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Do Livro ao Computador: O Percurso Labiríntico das Palavras

Maria da Graça Neto


 

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Introdução

1. O Livro Como Máquina do Conhecimento

2. O Computador e o Hipertexto: O Conhecimento na Era Digital

3. O Livro e o Computador: Que Futuro?

Conclusão

Bibliografia e Webografia

 


Introdução

 

Margie even wrote about it that night in her diary. On the page headed May, 2157, she wrote, “Today, Tommy found a real book!" [i]

Isaac Asimov; “The Fun They Had”

Isaac Asimov, escritor de ficção científica responsável pela cunhagem da palavra “robotics”, escreveu o conto “The Fun They Had” em 1951, procedendo àquilo a que podemos chamar uma antevisão bastante verídica do que poderá vir a acontecer ao livro, tal qual o conhecemos hoje. De facto, dados os indícios que temos no presente, nomeadamente através de um avanço tecnológico que parece não conhecer fronteiras nem limites, torna-se evidente que algumas transformações quanto à natureza do livro poderão ocorrer num futuro muito próximo. Poderemos quase assumir sem qualquer tipo de dúvida que a reacção a um livro, como objecto palpável, será como a de Margie e Tommy, tal como é descrita por Asimov:

[t]hey turned the pages, which were yellow and crinkly, and it was awfully funny to read words that stood still instead of moving the way they were supposed to – on a screen (…). And then when they turned back to the page before, it had the same words on it [ii] that it had had when they read it the first time. (Asimov, idem)

"Words moving on a screen” parece ser a realidade no futuro. Já o é hoje em dia. O computador e todas as tecnologias que lhe estão associadas parecem representar uma ameaça para o livro impresso.

Não pretendemos neste trabalho proceder a uma nostálgica antevisão do possível desaparecimento do livro nem das suas possíveis e nefastas consequências para a humanidade. Pretendemos, sim, pôr em evidência algumas das características de ambos estes meios de transmissão de conhecimento, bem como reflectir sobre o seu contributo para a divulgação da informação.

Para tal torna-se necessário fazer o levantamento de algumas das principais alterações trazidas pela invenção da imprensa no século XV, bem como das principais “linearidades” que envolvem o livro e o processo de leitura. Impõe-se de igual modo proceder à análise da algumas das principais “virtualidades” do computador e do hipertexto. Teremos igualmente oportunidade de realçar as principais diferenças e semelhanças que afastam e aproximam estes dois meios de comunicação e transmissão de conhecimento, bem como os importantes contributos que o livro tem a dar ao computador e, de igual modo, os contributos do computador para com o livro.

           

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1. O Livro como Máquina do Conhecimento

 

[…] [B]ooks are not ways of making somebody else think in our place; on the contrary they are machines which provoke further thoughts […] (Eco 538)

Desde os primórdios da existência humana, comunicar e transmitir ideias, pensamentos e experiências impõe-se como uma necessidade básica e inerente ao próprio ser. Vejam-se as diferentes inscrições do homem das cavernas nas paredes das grutas, a invenção da própria linguagem, a invenção da escrita, a invenção da tipografia e, hoje em dia, a enorme revolução comunicacional representada pelo computador e seus meios.

Antes do aparecimento da escrita, a transmissão de saberes era feita através do recurso à oralidade. Estes saberes eram passados de geração em geração, recorrendo sobretudo à memória. De cada vez que um elemento de uma comunidade desaparecia, com ele desaparecia também um pouco da história. A relação estabelecida entre autor/locutor e ouvinte/receptor era muito próxima, presencial, podendo o segundo interferir nos relatos do primeiro.[iii]

O recurso à escrita, ou seja, ao manuscrito representou um passo importante, embora restrito. Tal como Rui Bebiano salienta, “[…] o papel cultural e social do escrito, do manuscrito, cingiu-se a sectores urbanos, bastantes próximos das instituições políticas e sociais que orientavam a sociedade” (Bebiano 472). Era sobretudo o clero que detinha o monopólio dos manuscritos, controlando não só o que era lido, mas também quem lia, controlando obviamente a visão que se tinha das coisas. A cultura oral continuou a ser fundamental, embora a introdução do registo visual fosse importante e permitisse “[…]ordenar, fixar o pensamento, constituir uma fluidez e linearidade onde, anteriormente, existia o caos[…]” (Teixeira 2). Com o manuscrito introduz-se outro tipo de leitura: de uma leitura predominantemente oral, passou-se a uma leitura silenciosa. [iv]

Parece-nos pertinente reflectir brevemente sobre algumas questões relativas ao manuscrito. Começamos pelo conceito de autoria e direitos de autor. Estas preocupações parecem não ter existido, pelo que grande parte dos autores permanecia no anonimato. O estudante medieval era ao mesmo tempo paleógrafo e editor dos textos que copiava, e que muitas vezes não eram revistos. Não estaremos pois perante características que se aproximam da realidade dos nossos dias? Quantos são os textos publicados e aos quais temos acesso livre, sem nunca conhecer quem os escreveu? Quantas vezes nos apropriamos de ideias e reproduzimos conceitos de autores que jamais conheceremos? Não estará o hipertexto a aproximar-se das características primárias do manuscrito? Outro aspecto merece uma breve reflexão: o paleógrafo detinha o poder de reproduzir um novo manuscrito, através da selecção do texto que já havia sido copiado anteriormente. Do mesmo modo, o cibernauta tem à sua disposição um número infindável de textos que pode copiar, cortar e colar, transformando-se ele próprio num editor e até num co-autor do texto. A relação que o autor estabelece com o leitor hoje em dia não é muito diferente da que se estabelecia na Idade Média.

No século XV, assistimos a uma revolução histórica no processo de escrita e leitura: “The Gutenberg Galaxy”, nas palavras de Marshall MacLuhan. A invenção da imprensa por Johannes Gutenberg permitiu uma completa redefinição no processo de transmissão do conhecimento. De uma dimensão oral, auditiva e táctil da cultura manuscrita, passamos para uma dimensão visual e estática da cultura tipográfica. Podemos, pois afirmar que “Johann Gutenberg […] marked the death knell of what we now refer to as the oral tradition” (Melrod 571).

A imprensa alterou por completo a forma de reprodução do texto, permitindo o que poderemos chamar reprodução em série. Enquanto que o manuscrito era único, pois continha em si o cunho do seu escrivão, que não produzia dois textos exactamente iguais, o texto impresso era reproduzido uma série de vezes e de forma completamente igual, perdendo, assim, por completo a relação social com quem o reproduz.

Uma das inovações trazidas pelo livro foi a democratização do acesso à informação ou ao conhecimento. Este deixou de pertencer a uma elite de monásticos e passou a estar à disposição de um número mais elevado e socialmente alargado de leitores. Tal como havia acontecido com o manuscrito, também o livro introduz novas modalidades de leitura. Tal como refere Luís Filipe Teixeira, de uma leitura intensiva, cujo principal objectivo era a transmissão de conhecimento, nomeadamente religioso, passou-se a uma leitura extensiva, onde tudo era lido avidamente (Teixeira 5). [v]

O livro alterou também por completo os conceitos de autoria e direitos de autor. Com a invenção da impressa surge também um sentimento de posse. Tudo o que se escreve pertence a um autor, que depois de publicar os seus escritos passa a ser reconhecido como dono e consequentemente é-lhe devida autorização para reprodução da sua obra. Este aspecto levanta outra questão, tão importante, quanto inquietante, em relação ao livro e o que este representa. Após a publicação de um livro, o que fica é a sensação de que algo está acabado, está completo. O autor escreveu tudo o que queria escrever e termina o seu texto. Este conceito de “closure” revela-se inquietante, pois a nossa experiência como leitores diz-nos que um livro vai sempre para além do texto que temos à frente, dependendo a distância por nós percorrida, das nossas próprias vivências e experiências. Um acto de leitura nunca é um processo isolado, independente de tudo o resto. Transportamos para o livro que estamos a ler um pouco de nós e das nossas vivências pessoais. O autor, através da sua escrita, conduz-nos por labirintos que vamos desbravando, sem ter que obrigatoriamente encontrar a saída. Muitas vezes, não encontrar essa saída torna-se tão ou mais estimulante que chegar ao previsível. Por outro lado, o próprio autor pode condicionar os nossos percursos nesse labirinto e forçar uma saída que não desejamos. “However, even a novel which does not resolve the enigma that opens its plot […] still ends – even the most radical act of incompletion may invest a text with a sense of completion and wholeness” (Keep, “Closure”). Uma narrativa existe no tempo, mas o discurso narrativo exige um começo e um fim; é um acto finito, independentemente de um final fechado ou aberto. O livro coloca perante o leitor um texto que, embora esteja aberto a inúmeras interpretações, não pode ser alterado, pois o que está escrito é fixo e imutável. Esta característica, embora limitadora do papel do leitor, deve sobretudo ser vista como uma vantagem para a transmissão do conhecimento. Quais seriam as possíveis consequências para o conhecimento da história e de tudo o que nos rodeia, se o conteúdo dos livros pudesse ser alterado?

Parece-nos importante reflectir sobre o papel do livro, como objecto palpável, para este conceito de “closure”. O livro apresenta-se como uma entidade hierarquizada, que respeita determinadas convenções, não só relativamente à sua publicação, passando obrigatoriamente pelo autor, pelo editor, até chegar ao leitor; mas também quanto à sua forma: o título; a introdução, que marca o início; a paginação, que indica a sequência dada pelo autor; os capítulos; a formatação, que delimita o espaço das páginas e até a própria encadernação. Todos estes elementos contribuem para a materialidade do livro e ditam ao leitor o percurso a seguir: não se imagina um livro a começar pela conclusão ou pelo último capítulo. Os marcadores textuais estão todos presentes, e inverter a sua ordem representa não só ir contra a vontade do autor, mas igualmente importante, significa infringir as convenções. Esta linearidade do texto impresso é claramente um dos aspectos que mais distancia o livro do seu “rival” hipertexto. [vi]

O livro estabelece novas regras na relação autor – leitor. Ao contrário do que acontecia na cultura oral e do manuscrito, a impressa vem introduzir um fosso intransponível entre o autor e o leitor. Como havíamos referido anteriormente, o ouvinte podia intervir nas locuções do emissor, interpelando-o e alterando assim a linearidade do discurso. O texto impresso, pelo distanciamento que provoca entre ambos os intervenientes, anula qualquer tipo de intervenção e interpelação junto do autor. Este apresenta-se como autoridade máxima e solitária da sua obra. Estabelece com o texto uma relação única de criador. Tal como nos é sugerido pelo poeta Manuel António Pina, no seu poema “Emet”:

Porque é de noite e estamos ambos sós,

leitura e escritura,

criador e criatura,

na mesma inumerável voz. (Pina 51)

O autor coloca no texto a sua voz e o texto por seu turno coloca junto do leitor a voz do seu autor. A obra escrita projecta-se, assim, junto do leitor com essa mesma autoridade, estabelecendo verdades universais, absolutas e críveis. Veja-se, a título de curiosidade, a expressão idiomática inglesa “by the book”. Fazer algo “by the book” significa fazer algo respeitando as regras e/ou leis existentes. Onde estão definidas essas regras? – Num livro. Será que num futuro próximo teremos a necessidade de criar uma expressão equivalente que descreva as regras ditadas pelo computador?

 

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2. O Computador e o Hipertexto: O Conhecimento na Era Digital

 

A digitalização dos textos e a sua estruturação em hipertexto dissolve quer os limites do livro e dos demais formatos impressos, quer os limites da biblioteca enquanto ordenação das figurações do mundo. (Portela 2003)

Ao questionar um grupo de alunos de Inglês que frequentam um décimo ano de escolaridade numa escola pública sobre o invento mais importante de sempre, a resposta foi unânime e não se fez esperar: o computador e a Internet. Esperávamos diversas respostas, entre as quais as que foram tão veemente dadas, mas não podemos negar alguma estupefacção, principalmente tendo em conta que se trata de uma escola nos arredores de Coimbra, em que a maior parte dos alunos não tem acesso a um computador em casa, (muito menos com ligação à Internet). Servimo-nos desta pequena experiência para evidenciar a inegável importância adquirida pelas novas tecnologias de informação nos nossos dias. Todos reconhecem o seu inestimável valor e apressam-se a enumerar as suas vantagens, mesmo não sendo utilizadores. Torna-se,  pois, curioso constatar que o mesmo não acontece com o livro impresso – lamentavelmente nem todos os que não dependem da companhia dos livros, os vêem como transmissores de conhecimento e lhes atribuem o devido valor.

O surgimento e rápido desenvolvimento desta era digital, tal como havia acontecido com a imprensa, apresenta-se como uma nova revolução, nomeadamente no armazenamento e transmissão de informação e na comunicação. Um dos conceitos mais relevantes nesta nova era e que, em nosso entender merece ser objecto de reflexão, pois apresenta-se como a forma textual específica do computador, é o hipertexto. Este conceito aparece directamente ligado a Theodor Nelson, que cunhou o termo em meados da década de 60 e que o descreveu como:

 […] non-sequencial writing – text that branches and allows choices to the reader, best read at an interactive screen. As popularly conceived, this is a serious of text chunks connected by links which offer the reader different pathways [vii] . ( Theodor Nelson, Apud Landow 3)

Juntamente com o conceito de hipertexto, surge o termo hipermédia (hypermedia) – para além dos textos, temos outras formas de representação, como a imagem e o som, aos quais se pode juntar animação.

Uma das características do hipertexto a salientar é a completa ausência de linearidade. Ao contrário do que acontece com o livro, o hipertexto apresenta-se como uma entidade infinita. Os conceitos de início e fim parecem diluir-se por completo. O inquietante conceito de “closure”, que tivemos oportunidade de discutir anteriormente, não tem lugar no hipertexto, pois este “[…] helps underscore the limitations of traditional forms of closure and elicits new forms of pleasure, pleasure not from the inevitability of an ending, but from the multiplicity of openings” (Keep, “Closure”). De facto, um dos aspectos mais inovadores e fascinantes do texto electrónico é o tipo de leitura facultada ao leitor, através da interactividade. Somos convidados a transitar de um link para outro, depois para outro, depois para outro, … num percurso infindável e descontínuo. O ponto onde havíamos começado a nossa “caminhada” pode agora estar completamente perdido. Arriscamos afirmar que dificilmente nos é permitido traçar dois trajectos completamente iguais, neste gigantesco labirinto chamado Internet. Utilizamos o termo “permitido” não arbitrariamente. O hipertexto, ao mesmo tempo que faculta ao leitor uma leitura descontínua, e lhe fornece um sentimento de liberdade, condiciona as suas escolhas e o seu percurso. Podemos argumentar que só acedemos a determinado link inserido no texto por vontade própria, mas na realidade, pelo simples facto de estes links estarem presentes no texto já estão a condicionar o nosso acesso. São, por assim dizer, convites irrecusáveis. Embora este reparo possa parecer negativo, de facto não o é. Estes convites, como lhes chamámos, permitem aumentar o nosso conhecimento e ter acesso a novas informações. Enquanto que o livro tende a surgir categorizado e fisicamente circunscrito a uma área do conhecimento, seja na livraria, na escola ou na biblioteca, o texto electrónico permite a interdisciplinaridade.

Outro aspecto igualmente importante prende-se com a forma como chegamos a esses conhecimentos: na sua grande maioria são pesquisas pessoais que não são auto ou hetero – impostas, mas que são fruto do mero acaso. Não podemos descurar o facto de o livro também facultar a ligação a outros assuntos, embora seja muito auxiliado pela própria natureza da mente humana. [viii] Ao ler um determinado livro, quer seja através de referências do próprio texto, quer seja através  de características pessoais daquele que lê,  o leitor é muitas vezes confrontado e convidado a afastar-se do texto que tem à frente e procurar outras referências afim de ter acesso a outros conhecimentos. Estes outros conhecimentos estarão, por ventura, em outros livros, que estarão, por ventura, em outras bibliotecas, que estarão, por ventura numa outra cidade … mas que afinal até estão disponíveis em linha!

O hipertexto permite igualmente estabelecer uma relação autor / leitor diferente daquela que se estabelece através do livro. Ao conceito de distanciamento, opõe-se o conceito de quase presença, não espacial, mas temporal. O autor adquire um novo estatuto: ele é simultaneamente autor e editor dos seus textos. Toda a hierarquia associada ao processo de publicação de um livro desaparece por completo.

O conceito de publicação é radicalmente alterado. Publicar na era digital significa colocar um texto disponível  em linha, e não a reprodução em massa de uma dada obra. Quanto ao leitor, um novo papel se impõe. Este deixa de ser somente aquele que lê, que interpreta e que aprende com o texto, mas pode igualmente tornar-se autor. A partir de um dado texto, é-lhe permitido cortar, copiar, apagar, reescrever, enfim proceder a um rol de actividades que lhe permitem a autoria de um dado texto, mesmo que as ideias nele contidas não sejam originariamente suas. Outro aspecto de extrema importância se verifica. Na grande maioria dos textos publicados em linha, o leitor tem acesso a um endereço de correio electrónico, para o qual pode enviar as suas reacções ao que acaba de ler, podendo posteriormente obter resposta. Cria-se assim uma estreita ligação não só entre quem escreve e quem lê, mas igualmente uma relação entre quem escreve, quem lê e o que é lido. Estamos perante uma das características do hipertexto que o aproximam da cultura oral dos primórdios da existência humana – a estrita relação entre autor e leitor e a interferência do segundo no trabalho do primeiro.

Com esta questão uma outra de extrema relevância se coloca: os direitos de autor. Também aqui o hipertexto se aproxima da realidade do manuscrito, pois por vezes torna-se difícil determinar quem escreveu e o que escreveu.

As questões da autoria e da fidelidade da reprodução dos textos, quer no passado com a passagem do manuscrito para o texto impresso, quer hoje em dia com a passagem do texto impresso para o computador, sempre foram fruto de inúmeras teorizações e preocupações para a crítica textual. Contudo, a era digital parece estar a contribuir de alguma forma para um novo tipo de solução para o problema. As novas tecnologias permitem, na opinião de alguns críticos textuais como John Lavagnino e Jerome McGann, proceder ao estudo da história e forma dos textos. A edição electrónica permite seleccionar, comparar e construir novas versões do texto literário, bem como acrescentar outro tipo de informação sobre esses textos, que havia sido deixada de fora, pois na versão impressa torna-se incomportável reproduzir tudo. Para este tipo de trabalho contribuiu grandemente uma das características da edição electrónica - as hiperligações. Outro aspecto relevante é a possibilidade de editar não só os textos, como também as imagens que lhe estão associadas.

Poderemos tomar como exemplo alguns arquivos em linha que tivemos oportunidade de consultar, o Arquivo de Blake, o Arquivo de Rossetti e o Arquivo de Emily Dickinson (todos ainda em construção).

O conceito de arquivo merece-nos alguma atenção: por arquivo em linha entende-se a publicação de um conjunto de documentos relativos a uma dada obra. Este conceito distingue-se do conceito de edição, pois por edição entende-se a publicação de uma obra, num dado momento, e que adquire uma forma particular. Podemos ter várias edições de uma só obra, mas num arquivo poderemos ter todas essas edições agrupadas. Para além disso poderemos igualmente ter acesso a outro tipo de publicações, nomeadamente textos até então desconhecidos, pois nunca haviam sido publicados, quer do autor da obra em questão, quer de outra origem, mas que estão intimamente relacionados com essa obra. A grande vantagem destes arquivos em linha é, como já tivemos oportunidade de referir, não só a de reunir e dar a conhecer diferentes versões, mas também termos a possibilidade de comparar as diferentes edições. Neste arquivo é permitido ao leitor ter acesso à obra de Blake, nomeadamente aos textos e iluminuras, mas também a uma bibliografia completa do autor, são-lhe fornecidas hiperligações para outras pesquisas, sítios relacionados com o arquivo, bem como informações sobre as actualizações do arquivo e ainda a possibilidade de entrar em contacto com os responsáveis pelo mesmo.

Uma das questões que podemos colocar é qual o interesse de um arquivo deste género e a quem pode interessar? Na resposta a esta questão reside uma das inesgotáveis potencialidades do hipertexto. A transmissão e geração de conhecimento. É por demais evidente o contributo do arquivo de Blake para estudantes e estudiosos de Literatura Inglesa, mas cingir a sua importância a este grupo de pessoas, é negar as virtualidades do hipertexto e do seu funcionamento através de associação de palavras. Uma qualquer pessoa, a meio de uma pesquisa na Internet, pode por acaso entrar no arquivo de Blake. Mesmo não sendo conhecedor de Blake e da sua obra, pode a título de curiosidade navegar no sítio, atraído, eventualmente, mais pelas diferentes iluminuras, do que propriamente pelos textos. Estamos, pois perante um enriquecimento cultural dessa pessoa. Numa biblioteca o mesmo não acontece. Ao pesquisar determinado assunto, vamos procurar apenas os livros que nos interessam, e esses livros, embora possam remeter para outras fontes,  estas estarão relacionadas com o assunto que inicialmente gerou a nossa pesquisa e não conduzirá a campos completamente distintos.

O hipertexto é, como tivemos oportunidade de verificar, uma excelente forma de aprender, mas pressupõe diferentes formas de o fazer. De facto o que tem vindo a acontecer ultimamente é uma revolução no campo do ensino-aprendizagem. E a tendência futura é que estas revoluções sejam ainda maiores. As novas tecnologias de informação revolucionaram por completo a forma como se aborda o trabalho e a investigação académica. O contacto que é possível estabelecer entre diferentes investigadores de diferentes partes do mundo em tempo real permite a total troca de saberes e partilha de experiências impensável há umas décadas atrás. As vantagens quer para os participantes quer para as instituições de ensino que estes representam são enormes. Esta troca de partilhas pode mesmo acontecer fora dessas instituições, através de sítios que existem à custa da colaboração de diferentes estudiosos de diferentes áreas e nacionalidades. Refira-se como exemplo, o sítio denominado “Ciberscópio”. Colaboradores de diferentes áreas do saber colocam os seus textos em linha, retirando às instituições de ensino, nomeadamente as universidades o monopólio do controlo do saber. Assiste-se no presente ao aparecimento de “universidades virtuais”, a partir da conexão de diferentes departamentos de ensino, que contribuem  para a divulgação do saber em linha. Adam Piette, no seu artigo “The Opening of the Field: IT and English Studies”, refere um projecto que está a ser desenvolvido actualmente por Robert Clark, e que se denomina de “University-English”, que visa reunir informação dos diferentes departamentos de Estudos Ingleses no mundo.

O hipertexto contribui igualmente para a redefinição dos papéis desempenhados por professores e alunos. Relativamente ao professor, figura a quem associamos autoridade e que sempre foi tido como o detentor absoluto do saber, o hipertexto redefine o seu papel “[…]  by transferring some of their power and authority to students. This technology has the potential to make the teacher more a coach than a lecturer, and more an older, more experienced partner in a collaboration than an authenticated leader. (Landow 219) O professor apresenta-se sobretudo como um facilitador de acesso à informação, alguém que está sempre disponível, sobretudo através do endereço electrónico, para acompanhar a aprendizagem. De facto, os “horários de atendimento” dos professores começam a ser coisa do passado. Cada vez mais alunos e professores comunicam via correio electrónico, facto que contribui para um maior desenvolvimento de relações humanas, por mais paradoxal que esta realidade possa parecer.

Quanto ao aluno, o hipertexto “[…]promises new, increasingly reader-centered encounters with text. […] [E]xperiencing a text as part of a network of navigable relations provides a means of gaining quick and easy access to a far wider range of background and contextual materials than has ever been possible with conventional educational technology. (Landow 225) Dada a vastíssima oferta de materiais disponíveis em linha, prontos a serem consultados e utilizados, o aluno é também indirectamente “ensinado” a lidar com o excesso de informação e a seleccionar o que realmente é importante. Isto pressupõe, na opinião de Landow, e com a qual concordamos em absoluto, um desenvolvimento da capacidade crítica do aluno, bem como uma maior apetência par estabelecer relações entre os diferentes materiais e relacionar conhecimentos.

Uma outra questão que se levanta em torno do hipertexto é a imaterialidade dos textos, e que parece criar, junto de muitos, sentimentos nostálgicos em relação ao livro. Ao contrário do que acontece com o livro, o hipertexto não obriga a uma linearidade e inclusão num determinado número de páginas. O leitor vai-se movimentando no texto sem obrigatoriedade de seguir um determinado caminho. Ao contrário do livro, que se nos apresenta com uma forma específica, fixa, imutável, o hipertexto é completamente volúvel. O leitor pode escolher e atribuir ao texto diferentes configurações: desde o tamanho, ao tipo de caracteres, passando pela cor e pelo layout da página. Ao leitor não só é permitido proceder a alterações em termos do conteúdo, no sentido em que pode fazer o que vulgarmente chamamos “copy / paste”, mas também alterar a forma do texto no ecrã.

Não é só ao leitor que o hipertexto permite novas e diferentes utilizações dos textos. Também o autor tem à sua disposição mecanismos que lhes permite criar novas formas de escrita e de textualidade, alterando radicalmente o conceito normalmente associado ao livro -   o que interessa é o conteúdo, a forma não é relevante para a compreensão do texto. Um dos exemplos do aproveitamento deste potencial do hipertexto é o poeta brasileiro Augusto de Campos, com a sua poesia visual. Em meados da década de noventa, Augusto de Campos começou por aplicar o software HTML aos seus poemas visuais, recorrendo a programas de animação que permitem alterar o tamanho dos caracteres, alterar a cor e a textura, bem como adicionar movimento, criando assim, novas possibilidades de leitura. Fazendo a comparação entre os poemas de Augusto de Campos no livro e os mesmos poemas publicados em linha, apercebemo-nos da importância do  hipertexto para a criação de novas formas de leitura e para transformar o  conceito de textualidade.

 

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3. O Livro e o Computador: Que Futuro?

 

Despite what is sometimes said, electronic devices are not eliminating printed books but are actually producing more of  them. (Ong 61)

Here we are for the last time face to face

Thou and I, book,

Descansa agora em paz, e tu, leitor,

Não peças mais ao seu cansado coração (Pina 50)

Estamos pois perante uma questão que é tão pertinente, quanto inquietante. Qual o futuro do livro? Terão as premonições ficcionais de Isaac Asimov fundamento?

A História tem-nos presenteado com diversos exemplos em como o surgimento de algo novo provoca inevitavelmente ansiedade, angústia e medo. Medo do novo e sobretudo de tudo aquilo que este representa: mudanças num estado de coisas ao qual nos habituámos e do qual não queremos abdicar. Mas a História ensinou-nos que a instauração de algo novo requer igualmente um período de adaptação e de co-existência com o velho. É esta realidade que enfrentamos hoje em dia na relação entre o livro e o computador. As novas tecnologias de informação trouxeram uma terceira revolução [ix] nas diferentes formas de comunicar, armazenar e transmitir o conhecimento. Como tal, provocaram desconfiança e motivaram críticas, por vezes infundadas.

“O meu filho passa o tempo em frente ao computador e não liga nada aos livros”, lamentava-se a mãe de um aluno do ensino secundário quando confrontada com o baixo rendimento escolar do seu educando. Não podemos deixar de concordar com esta mãe, mas por outro lado uma análise mais cuidada do problema se impõe. O computador e todas as suas funcionalidades apresentam-se claramente como adversários do livro, ou não estaríamos perante algo inovador e novo. Por outro lado, o livro, que aparece como o que é usual e velho (por oposição a novo), parece não despertar qualquer interesse. Livro, neste contexto, como compêndio, não uma obra literária. Conscientes como estamos do crescente desinteresse dos jovens perante a escola e o que nela se lhes ensina, conscientes como estamos das inúmeras vantagens do hipertexto, parece-nos fundamental que algumas transformações ocorram a nível da educação e dos métodos de ensino. Estas transformações não implicam o desaparecimento do livro, mas antes uma interligação entre o livro e o computador.

Torna-se, no entanto necessário, desmistificar a ideia, muito presente ainda entre alguns grupos sociais, que o computador é um brinquedo, e tornar claro que, tal como Umberto Eco refere, “[t]he main feature of a computer screen is that it hosts and displays more alphabetic letters than images. The new generations will be alphabet and not image – oriented” (Eco 539). O computador é “uma máquina de conhecimento” e pode desencadear processos cognitivos de extrema importância. A apetência dos jovens para as novas tecnologias é incontornável, são muitas vezes autodidactas e desenvolvem capacidades incríveis, muitos mesmo ao nível da programação. Mas torna-se curioso como muitas das instruções e regras que conduzem a este estádio provêm do livro.

Tal como aconteceu com a imprensa e com o livro nos primeiros séculos, não podemos afirmar que com o computador estejamos perante a democratização do acesso ao conhecimento e à informação. A percentagem de pessoas com acesso ao computador e à Internet é mínima, continua a pertencer a uma grupo privilegiado – aos que têm poder económico suficiente para “sustentar” este meio.

Outro aspecto relevante para a co-existência e ligação entre o livro e o computador prende-se com muito do material disponível em linha. Já anteriormente tivemos oportunidade de reflectir sobre os arquivos em linha. Grande parte da informação e obras contidas nestes arquivos advêm do livro.

O século XX ficou marcado por uma crescente preocupação em termos ambientais. O computador e a sua capacidade de armazenamento de informação pode contribuir para a redução da quantidade de papel gasto e, igualmente importante, para a economia de espaço. Por outro lado, o livro permanece como símbolo cultural, objecto pequeno e facilmente transportável, que não depende de pilha, nem corrente para poder ser aberto e lido.

 

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Conclusão

 

Analisadas algumas características relativas ao livro e ao computador, impõe-se o registo das principais conclusões.

Pensamos que o livro não é nem será num futuro próximo um objecto obsoleto. Acreditamos, contudo, que as novas tecnologias de informação continuarão a avançar a ritmos alucinantes, mas que não irão dispensar por completo o livro. O valor cultural de cinco séculos associado ao livro não será fácil de destronar. Todos os livros que contemos nas nossas bibliotecas pessoais permanecerão lá e todo o seu conteúdo permanecerá dentro de nós. Esta é pois a questão fulcral: não podemos entender o livro apenas na sua forma material. Esta, embora possa de facto vir a desaparecer, não leva consigo as vivências, as experiências, as sensações provocadas pelo seu conteúdo.

Muito caminho há ainda a percorrer até que o computador se possa assumir como entidade máxima na transmissão de conhecimento. O computador e os meios de comunicação por ele fornecidos, como o correio electrónico e os forums ou “chat rooms”, trouxeram de novo a cultura do oral para o nosso quotidiano. Mas uma cultura oral que, curiosamente, depende da escrita. O tipo de linguagem usada nestes espaços está repleta de marcas de oralidade. Através da escrita estamos em contacto oral com alguém que está do outro lado do planeta, em tempo real. Jamais se poderia pedir ao livro tal funcionalidade.

Se ao computador cabe o facilitar da comunicação através de um aligeirar do uso da linguagem, ao livro cabe manter a qualidade da escrita e da linguagem nos limites aceitáveis, sem cair na total anarquia do uso da mesma.

Continuaremos, pois a ser como “Alice in Wonderland”, entre o real e o imaginário. Quer o livro quer o computador continuarão a sugerir coelhos brancos que vamos perseguindo até mergulhar no labirinto das palavras, onde podemos aumentar ou encolher desmesuradamente de tamanho, consoante a qualidade das histórias que lemos e consoante os percursos que escolhemos. Conseguiremos encontrar uma saída? O poder das palavras o dirá.

 

Março de 2004

Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

© Maria da Graça Neto, gneto@sapo.pt

 

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Notas

[i] Ênfase nosso.

[ii] Ênfase nosso.

[iii] Desta forma o hipertexto parece estar a voltar às origens, como teremos oportunidade de verificar mais adiante.

[iv] A leitura oral continuou a ser prática comum, embora sobretudo como forma de convívio entre as pessoas.

[v] Luís Filipe Teixeira refere o termo alemão “Lesewut”, que traduz como “fúria de ler”. Passa a existir uma vontade incontrolável de ler o que é publicado. Salienta ainda que, em meados do século XVIII, esta “Lesewut” é bastante facilitada pelo aumento da quantidade da tiragem dos livros, a diminuição do tamanho e redução do preço destes,  pelo desenvolvimento  e aumento da produção de jornais e também pelo surgimento das bibliotecas itinerantes e de aluguer.

[vi] Teremos oportunidade de voltar e desenvolver este assunto mais adiante.

[vii] Ênfase nosso.

[viii] A mente humana funciona por associação. A uma ideia ou a um conceito associamos outro. Este facto levou a que nos anos 40 Vannevar Bush criasse o conceito “memex”, ou seja, “memory index”. Trata-se de um instrumento que permite o armazenamento de ligações entre vários tipos de informação, aos quais se pode aceder de forma rápida.

[ix] A primeira seria a invenção da escrita e a segunda a invenção da imprensa.

 


Bibliografia e Webografia

Asimov, Isaac. “The Fun They Had” (1951) in http://www.aber.ac.uk/media/Documents/SF/funtheyhad.html (data de acesso: 15 Set.2003)

Bebiano, Rui (1999). “A Biblioteca Errante: Itinerários da leitura na era digital”. In Revista de História das Ideias.Vol.20, pp. 471-494.

Bolter, Jay David. “Electronic Signs”, in http://euphrates.wpunj.edu/faculty/yildizm/sp/w_abstract/ElectronicSigns.html (data de acesso: 12 Março 2004)

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