DigLitWeb: Digital Literature Web

E-C


Edições Electrónicas

Odília Gaspar


 

índice | contents

Introdução

Do Códice às Edições Electrónicas

Edições Electrónicas /Arquivos Electrónicos: Como?

Edições Electrónicas/Arquivos Electrónicos: em que medida alteram a utilização e conceptualização dos textos literários?

Edições Electrónicas/Arquivos Electrónicos: Obstáculos

Conclusão

Bibliografia


 


1. Introdução

 

O que são edições electrónicas? Como são feitas? Para que servem? Trazem benefícios ou desvantagens? São estas algumas das perguntas com que nos deparamos quando somos confrontados com as edições electrónicas.

No entanto, antes de me debruçar sobre estas edições há que falar no códice, pensar no papel que este desempenhou na sociedade, desde a primeira vez que um exemplar foi impresso até aos nossos dias. Mas igualmente importante será pensar no futuro que este poderá, ou não, ter.

Se a evolução e o progresso levou à natural transição do manuscrito para o códice, a transição do livro para a edição electrónica será igualmente fácil. Porém, tal assunção não traduz aquilo que presenciamos, pelos menos não para já. Muitos são os problemas levantados pelas edições electrónicas, mesmo ainda em fases embrionárias. A sua construção, a sua organização, o acesso por parte dos leitores são apenas algumas das preocupações dos responsáveis por estes projectos futuristas.

Pretende-se com este trabalho dar resposta, ou pelo menos tentar, reflectir sobre as questões postas e os problemas levantados, fazendo alusão sempre que pertinente a edições electrónicas já disponíveis.

 

índice | contents


Do Códice às Edições Electrónicas

 

A invenção de Gutenberg constituiu um grande marco na história da humanidade. Em primeiro lugar, a cultura do manuscrito vigente até aí mudou radicalmente. A cópia dos livros já não demoraria semanas, meses ou até mesmo anos para ser concluída. Agora vários exemplares podiam ser produzidos ao mesmo tempo. Assim, assiste-se a uma rápida difusão dos mais variados livros, que até aí só podiam ser adquiridos por famílias mais abastadas, pelo que ao mesmo tempo que o número de livros aumenta, estes tornam-se mais acessíveis ao público em geral, uma vez que o seu valor decresce. Trata-se da massificação da leitura que, até ao século XIX, irá permitir a disseminação de culturas a nível nacional, internacional e/ou mundial. Paralelamente a este fenómeno, e também decorrente desta invenção, verifica-se um notório avanço na ciência. Os investigadores poderão tirar partido do conhecimento de investigadores anteriores a eles e desenvolver os seus projectos a partir de aí. Não se começa tudo de novo, constrói-se sobre o que já foi feito, o que permite um avanço mais rápido da ciência.

Porém, tal como o decurso natural da história ditou que o manuscrito fosse substituído pelo livro, hoje também nos deparamos com uma nova fase de transição. As novas tecnologias que se desenvolveram nas últimas décadas dão-nos acesso a novas formas de editar. Estas novas tecnologias oferecem-nos novas ferramentas e proporcionam-nos novas formas de abordar um texto. São as chamadas edições electrónicas.

A primeira grande inovação que trazem são as suas características físicas. Enquanto que o manuscrito e o livro impresso têm um suporte escrito, as edições electrónicas têm um suporte digital. A informação que contêm apresenta-se-nos organizada de forma completamente diferente da da edição impressa, permitindo novas abordagem.

Não será necessária muita reflexão para concluir que, ao ritmo a que hoje os livros são impressos, as nossas bibliotecas enfrentam o grave problema do espaço. Eis uma das vantagens que à partida as novas edições trazem. Estando a informação mais compactada, num cd ou on-line, o espaço que irá ocupar será consideravelmente menos. Assim a edição computorizada permite um armazenamento de grandes quantidades de informação/material.

Estes serão apenas pequenos exemplos do abismo que separa a edição impressa da edição electrónica e que fazem com que a transição de uma para outra seja tudo menos pacífica, conduzindo assim à questionação não só das segundas como também das primeiras.

 

índice | contents


Edições Electrónicas /Arquivos Electrónicos: Como?

 

In the next 50 years the entirety of our inherited archive of cultural Works will have to be re-edited within a network of digital storage, access and dissemination. This system, which is already under development, is transnational and transcultural. Jerome McGann, “Textonics: Literary and Cultural Studies in a Quantum World”, 2002.

Perante esta profecia de Jerome McGann, a primeira pergunta que se coloca é quem irá fazer estas edições electrónicas? A segunda é como? À partida seriam as pessoas que mais beneficiariam das edições que se deveriam ocupar delas, mas o mundo académico hoje ainda se demite em grande parte desta função.

Para procedermos à transição de manuscritos e/ou edições impressas para edições electrónicas será preciso dominarmos áreas como “language study, textual scholarship and bibliography” (McGann 2002), bem como as ferramentas digitais que nos permitirão levar a cabo este projecto. Mas mesmo assim põe-se a questão de como na prática se vai codificar o texto. De acordo com que critérios? Desde que os primeiros projectos nesta área começaram a surgir que se têm tentado definir fórmulas padrão para codificar os textos electrónicos. É nesse âmbito que surge a Text Encoding Initiative (TEI), fundada em 1987 pela União Europeia em conjunto com a Mellon Foundation. “The TEI is an international and interdisciplinary standard that helps libraries, museums, publishers and individual scholars represent all kinds of literary and linguistic texts for online research and teaching, using an encoding scheme that is maximally expressive and minimally obsolescent” (http://www.tei-c.org).

Esta iniciativa possui uma estrutura bastante completa, na medida em que é composta por vários grupos de aconselhamento, editores europeus e americanos e diversos grupos de estudiosos, cabendo a cada um deles definir um sistema de codificação na sua área de especialização, como por exemplo prosa, poesia, texto dramático, dicionários, texto oral, edições escolares e transcrições de manuscritos, entre outras. A TEI teve um grande impacto na codificação de textos, sendo juntamente com a SGML, por ela desenvolvida, muito utilizada. Apesar de lidar bem com a descrição do texto como unidade lógica estruturada, lida menos bem como texto como fenómeno físico (Robinson: 309-310), pelo que se torna “inadequate for representing the character of poetical and imaginative texts” (McGann 2002).

O debate sobre a teoria da codificação alarga-se, sobretudo na década de 90, surgindo questões como: qual a relação entre codificação e texto? Como é que as diferentes teorias influenciam a codificação? Quais os usos que se fazem dos textos codificados? As posições extremam-se, sendo que se destacam duas visões antagónicas da teoria da codificação. Por um lado, temos uma posição realista, defendida por estudiosos como De Rose e Allan Renear, segundo a qual para codificar devemos atender ao que está no texto e nada mais para além disso. Por outro lado, temos estudiosos como Alois Pichler, Peter Robinson e Elizabeth Solopova que, embora admitam que a formulação realista pode ser utilizada na transcrição de edições impressas, visto que um caracter impresso corresponderá na edição electrónica apenas a um caracter, referem que tal não acontece na transcrição de edições manuscritas. Neste caso, cada palavra, cada letra com que nos deparamos representam uma escolha. Determinadas marcas que surgem codificam-se? De que forma? Com que fonte? Assim, não podemos limitar a escolha do que se codifica no texto, teremos também em conta os objectivos, usos e o público a que se destina a transcrição. A esta abordagem Peter Robinson chama “pragmatic editing”, uma vez que “our transcripts are best judges on how useful they will be to others” (Robinson: 311), ou seja, trata-se de tomar uma série de decisões pragmáticas sobre o que será útil para os leitores. Dado que se opõe à visão realista da codificação de textos, esta abordagem terá o nome de anti-realista.

Deste modo, perante um mesmo texto uma perspectiva realista irá perguntar: “what is the text and how do I best capture it?” (Robinson:.312); ao passo que uma perspectiva anti-realista coloca a questão: “who is to use this text and how can I edit it best for those users?” (Robinson:.312). A primeira opção põe em destaque o editor como único guia do leitor, pelo que editar o texto torna-se a expressão da visão única que o editor tem do texto. Na segunda, o papel do editor não é tão preponderante, na medida em que o editor pode abdicar da sua opinião pessoal a favor do público-alvo. Se a primeira pode tornar-se muito complexa, a segunda corre o risco de ser demasiado simplista, pois só conterá a informação que se espera que contenha. A experiência de Peter Robinson na realização da edição electrónica dos Canterbury Tales de Chaucer diz-nos que o editor tem de usar de uma grande dose de bom senso e, perante as situações com que se depara, tentar tomar a decisão mais acertada, mesmo que isso implique fazer escolhas realistas e/ou anti-realistas. Um pequeno exemplo bastará para concretizar esta situação. Pensemos na ornamentação das letras maiúsculas, na hierarquia da caligrafia ou na gradação da ornamentação. Se o importante é o conteúdo, então tudo isto é visto como irrelevante – perspectiva anti-realista. Contudo, se é real no texto, é codificado – perspectiva realista. Robinson diz-nos que codificou alguns elementos relativos à aparência, pois fazem parte da expressão do manuscrito, mas ignorou marcas puramente decorativas e determinados sinais de pontuação. A opção de Robinson, de tipo ecléctica, combina critérios realistas com critérios pragmáticos. Conclui-se assim que o que se codifica dependerá da situação.

 

índice | contents


Edições Electrónicas/Arquivos Electrónicos: em que medida alteram a utilização e conceptualização dos textos literários?

 

Uma grande diferença que as edições electrónicas/arquivos electrónicos apresentam em relação às edições impressas é a de facultarem o acesso a um leque mais diversificado de materiais. Não só temos acesso ao manuscrito, como às primeiras edições impressas e a diferentes edições posteriores. Mas as vantagens não se ficam por aqui, ainda podemos aceder a notas explicativas, a materiais que contextualizam as obras, a textos paralelos e a toda uma gama de recursos que podem complementar e permitir uma melhor análise do texto. “The electronic medium has extended the textual world (…) it has added dimensions and ease of mobility to our concepts of textuality” (Shillingsburg 1999: 164). Uma edição impressa não permitiria isso. Limita o nosso acesso ao texto e aos paratextos que possam existir. Para uma edição impressa comportar tanta informação, esta teria de ser editada um vários volumes, o que se tornaria economicamente inviável e não permitiria a rapidez de acesso à informação que a edição electrónica permite.

Assim, coloca-se em causa o papel do editor na forma final, dos livros impressos. Aquilo que um livro impresso comporta é aquilo que o editor selecciona e vê como essencial. Mas isso pode ser questionável, uma vez que se trata sempre de escolhas sobre aquilo que é facultado ao leitor. Ao passar pelo filtro do editor, já temos, em maior ou menor grau, a nossa leitura condicionada. Deste modo, podemos levantar duas questões. Por um lado, “editing the text becomes an expression of the editor’s unique insight into the text. Hence, realist editors might produce editions which are highly expressive of that insight, with the most intricate idiosyncratic encoding, but which are of little use to anyone else” (Robinson: 312); por outro lado, editar um texto pode levar a que o editor “deprecate his or her own personal judgement in favour of the lowest common denominator of some perceived audience, leading to redutionist and conformist editions” (Robinson:.312). Estas duas perspectivas antagónicas representam dois extremos da abordagem que deve ser feita a um texto. Elas configuram as posições realista e anti-realista, respectivamente, no que diz respeito à edição de textos, já abordada.

Podemos, no entanto, questionar-nos sobre qual a vantagem de termos acesso a um livro ou termos acesso a diferentes edições impressas desse mesmo livro. Em primeiro lugar, “No book is one thing, it is many things, fashioned and refashioned under different circumstances” (McGann 2002), pelo que uma determinada sociedade e/ou época imprime, de forma mais marcada ou não, na edição o seu cunho: «For “the physical artifact” and “the evidence of its own making” are both social in the sense that such objects, in particular such bibliographical objects, have been made and remade many times in their social-historical passages» (McGann 2002). Assim, ainda sabendo que comporta outras importantes funcionalidades, a compilação de diferentes edições impressas já encerra em si um grande valor histórico e social.

Em segundo lugar, “it is a tool for students of a work, returning to it with the intention of exploring its history, its connective tissues, its roots and ramifications” (Shillingsburg 1999: 165). Interessa agora destacar o facto de a edição electrónica permitir estabelecer ligações e cruzar informação, por exemplo, patente por toda a obra de um autor ou entre registos textuais e a dramatização de um determinado texto. É neste sentido que deixamos de editar livros para passar a editar textos, isto é, não estamos limitados pelos limites impostos pela edição impressa – pelo livro – mas ocupamo-nos de textos, com maior ou menos extensão, pertencentes a um só autor ou vários. O código bibliográfico destes textos, isto é, as propriedades que assumiram nas suas diferentes configurações materiais, podem ser simulados e representados através do computador.

No artigo “Ma(r)king the Electronic Text: How, Why and for Whom?” de Peter Robinson, este dá o exemplo de como um leitor pode retirar as suas próprias conclusões no que diz respeito à ocorrência diferenciada de uma mesma palavra (rounde/rounded) na edição electrónica dos Canterbury Tales de Chaucer. Chega-se à conclusão de que uma palavra era da autoria de Chaucer, a outra de um escrivão que ao copiar o manuscrito alterou a ortografia da palavra. Esta é apenas uma amostra das potencialidades das edições electrónicas. O leitor pode colocar questões, construir hipóteses e/ou questionar as respostas dadas, na medida em que se dão a leitor as mesmas ferramentas utilizadas para chegar às conclusões apresentadas.

As edições electrónicas surgem também no sentido de ultrapassar as limitações impostas pelo facto de utilizarmos livros para analisar livros. “The symmetry between the tool and its subject forces the scholar to invent analytic mechanisms that must be displayed and engaged in primary reading levels” (McGann 1996: 56). Deste modo, os recursos de que as edições críticas se podem socorrer são sempre limitados ao formato que depois o livro impresso lhes vai impor, visto que a edição crítica e o material de que esta se ocupa estão ao mesmo nível. Não se pode proceder a um tipo de análise que, por exemplo, confronte a dramatização de uma peça com o texto original ou a leitura de um poema ou inúmeras outras possibilidades. O formato impresso exclui todas essas hipóteses, que encerram em si grandes potencialidades de estudo. Pretende-se com as edições electrónicas que se alargue a pluralidade de recursos de edição e se quebrem os limites analíticos de uma cópia impressa. Ao compreenderem um vasto campo de material, as formas de utilizar uma edição electrónica são variadíssimas e não só proporcionam a leitores análises diferenciadas de acordo com objectivos diferentes, como diferentes percursos de leitura a leitores com objectivos comuns.

A obra de William Blake é um perfeito exemplo das limitações de uma edição crítica impressa, uma vez que a obra de Blake inclui elementos textuais e pictóricos. Ora, para ser viável, nomeadamente em termos económicos, será muito difícil numa edição crítica conjugar a reprodução de elementos textuais e pictóricos da obra do autor. Isto leva a que análises e estudos feitos em torno da obra de Blake sejam incompletos ou pelo menos condicionados pela omissão de um elemento fundamental da sua obra. O mesmo se passa com a obra de Emily Dickinson, igualmente desvirtuada, pois o desconhecimento da forma manuscrita dos seus poemas limitou os estudos que durante muito tempo foram feitos. Os arquivos electrónicos permitem colmatar essas falhas, visto que são abrangentes e possibilitam a representações não só do domínio textual, mas também pictórico, auditivo e/ou dramático, entre outros. Dá-se ao leitor a possibilidade de usufruir de toda a obra de um determinado autor sem quaisquer restrições.

O acesso ilimitado que nos é concedido, faz-nos reflectir sobre o mundo textual tal como o conhecemos. “The traditional concept that textuality is linear (…) need not dominate the user’s experience of electronic editions” (Shillingsburg 1999: 164). Ou seja, as edições electrónicas não apresentam o texto de uma forma linear, pelo menos não no sentido em que a edição impressa o faz. É o leitor que constrói o seu percurso e não o editor que o faz por ele. A viagem que este empreende não tem que seguir a sequência início, meio, fim. Há inúmeras possibilidades para o começo e os labirintos por que o leitor se pode perder podem levar a saídas diferentes daquelas que o editor alguma vez imaginou. Um leitor pode até só estar interessado em determinado texto, pelo que poderá só consultar uma edição electrónica para procurar um texto muito específico, o que também poderia fazer numa edição impressa. A diferença reside no facto de a edição electrónica lhe proporcionar links e acesso a outros textos do mesmo autor, de autores diferentes, a notas explicativas, a assuntos relacionados, a um mar de informação/material a um clique de distância. Estes links podem até nem ser utilizados, mas encontram-se à disposição do leitor caso ele queira. Deste modo, uma outra mais valia trazida pelas edições electrónicas é a sua versatilidade: tanto servem a curiosidade de um leigo, como permitem a elaboração das mais complexas investigações conduzidas por um perito.

Mas então podemos colocar a questão: como se encontra organizado um arquivo electrónico ou uma edição electrónica? Haverá necessidade de um texto central para a organização do hipertexto de documentos? Segundo Jerome McGann, não. O que existe é um conjunto inicial de planos estruturantes referentes a materiais específicos no hipertexto e às supostas necessidades dos utilizadores desses materiais. Este ponto remete-nos de novo para a questão abordada anteriormente. Podemos então considerar que a descentralização é uma característica latente das edições e arquivos electrónicos. Se por um lado podemos comparar a organização de uma edição e/ou arquivo electrónicos à mente humana, na medida em que saltamos facilmente de uma ideia para outra, associamos factos de natureza idêntica ou diferente, etc., também podemos comparar a edição e/ou arquivo electrónicos a uma biblioteca. A informação encontra-se à disposição do leitor e cabe-lhe a ele estabelecer um percurso de pesquisa. “Nothing in that body of materials tells you where to begin or what volume to put down. It is up to you to make such a decision” (McGann 1996: 72).

Uma outra característica que as bibliotecas e os arquivos electrónicos partilham é o facto de permitirem a sua expansão. Tal como a uma biblioteca podemos sempre acrescentar novas aquisições, e assim aumentar os recursos disponíveis para os seus utilizadores, também os arquivos electrónicos em linha podem ser melhorados com novos dados relativos, por exemplo, a novas investigações feitas sobre determinado autor. Aqui evidencia-se uma outra vantagem dos arquivos electrónicos em relação às edições impressas. Estas para serem actualizadas carecem de um grande investimento, na medida em que isso implica uma nova impressão, distribuição, etc., o que tem custos muito onerosos. Tal não acontece com os arquivos em linha, podemos acrescentar material sem que isso implique o investimento, quer por parte do editor, quer por parte do leitor, numa outra edição. Penso que este problema também se pode pôr quanto às edições electrónicas em CD-ROM, uma vez que se se fizerem edições melhoradas o leitor também terá de adquirir uma nova edição, sendo que o problema se mantém devido aos elevados custos de algumas destas edições.

Já foi referida a importância das edições electrónicas/arquivos electrónicos na reprodução da obra de autores que incluem/conjugam elementos textuais e pictóricos. Será também de destacar a representação que estas edições em suporte digital possibilitam à poesia visual e/ou concreta. “Several authors have begun to use the graphic resources of HTML and other software languages to produce visual texts” (Portela: 318). De facto, o meio digital proporciona a utilização de recursos como textura, 3D e movimento que não poderiam ser utilizados numa edição impressa. Um exemplo é a animação criada por Augusto de Campos do poema “coraçãocabeça”. Contudo, não só o meio electrónico é utilizado para representar textos manuscritos ou impressos, mas também estão a ser exploradas as suas potencialidades como meio de criação de novos textos, “extending the poetics of typography into a poetics of the electronic graphic interface” (Portela: 318). 

 

índice | contents


Edições Electrónicas/Arquivos Electrónicos: Obstáculos

 

Apesar das vantagens que as edições electrónicas apresentam, ainda se lhes levantam muitos obstáculos. O primeiro reside na estruturação e apresentação das próprias edições electrónicas. Embora já tenham sido feitos muitos progressos, estas ainda podem ir mais além. As edições electrónicas têm de ser apelativas e têm de ter capacidade de resposta aos leitores. Segundo Peter Robinson, isto consegue-se acrescentando transcrições, comentários a cada verso, ferramentas que permitam ver várias versões do texto, ferramentas que permitam relacionar o texto com outros, motores de busca e ainda ferramentas que expliquem ao leitor como utilizar estes mecanismos.

Uma outra dificuldade que se prende com a própria edição electrónica/arquivo electrónico é o interface. Este deve ser o mais “use-specific” possível. Deve ainda ser estável, mas ao mesmo tempo flexível, isto é, deve apresentar claramente os conteúdos que a edição electrónica/arquivo electrónico possui para que a pesquisa seja facilitada, mas também deve ser flexível o suficiente para permitir diferentes linhas de pesquisa. Assim, Jerome McGann sublinha que o interface é de extrema importância; este é uma mais valia se facilitar ao leitor o acesso ao conteúdo do arquivo (McGann 2002).

Peter Robinson chama a atenção para outro obstáculo a que ele chama “manuscript politics”, ou seja, toda a burocracia que se encontra entre o editor e os manuscritos, as primeiras edições, os rascunhos do autor, enfim, tudo o que é necessário reproduzir para a edição electrónica/arquivo electrónico. Mas o problema vai além da burocracia. Os direitos de autor ou a propriedade sobre os documentos constituem muitas vezes um forte obstáculo à realização das edições electrónicas/arquivos electrónicos. Se por um lado há pessoas que gostam de colaborar, por outro lado há outras que colocam graves entraves à reprodução das relíquias que possuem, nomeadamente monetários. Este factor leva a que as edições electrónicas sejam muito caras, uma vez que é necessário para a sua realização despender muito dinheiro. No entanto, mesmo com a colaboração de todos, e sem astronómicos direitos de reprodução, estas edições são por si só bastante onerosas; o que se explica se ponderarmos que os processos de reprodução dos manuscritos e das diferentes edições é bastante dispendioso, o número de pessoas envolvidas no processo, os respectivos salários e a edição em si que terá de ser reproduzida para estar disponível ao público. Neste ponto os arquivos disponíveis em linha de livre acesso trazem vantagens, pelos menos ao público interessado neles, pois não será necessário pagar para aceder à informação pretendida. Os arquivos em linha que exigem assinatura são, quanto a mim, mesmo assim mais vantajosos do que as edições electrónicas em CD, uma vez que permitem a constante actualização do arquivo sem que o utilizador seja obrigado a investir mais dinheiro.

Outra dificuldade que surge no caminho das edições electrónicas é o próprio mundo académico. Os investigadores na área das humanidades incluem-se nesta assunção, uma vez que se verifica um relativo desinteresse pelas edições electrónicas/arquivos electrónicos. Normalmente, as humanidades aparecem desligadas do mundo tecnológico e não se pensa que ele pode trazer benefícios, quaisquer que sejam. Subjacente a esta resistência está a separação radical entre estudos literários e culturais, por um lado, e estudos textuais e bibliográficos por outro. Por um lado temos a edição, bibliografia e trabalho de arquivo, por outro temos a teoria e a interpretação. Esta separação prejudicou ambos os campos disciplinares, sendo que o primeiro foi sempre visto como inferior. Assim, alguém que se ocupasse da teoria e investigação nas humanidades pouco ou nada teria de saber sobre o processo de edição, bibliografia e trabalho de arquivo. As edições electrónicas/arquivos electrónicos vieram questionar de novo essa separação, visto que elas obrigam a repensar todo o processo de edição, nas repercussões que este possa ter na edição final e na leitura que se faz das edições electrónicas/arquivos electrónicos.

Jerome McGann conclui que “digital technology has remained instrumental in serving the technical and pre-critical occupations of librarians and archivists and editors. But the general field of humanities education and scholarship will not take the use of digital technology seriously until one demonstrates how its tools improve the way we explore and explain aesthetics works – until, that is, they expand our interpretational procedures” (McGann 2001). Por um lado, vemos que grande parte do mundo académico não sentirá interesse em aprender a lidar com tarefas que acham que não lhes compete; por outro lado, o desinteresse também se explica pela falta de dinamismo para explorar novas hipóteses, para experimentar, para inovar. Se compararmos as humanidades à ciência, verificamos que este último campo se desenvolve mais rapidamente. Diferenças à parte, a verdade é que a ciência é uma área mais activa, sempre à procura de novas e melhores formas de enunciar e resolver problemas. O mesmo não acontece nas humanidades, mais caracterizadas pelo desinteresse em inovar e/ou tirar partido das potencialidades que a tecnologia lhes oferece. A citação de McGann lembra o velho ditado “ver para crer”, no entanto, não nos podemos esquecer do que John Unsworth chama de “The Importance of Failure”. Não será por se falhar uma vez que um projecto deve ser desacreditado. É com a derrota, a reflexão sobre o que correu mal e a consequente consciencialização do erro que se aprende e se procuram novas formas de superar os problemas. Daí a necessidade de continuar a investir no campo das edições electrónicas/arquivos electrónicos. Será preciso agitar algumas mentes para os benefícios que elas nos podem proporcionar e para as potencialidades que elas contêm.

 

índice | contents


Conclusão

 

O aparecimento das edições electrónicas e a possibilidade de transição da edição impressa para este novo modo de editar e publicar acarretam inúmeros problemas. As novas formas de editar fazem-nos questionar todo o processo de edição praticado até aqui. Faz-nos reflectir sobretudo nas suas restrições e no limite que impõe à nossa leitura. A facilidade, rapidez e versatilidade são apenas algumas das características das edições electrónicas/arquivos electrónicos que alteram a forma como acedemos e utilizamos as obras literárias. Estamos não só a “marking” os textos impressos, isto é, a codificar as suas propriedades para apresentação computacional, mas também a “making” um novo texto que abre novas potencialidades de leitura até aqui impossíveis de realizar.

 

Março de 2004

Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra

© Odília Gaspar, dilagaspar@gmail.com

 

índice | contents


Bibliografia

Just In Time Markup, in <http://idun.itsc.adfa.edu.au/ASEC/JITM/publications.html> (acesso 05-03-2004)

Eggert, Paul, Graham Barwell, Phill Berrie and Chris Tiffin (n/d): Authenticated Electronic EditionsProject, in <http://www.iath.virginia.edu/sds/Eggert-Berry.html> (acesso 05-03-2004)

Electronic Text Center: Goals and Missions, University of Virginia Library, in <http://etext.lib.virginia.edu/mission.html> (acesso 05-03-2004)

MCGANN, JEROME (2002): “Textonics: Literary and Cultural Studies in a Quantum World”,  <http://www.ciberscopio.net/artigos/tema2/clit_01.html>(acesso 05-03-2004)

MCGANN, JEROME (2001): “The Rationale of Hypertext”, in Radiant Textuality: Literature after the World Wide Web. New York: Palgrave/St. Martin’s, pp. 53-74.

Modern Language Association of America (Committee on Scholarly Editions) (2003): “Guidelines for Editors of Scholarly Editions with Guiding Questions for Vettors, a Glossary, and an Annotated Bibliography”, in <http://jefferson.village.virginia.edu/~jmu2m/cse/CSEguidelines.html>  (acesso 05-03-2004)

PORTELA, MANUEL (2003): “Untranslations and Transcreations”, in TEXT: An Interdisciplinary Annual of Textual Studies 15, pp. 305-320.

ROBINSON, PETER (2000): “Mar(k)ing the Electronic Text: How, Why and For Whom?”, in Joe Bray, Miriam Handley & Anne Henry (eds.), Mar(k)ing the Text: The Presentation of Meaning on the Literary Page, Aldershot: Ashgate, pp. 309-328.

Shillingsburg, Peter L. (1993): “General Principles for Electronic Scholarly Editions”, in <http://sunsite.berkeley.edu/MLA/principles.html> (acesso 05-03-2004)

SCHILLINGSBURG, PETER L. (1999): “Electronic Editions”, in Scholarly Editing in the Computer Age: Theory and Practice, Ann Arbor: University of Michigan Press, pp. 161-171.

Unsworth, John (1997): “Documenting the Reinvention of Text: The Importance of Failure”, in Journal of Electronic Publishing, December 1997, Volume 3, Issue 2,  <http://www.press.umich.edu/jep/03-02/unsworth.html> (acesso 05-03-2004)

 

índice | contents


Valid CSS!| Valid XHTML 1.0 Transitional| Site Map | Contact | Updated 11 Feb 2013 | ©2005-2013 Manuel Portela