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O que é o hipertexto electrónico e de que forma altera a organização e a utilização dos textos?

Andreia Cordeiro


 

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1. Introdução

2. que é o hipertexto electrónico?

1.2. Hipertexto exploratório

2.2. Hipertexto construtivo

3. De que forma é que o hipertexto altera a organização e a utilização dos textos?

3.1. Possíveis dificuldades

3.2. The Sound and the Fury, de William Faulkner: uma edição hipertextual

4. Conclusão

Bibliografia e Webografia

 


1. Introdução

 

Apesar de o tema que me foi proposto desenvolver neste trabalho não ser de modo algum, na sua totalidade, explanável, discutível e confinado apenas a uma determinada resposta ou explicação, espero com o mesmo poder descodificar, ou pelo menos, simplificar alguns conceitos,  problemáticas e aplicações da teia hipertextual.  Para tal não se pode deixar de lembrar o artigo de Vannevar Bush "As We May Think" <http://www.ps.uni-sb.de/~duchier/pub/vbush/vbush-all.shtml> publicado em 1945 na revista mensal americana The Atlantic Monthly, que, de uma forma presciente, apresentava contornos daquilo a que se chama nos nossos dias de hipertexto. Neste artigo, Bush fala-nos de um aparelho ao qual chamou de “Memex” e que descreveu como “(...) as electronically linked to a library and able to display books and films from the library, and further able to automatically follow references from these to the work referenced”. (Wikipedia) Posteriormente, em 1965, o cientista informático Theodor Holm Nelson (Ted Nelson), já conhecido na altura por ser o fundador do Projecto Xanadu (1960) (Wikipedia), cunhou a palavra hipertexto. O meu objectivo neste trabalho não se circunscreve facilmente, mas estende tentáculos  num aparente labirinto para que, como o hipertexto, cada leitor/a possa enveredar pelo caminho que mais lhe possa parecer correcto, viável, ou simplesmente lógico. A teia  e o labirinto (Figs 1 e 2) são duas figuras frequentemente usadas para representar as estruturas de escrita e de leitura hipertextuais.

 

Teia (Fig 1)
Fig.1: «Teia», texto visual de Manuel Portela, originalmente publicado em Pixel Pixel (1992). [1]

 

Labirinto (Fig 2)
Fig.2: «Labirinto» [2]

 

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2. O que é o hipertexto electrónico?

 

Os meus escritos, todos eles ficaram por acabar, sempre se interpunham novos pensamentos, extraordinárias, inexpulsáveis associações de ideias cujo termo era o infinito. Não posso evitar o ódio que os meus pensamentos têm a acabar seja o que for, uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil inter-associações, e não tenho força de vontade para os eliminar ou deter, nem para os reunir num só pensamento central em que se percam os pormenores sem importância mas a eles associados.

Fernando Pessoa, citado in ENCICLOPÉDIA E HIPERTEXTO <http://www.educ.fc.ul.pt/hyper/>

Uma das características comuns às múltiplas definições de hipertexto é precisamente a sua natureza não-linear, não sequencial, sem início nem  fim, muitas vezes comparada aos processos associativos do pensamento.  A citação de Fernando Pessoa, que revela a natureza ramificada e incompleta da sua obra como resultado dos mecanismos do pensamento, parece adequar-se na perfeição a um possível conceito de hipertexto, que nas próprias palavras de Ted Nelson, nos anos 60, é uma “(...) non-sequential writing – text that branches and allows choices to the reader, best read at an interactive screen”. (citado em Landow 1997: 3)

Roland Barthes, na obra S/Z (1970), descreve o ideal de textualidade que, transposto para uma dimensão digital, corresponde exactamente ao que se pode chamar de hipertexto nos nossos dias:

Nesse texto ideal, as redes são múltiplas e jogam entre si sem que nenhuma delas possa encobrir as outras; esse texto, é uma galáxia de significantes e não uma estrutura de significados; não há um começo: ele é reversível; acedemos ao texto por várias entradas sem que nenhuma delas seja considerada principal; os códigos que ele mobiliza perfilam-se a perder de vista, são indecidíveis (o sentido nunca é aí submetido a um princípio de decisão, a não ser por uma jogada de sorte); os sistemas de sentido podem apoderar-se desse texto inteiramente plural, mas o seu número nunca é fechado, tendo por medida o íntimo da linguagem. (Barthes 1999: 13)

Neste excerto, Barthes parece já criticar o modelo estruturalista através do uso do conceito de “galáxia de significantes”, por oposição a “estrutura de significados”. Ao contrário do modelo de língua estruturalista, que pretende representá-la como uma estrutura estável de oposições, Barthes aproxima-se da posição pós-estruturalista que valoriza a indeterminação actualizável em cada acto de leitura. O modelo pós-estruturalista destaca o papel da língua e da textualidade na construção da nossa identidade e realidade enquanto leitores, reconceptualizando a relação entre autor e leitor.

Um dos autores que  mais se destacou na corrente pós-estruturalista foi o filósofo francês Jacques Derrida que “(…) conceives texts as constituted reading units” (Landow 1997: 34) Se o aspecto desconstrutivo sublinha a falta de totalidade e de um fim em qualquer forma,  este também abrange a forma do hipertexto, que (...) “emphasizes textual openness, intertextuality, and the irrelevance of distinction between inside and outside a particular text” e por isso se torna (...) “a new, freer, richer form of text(...)”.( Landow 1997: 33)

De igual modo, Deleuze e Guatari utilizaram o conceito botânico de rizoma, que (…)operates by variation, expansion, conquest, capture, off-shoots”,  e propuseram-no para caracterizar a textualidade em geral. Landow apropria-se deste conceito para sugerir que o mesmo pode ilustrar o conceito de hipertexto, pois “Like the rhizome, hypertext, which has “multiple entryways and exits”, embodies something closer to anarchy than to hierarchy, and it “connects any point to any other point”, often joining fundamentally different kinds of information and often violating what we understand to be both discrete print texts and discrete genres and modes.” (Landow 1997: 40) Sendo o rizoma um caule subterrâneo horizontal do qual brotam rebentos para fora da terra durante a sua evolução completa (Lello 1981: 771), formado por plateaus “always in the middle, not at the beginning or the end” ( Landow 1997: 40), é fácil entender a transposição para a dimensão digital, mais propriamente do hipertexto, que Landow empreendeu. Assim sendo, o hipertexto comporta plateaus, os quais “(...) can be read starting anywhere and can be related to any other plateau”.( Landow 1997: 39) É nestes termos que Landow refere a confluência entre teoria crítica e desenvolvimento do hipertexto, já que o hipertexto parece confirmar certas descrições da teoria literária.

O que não se pode deixar de observar é a presença da eterna procura de uma máquina que cada vez mais se possa assemelhar ao funcionamento da mente humana, seja no campo da Neurologia, da Psicologia ou do sistema imunológico, pois “(...) both the immune system and the neural network consist of billions of highly specialized cells that excite and inhibit one another, and they both learn and have memory.” (Landow 1997: 44) Assim sendo, um sistema hipertextual pode ser construído tendo como base de fundamentação a memória humana. Esta, por sua vez, representa uma rede semântica que produz associações que funcionam como directrizes para um sistema aberto, em constantes modificações, pois o que é absorvido do exterior, pelos sentidos, entra em contacto com o nosso “disco rígido” que efectua constantes “upgrades” na nossa “base de dados”. Ao interagirmos com o exterior e com o hipertexto, que por sua vez efectua o mesmo processo num espaço e tempo imensurável, o conhecimento flui como se de um fio condutor, sem destinatário ou destino fixos, se tratasse.

Esta forma não-linear, descentralizada, intertextual, rizomática e multivocal, confunde-se numa primeira instância com uma anarquia labiríntica, mas se dedicarmos algum tempo a pensar nestas características, chegamos à conclusão que o hipertexto não trouxe muito de novo, simplesmente esta forma insere-se num novo paradigma que requer outras ferramentas de trabalho e que obviamente é mais avançado tecnologicamente. Apesar de o texto impresso se apresentar numa escrita linear, nada é indicador que o mesmo não possa gozar de intertextualidade explícita (notas de rodapé) e/ou implícita (alusão a outros textos, obras ou pessoas); de multivocalidade, aquando várias vozes numa ou mais narrativas de uma obra que por sua vez dão origem a uma leitura rizomática da mesma, pois de várias leituras de uma mesma obra não são retiradas as mesmas interpretações.  De qualquer modo, o texto não pode fugir da sua forma tradicional que o encerra materialmente em si mesmo, tendo um início, meio e fim, mesmo quando a obra se inicia in medias res e se tem um final aberto: materialmente a folha tem um princípio, acaba e o livro termina.

Só depois de conhecermos o sistema do livro como veículo de informação e suas limitações, é que nos podemos libertar dos seus limites. Tal tem vindo a acontecer de uma forma tão rápida, que, segundo Derrida, “the form of the book” is now going through a period of general upheaval, and while that form appears less natural, and its history less transparent, than ever... the book form alone can no longer settle”, e por isso “the end of linear writing is indeed the end of the book” ( citado em Landow 1997: 47) Pessoalmente não acho que a forma do livro dependa inteiramente da linearidade, pois tal seria partir do princípio que a leitura de um livro obedeceria a uma lógica linear, o que não parece ser o caso. De qualquer modo, a estruturação aberta do  hipertexto pode vir a ter consequências institucionais, metodológicas e históricas bastante importantes e perturbadoras, pois, como refere Derrida, “one cannot tamper with the form of the book without disturbing everything else in western thought.” (citado em Landow 1997: 47)

Em suma, conceptualizar a forma hipertextual pode, por vezes, ser uma tarefa um pouco confusa, desorientadora e ingrata, pois os diferentes sistemas de hipertexto parecem incidir sempre, em termos de apresentação, em características diferentes, mas o mas importante a reter é o princípio das ligações (links), que estão presentes em todas as estruturas de hipertexto. Estas ligações diferem do texto impresso pelo facto de serem suportadas pelo computador, que nos pode ligar em segundos a qualquer outro ponto da rede textual.

 

2.1. Hipertexto exploratório

Michael Joyce define dois tipos de hipertexto: Hipertexto Exploratório e Hipertexto Construtivo.

O Hipertexto Exploratório “(…) describes the increasingly familiar use of hypertext as a delivery or presentational technology” e (…) “encourages and enables an audience to control the transformation of a body of information to meet its needs and interests” (Joyce: 41) . A audiência para a qual este tipo de hipertexto se destina tem que ter pleno conhecimento dos sistemas navegacionais e das suas capacidades para que, de algum modo, consiga “to differenciate the unique organizational schemes of hipertext from the more convencional organization of print and other media” (Joyce: 41).  Este modelo favorece uma aprendizagem também exploratória, o que vem converter os sistemas de ensino em sistemas de aprendizagem.

 

2.2. Hipertexto construtivo

Este modelo hipertextual define-se, segundo Joyce, como um “(...) much less familiar use of hypertext as an invention or analytic tool  (Joyce: 42), pois este tipo de hipertexto requer representações visuais do conhecimento que desenvolve. Para tal, os scriptors são os destinatários deste modelo. Este novo vocábulo (Jane Douglas, 1987, baseando-se em Barthes) designa aqueles que “(…) use constructive hypertexts to develop a body of information that they map according to their needs, their interests, and the transformations they discover as they invent, gather, and act upon that information” (Joyce: 42). Esta capacidade de informar por parte dos scriptors é a característica principal deste modelo de hipertexto que visa ser a “(…) tool for inventing, discovering, viewing and testing multiple, alternative organizational structures as well as a tool for comparing these structures of thought with more traditional ones and transforming one into the other”. (Joyce: 42-43)

 


3. De que forma é que o hipertexto altera a organização e a utilização dos textos?

 

But how does one “read” literature on a computer?  (Susan Schreibman: 55)

Considerando que a imprensa mudou toda a tecnologia da escrita, não é descabido imaginar que as inovações trazidas pela era digital venham a ter efeito semelhante. O hipertexto, além de contribuir para uma nova teoria do texto, apresenta características que de um modo irreversível levam ao aparecimento de novos géneros literários. O hipertexto torna-se, assim, instrumento e suporte de um experimentalismo literário, pois novas modalidades de criação artística e literária procuram conferir ao texto uma nova apresentação e novas formas de veicular a significação. Neste novo leque de géneros e/ou tendências literárias podemos destacar a poesia animada por computador, a literatura generativa e a hiperficção.

Esta nova forma de fazer circular textos e, ao mesmo tempo, de fazer florescer novos géneros e/ou tendências desencadeou novas práticas de leitura e de  escrita. Autor e leitor, por exemplo, são dois conceitos que sofrem uma grande mudança, diluindo-se. Assim sendo, quem escreve e quem lê passam a ser duas faces de uma mesma moeda. O leitor torna-se ainda um potencial editor, pois pode ler, introduzir notas e posteriormente republicar um documento em formato hipertextual, “(...) porque o que está em jogo no trabalho literário (na literatura como trabalho) é fazer-se do leitor não só um consumidor, mas um produtor do texto. A nossa literatura está marcada pelo impiedoso divórcio que a instituição literária mantém entre o fabricante e o utente do texto, o proprietário e o cliente, o autor e o leitor”. (Barthes 1999: 12)

A virtualidade deste modelo hipertextual veio tornar ambígua e quase inexistente a relação de hierarquia que o texto mantinha com o autor, pois nas palavras de Barthes “to give a text an Author is to impose a limit on that text, to furnish it with a final signified, to close the writing”. (Barthes 1977) Esta hierarquia imposta essencialmente pelo “classic criticism has never paid any attention to the reader; for it, the writer is the only person in literature. We are now beginning to let ourselves be fooled no longer by the arrogant antiphrastical recriminations of good society in favour of the very thing it sets aside, ignores, smothers, or destroys; we know that to give writing its future, it is necessary to overthrow the myth: the birth of the reader must be at the cost of the death of the Author”. (Barthes: 1977) Além disso, os textos digitais prestam-se mais facilmente à autoria múltipla. Com a escrita electrónica, a distinção entre autor e leitor anula-se e surge uma nova forma de texto que pode pôr em causa o cânone, e as próprias fronteiras entre as disciplinas. (Mourão 2001) Ao sofrer uma democratização, a informação em geral e o hipertexto em concreto passam a ter como objectivo principal o leitor. Já Roland Barthes, ao declarar, metaforicamente, a morte do autor diz-nos que (...) a text’s unity lies not in its origin but in its destination. (Barthes: 1977)

Esta qualidade do hipertexto acabou por ser transposta também para o meio escolar tendo sido definida como escrita colaborativa, em que o aluno se “liberta” de um conhecimento apenas veiculado pelo professor. Este passa a ter um papel mais limitado na responsabilidade do processo de aprendizagem do aluno. Digamos que “(...) this educational technology permits instructors to teach in the virtual presence of other instructors and other subsections of their own discipline or other closely related disciplines” (Landow 1997: 223), pois o papel de professor redefine-se por “(…) transferring some of their power and authority to students”. ((Landow 1997: 223)

Pelo facto de a unidade de tempo ser desfragmentada da unidade de lugar, neste novo formato, a paginação torna-se um aspecto formal desnecessário, pois o livro electrónico existe em forma de códigos electrónicos e não como marcas físicas numa superfície física; é sempre virtual, é sempre um simulacro do qual não existe exemplo físico. As implicações que resultam da dupla natureza do livro electrónico são inúmeras: O livro já não exerce o mesmo poder que tinha anteriormente, deixou de ser o mestre dos nossos raciocínios ou dos nossos sentimentos face aos novos meios de informação e de comunicação de que hoje em dia dispomos” (Mourão 2001)

Da mesma forma, as notas sofreram alterações muito importantes. Aquando da leitura de um livro, o leitor por vezes é remetido para certas notas de rodapé ou pequenas notas que geralmente se encontram nas últimas páginas do mesmo. O procedimento natural, por parte do leitor, será interromper a leitura e ir consultar essas notas, depois retoma a sua leitura. Agora imaginemos que esse livro, como na generalidade, tem inúmeras notas, que, então, obrigam o leitor a efectuar incontáveis paragens na sua leitura. Este procedimento causa na maioria das vazes um grande cansaço no leitor que, por vezes, perde todo o sentido da narrativa e acaba por desistir da leitura da mesma.

Este problema também se verifica num formato hipertextual, em que cada nota ou comentário a consultar por parte do utilizador tem lugar num nó ou numa ligação. Apesar de sermos obrigados a efectuar uma pausa na leitura, os detalhes  podem surgir num bom sistema de janelas, nunca abandonando a leitura principal. Mas do ponto de vista do/a leitor/a uma nova janela pode significar uma zona diferente na página de papel e por isso a diferença consiste nos novos meios electrónicos, na possibilidade de ligar não apenas texto e nota, mas transformar a nota num ponto de entrada noutros textos. Ou seja, desfazer a autonomia do texto principal relativamente às suas fontes e aos seus intertextos.

As instruções são algo que não acompanham, normalmente, um livro tradicional, pois toda a gente sabe que a leitura se inicia nas primeiras páginas e acaba no final das últimas, ou seja a sua estrutura é hermeticamente fechada. O mesmo não acontece com o hipertexto que, como um medicamento, tem instruções muito rigorosas para serem seguidas por quem esteja realmente interessado em fazer uma boa utilização do material  disponibilizado nos novos meios electrónicos.

Regra geral, os textos, vêm separados por capítulos. Em hipertexto, tal também pode acontecer, com a excepção de que estes podem não ser lidos de forma não-sequencial, sem haver a necessidade de andar a folhear o mesmo de trás para a frente inúmeras vezes. Esta característica do hipertexto é por excelência aquela que realiza o descentramento do texto, pois o utilizador, na sua privacidade digital, realiza a leitura de um texto sem que este esteja preso a uma única hierarquia formal.

O facto de o hipertexto conseguir conter em si, além da linguagem, um alto teor de complexidade icónica e visual, pode parecer numa primeira e breve instância algo de inovador, mas se pensarmos em autores como William Blake, que apresentava a sua poesia impressa em total harmonia com as imagens que ele próprio desenhava, vemos que este não é um processo novo, mas simplesmente tem vindo a sofrer alterações com a constante evolução, de entre outros factores, da tecnologia. A integração de textos e imagens é agora possível sem os constrangimentos da tecnologia tipográfica.

 

3.1. Possíveis dificuldades

É óbvio que não há regra sem excepção, nem algo sem desvantagens ou, pelo menos, sem algumas dificuldades. No caso do hipertexto, duas das suas características mais vincadas, a intertextualidade e a não-linearidade, tornam-se, por vezes, motivo de “desorientation, cognitive overhead e missing context clues.” (ENSP 481: Theory & Practice of Hypertext)   Pelas palavras de Conklin, esta desorientação define-se como “(...) the tendency to lose one’s sense of location and direction in a non-linear document” (ENSP 481: Theory & Practice of Hypertext), o que provoca a sensação, por parte do utilizador, de estar “lost in hyperspace” (ENSP 481: Theory & Practice of Hypertext). Vezes sem conta senti não estar a realizar qualquer trabalho produtivo por estar perante demasiadas possibilidades de me desviar do caminho primário, sentindo-me desorientada. Este problema está mais visível em sistemas mal concebidos, em que a estrutura de navegação não é intuitivamente perceptível.

A “cognitive overhead”, como Conklin afirma, é “(…) the aditional effort and concentration necessary to maintain several tasks or trails at one time” (ENSP 481: Theory & Practice of Hypertext). Pessoalmente, vejo este tipo de dificuldade como algo facilmente resolúvel através de um bom sistema de janelas, que visíveis no ecrã, podem funcionar como um mapa orientador das nossas tarefas. Quantas vezes não nos aconteceu seguir uma ligação por acaso, começar a lê-la e não entender o seu conteúdo referencial ? Aposto que a todos nós! Mas por que é que isto nos acontece?

Tendo em conta que o hipertexto tem uma forma não-linear, é possível termos acesso a algo in medias res, ou seja, encontrarmos o pronome pessoal ela sem sabermos quem ela é, ou o pronome demonstrativo aquilo sem fazermos a mínima ideia do que aquilo é. É normal que o texto, adoptando uma forma não-linear de apresentação, não consiga manter num só “nó” tudo aquilo que vai ser apresentado em vários. Por exemplo, numa obra on line, composta por um determinado número de capítulos, em que cada um corresponde a um “nó”, é óbvio que o nome das personagens, locais, etc. não se irá repetir em cada um deles. O mesmo acontece com certos acrónimos como NATO ou ONU, abreviações como Numis. ( Numismática) ou Mil. ( Militar), ou com certas siglas como IBM ou JPEG, cujos significados não vão ser explicados cada vez que ocorram. A resolução destas “missing context clues” pode passar pela repetição do significado dos termos cada vez que haja uma referência aos mesmos ou através do uso de paths de modo a “(...) linearize a network’s segments sufficiently to provide context.” (ENSP 481: Theory & Practice of Hypertext)

Estas são apenas algumas das dificuldades mais relevantes que são vistas, pelos mais cépticos, como uma das razões para não se aceitar a utilização do hipertexto. Entre muitas razões, o sentimento de impotência do usuário perante a máquina é uma delas. O hipertexto, sendo possível apenas através do computador, que é um mero descodificador dos códigos informáticos, coloca o ser humano numa esfera de subordinação. O facto de não haver um sentimento de posse sobre o texto é uma justificação, para muitas pessoas, para a não aceitação do hipertexto. Pois apesar de o utilizarmos, quantas vezes não sentimos a necessidade intrínseca de o imprimir para, confortavelmente sentados no nosso sofá, o folhearmos? Se bem que este motivo esteja cada vez mais a perder força pelo facto de terem surgido no mercado as agendas electrónicas e os computadores portáteis.

Outro problema do ser humano face ao hipertexto, é a falta de credibilidade de muitas fontes em linha, agravada  pela rapidez com que a informação nos chega e que pode gerar uma certa “poluição informativa”. A ausência de processos de selecção, de um crivo editorial e de pagamento dos direitos de autor são outras das razões que levam o utilizador a desconfiar e, por vezes, não aceitar o uso do hipertexto. O utilizador  torna-se num mero receptáculo desta dita “cultura artificial” (http://www.cce.ufsc.br/~neitzel/literatura/)

 

3.2. The Sound and the Fury, de  William Faulkner: uma edição  hipertextual

Para melhor ilustrar algumas das características do hipertexto e a forma como este altera a organização e a utilização dos textos, vou utilizar uma edição hipertextual da obra de William Faulkner, The Sound and the Fury, porque, “(...)is a complex text. Its narrative structure is highly complicated; its frequent use of stream of consciousness creates great narrative density; it is highly allusive and intertextual throughout; and its chronologically restless first section is difficult to understand for most readers.” (The Sound and the Fury: a Hypertext Edition: 2003) Esta afirmação levanta, no entanto, um problema que, de resto, é comum a projectos similares. Quando a complexidade narrativa é dada através de uma forma de representação não-linear (como a corrente de consciência), não estaremos a destruir a experiência de leitura do original ao simplificar e linearizar a cronologia, a acção e as várias representações que as personagens fazem dos acontecimentos? Por outras palavras, não estará o hipertexto a servir para tornar linear uma obra que é multilinear na sua forma em livro? Na minha opinião tal não acontece, pois ao tornar linear uma obra que se apresenta não linear no formato em papel, apenas simplifica a percepção de alguns pormenores e não substitui de forma alguma a leitura da obra no seu formato original.

Com a minha pequena experiência  no campo digital, considero que o sítio está muito bem estruturado e devidamente orientado, e que por isso o público-alvo pode ser tanto o leitor casual, comum, como o investigador que tenta de alguma forma aprofundar os seus conhecimentos, neste caso sobre a obra especifica de William Faulkner. Desde logo este objectivo faz parte da intenção dos autores da edição hipertextual::

It is hoped that the material and its presentation in this edition will be useful to The Sound and the Fury's newest and, simultaneously, more advanced readers. Few electronic editions of novels exist; the ones that do are primarily simple digital copies of texts and not critical editions of them. The editors of this edition have tried to use, in a careful fashion, the possibilities of the hypertext platform to create a critical edition of scholarly value.  (The Sound and the Fury: a Hypertext Edition: 2003)

Logo que entramos na obra propriamente dita, somos confrontados com uma janela com o organigrama do sitio:

William Faulkner (Fig 3)

Introduction and guides to the hypertext edition

The novel:

April Seventh, 1928

<http://www.usask.ca/english/faulkner/main/april7/index.html>

June Second, 1910

<http://www.usask.ca/english/faulkner/main/june2/index.html>

April Sixth, 1928

<http://www.usask.ca/english/faulkner/main/april6/index.html>

April Eighth, 1928

<http://www.usask.ca/english/faulkner/main/april8/index.html>

Appendix: Compson: 1699-1945

<http://www.usask.ca/english/faulkner/main/

Faulkner's 1933 Introductions to The Sound and the Fury

<http://www.usask.ca/english/faulkner/main/>

Este põe-nos, desde logo, em contacto com as possibilidades de hipertexto da obra, para as quais não é necessário seguir qualquer tipo de ordem. Podemos ir construindo o nosso percurso à medida das nossas necessidades e vontades, salientando que no lado direito da janela, está reservado um espaço que remete para várias ligações:

Critical Resources:

Intertexts

Criticism

Visual Displays

Links

Este espaço lateral, durante as quatro secções do romance, está ocupado por uma cronologia da secção da obra em uso, caso seja esse apenas o interesse do utilizador, ou simplesmente pode ser usado como ponto de referência. Os apêndices, bem como as próprias introduções feitas pelo autor podem ser também consultadas, numa janela à parte, para o leitor não se perder espacialmente no texto primário.

Esta breve referência a este sítio serviu apenas para ilustrar as inúmeras capacidades do hipertexto, designadamente no modo de organizar um texto literário de forma diferenciada do sistema tradicional - o livro.

 

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4. Conclusão

 

Pessoalmente acredito que o hipertexto tem QUASE tudo para ser mais aliciante que o texto tradicional, mas.... o sentimento de posse de um texto, a sua antiguidade e valor sentimental para quem o dá ou é presenteado por um livro, jamais serão substituídas por alguma forma de texto que se possa apenas visionar num ecrã. O livro continua a aliciar-me, mesmo com a sua forma fechada, que me faz sentir, exactamente por essa característica, estar a abrir uma caixinha de segredos. E apesar de saber que existem milhentas cópias de um mesmo livro, o meu sempre há-de ser intimamente meu, onde posso riscar, rasgar, ou simplesmente folhear!

Apesar de não poder substituir a tactilidade do livro, o hipertexto reconfigura, de facto, as posições e funções relativas de autores, leitores e textos. Algumas das hipóteses da teoria literária pós-estruturalista relativas à natureza da textualidade, da leitura e da significação encontraram no hipertexto um novo espaço de aplicação. De certo modo, foi uma leitura hipertextual que Roland Barthes, em S/Z, aplicou ao conto de Balzac ao tentar isolar as suas lexias, fragmentando-o e revelando-lhe as  costuras e as ligações:

Para estarmos atentos ao plural de um texto (por limitado que seja) é preciso renunciarmos a estruturar esse texto em grandes blocos, tal como o fazia a retórica clássica e a explicação escolar; nada de construção do texto: tudo significa sem cessar e várias vezes, mas sem se submeter a um grande conjunto final, a uma estrutura última. De aí a ideia, e por assim dizer a necessidade, de se fazer uma análise progressiva a um texto único. (Barthes 1999: 17)

 

Março de 2004

Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra

© Andreia Cordeiro, andreia-cordeiro@clix.pt

 

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Notas

[1] http://www.terravista.pt/nazare/1387/4mp05.jpg (última consulta em 22.02.04)

[2] http://tantufaz.weblogger.terra.com.br/200209_tantufaz_arquivo.htm (última consulta em 16.03.04)

 


Bibliografia e Webografia

Barthes, Roland (1999): S/Z; Lisboa: Edições 70 [1ª ed. francesa, 1970]

Barthes, Roland (1977): "The Death of the Author", http://faculty.smu.edu/dfoster/theory/Barthes.htm (última consulta em 19.03.04)

Dicionário Enciclopédico Luso-Brasileiro Lello Universal (1981): Porto: Editores Lello & Irmão, vol. II.

ENSP 481: Theory & Practice of Hypertext http://jefferson.village.virginia.edu/courses/ensp481/  (última consulta em 16.03.04)

Enciclopédia e Hipertexto – FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA http://www.educ.fc.ul.pt/hyper/ (última consulta em 16.03.04)

Joyce, Michael (2002): “Siren Shapes: exploratory and constructive hypertext”, in Of Two Minds: Hypertext Pedagogy and Poetics, The University of Michigan Press [1995], pp. 39-49.

Landow, George P. (1997): Hypertext 2.0: The Convergence of Contemporary Critical Theory and Technology, Baltimore: John Hopkins UP.

Mourão, José Augusto (2001): Para uma Poética do Hipertexto-Ficção interactiva http://www.triplov.com/hipert/index.htm (última consulta em 19.03.04)

The Sound and the Fury: a Hypertext Edition. Ed. Stoicheff, Muri, Deshaye, et al. Updated Mar. 2003. U of Saskatchewan. http://www.usask.ca/english/faulkner (última consulta em 16.03.04)

http://www.cce.ufsc.br/~neitzel/literatura (última consulta em 16.03.04)

Wikipedia: The free Encyclopedia  http://en.wikipedia.org/wiki/Hypertext (última consulta em 16.03.04)

Schreibman, Susan (1999): “Humanities Computing: Text to Hypertext”, in The European English Messenger, VIII/1: 55-57

 

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