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O Papel das Edições e Arquivos Electrónicos na Utilização e Conceptualização dos Textos Literários

Ana Catarina Margarido Ferreira


 

índice | contents

1. Introdução

2. O papel das edições electrónicas na utilização e conceptualização dos textos literários

Bibliografia e webografia

 


1. Introdução

 

O surgimento de edições e arquivos electrónicos trouxeram ao panorama das Humanidades os ventos de mudança que acompanham as novas tecnologias. Com a aproximação destas duas áreas de conhecimento, até então vistas como entidades isoladas, assistimos a uma reconceptualização da edição de textos literários.

Partindo desta premissa, neste trabalho pretendo contemplar o papel das edições e arquivos electrónicos na utilização e conceptualização dos textos literários. Irei dedicar-me ao conceito de edição e à sua actualização na tecnologia digital, atentando também ao papel do leitor como editor, receptor e interveniente no processo de recriação e estudo dos textos. Para isto contarei com algumas contribuições de autores pioneiros e proeminentes no estudo da edição em hipertexto, tais como Jerome McGann e George Landow.

Num mundo em que muitos parecem ver o livro como uma realidade em breve obsoleta e em que muitos professores vêem o seu lugar ameaçado por uma tecnologia que desconhecem em grande parte, pretende-se que, ao invés de olhar para a tecnologia digital como uma sombra que arrasta a penumbra ao panorama do ensino e da aprendizagem, especialmente no que respeita às Humanidades (a que me dedicarei com mais atenção), se coloquem estes novos meios ao seu serviço, contribuindo para o enriquecimento do estudo e da produção literária. O livro, como instrumento e objecto de estudo, tem sido potenciado pela revolução digital.

 


2. O papel das edições electrónicas na utilização e conceptualização dos textos literários

 

Computerization allows us to read “hardcopy” documents in a non-real, or as we now say a “virtual”, space-time environment. This consequence follows whether the hardcopy is being marked up for electronic search and analysis, or whether it is being organized hypertextually. When a book is translated into electronic form, the book’s (heretofore distributed) semantic and visual features can be made simultaneously present to each other. A book thus translated need not be read within the time-and-space frames established by the material characteristics of the book. If the hardcopy to be translated comprises a large set of books and documents, the power of the translational work appears even more dramatically, since all those separate books and documents can also be made simultaneously present to each other, as well as all the parts of the documents.

JEROME MCGANN, “The Rationale of Hypertext”, 1996, in http://www2.iath.virginia.edu/public/jjm2f/rationale.html

 

In building digital editions, McKenzie’s idea of social character of physical objects must be held fast. To define a document as a text, as SGML/TEI does, is to follow the rationalist line of textual/bibliographical thinking that McKenzie’s work fractured. By contrast, regarding textual documents as physical objects prepares you to develop mechanisms that expose their status as social objects. This is true because physical objects, as McKenzie argued, bear to manifest signs of how and where and by whom they were made. In addition, and reciprocally, physical objects signal their immediate social condition. We can think about ideas and take our solitary way with them. If we fetishize the physical object, we can do the same. But there the move is less easily made because physical objects carry manifest signs of their public and social relations. They have to be handled – that’s to say, used and interpreted – with others, in institutional space and in physical ways.

JEROME MCGANN, “Textonics: Literary and Cultural Studies in Quantum World”, 2002, in http://jefferson.village.virginia.edu/%7Ejjm2f/old/textonics.html

Tal como a descoberta da tecnologia de impressão por Gutenberg foi revolucionária e despoletadora de inúmeras mudanças a nível social e económico que ainda hoje se fazem sentir, também o meio electrónico causou e continua a causar um impacto semelhante, gerando a controvérsia que as grandes mudanças produzem. Há alguns que vêem o domínio electrónico como a oportunidade de explorar territórios até então desconhecidos e outros que o vêem como uma entidade apocalíptica com poderes maléficos, capazes de destronar o saber livresco e de tornar obsoletos aqueles que se servem dos livros e vêem neles uma forma de vida e de experimentar o mundo. A imagem dos livros reduzidos a relíquias cobertas por espessas camadas de pó e das estantes como uma peça de mobiliário cada vez mais dispensável faz parte de algumas das profecias dos mais renitentes. A naturalização do livro foi gradual e a sua presença determinante no espaço físico e social é inegável nos dias de hoje. A sua materialidade é algo a que nos habituámos e o computador ameaça esta característica física fundamental que nos permite saborear os mundos de alguém pelo simples desfolhar de uma página. Por muito que acredite nas potencialidades deste novo meio, confesso que ainda não me imagino a enroscar-me à lareira a ler um bom livro projectado num ecrã de computador, por mais pequeno e compacto que seja. Há um prazer e uma certa segurança que a materialidade dos livros nos oferece que não encontramos ainda no computador, mas também é certo que este último nos fornece ferramentas que têm vindo a alterar a nossa concepção do livro enquanto objecto físico e social, e até os processos de edição e publicação.

Observemos com mais atenção a questão da edição electrónica, que tem vindo a sofrer algumas alterações devido às possibilidades oferecidas pela tecnologia digital.

Segundo Elizabeth Eisenstein, a crítica textual foi uma actividade que precedeu e influenciou o surgimento do modo de conhecimento constituído pela ciência moderna. Nos séculos XV e XVI, os processos de edição dos textos anteriores em formato tipográfico consistiam na comparação de manuscritos, atentando às características físicas como o tipo de papel, o tipo de letra usado, onde foi escrito, quando e com que finalidade.Com textos como a Bíblia e outras obras realizados por autores medievais passaram a usar-se duas técnicas, a da recensão e a da emenda. A função da crítica textual na sua forma mais tradicional é detectar os fios de transmissão desde o documento original e tentar restaurar o texto o mais proximamente possível do original. Tal como W.W. Greg escreve no artigo “The Rationale of Copy-Text” em 1950, procura alcançar-se um texto que fique o mais próximo possível das palavras do próprio autor, ainda que se considere que seguir apenas uma das várias versões que os textos sofrem possa ser problemático. Isso leva Greg a defender a necessidade de combinar provas documentais com origem em várias fontes com a intuição do editor na fixação do texto.  Muitos dos problemas resolvidos na longa história da edição tipográfica, voltam no entanto a recolocar-se quando surge a possibilidade de edição digital.  Surge assim uma nova área de profissionalização com o aparecimento das edições e arquivos electrónicos, levando a repensar o papel dos mediadores na publicação e produção de textos.

Cada editor escolhe o que publica e fixa o texto depois de observar o corpus de opções que possui, tendo em atenção a autoridade relativa de cada uma das versões. Há dois movimentos que decorrem do papel dos editores: aqueles que reconhecem a importância das alterações que estes levam a cabo e outros que vêem na sua intervenção uma alteração da intenção autoral. Com o surgimento do hipertexto e todas as ferramentas que oferece é possível efectuar-se outro tipo de crítica textual cujo objectivo não é fixar o texto excluindo todas as variantes. É precisamente isto que Jerome McGann pretende provar no artigo “ The Rationale of Hypertext” (1996), em claro trocadilho com o título de W.W. Greg em 1950. Segundo Jerome McGann,

Correlative with this position is the argument that no single editorial procedure – no single “text” of a particular work – can be imagined or hypothesized as the “correct one”, that there are many mansions in the house of editorial choices. The indeterminacy of the textual situation fluctuates in relation to the size and complexity of the surviving body of textual materials: the larger the archive, the greater the room for indeterminacy. And it must be understood that the archive includes not just original manuscripts, proofs, and editions, but all the subsequent textual constitutions which the work undergoes in its historical passages. (McGann 1991: 62)

O autor considera claramente que não existe um texto “correcto”, uma versão única, unívoca e fechada de um texto. No fundo, ele acaba por questionar os critérios para o estabelecimento de um copy-text, e o próprio conceito de copy-text reformulado por W.W. Greg. Os textos são claramente marcados por processos históricos que foram sofrendo ao longo do tempo e todas estas alterações têm um papel na forma do texto e na sua transmissão. Há textos que são publicados sem a chancela do autor, mas o caso torna-se mais complexo quando falamos de autores que foram alterando e até mesmo reescrevendo as suas obras de edição para edição, como foi o caso de Balzac, Dickens e Tolstoy, que criaram várias versões de um mesmo texto. Neste caso como é que se fixa uma única versão? Outros casos podem também levantar este tipo de dúvida, como por exemplo quando atentamos a uma peça teatral que tem uma versão de pré-produção, uma versão para representação e outra para ler. Todas estas versões podem ser revistas pelo autor e no entanto não deixam de ser versões de um mesmo texto. Qual seria neste caso o texto “correcto”?

As práticas de edição encaram o texto como um campo de intercâmbio comunicativo e o editor tem então o papel de conciliar as diferentes versões ou optar por uma delas, fazendo escolhas seguindo uma determinada orientação e não descurando os aspectos literários. O editor tem também de ser um crítico literário, pois tal como Philip Gaskell escreve “textual bibliography is based on the union of literary judgement with bibliographical expertise.” Segundo o argumento de McGann, no entanto, esta função de submeter as variações textuais ao juízo do editor decorre da lógica tipográfica que visa reproduzir um livro noutro livro. Sem essa racionalidade, e dispondo de uma tecnologia que transcende as limitações bibliográficas na quantidade e na estruturação da informação, é possível editar textos de outro modo.

O hipertexto permitiu recentemente a criação de arquivos e edições electrónicas que, para além de serem uma nova forma de produção textual, representam a possibilidade de editar diversas versões do mesmo texto agrupando-as dentro de um mesmo arquivo e facilitando assim o acesso e a comparação dos documentos, permitindo ao utilizador seguir determinados percursos de acordo com as suas necessidades e intuitos. A edição em papel, cuja principal finalidade é a produção de inúmeras reproduções da essência de um mesmo texto, coloca uma grande ênfase na imagem do texto enquanto entidade única, unívoca e final, que funciona como um modelo cultural e editorial. No entanto, quando uma obra tem um grande número de variantes torna-se praticamente impossível uma representação de todo o arquivo numa edição. Segundo George Landow, “this new conception of a more fluid, dispersed text, possibly truer than conventional editions, raises the issue can one have a scholarly edition at all, or must we settle for what Jerome McGann terms an archive – essentially a collection of textual fragments (or versions) from which we assemble, or have the computer assemble, any particular version that suits a certain reading strategy or scholarly question, such as “What version of Modern Painters, volume I, did William Morris read at a particular date and how did the text he read differ from what American Ruskinians read?”  (Landow 2000). Deste modo se suspende a noção, que tanto se procura atingir na edição em papel, da existência de um texto “correcto”.

As edições podem agora apresentar muitos textos e não somente um; todas (ou quase todas) as versões e não só algumas; qualquer comentário relevante e não só alguns. Agora é possível comparar os vários descendentes do texto, as suas diferentes versões à distância de um clique. Através da tecnologia digital torna-se possível criar edições de uma abrangência e precisão até agora impossíveis e também recuperar textos esquecidos ou negligenciados, colocando todas as versões existentes no mesmo pé de igualdade. Nas edições hipertextuais não é necessária uma subordinação de umas edições a outras. Todas estão no mesmo patamar e podem ser estudadas enquanto textos investidos de alguma autoridade. McGann atesta esta mesma ideia, no artigo “The Rationale of Hypertext”, ao escrever “Unlike in traditional editions, “hyper” editions need not organize their texts in relation to a central documentt, or some ideal resconstruction generated from different documents. An edition is “hyper” exactly because its structure is such that it seeks to preserve the authority of all the units that comprise its documentary arrays. In this respect a hyperedition resembles that fabulous circle whose center is everywhere and whose circumference is nowhere.” (McGann 1996) Os editores já não têm que lutar com o problema da intenção autoral ou dar prioridade a uma das várias versões dos textos, uma vez que podem incorporar diversas, permitindo deste modo aos leitores a escolha da mais apropriada para as suas finalidades e a experiência da variabilidade textual como uma propriedade da produção literária.

Para chamar a atenção as edições devem ser atractivas para o público e oferecer capacidade de resposta aos leitores. Algumas formas de levar a cabo esta tarefa consistem na adição de transcrições, comentários a cada verso ou passo, ferramentas que permitam comparar e ver várias versões do mesmo texto, motores de busca e, muito importante também, a criação de uma ferramenta que explique aos utilizadores como usar os mecanismos que coloca à sua disposição. Talvez desta forma e com a devida promoção e divulgação passe a existir um maior interesse, mesmo dos meios académicos, nas edições electrónicas.

Há outras características de carácter prático e físico que assumem também alguma importância na concepção dos novos processos de leitura, de escrita e de edição, como por exemplo o tamanho e a definição do ecrã. Quanto maior o ecrã, maior é a facilidade de ter mais janelas abertas e isto permite uma maior coerência e uma utilização mais proveitosa dos sistemas de anotação e comentário académicos. Também são determinantes a velocidade do sistema e o software que se possui. Nas edições em papel existem também outras limitações que não têm um impacto tão grande no meio electrónico, como é o caso da adição de anotações ou comentários. Para além de ter de se investir numa nova edição, o que implica um maior dispêndio de tempo e recursos económicos, as notas nunca podem ser tão alargadas como no meio digital. Principalmente no que se refere às edições académicas, esta funcionalidade abre possibilidades vastíssimas ao enriquecimento do estudo dos textos, já para não referir o facto de ser muito mais rápido e menos dispendioso.

Nas novas edições electrónicas o editor assume ainda um papel relevante na concepção do texto que o leitor tem ao seu dispor, bem como nas sugestões de percursos a seguir. Através das ligações estabelecidas em determinados passos do texto o leitor e investigador podem optar por seguir as instruções que o editor deixou no corpo textual, reconhecendo as relações inter e intra-textuais que este estabeleceu com outros documentos, comparando e construindo novos corpos de conhecimento. As ligações não podem ser colocadas ao acaso, mas devem sim obedecer a uma certa lógica estrutural e funcional. Esta nova forma de edição permite percorrer vários caminhos de forma não linear.

Segundo David Greetham (1994) e Peter Robinson (1997), até certo ponto toda a edição deve ser vista como conjectural e este último refere que podem dividir-se as edições electrónicas em dois grupos: o grupo que se rege por uma lógica “the more is the better” e um segundo grupo que caminha na direcção inversa de “less is better”. Segundo o autor, a primeira reporta-se ao tipo de edição e arquivo electrónico que para além de todos os livros e versões relevantes, pode ainda incluir registos sonoros e imagéticos pertinentes. Neste tipo de edição corre-se o risco de sobressair a quantidade e não a qualidade das ferramentas e material colocadas à disposição, especialmente no que concerne ao corpo textual. O segundo grupo diz respeito ao tipo de edição e arquivo em que o editor procura identificar um domínio textual específico e pretende apresentá-lo e um público pré-estabelecido com o máximo de rigor e exactidão. Segundo o autor este segundo grupo é possivelmente mais eficaz para a compreensão do que o texto é e de como deve ser estudado, sendo privilegiada a qualidade do material disponível em detrimento da quantidade. De facto, penso que esta maior especificidade conduz a um conhecimento mais aprofundado do texto em questão, um factor fundamental para qualquer investigador e cauto estudioso, mas os textos disponíveis em arquivos e edições electrónicas cuja ênfase é colocada na quantidade podem também representar um desafio para o investigador, que vai ter de desbravar o corpo de conhecimento estabelecendo os seus próprios percursos, mas correndo também o risco de ser induzido em erro por materiais de qualidade duvidosa. Com este novo tipo de edição o próprio leitor assume o papel de editor e crítico literário. A responsabilidade do editor passa também para o leitor no momento em que lhe é permitido escolher a versão que lhe interessa consoante as suas finalidades. Os textos em formato digital têm o poder de conceder autoridade ao leitor.

No entanto creio que, apesar desta parcela maior de responsabilidade atribuída ao leitor, todo este processo tem ainda uma certa componente que acentua o distanciamento do leitor do que está a ser produzido e estudado num espaço e tempo virtuais. Como Sven Birkerts escreve “information in an electronic medium, remains external – something to be stored and manipulated rather than absorbed”.  Parece que mesmo agora a imaterialidade do texto electrónico lhe confere uma certa desumanidade que leva a um processo de resistência e muitas vezes de alguma desconfiança por parte do utilizador.

Para que o arquivo seja visto por todos da mesma forma é necessário um sistema de codificação comum. Uma marca fundamental das edições em formato digital é o sistema de codificação da informação, num código que se adapte aos vários formatos e que mantenha inalterada a informação independentemente do tipo de computador que o utilizador tem ao seu dispor. Em 1987 um grupo de académicos da área dos arquivos e pesquisa reúne-se com o intuito de criar um código padrão para os textos electrónicos e surge então a Markup Language. A emergência da Text Encoding Intiative (TEI), que pretendia desenvolver uma linguagem que se adequasse a diversas plataformas e software, e da Standard Generalized Markup Language (SGML) [donde provém a linguagem HTML (Hypertext Markup Language)],providencia este sistema e a criação de organismos, como foi o caso da Model Editions Partnership, que ilustra o crescente reconhecimento da relevância da existência de standards, padrões de codificação comuns para se assegurar um trabalho editorial responsável. De acordo com Jerome McGann,[t]hrough this mediation by a set of codes, the computer can process human interpretation.” (McGann 1996, in <http://www2.iath.virginia.edu/public/jjm2f/rationale.html>)

Outro traço importante nas novas edições electrónicas é a inclusão das digitalizações de todo o material transcrito, o que só por si representa já um bom recurso académico. Contudo, mesmo com as digitalizações há que ter em atenção as reproduções pirateadas e sem grande qualidade que circulam em linha e que muitas vezes são motivadas por questões tão simples como a burocracia e a barreira dos trâmites legais, que dizem respeito aos direitos de autor e a cláusulas de utilização dos materiais com fins diferentes daqueles para os quais foram concebidos originalmente. A própria inclusão de imagens é ainda problemática e a criação de códigos e estruturas que permitam a sua representação enquanto parte integrante do texto e reconhecível em qualquer formato é imperativa. Mesmo no âmbito da impressão em papel não se torna rentável a edição e publicação de textos com muitas imagens, ou mesmo livros dedicados exclusivamente à imagem. O grafismo passou a adquirir uma valor cada vez mais relevante, especialmente desde o desenvolvimento dos media. William Blake foi um verdadeiro pioneiro no que diz respeito à aliança entre a imagem e o texto, podendo já sentir-se na sua obra o que viria a ser a essência e um dos objectivos do hipertexto. A impressão das iluminuras foi um obstáculo para Blake e para o reconhecimento do valor da sua obra, pois a concepção do texto e da imagem como um todo não foi reconhecida de imediato pelos editores.

Entre as várias vantagens que estas novas ferramentas hipertextuais oferecem estão a possibilidade de editar textos e organizar material de forma mais rápida, com acesso mais fácil, mas por enquanto ainda não a preços muito reduzidos, em particular em edições textuais extensas em CD, como acontece com o projecto dedicado a The Canterbury Tales. O acesso e o intercâmbio de informação com outros arquivos, centros de documentação virtuais e sítios diversos são também facilitados neste novo meio. Contudo a Internet congrega todo o tipo de informação e muitos dos conteúdos que oferece aos seus utilizadores não são dotados de grande qualidade ou mesmo autoridade enquanto informação de confiança.

O meio electrónico permite ainda dar acesso a textos que muitas vezes estavam vedados ao utilizador e verificar a intratextualidade de uma obra: “… the electronic medium provides an environment in which the relations between multiple versions of a text and between a text and its verbal, intelectual and visual parallels can also become more immediate.” (Shillingsburg 1999: 165.) As versões dos textos podem ser representadas na sua totalidade e comparadas, mas com muito mais rapidez. Finalmente podem editar-se livros com todas as marcas da sua materialidade e não apenas textos. Mas a quem se destinam estas edições e estes arquivos electrónicos? Isso dependerá da estruturação e dos níveis de complexidade da edição. Em geral, uma edição electrónica com um vasto corpus de materiais não é para principiantes que procurem simplesmente uma primeira leitura de um texto, mas antes para estudiosos e investigadores que pesquisem as áreas de estudo contempladas pelos arquivos e edições, e que pretendam um acesso rápido e eficaz a digitalizações e transcrições de documentos cujos originais estão dispersos e inacessíveis, recorrendo às ligações e funcionalidades dos hipermédia. Pela primeira vez um meio permite aos estudiosos o confronto remoto e em larga escala das diferentes versões textuais e das implicações que as diferentes formas podem acarretar.

As edições electrónicas podem representar, para além de uma grande oportunidade no estudo dos corpos de informação e no processo de democratização de acesso à informação, um risco. Como meio de publicação e edição traz incalculáveis vantagens como por exemplo custos de produção bastante mais reduzidos, como já referi previamente; um curto espaço de tempo entre a produção e publicação de um texto; uma grande capacidade de armazenamento e consequentemente de opções de consulta e selecção de informação; o acesso veloz à informação; um tempo de pesquisa bastante mais reduzido, em grande parte facilitado pelos processos de indexação e cruzamento da informação e das suas associações; a cada vez mais acentuada descida dos preços dos materiais hipertextuais, o que leva a uma divulgação e a um acesso cada vez mais alargado; a melhoria das condições ambientais pelo recurso cada vez menos frequente à impressão em papel de publicações que podem ser divulgadas no meio electrónico; a resolução de problemas económicos relativos à publicação de trabalhos académicos; a supressão de algumas fases implicadas no processo de edição e publicação do livro, o que incorre numa redução dos custos do produto final e a redução do tempo de investimento e de obtenção de lucro. No entanto, o aceleramento de todo o processo e a rapidez com que as coisas se processam também pode causar alguns problemas. Alguns dos riscos que se podem verificar consistem na inexistência de padrões comuns no sentido de regulamentar a propriedade; nos elevados custos de hardware e software numa fase inicial; na falta de capital para patrocínio dos projectos científicos que não podem ser financiados pelo Estado; na falta de interesse e arrojo criativo para editar e publicar em linha e a perda de empregos dispensáveis neste tipo de processo de edição e publicação. Com as edições electrónicas e novas formas de publicação surgem ainda outras questões que poderão ser pertinentes como o que sucederá com os processos de canonização de textos produzidos em formato digital?

São várias as vantagens e riscos que o meio electrónico traz aos domínios da edição, da publicação, leitura e escrita, mas a sua influência é já uma realidade que não se pode apagar e que vai continuar a marcar indelevelmente presença nos tempos vindouros. Para além da crescente facilidade de acesso e utilização das edições e dos arquivos electrónicos, estes conduzem também de forma gradual a uma nova concepção do texto literário. As barreiras rígidas que envolvem o texto impresso ganham uma nova dimensão no meio digital e permitem um estudo mais colectivo e descentrado do que até agora era possível. O próprio leitor passa a ser editor e a poder contactar com diferentes versões do mesmo texto sem estar preso a uma apenas, podendo assim contrastar os diferentes usos e processos históricos que materializaram os textos. Apesar de não gozar da materialidade a que estamos habituados, o novo meio parece trazer um grupo de inegáveis vantagens e uma nova vida ao livro enquanto espaço onde se cruzam mundos, influências, várias consciências editoriais e documentos da mais variada proveniência. O livro passa a ser entendido como um código complexo, um mundo metamorfoseado tecido por cruzamentos, associações e recriações.

 

Fevereiro de 2004

Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra

© Ana Catarina Margarido Ferreira, catarina.margarido@iol.pt

 

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Bibliografia e Webografia

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