in the middle, not at the beginning or the end. The rhizome is made of plateaus. (…)”(Landow 39). O rizoma é qualquer coisa de intermédio, em que há uma organização não hierárquica e não previsível: “it has neither beginning nor end, but always a middle (milieu) from which it grows and which it overspills (…) The rhizome is an antigeneology” (40).

A oposição fundamental do rizoma à hierarquia remete para o modo como os universos hipertextuais se organizam: um dos princípios da leitura e da escrita nestes ambientes consiste em que não têm início pré-determinado e permitem o estabelecimento de ligações sucessivas, associando informação, por vezes, de natureza diferente. O rizoma é um mapa, não um traço: à semelhança do hipertexto, cria ligações expansíveis até ao infinito. Aos conceitos de mapa e hipertexto subjaz uma ideia fundamental: ambos “… relate directly to performance, to interaction.” (Landow 41), construindo-se num processo em que na estrutura rizomática, no network, todos os nós e links têm, em princípio, a mesma importância.Derrida foi um dos primeiros autores a propor uma estrutura rizomática para a organização das pequenas unidades de sentido anteriormente mencionadas. À semelhança de Roland Barthes, apresenta uma noção de texto escrito, tipográfico, que se aproxima da de hipertexto.

Esta confluência entre teoria literária contemporânea e hipertexto electrónico tem por base a consciência das limitações impostas pela cultura tipográfica e do livro,  das quais pretendem libertar-se, apresentando alternativas.[3] 

O desejo de ultrapassar os constrangimentos limitativos do livro impresso só poderá concretizar-se a partir do momento em que formos capazes de descentrar o livro, isto é, encará-lo como tecnologia, como qualquer coisa que é não natural. Dado que a vulgarização de uma tecnologia tende a naturalizá-la, no reconhecimento do poder de que o livro se revestiu durante um período muito alargado de tempo e do modo como a cultura tipográfica foi, e ainda continua a ser, importante na divulgação de informação, não podemos perder de vista a ideia de que ele é também uma invenção tecnológica, uma máquina de simulações.[4] Só então poderemos proceder ao descentramento da cultura do livro, isto é, seremos capazes de, do exterior, observar as limitações que impõe.

Na linha de pensamento daquilo a que George Landow chama “Derrida’s instinctive theorizing of hypertext” (35), Roland Barthes fala de um texto que, “no seu conjunto, é comparável a um céu simultaneamente plano e profundo, liso, sem margens, nem pontos de referência”. A concepção de textualidade aberta, perpetuamente inacabada deste último autor será levada ainda mais longe pelo primeiro, no seu reconhecimento da importância de uma “free-form information technology based upon digital, rather than analogue,systems.” (Landow 47). Referindo-se embora a meios tecnológicos que não o computador (rádio, televisão, filme), Derrida parece antever as vantagens do hipertexto electrónico que, pelas suas características no que respeita ao armazenamento, acesso e utilização da informação, alarga as possibilidades da mensagem (47). Quando, nos anos 60, escreve De la grammatologie, explicita claramente a ideia de que o texto concebido de forma linear e o livro estão a perder o seu tradicional poder enquanto paradigmas culturalmente dominantes:”The end of linear writing, is indeed the end of the book”.[5] O conceito de Bush de um leitor activo e intrusivo, capaz, a cada passo, de introduzir comentários àquilo que lê, como se tivesse a página material perante si, exige também uma nova concepção de texto, “(…)  a virtual, rather than a physical text” (Landow 8). A confluência entre ambas as áreas manifesta-se, não só na concepção de texto como rede, mas também na da sua virtualidade. Uma não é possível sem a outra.

 

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4. Reconfiguração das Concepções de Leitor, Escritor, Autor, Propriedade Autoral, Originalidade e Publicação

 

À reconfiguração do texto corresponde também uma nova concepção de leitor, escritor, autor, propriedade autoral, originalidade e publicação.

Em hipertexto, embora o leitor recorra a hábitos de leitura convencionais no interior de cada lexia, a experiência de leitura muda e, em última análise, a natureza do que se lê. O texto deixa de impor uma dada ordem de leitura para a sua compreensão, o leitor não se limita a interpretá-lo. O seu papel já não é apenas aceitá-lo ou rejeitá-lo. A leitura é reconceptualizada como um processo activo que envolve a escrita e em que o leitor passa de consumidor a co-autor, a produtor. Torna-se activo, escolhendo o seu próprio percurso de leitura e alterando, com isso, a própria forma do que lê. Deixa de haver o ponto de partida da leitura, passando o início do texto a ser um ponto, à escolha do leitor. Do mesmo modo, se modifica o conceito de fim do texto, também ele determinado pela vontade do leitor. O carácter aberto, de permanente, provisório e reversível devir do hipertexto, em que o casual tem, por vezes, o seu peso, pode criar nalguns leitores uma sensação de anarquia e de ausência de controlo. Tal fica a dever-se à mobilidade, à instantaneidade, à velocidade da pesquisa e ao carácter virtual do hipertexto que, de uma forma ordenada mas não-sequencial, permite ao leitor manipular, cortar, colar, compor textos em que se relacionam os dados originais e os seus apontamentos, tirar notas, inserir comentários e críticas, acrescentar “links” a hipertextos, num ambiente marcado pela acessibilidade.

Em hipertexto, desfaz-se a noção de obra acabada, completa, a qual é substituída pela permanente construção, ditada pelas opções e interesse do leitor, num universo que confere à palavra texto um sentido mais etimológico, se considerarmos a sua origem latina.  

Este leitor activo que toma decisões relativamente à imposição de uma ordem de leitura, também ela provisória, dissolve as fronteiras rígidas entre leitor e escritor, consubstanciando outra das qualidades do texto ideal de Barthes. A distinção que este autor faz entre “readerly”e “writerly text”parece ser, essencialmente, uma distinção entre o texto baseado na tecnologia tipográfica e o hipertexto electrónico, porque o hipertexto preenche o objectivo do trabalho literário: “…to make the reader no longer a consumer, but a producer of the text…” (Landow 8), numa tradição que se caracteriza por a instituição literária manter uma clara separação entre o autor e o leitor.

A escolha de percursos individuais conduz, inevitavelmente, a que as versões hipertextuais de um documento assumam formas diferentes. Por esse motivo, torna-se difícil que pudessem ser adequadamente representadas pela forma tipográfica.

Ao referir-se à internet, James Dearnley e John Fealther dizem que esta constitui, não um fim em si própria, mas um meio para atingir um fim. Constituindo o espaço mais público jamais criado, pois não se limita a veicular informação, sendo interactiva, devido ao facto de ligar computadores entre si, a internet não exige que emissor e receptor estejam, necessariamente, ligados ao sistema de comunicação em simultâneo. Com isso, segundo os autores, a internet “(...) overcomes the tyranny of time.” (46). A tirania do tempo e a do espaço. Jerome McGann chama a atenção para essa enorme vantagem da internet, particularmente do ponto de vista académico: “(…) the web exposes how the technology of archival and bibliographic exchanges can be radically expanded in both spatial and temporal terms. Scholars can interact with each other anywhere in the world, can exchange their work in various ways, and can access materials located in remote locations” (Landow 169).

A um nível mais restrito, podemos verificar que, ao tocar a página pretendida, a informação surge instantaneamente, sendo fácil seguir referências individuais que no livro estão distanciadas no espaço. Um dado artigo surge ligado a todos os materiais que cita como parte de uma mais ampla totalidade que conta mais do que um documento individual. Deixa de haver um texto principal e textos subsidiários, como sucede, por exemplo, relativamente às notas de rodapé. Na cultura tipográfica, estas encontram-se numa posição hierárquica inferior e dependente, que se define pela posição do texto principal em relação a elas e pela diferença no tamanho da letra; na cultura electrónica, é possível activá-las por ligação directa, surgindo estas como um documento independente e podendo incluir a citação de parte de um texto, um capítulo, um texto completo. Sendo que, em hipertexto, nenhum nó constitui o ponto central da leitura, desaparece o conceito de textos marginais, acessórios. Tornam-se textos independentes, unidades de leitura ou lexias.

Ao contrário do que sucede na cultura tipográfica, em que os textos se encontram separados no espaço dos materiais para que remetem, em hipertexto, situam-se numa rede de ligações que, pela sua mobilidade e instantaneidade, se tornam facilmente acessíveis: “Electronic hypertext, in contrast, makes individual references easy to follow and the entire field of interconnections obvious and easy to navigate” (Landow 4). O leitor experiencia a presença virtual de outros autores e de outros textos que, ao proporcionarem os seus contributos, permitem a criação daquilo a que Landow designa por “collaborative writing, collaborative authorship” (104).

Pela substituição da tinta pelo código electrónico, da dimensão táctil pela digital, cria-se um ambiente de existência virtual. Consistindo o processamento de texto electrónico em manipular códigos manipulados pelo computador, os textos com que o leitor-escritor depara são textos virtuais. Fala-se pois, em “virtual machines”, isto é, criadas por um sistema operativo que proporciona aos utilizadores individuais a experiência de trabalharem nas suas próprias máquinas quando, na verdade, partilham um sistema com muitos outros utilizadores. Ao ligar os movimentos da mão às operações com estruturas simbólicas que surgem no écran (palavras, janelas, ícones), o rato abriu caminho a essa virtualidade. Também as imagens dos textos que se vêem no écran constituem versões da imagem que se encontra na memória do computador. São, também elas, imagens virtuais, sendo impossível dizer com propriedade que o texto se encontra no écran, na memória transitória ou no disco do computador.

Este carácter virtual está relacionado com a forma imaterial assumida pelo hipertexto. A escrita electrónica também é espacial, isto é, inscreve-se no espaço de uma dada forma. Ao fazê-lo, não trabalha só com a linguagem, organiza-se num universo do qual fazem parte, como foi já mencionado, vários elementos de natureza icónica. Ao contrário da escrita tipográfica em que o texto se inscreve no espaço de uma forma coincidente com o livro, objecto caracterizado pela tactibilidade e pela portabilidade, no écran a espacialização é diferente, sendo que texto e espaço não coincidem.

Do ponto de vista específico dos textos literários e da literatura cibernética, a reconfiguração de textualidade também patente no que Manuel Portela designa por hiperescrita (hiperficção e hiperpoesia) (1), isto é, a utilização do computador como instrumento de escrita para produzir textos literários originais, conduz, eventualmente, ao aparecimento de géneros e formas especificamente digitais que combinam elementos textuais, sonoros e icónicos. Por outro lado, aquilo a que o mesmo autor se refere como hiperedição, isto é, a transposição de formas bibliográficas literárias existentes para o meio digital, por exemplo, sob a forma de arquivos em linha, introduz também mudanças a esse nível. De acordo com Jerome McGann, autor do Rossetti Archive, “a central purpose of The Rossetti Archive project was (…) to push traditional scholarly models of editing and textuality beyond the masoretic wall of the linguistic object we call ‘the text’” (McGann 2002 12).

O carácter virtual de um texto que, para além de abarcar elevado número de dados, inclui informação que pode ser de natureza diversa (textual, visual, áudio), conduz também a uma mudança na autoridade, na construção de sentidos, que passa do autor para o leitor-escritor. A partir do momento em que o leitor se torna autor, deixa de fazer sentido falar em originalidade e autoridade no sentido cristalizado pela cultura tipográfica. No processo de disseminação de informação numa rede, alteram-se as noções de texto isolado e de autor, propriedade e unicidade autoral e de publicação. Mais uma vez, a condição imposta pelo hipertexto é a da acessibilidade.

 

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5. Conclusão

 

Ao concluir este trabalho, pensamos ter ficado claro de que modo é possível identificar uma confluência entre a teoria literária estruturalista e pós-estruturalista e os processos criados pela ligação da informação em redes hipertextuais.

A dificuldade que inicialmente sentimos em abordar todas as questões, cada uma a seu tempo, ainda que estabelecendo relações entre elas, poderá explicar-se pela própria natureza do conceito de hipertexto que Theodor Nelson avança. Englobando três dimensões, uma forma de texto electrónico, uma tecnologia de informação radicalmente nova e um modo de publicação, nenhuma delas pode ser considerada individualmente, sob pena de dar uma visão incompleta do que é o hipertexto. Resumindo em poucas palavras em que consiste o hipertexto electrónico, mencionando o seu carácter inovador e deixando adivinhar a reconfiguração das noções de leitor, autor e publicação a que obriga, a definição de Theodor Nelson caracteriza, simultaneamente, o universo polifónico e virtual no qual as concepções de Derrida e outros nomes ligados à teoria crítica estruturalista e pós-estruturalista encontram as condições propícias à sua disseminação.

Pensamos ter ficado também evidente que as formas de organização e utilização proporcionadas pelo hipertexto alargam as possibilidades da mensagem: à aparente anarquia subjaz uma ordem, tanto mais valiosa e adequada quanto é imposta pelo leitor (nessa medida, também autor, no sentido da palavra inglesa “editor”), ao mesmo tempo que lhe proporciona uma multiplicidade de percursos que, eventualmente, não pensara, à partida, seguir. No contexto dessas possibilidades, o hipertexto pode assumir-se como um instrumento de informação e de investigação credível.

 

Março de 2004

Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra

© Isabel Lourenço, isablourenco@gmail.com

 

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Notas

[1] Cf. GEORGE LANDOW, op. cit., p.42: “Discussions and designs of hypertext share with contemporary critical theory an emphasis upon the model or paradigm of the network”.

[2] Para além dos textos Glas, de Jacques Derrida, Mille Plateaux, de Gilles Deleuze e Félix Guattari, e S/Z, de Roland Barthes, constituem exemplos de textos abertos, não lineares e de discursos “rizomáticos” o poema Un coup de dês jamais n’abolira le hasard, de Mallarmé, os caligramas de Apollinaire, as obras Ulysses e Finnegan’s Wake, de James Joyce, a poesia visual de Francisco Pina.

[3] George Landow refere-se àquilo que designa por “the strengths and weaknesses of the printed book”, op. cit. p.2.

[4] Manuel Portela e Jerome McGann referem esta natureza do livro. Cf. PORTELA, MANUEL (2003): “Hipertexto como Metalivro”, p. 1 in http://www.ciberscopio.net/artigos/tema2/clit_05.pdf e McGANN, JEROME (2001): “Visible and Invisible Books in N-Dimensional Space”, in Radiant Textuality: Literature after the World Wide Web. New York: Palgrave/ St Martin’s, p.170.

[5] DERRIDA, JACQUES (1967): De La Grammatologie. Paris, Les Éditions de Minuit, p. 86, citado por Landow.

 


Bibliografia e Webografia

BUSH, VANNEVAR (1945): “As We May Think”, in David Trend, ed., Reading Digital Culture, Oxford: Blackwell 2002 [2001].

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