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O Livro e o Computador: Viagens por Labirintos de Palavras

Sandra A. P. Santos


 

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Introdução

1. A Materialidade do Livro

1.1. A Autoridade Cultural do Livro

2. A Imaterialidade do Texto Electrónico

2.1. A Autoridade Cultural do Hipertexto

Conclusão

Bibliografia / Webografia

 


Introdução

 

Penetrar num livro é mudar de universo, é abrir um horizonte. [...]

A obra é, ao mesmo tempo, uma fechadura e um acesso, um segredo e a chave do seu segredo.

Jean Rousset

A cultura ocidental tem sido profundamente marcada por uma tradição de escrita e pelo domínio do códice impresso e do conhecimento livresco. De tal forma relevante é este domínio que muitos se referem à civilização ocidental como “a civilização do livro”. De facto, toda uma cultura está inscrita em livros. Os livros contêm a história e a tradição, as ânsias e os medos, as alegrias e feitos das civilizações e têm tido um papel fundamental na preservação de todos esses elementos. Para além de os livros terem vindo a desempenhar um papel vital no registo da informação, têm também sido relevantes na transmissão do saber de geração em geração, tendo-se afirmado no panorama cultural como poderosos veículos de conhecimento. Por outro lado, os livros têm constituído uma forma de fuga, um escape à vida quotidiana e ao mundo caótico, têm sido um refúgio acessível, um amigo que nos pode levar, palavra após palavra, página após página, numa viagem até mundos distantes, inacessíveis e mesmo inexistentes.

Todavia, tudo isto poderá estar a sofrer mudanças, talvez lentas, subtis e silenciosas, que poderão estar a alterar radicalmente muitos dos pressupostos relativos ao domínio do códice escrito. O monopólio dos livros parece estar ameaçado e o seu reinado como senhor absoluto está claramente a ser posto em causa por um outro instrumento que tem vindo a impor-se e a reclamar para si papéis até há bem pouco tempo só atribuídos ao livro. Refiro-me, é claro, ao computador que, através das ferramentas que nos oferece, tem vindo a mudar a forma como percepcionamos a cultura e o acesso ao conhecimento; a forma como entendemos a leitura e a escrita, e muitos outros processos que todos tomávamos como certos e mesmo permanentes.

No presente trabalho, desenvolvido no âmbito do seminário de Estudos Literários I, do Curso de Mestrado e Pós-Graduação em Estudos Anglo-Americanos, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, procurarei caracterizar os dois instrumentos referidos – o livro e o computador –, analisar potencialidades e apontar limitações, com vista a perceber como os dois elementos se relacionam, como influenciam a nossa experiência como leitores e como podem determinar a nossa relação com a informação e até a forma como percepcionamos o mundo à nossa volta.

 

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1. A Materialidade do Livro

 

Sou um livro e estou vivo.

Posso, se quiserem, conduzir-vos pela mais

etérea, íntima e simples das viagens.

[…] Eu apresento-te estas páginas de papel

cobertas de pequenos caracteres que formam

a minha figura pálida.

Bernard Werber, O Livro da Viagem

Assim nos surge o livro em O Livro da Viagem, de Bernard Werber. Através destas palavras podemos ouvir a voz do livro, que se apresenta a ele mesmo como uma entidade provida de existência, algo “vivo”, que tem o poder de proporcionar aos seus leitores uma viagem “etérea, íntima e simples”. Quanto a esse poder que o livro tem de nos fazer embarcar em viagens da mais variada natureza, referir-me-ei numa fase posterior do presente trabalho. Para já, gostaria de concentrar-me no livro enquanto entidade com uma existência espacial, reflectir sobre as suas características e tentar perceber a forma como estrutura os elementos e veicula a informação.

Creio que uma das características mais evidentes de um livro é a sua materialidade, a sua existência física, que o identifica como objecto material provido de uma forma específica e facilmente reconhecível: “[…] páginas de papel cobertas de pequenos caracteres […]” (Werber 7). Esses caracteres são sucessivamente ordenados e impressos graficamente até se obter um todo, até se conseguir um texto. Segundo Shillingsburg, “a text is the actual order of words and punctuation as contained in any one physical form, such as […] a book” (46). O livro é, portanto, uma materialização de um texto que, por não ter existência espacial, necessita de um suporte físico que lhe garanta essa materialização.

O facto de o livro conter um determinado texto faz com que seja tradicionalmente efectuada uma equivalência entre os dois, sendo o texto visto, não raras vezes, como o próprio livro enquanto suporte material utilizado para o veicular. A este propósito, Geoffrey Nunberg refere que “[a] book doesn’t simply contain the inscription of a text, it is the inscription” (18). Esta equivalência tem, por um lado, repercussões a nível formal, uma vez que o livro resultará das características do texto: “it [the book] is as fat as the text is long, it opens at the beginning of the text, and if we break off our reading, we are left literally in media res.” (ibidem). Por outro lado, existem repercussões no processo de interpretação que, enquanto leitores, fazemos de um livro:

However engaged we may feel by the text, the volume never is completely absent from perception. That is why we can often close our eyes and recover the image of a passage we have read according to what part of the page it appears on, and why our custom of saying that we have read something in a book is more than mere idiom. (Nunberg 18)

Na perspectiva de Nunberg, a presença física do volume do texto é uma constante no processo de interpretação e nunca conseguimos ler um texto dissociado da sua forma material. Não resisto a referir que, de cada vez que penso na obra Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, associo o texto ao livro de capas verdes e folhas sedosas que li, ainda como aluna de secundário. Para mim, as Viagens estarão sempre associadas a esse objecto, cuja materialidade resiste na minha memória, mesmo depois de ter tido a concorrência de outra edição de qualidade manifestamente superior.

Na realidade, o texto impresso é associado ao livro que o contém e o facto de nos aparecer sob a forma de uma cópia de papel contribui para lhe atribuir um carácter rígido, linear e imutável. Ao lermos um livro deparamo-nos com uma estrutura que nos apresenta todas essas características: “in fact, most books are written in a linear manner, with a definite beginning, a body which requires a step-by-step build-up of the ideas presented by the author, and a conclusion which generally draws together the point(s) of the entire book.” (http://courses.washington.edu/englhtml/engl481/bluehairtheory.htm acedido em 07/03/2004).

Num livro, a informação é-nos apresentada hierarquicamente numa sucessão de elementos estruturais, que vão desde o índice à referências bibliográficas, com uma continuidade que é suposto nós seguirmos. De facto, ao lermos um texto impresso vamos interpretando uma série de signos. À medida que vamos progredindo na leitura e nos vamos tornando “readers on a journey through symbolic space” (Bolter 108), apercebemo-nos que esses signos estão hierarquicamente organizados.

No texto impresso existem elementos que, por um lado, apoiam o texto e ajudam o leitor no seu acto de leitura e, por outro lado, dependem do próprio texto. É o caso, por exemplo, das anotações, que residem normalmente em listas numeradas de forma sequencial e nos remetem para o final da página, de capítulo ou mesmo para o final do livro. Estes elementos, embora fazendo parte do texto, são mais limitados e constituem presenças secundárias no livro, sendo suposto que, uma vez lida a anotação, o leitor volte ao mesmo ponto do texto em que havia interrompido a sua leitura.

Ou seja, o processo de leitura que nos é permitido fazer de um texto impresso exige de nós uma atitude algo passiva, no sentido de nos limitarmos a seguir as indicações que o autor nos apresenta. Ao apresentar-nos um texto de forma linear, o autor determina o nosso percurso de leitura, impõe-nos caminhos fixos sob pena de, ao mínimo desvio, a nossa leitura deixar de fazer sentido.

Relativamente a esta questão do poder do autor sobre o leitor, David Bolter refere que os leitores são como “visitor[s] in the author’s cathedral” (3) e, enquanto visitantes, não têm qualquer poder para alterar o carácter do texto que lhe é apresentado. De facto, quando lemos m livro, a interacção que podemos estabelecer com a forma do texto é praticamente nula. Durante o acto de leitura, podemos manusear o texto e percorrê-lo página a página, podemos escrever notas nas margens das folhas e podemos sublinhar elementos que nos chamam a atenção, mas este tipo de acções são levadas a cabo sempre à margem do trabalho do autor, nunca podem ser integradas no próprio texto.

Landow explicita de uma forma prática essa impossibilidade: “[i]n a book one can always move one’s finger across the printed page, but one’s intrusion always remains physically separate from the text. One may make a mark on the page but one’s intrusion does not affect the text itself” (44). O leitor não pode ter uma atitude intrusiva em relação ao texto, apesar de a leitura exigir actividade e participação de quem lê.

Esta relação de distanciamento que se estabelece entre autor e leitor pode ainda ser vista sob um outro prisma, que tem a ver com a vocalidade que é, no código escrito, manifestamente unidireccional. Existe uma voz, a do autor, que se dirige a um público, num processo pautado pela sua univocalidade e pelo poder de autor: “a printed book generally speaks with a single voice and assumes a consistent character, a person, before its audience.” (Bolter 7).

 

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1.1. A Autoridade Cultural do Livro

 

Todos os aspectos que referi  estão relacionados com a questão da materialidade de um texto, com as características formais que constituem o volume impresso do livro e com as relações que essa materialidade permite estabelecer durante o acto de leitura. Estas características de natureza formal e material são frequentemente utilizadas por todos aqueles que defendem que, apesar da crescente importância que o computador tem na nossa sociedade, o livro é insubstituível. Não raras vezes, ouvimos argumentos relativos às propriedades sedutoras do livro. Desde o livro visto como um conjunto de páginas que nos permite experiências de carácter visual, táctil e até olfactivo, passando pelo objecto que nos povoa as estantes, até ao livro como materialização, mais ou menos volumosa, de um texto que nós podemos levar para onde quer que seja, ouvimos de tudo um pouco quando se trata de defender o argumento de que o livro veio para ficar. David Bolter sintetiza estes argumentos:

Those who tell us that the computer will never replace the printed book point to the physical advantages: the printed book is portable, inexpensive, and easy to read, whereas the computer is hard to carry and expensive and needs a source of electricity. The computer screen is not as comfortable a reading surface as the page; reading for long periods promotes eyestrain. Finally – and this point is always included – you cannot read your computer screen in bed. (4)

Apesar de os avanços tecnológicos terem vindo a minimizar alguns dos impedimentos físicos do computador (hoje em dia podemos, por exemplo, levar o computador para a cama), os argumentos habilmente esgrimidos em favor do livro continuam a passar pelas sua virtudes materiais.

Contudo, para além dessas virtudes materiais existe um outro aspecto, bem mais relevante, que tem promovido e perpetuado o estatuto de respeitabilidade do livro ao longo de séculos – a sua autoridade como instrumento cultural e veículo transmissor de conhecimento. O livro tem sido, desde a sua invenção, um elemento fundamental na construção do saber e da cultura das civilizações, uma “referência essencial da cultura ocidental” (Bebiano 476).  A importância cultural do livro é também reconhecida por Bolter que, ao referir que  “[t]he book in whatever form is an intellectual tool rather than a means of relaxation” (4), reforça a ideia de que a relevância do livro tem que ser entendida também de forma conceptual, como instrumento que permite desenvolver os aspectos culturais e preservá-los, geração após geração. Esta característica do códice impresso é também referida por Nunberg que afirma: “ ‘[t]he book’ here stands in a metonymy for all the material circumstances of print culture – not just the articrafts it is inscribed in, but the forms and institutions that have shaped its use” (15). O livro constitui uma forma poderosa de conhecimento e está associado a instituições que o divulgam, protegem e perpetuam. É um “instrumento e símbolo do mando e de uma cultura permitida que se afirma como dominante” (Bebiano 476), assumindo-se como a principal fonte de informação e de perpetuação da cultura, de tal forma que chega a obter o estatuto de objecto “sacralizado” (ibidem). 

As características formais e conceptuais do livro  permitem-nos, na minha perspectiva, perceber o domínio que o códice impresso tem tido na sociedade ocidental, domínio esse que ainda se verifica  numa era que Bolter designou por “late age of print” (2). Todavia, esse domínio tem sido crescentemente desafiado e colocado em causa desde a revolução nas tecnologias de informação que, através das mais variadas inovações, se têm afirmado no panorama cultural das sociedades economicamente mais desenvolvidas. O computador é talvez a forma mais visível dessa revolução, pelas potencialidades que nos apresenta e pelos horizontes que nos permite conquistar. É sobre as potencialidades que o computador nos pode oferecer a nível literário e cultural que irei referir-me na próxima secção do presente trabalho.

 

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2. A Imaterialidade do Texto Electrónico

 

Consider a future device for individual use, which is a sort of mechanized private file and a library. It needs a name, and to coin one at random, ‘memex’ will do. A memex is a device in which an individual stores all his books, records, and communications, and which is mechanized so that it may be consulted with exceeding speed and flexibility. It is an enlarged intimate supplement to his memory. (Bush 11)

Foi com estas palavras que Vannevar Bush apresentou, em 1945, a sua proposta de criação de um dispositivo para ser utilizado, por um lado, como ferramenta de armazenamento de livros e outros documentos, como se de uma biblioteca electrónica se tratasse, e por outro, como dispositivo interactivo que permitisse ao utilizador consultar a informação armazenada. Esse dispositivo permitiria ao leitor ter acesso a qualquer dos livros disponíveis “with far greater facility than if it were taken from a shelf” (Bush 11), tornando possível uma interacção com o texto, interacção essa que alteraria o próprio conceito de texto e também a natureza da relação que o leitor estabelece com o livro durante o acto de leitura.

É neste dispositivo de Bush que muitos vêem a origem do conceito de “hipertexto”, cunhado nos anos sessenta do século vinte por Ted Nelson, um discípulo de Bush, que com ele partilhava as ideias relativas à forma de organização de textos em ambientes electrónicos. Na altura da apresentação das suas ideias, talvez nenhum dos dois tenha tido plena consciência das implicações que elas iriam trazer, nem sequer tenham antevisto a sua relevância no panorama das comunicações.

Por hipertexto entende-se “[a] text composed of blocks of words (or images) linked electronically by multiple paths, chains, or trails in an open-ended, perpetually unfinished textuality described by the terms link, node, network, web, and path.” (Landow 3). Com esta definição, Landow refere inúmeros aspectos que caracterizam o hipertexto e, se alguns desses elementos até podem aproximar o texto electrónico do texto impresso, outros há que o individualizam de forma notória.

O hipertexto também é formado, à semelhança do que acontece com o código impresso, por grupos de palavras, de caracteres ordenados. Contudo, ao contrário do que se verifica com o texto impresso, veiculado através de livros, o hipertexto é veiculado através do computador e nós lêmo-lo num ecrã que não permite a materialidade que caracteriza os livros. No computador, o texto não coincide com o espaço que ocupa nem corresponde aos limites espaciais concretos impostos pelo objecto computador. De acordo com Nunberg, “there is no perceptible correlation between the boundaries of the texts we read on a computer and the physical properties of the articraft or the display itself.” (18)

A inexistência de correspondência entre o texto e o objecto utilizado para o veicular alterou profundamente a relação de envolvência que frequentemente se estabelece com o livro impresso. De facto, o ecrã de computador não permite tocar as páginas do livro, sentir o cheiro característico do papel e outras características que contribuem para a envolvência entre leitor e livro. Estes constituem, para muitos, motivos mais do que suficientes para não acreditar nas potencialidades do computador como instrumento de leitura. Envolvências à parte, o computador possibilita, por um lado, representar electronicamente os textos e, por outro lado, alterar de forma radical o papel do leitor, que passa a ter, segundo Rui Bebiano, “uma notável dose de controlo sobre a composição, a divisão e a aparência das unidades textuais que manipula” (188).

Quando acedemos a um texto electrónico, deparamo-nos com uma estrutura não-linear que não obedece a uma única hierarquia formal como acontece com o livro. O hipertexto não obedece à linearidade de estruturas com princípio, meio e fim e o percurso de leitura que nos oferece é radicalmente inovador. O que acontece é que o hipertexto está organizado numa rede de nodes que nós podemos percorrer das mais variadas formas através de uma sucessão de hiperligações, que nos permitem movimentarmo-nos por toda essa rede.

Enquanto rede de elementos, o hipertexto oferece-nos uma grande quantidade de informação de carácter textual, gráfico, visual e áudio a que nós podemos facilmente ter acesso. Contudo, só acedemos a uma pequena parte de cada vez, não temos possibilidade de aceder à totalidade da informação dada a vastidão do espaço electrónico. Não podemos, por isso, determinar o início nem o final do hipertexto, ao contrário do que acontece com o livro impresso, cujo final corresponde ao final do texto que contém.

A este propósito, Zimmennan refere que “in hypertext applications, the metaphor of the network has replaced the hierarchy. A network has no top or bottom, but a plurality of connections that increase possible interactions between components of the network.” (243). De facto, no hipertexto não existe a hierarquização que se verifica no código impresso. O que acontece é que, quando lemos um texto electrónico e abrimos várias janelas, deparamo-nos com variados marcadores que nos indicam que podemos aceder a outro node, a partir desse ponto do texto principal. Ao seleccionar uma hiperligação, deparamo-nos, contudo, com uma situação semelhante à anterior, uma vez que nos deparamos com um novo corpo de texto, novos indicadores, novas sequências de palavras que são tão importantes como o nosso ponto de partida:

the second window can also contain boldface phrases that in tom lead the reader to other paragraphs. The process can continue indefinitely as the reader moves from one window to another through a space of paragraphs. The second paragraph is not necessarily subordinate to the first. A phrase in bold face may lead the reader to a longer, more elaborate paragraph. One paragraph may be linked to many and serve in tom as the destination for links from many others. (Bolter 15)

Nessa sequência de parágrafos e de nodes, constrói-se um texto de carácter vasto que mais não é do que “a network of interconnected writings” (ibidem). Creio que é devido a este facto que, enquanto utilizadores de hipertexto, não podemos deixar de nos sentir, como sempre me sinto quando desempenho o meu papel de leitora, no meio de uma entidade muito vasta que vamos percorrendo numa sucessão de tentativas que só nos permitem deslocar-nos para um outro ponto dessa imensidão de informação.

É como se o hipertexto fosse uma espécie de labirinto através do qual o leitor vai exercendo o seu poder e seleccionando, durante o acto de leitura, uma infinidade de alternativas possíveis, que lhe permitem avançar no percurso. Se nós, enquanto leitores, nos depararmos em pontos diferentes desse labirinto, faremos, com certeza, um percurso substancialmente diferente de todos os outros que já construímos. Mesmo se, ao entrarmos no hipertexto, acedermos sempre ao mesmo node, este poderá já não ocupar o mesmo lugar na rede que engloba, o que poderá afectar o nosso percurso de leitura.

Devido a este carácter labiríntico que o hipertexto tem, também não podemos partir do princípio que outro leitor faz o mesmo percurso de leitura que nós fazemos, mesmo se ambos estivermos no mesmo node e assumirmos esse ponto como o nosso ponto de partida para exploração do texto. Com uma edição impressa, os leitores podem partilhar opiniões acerca do mesmo texto, com a certeza que as palavras que leram foram as mesmas. Contudo, “[n]o two readers of an electronic book can make that assumption; they can only assume that they have traveled in the same textual network.” (Bolter 82)

Relativamente a esta questão do hipertexto como rede textual vasta, e à forma como os elementos estão organizados, David Bolter refere ainda que “a true electronic text is not a fixed sequence of letters, but is instead from the writer’ s point of view a network of verbal elements and from the reader’s point of view a texture of possible readings” (5). Esta problemática do papel do leitor e de possíveis leituras é particularmente importante, uma vez que exige a reconceptualização do acto de leitura: “now, in the electronic writing space, where every reading of a text is a realization or indeed a rewriting of the text, to read is to interpret.” (Bolter 165).

A nossa capacidade de interpretação é fortemente posta à prova, muito mais do que quando lemos um texto impresso. Enquanto que no código impresso podemos limitar-nos a ler, no hipertexto é-nos sempre exigido o acto interpretativo e de reconstrução do texto. Desta forma, o texto electrónico exige também a reconceptualização do papel de leitor tradicionalmente entendido como “aquele que lê”.

Quando nós somos leitores de hipertexto, podemos seguir as hiperligações que nos são apresentadas, e que funcionam como orientadores de leitura durante a nossa navegação pelo ciberespaço. Ao termos a possibilidade de seguirmos essas hiperligações de muitas formas, seleccionando-as de acordo com os nossos interesses e curiosidades, temos também possibilidade de construir o(s) nosso(s) percurso(s) de leitura, sem termos que nos sujeitar a uma ordem fixa imposta de forma tão rígida como no código impresso.

É um facto que, se bem que não seja de forma tão evidente nem tão limitadora como acontece no texto impresso, os leitores estão ainda sujeitos à acção do autor uma vez que é este quem determina as hiperligações que podem ser seleccionadas e os percursos que podem ser seguidos. Apesar disso, o processo de leitura de hipertexto pressupõe que nós, enquanto leitores, tenhamos de tomar decisões sobre o percurso a seguir, fazendo com que tenhamos um papel mais activo no acto de leitura e no processo de organização da informação que nos é facultada.

Segundo George Landow, “[...] hypertext involves a more active reader, one who not only chooses his or her reading paths but also has the opportunity of reading as an author; that is, at any time the person reading can assume an authorial role and either attach links or add to the text being read" (42). Ou seja, ao leitor do hipertexto é oferecido o poder de ser também autor, poder esse que ele pode exercer à medida que vai navegando e seleccionando o seu percurso de leitura De cada vez que o leitor escolhe um percurso diferente, reescreve o texto de uma forma também diferente, sendo relativamente difícil reescrever o texto sempre da mesma maneira, seguir sempre os mesmos percursos de leitura, o que anula os repetitivos gestos e processos de leitura levados a cabo com o código impresso. À possibilidade de refazer os percursos de leitura, através da rede aleatória de ligações, e de acrescentar ligações e textos aos textos que lê, acrescente-se a possibilidade de alterar a forma material dos textos que lê de um modo diferente daquele que ocorre quando o leitor escreve nas margens de um livro impresso.

Essa interacção que o leitor mantém com o texto é representada por uma série de elementos gráficos que não estão presentes no texto impresso. Elementos como o cursar e a seta, que utilizamos para nos situarmos em determinado ponto do texto, são vistos por Landow como elementos que indiciam a presença do leitor no texto, que passa a ter uma “moving intrusive image” (44) à medida que vai seleccionando o seu percurso de leitura.

Relativamente a esta presença do leitor no texto e ao seu poder como autor, Michael Joyce refere que “[print] stays itself. If with the book we are always printing – always opening another text unreasonably composed of the same gestures – with electronic text we are always painting, each screen unreasonably washing away what was and replacing it with itself.” (232). É devido à possibilidade de cada leitor poder exercer também o papel de autor que não existe no hipertexto a univocalidade que caracteriza o texto impresso. Segundo Bolter, “an electronic book may speak with different voices to different readers” (7). Para além disso, cada leitor toma-se um leitor diferente de cada vez que lê, e altera, o percurso de leitura no hipertexto.

Para além de usufruir do poder de reescrever, de repintar o texto, o leitor pode também desempenhar as funções de editor, controlando processos de selecção e arranjo textual que, no texto impresso, não estão ao seu alcance. O leitor tem a possibilidade de, a título exemplificativo, alterar o tamanho e o tipo de letra, fazer composição de textos a partir de diversos documentos, transferir documentos e decidir que material quer seleccionar. Nunberg refere-se à questão da edição e da reprodução da seguinte forma:

[T]he physical properties of the document can vary from one copy to the next. It can be left to the user or the local environment to determine the binding, paper stock, size, and even fonts of the printed volume, or the layout and appearance of a screen representation. [...] 1t is the individual user who determines the modularity of the document.[...] The computational representations of texts can be divided and reassembled in an indefinitely large number of documents, with the final form left to the decision of the individual user. (22)

É como se os diferentes processos relacionados com a escrita, reprodução e distribuição de textos se diluíssem e se centrassem numa entidade só, fazendo com que o hipertexto se imponha como “tool for the production, diffusion, and reception of texts.” (Nunberg 15). Todas estas características conferem ao hipertexto inúmeras potencialidades como novo instrumento de leitura e de escrita e permitem, como já vimos, reconceptualizar elementos associados ao código impresso. Contudo, o hipertexto tem vindo a ganhar relevância como algo mais do que instrumento de leitura e de escrita. Tem vindo a assumir um papel fundamental no domínio cultural, funcionando como veículo de conhecimento.

 

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2.1. A Autoridade Cultural do Hipertexto

 

Os avanços no domínio das tecnologias da comunicação têm colocado ao serviço de um cada vez mais elevado número de pessoas uma série de dispositivos, que permitem aceder à informação de uma forma rápida, cómoda e prática. Muitos são os que comparam as implicações que esses inovadores dispositivos têm na nossa sociedade com as implicações que a invenção da imprensa teve nas civilizações ocidentais. James Dearnley e John Feather referem-se da seguinte forma às transformações originadas quer pelo código impresso, quer pelo computador: 

[t]he implications of changes in the technology of communications are very significant. We do not need to be technological determinists to accept that the invention of printing was at least a partial cause of a fundamental transformation of intellectual, economic and political life in western Europe. The same is true of the development of  computer-based information and communications technologies in the second half of the 20th century. (Dearnley & Feather 56)

Esses desenvolvimentos na área das tecnologias da comunicação obrigaram, por um lado, a repensar a forma como a informação era transmitida e, por outro, a reconceptualizar uma série de elementos relacionados com o poder e autoridade no domínio do conhecimento.

Desde a invenção da imprensa que os livros se foram tomando cada vez mais importantes e a sua difusão mais dominadora no panorama das culturas ocidentais. Como consequência, os livros foram ganhando um estatuto relevante como guardiães do conhecimento, assumindo-se não só como elemento vital na preservação e transmissão desse conhecimento, mas também como fiéis depositários do cânone literário.

Apesar do domínio evidente que o livro tem tido, o computador tem-se afirmado como sério candidato para a conquista de um lugar de destaque na nossa cultura. Esse processo pode ser facilitado pelas características que o computador apresenta e que o tornam radicalmente diferente do livro: “the power of computers to store, handle and retrieve information, and the capacity of telecommunications systems to transmit it instantaneously and globally, represents a break with the past” (Dearnley & Feather 56). O facto de os computadores possuírem esta capacidade a nível de armazenamento de informação, também lhes dá um atributo fundamental que tem a ver com a forma como permitem a manipulação de todos os tipos de textos, que é radicalmente diferente da permitida pelos livros impressos.

Por outro lado, o texto electrónico também apresenta uma nova forma de organização discursiva, ordenando os elementos textuais de modo diferente do que se verifica no texto impresso. Segundo Manuel Portela, “[e]sta representação de segunda ordem da forma bibliográfica destrói a unidade discreta do códice e reconstela os seus elementos num espaço discursivo mais vasto e variável.” (Portela 14). É exactamente nesta possibilidade de usufruirmos desse espaço discursivo mais vasto e variável que, na minha opinião, reside uma das armas mais fortes do hipertexto, uma vez que nos permite levar a cabo, com total liberdade, uma série de tarefas impossibilitadas, no texto impresso, por limitações de carácter espacio-temporal.

As visitas que nós fazemos aos sites das mais variadas instituições de divulgação cultural, desde museus, passando por bibliotecas e arquivos sobre os mais variados temas, e o facto de podermos ler e reordenar o hipertexto de acordo com as nossas exigência, são exemplos da colocação em prática dessa liberdade. A oportunidade que temos de poder usufruir, num simples terminal de computador, de um vastíssimo leque de documentos que nós podemos analisar e estudar, comparando elementos e estabelecendo relações, parece-me outro dos aspectos fundamentais das potencialidades que o hipertexto nos oferece.

Para além destes aspectos, o computador também tem dado origem a géneros literários novos, próprios de uma cultura electrónica. Segundo Bolter, “the computer has even fostered a new genre of literature, one that can only be read at the computer screen” (2). Destaco, por exemplo, a poesia visual que para além de explorar a palavra, a cor e a disposição visual do poema, explora também o movimento desses elementos.

Apesar de todas estas potencialidades, e apesar da crescente relevância do computador como alternativa ao livro e, consequentemente, do hipertexto como alternativa ao texto impresso, o estatuto do livro continua fortemente enraizado. Tem sofrido importantes investidas, mas ainda não caiu. Pelo menos por enquanto. Na opinião de Geoffrey Nunberg é exactamente devido às potencialidades das novas tecnologias que estas terão dificuldade em assumir o papel dos livros: “[...] it is precisely because these technologies transcend the material limitations of the book that they will have trouble assuming its role” (15). Talvez seja esta transcendência que faça com que, por um lado, os livros continuem a partilhar com os computadores o lugar de destaque no panorama cultural da nossa sociedade e permita que, por outro lado, essa partilha seja, por enquanto, feita numa relação de complementaridade.

Hoje em dia, de facto, o computador e o livro continuam a coexistir como formas que se complementam e que permitem, cada um à sua maneira, que possamos usufruir de um conjunto vastíssimo de informação. Para além disso, livro e computador apresentam-se-nos como dois instrumentos que se ajudam mutuamente. Não raras vezes, nós recorremos ao livro para nos ajudar no nosso processo de aprendizagem sobre o computador e também recorremos ao computador, e a toda a informação que nos pode facultar, para compreendermos e, facto curioso, divulgar o livro.

Na opinião de Rui Bebiano, a “galáxia de Gutemberg”, expressão usada por Marshall McLuhan, ainda se mantinha, no final do século vinte, “viva e ágil. Mais viva e ágil do que nunca, apesar de abalada pelo aparecimento de uma porção de meios alternativos que têm vindo a alterar a forma de nela se circular.” (478). Encontramo-nos, presentemente, no início de um novo milénio e o estatuto do livro continua a gozar de vivacidade e agilidade, resistindo ao ímpeto das investidas por parte da entidade que Michael Heim designou por “artificial information jungle” (Heim 1994, 83). Resta saber até quando.

 

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Conclusão

 

Uma vez que o presente trabalho não constitui uma forma de hipertexto, terá de obedecer às normas de linearidade que regem os textos impressos e essa normas exigem que o trabalho tenha uma conclusão que lhe atribua uma finitude.

Depois de fazer uma reflexão sobre o trabalho que desenvolvi e apresentei, creio poder afirmar que consegui cumprir os objectivos a que me propus na introdução. Penso ter conseguido mostrar, por um lado, as características que compõem o texto impresso e o hipertexto e, por outro lado, evidenciar a forma como o nosso papel enquanto leitores é alterado por cada uma dessas formas de escrita.

Creio que também ficou claro o facto de o hipertexto oferecer uma série de possibilidades, não permitidas pelo códice impresso, o que tem contribuído para a crescente afirmação do texto electrónico no panorama cultural de uma sociedade marcada pelos avanços tecnológicos.

Apesar de as novas formas de informação electrónicas terem uma capacidade tremenda, e apesar de nos oferecerem possibilidades inimagináveis, de nos permitirem, à semelhança do que acontece com o livro, aceder aos segredos do conhecimento, de mudar de universo e de abrir horizontes, ainda não estão plenamente preparadas para tomar o lugar dos livros que mantêm o seu estatuto de armas de conhecimento. Mas talvez seja uma questão de tempo.

Estou convicta que, à medida que as novas tecnologias se forem tomando obsoletas e forem sendo substituídas por outras, cuja natureza, confesso, me é difícil imaginar, o domínio cultural do hipertexto será inevitável e acabará por destronar o códice impresso. O livro deixará de ser rei e senhor. É só mesmo uma questão de tempo.

 

Março de 2004

Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra

© Sandra A. P. Santos, sap.santos@portugalmail.com

 

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Bibliografia / Webografia

Bebiano, Rui. “A Biblioteca Errante: Itinerários da Leitura na Era Digital”1999, in Revista de História das Ideias, Vo1.20, 471-494.

Bolter, Jay David. Writing Space: The Computer, Hypertext, and the History of Writing. Hillsdale, New Jersey: Lawrence Erlbaum Associates,1991.

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