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A utilização de sistemas hipermédia no ensino

Sílvia Ferreira Brites


 

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Introdução

1. O hipertexto nas instituições de ensino

2. O papel do professor

3. O papel do aluno

4. O papel das instituições

5. Análise de recursos em linha

5.1. Cyber English Syllaweb

5.2. The Victorian Web

5.3. Infopedia.pt

6. E o professor no futuro?

Conclusão

Bibliografia e Webografia

 


Introdução

 

There is no reason anyone would want a computer in their house.

Ken Olsen, presidente, director e fundador da Digital Equipment Corporation, 1977

O futuro da educação é uma preocupação constante de alunos, professores, educadores e até mesmo de todos os governos, independentemente da cor política pela qual se regem. Como todos sabemos, a educação e a instrução são uma base para toda a vida. Para além de princípios básicos e valores transmitidos pelas instituições e seus agentes, os professores, o próprio modo de aprender e relacionar as diferentes matérias ajuda o raciocínio e prepara os alunos para enfrentar as condicionantes da vida. No entanto,  o futuro da educação não se apresenta muito brilhante. O excessivo número de professores recém-licenciados sem colocação, alguns já com bastante tempo de serviço, corrói a sua motivação para exercer a profissão com afinco e de forma inovadora. Aos vinte e poucos anos, quando se sai da universidade, todos temos muitos planos, ideias que queremos concretizar, novos métodos de ensino que queremos experimentar e pôr em prática. À medida que vemos na pauta as palavras ‘Não Colocado’, as ideias e os projectos vão ficando para trás, empurradas por uma força que desvanece. Por outro lado, os que estão realmente no activo, acomodados a anos de educação tradicional, não têm, muitas vezes, as ideias, a força e a vontade de mudar e, porque não, os conhecimentos para realizar e tentar algo de novo. Não há dúvida que o tão falado ‘sistema’ tem prejudicado, neste sentido, a inovação da educação em Portugal. Apesar da existência de um programa para a sociedade da informação e da inclusão de novas áreas curriculares no ensino secundário (caso das tecnologias da informação e comunicação), a utilização das novas tecnologias na educação tem ficado um pouco esquecida.

Contudo, há hoje em dia uma certa curiosidade acerca da utilização e aplicação de novos meios, trazidos pelo desenvolvimento da tecnologia, nas instituições de ensino. Os mais optimistas (quem sabe realistas) crêem que esta utilização seria uma mais valia para a educação; os mais cépticos argumentam que há entraves, nos nossos dias ainda intransponíveis, que dificultam esta aplicação.

Um dos mais acérrimos defensores da utilização destes meios, em particular do hipertexto, nas instituições de ensino é George P. Landow, que no texto “Reconfiguring Literary Education”, refere as razões pelas quais o hipertexto pode, e deve, ser utilizado no ensino, e ainda como fazê-lo. Contudo, estará Landow totalmente correcto nas suas afirmações? Será a aplicação da tecnologia do hipertexto na educação tão recompensadora como parece? E será que o que tem sido feito tem realmente conseguido alterar, no sentido de melhorar, o modo como se ensina e aprende? Uma coisa é certa, a aplicação do hipertexto nas escolas e universidades vai alterar o papel do aluno, das instituições e, principalmente, o papel do professor.

A partir do texto de Landow, pretendo fazer uma análise das possibilidades de aplicação da tecnologia do hipertexto nas instituições de ensino básico e secundário em Portugal, de modo a perceber as repercussões destas aplicações na função destes três agentes da educação.

 

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1. O hipertexto nas instituições de ensino

 

Nos últimos anos temos assistido a um desenvolvimento extraordinário dos computadores e das novas tecnologias. Longe vai o tempo em que um computador significava a ocupação de um edifício de vários andares. Hoje em dia, um computador pode caber no bolso de umas calças e as possibilidades que nos faculta estão bem para além do simples processamento de texto ou de dados. Vannevar Bush ficaria maravilhado ao ver que a aplicação das suas ideias resultou de forma tão global. A interligação de informação a partir de um certo texto, deixando ‘trails’ que outros pudessem seguir, transformou o ‘memex’ imaginário de Bush no que hoje conhecemos como Internet ou World Wide Web.

A Internet funciona a partir de interligações de vários textos e dados. Pode começar-se a pesquisar acerca de um qualquer acontecimento histórico e, quase sem se dar conta, acabar por aprender imenso acerca deste ou aquele pintor ou escritor. Cada texto ‘inicial’ pode ter ligado a si uma quantidade enorme de textos, que estão de alguma forma relacionados com ele.

Ao nível da educação e para os estudantes, a primeira aplicação, e a mais lógica, da utilização da Internet seria a da pesquisa. A Internet tornou-se uma biblioteca virtual enorme, onde cabem todos os tipos de informação possíveis, e onde cada vez mais tudo o que há para saber cabe e está num computador, à distância de um clique.

No entanto, a base fundadora e edificadora da World Wide Web, o hipertexto, pode servir a educação de uma maneira um pouco diferente. George P. Landow defende a utilização do hipertexto na educação com a criação de um sítio onde pudesse ser alojada a informação relevante para a disciplina a leccionar. Nesse sítio, os alunos poderiam visualizar a informação existente e, através de hiperligações, descobrir quais as relações existentes entre os diferentes conteúdos.

Segundo Landow, os sistemas de hipertexto afectam o pensamento humano. Isto porque este sistema vive de relações entre vários tipos de informação. O pensamento humano funciona através da associação de ideias e consequentemente a utilização do hipertexto pode ajudar o utilizador a relacionar um dado com outro, fazendo-o perceber, quando bem feitas, as razões dessa ligação. Para os alunos, este sistema, e quando analisado desta forma, seria uma importante contribuição para o desenvolvimento do seu sentido crítico. Hoje em dia, os alunos têm uma imensa dificuldade em relacionar o que aprendem numa disciplina e numa certa matéria num ano escolar, com o que mais tarde, quando voltam a rever e aprofundar a matéria, lhes é ensinado. E ainda, parecem não conseguir relacionar os conteúdos programáticos de uma disciplina com os de outra. Um exemplo que comprova este facto é, e segundo a minha experiência como professora de inglês, o caso da II Guerra Mundial. Este assunto é leccionado várias vezes, em vários anos escolares e em várias disciplinas desde o ensino básico ao ensino secundário. Todavia, ao chegar ao 12º ano ainda há alunos que não sabem em que data, onde e entre quem esta guerra se deu, muito menos sabem os motivos.

Numa primeira fase, Landow refere os primeiros sistemas de hipermédia onde os alunos teriam acesso a um sítio com hiperligações previamente criadas, neste caso pelo professor. Segundo Landow, um sistema de hipertexto com hiperligações iria ajudar estes alunos a perceber as relações existentes entre vários factos. Seria como que um auxílio à associação natural de ideias.

...read-only hypermedia helped students acquire both information and habits of thinking critically in terms of multiple approaches or causes. These first two uses or results represent the effects of employing an information medium based on connections to help students develop the habit of making connections. (Landow 220) 

O primeiro problema que se levanta é exactamente o facto de ser o professor o primeiro impulsionador do sistema e da aprendizagem desta forma. Para muitos, este não é um problema, uma vez que já há alguns professores com conhecimentos suficientes para reconhecer as potencialidades deste sistema e, acima de tudo, de conseguir organizar um projecto desta envergadura. Contudo, a maioria dos professores não tem conhecimentos que os levem a criar e sustentar um programa deste género. Pior do que isso é o facto de, apesar destes docentes terem a perfeita noção que se encontram desactualizados em relação às novas tecnologias, não terem interesse nem motivação para aprender e saber mais. Em segundo lugar, a aplicação de um projecto destes iria exigir bastante tempo de estudo e preparação. Olhando para a realidade, não sei até que ponto os docentes dos nossos dias têm essa disponibilidade. Com bastantes turmas de vários níveis para leccionar, a preparação de um sistema de hipermédia para aplicação a um dos níveis iria, com certeza relegar para segundo plano a preparação das outras aulas, provavelmente prejudicando-as. Ainda em relação ao professor, um facto muito importante é a motivação e a vontade de fazer melhor. Será que todos os professores preenchem esses pré-requisitos? Landow parte do princípio que sim, e talvez não seja bem assim.

Uma vez que, segundo Duchastel, os sistemas de hipermédia “should be viewed not principally as teaching tools, but rather as learning tools” (citado por Landow 220), ao colocar a ênfase na aprendizagem e não no ensino, especializando-se em ferramentas que facilitariam a aprendizagem do aluno de forma mais construtiva, seria o próprio aluno a construir o seu caminho e a sua própria forma de aprender. Em termos pedagógicos esta seria certamente uma mais valia. Cada vez mais se valoriza a aprendizagem indutiva, não oferecendo as conclusões ao aluno, mas antes, levá-lo a percebê-las. Desta forma, devido à participação activa do aluno na aprendizagem, ser-lhe-ia muito mais fácil adquirir conhecimentos.

Este sistema de hipermédia encoraja este tipo de aprendizagem, uma vez que, apesar de a informação relevante estar toda presente, não está tão linearmente exposta como nos manuais escolares. Este facto obriga o aluno a perceber as ligações entre factos ao tentar descobri-las através de várias hiperligações entre diferentes tipos de textos, tabelas, imagens etc. Este é um tipo de aprendizagem privilegiado porque é feita individualmente e ao ritmo de cada um, com as variantes de cada um. A própria pesquisa que cada um faz já é, por si só, aprendizagem, o caminho seguido já é um raciocínio que ajuda à aprendizagem do objectivo final. Um sistema de ensino tradicional é mais rígido e sem tanta liberdade nos processos. A integração e contextualização seriam adquiridas automaticamente ao longo da utilização do sistema, porque obriga o aprendiz a seguir uma linha de raciocínio não linear, construída por si próprio. Este sistema coloca portanto uma maior responsabilidade no aluno, dando-lhe um papel mais activo. Isto porque para conseguir apreender a informação terá de  procurá-la, localizá-la e entendê-la, tendo portanto de estar mentalmente muito activo e atento para o fazer. Ao utilizar um tipo de aprendizagem implícita (Mayes citado por Landow 221), esta acção seria de alguma forma mais facilitada, o aluno teria de seguir regras impostas à partida e avaliar hipóteses, ao passo que na utilização de um sistema de aprendizagem mais explícito, nos sistemas de hipermédia, essa procura de respostas seria mais liberal, deixando ao aluno várias alternativas.

Poderemos então perceber um outro revés: serão todos os alunos interessados, motivados, activos e responsáveis o suficiente para perceber a importância deste novo sistema e aplicá-lo em toda a sua dimensão, de forma a obter resultados positivos? E os caminhos que o aluno segue serão os mais adequados para uma aprendizagem com sucesso dos conteúdos pretendidos? Uma vez que ao dispor do aluno se encontram bastantes meios, uns mais importantes que outros, não poderá o aluno dar maior relevância a um facto que, afinal, não era o mais importante? O professor poderia dar uma ajuda nestes campos mas numa turma de 30 alunos, conseguiria ele fazê-lo a todos? Claro que estou a analisar a questão do ponto de vista do ensino básico e secundário em Portugal; se o fizesse em relação a alunos universitários o caso certamente mudaria um pouco, mas talvez não tanto, uma vez que as turmas continuam a ser grandes e a preocupação do professor com o sucesso dos alunos talvez menor.

Continuando com a exploração e análise dos sistemas hipermédia, saltam à vista mais benefícios. Com o sistema de aprendizagem tradicional, onde o professor expõe a matéria de uma certa forma e o aluno se limita a ouvir e tentar perceber as ideias que lhe estão a ser transmitidas, está automaticamente a apreender e relacionar os conteúdos de uma única forma, a do professor. Este método de ensino limita a capacidade de relacionar conteúdos e não desenvolve a capacidade crítica no aluno. Com a utilização do hipertexto, o aluno aprende, mesmo que inconscientemente, a perceber que um dado evento não foi relevante apenas para uma situação mas que se pode relacionar com muitos outros acontecimentos. Um outro factor importante é o contacto do aluno com vários textos e outro tipo de veículos de informação, contextualiza o aluno na linguagem e processos relacionados com  esse mesmo conteúdo.

Há também uma outra possibilidade, a de colocar os alunos a participar activamente na criação e desenvolvimento do sítio. Talvez com um sistema de hipertexto, para o qual os próprios alunos tivessem de contribuir constituindo e reconhecendo relações entre acontecimentos, datas, pessoas etc., ajudasse a sua própria linha de pensamento e encorajasse a tal associação de pensamentos. Os alunos partiriam de um texto, ou qualquer outro tipo de dado como uma tabela ou uma cronologia, e a partir daí eram incentivados a pesquisar outro tipo de informações importantes que se relacionassem com o tema principal, e que mais tarde seriam adicionadas num sistema de hiperligações.

Esta informação complementar em tecnologia de hipertexto fornecida pelos alunos e supervisionada pelo professor daria uma maior amplitude ao assunto, disponível não só para os frequentadores da disciplina nesse mesmo semestre, como também poderia ser consultada por alunos que posteriormente a frequentassem. Parece-me óbvio, e concordo neste ponto com Landow, que da aliança entre alunos e professor resultariam benefícios para os alunos, que iriam usufruir do estudo e da pesquisa de todos.

Como é óbvio, a utilização de um sistema de hipertexto nas instituições de ensino teria de ser precedida e/ou acompanhada por uma série de alterações a vários níveis nos intervenientes do processo educativo, nomeadamente, o papel do professor, do aluno e o das próprias instituições.

 


2. O papel do professor

 

Como já vimos anteriormente, o professor teria de ter um papel muito importante na aplicação destas novas tecnologias na educação. A função que desempenha no ensino tradicional não se adequa àquela que teria num sistema de ensino utilizando o hipertexto. Hoje em dia o professor detém um papel com uma certa autoridade, é o detentor da informação que tem de ser transmitida aos alunos, que funcionam como ‘tábua rasa’. O professor é quem sabe e o que ele disser e a maneira como ele o disser é a correcta. Com a utilização de sistemas de hipertexto, o professor passaria a ser mais um orientador, uma pessoa que, por ter um pouco mais de experiência, poderia ajudar, tirando dúvidas e conduzindo o aluno no seu estudo e na sua pesquisa. Isto porque o aluno é que detém a maior fatia de responsabilidade na sua aprendizagem. “This technology has the potential to make the teacher more a coach than a lecturer” (Landow 222). Através do hipertexto, o desenvolvimento, a preservação e a acessibilidade aos materiais seriam bastante facilitados e o aluno poderia analisá-los e pesquisá-los à sua maneira, precisando apenas de uma orientação do professor / orientador. Para o professor, a organização de um sistema de hipertexto permitir-lhe-ia armazenar vários materiais, aos quais teria acesso sempre que necessário, podendo ainda acrescentar ou alterar alguma coisa facilmente. Muitas vezes o professor tem os materiais necessários para leccionar uma ou outra matéria mas não tendo tempo para fazer um ou outro ajuste acaba por não os utilizar. Com o hipertexto tudo isto seria facilitado, tendo o professor ainda a hipótese de recorrer a materiais de outras pessoas, melhorando assim a sua disciplina.

Há ainda um outro factor a que tenho de fazer referência, o factor tempo. Landow refere “... the limitations of time and the need to cover the central concerns of the course often leave the students with a decontextualized, distorted view.” (Landow 223). Com a utilização do hipertexto na leccionação de uma disciplina, o factor tempo é relativo. O acesso a documentos é permanente e o aluno pode fazê-lo quando desejar. Para o professor, esta característica é, com certeza, uma mais valia. Consideremos o exemplo: um professor de inglês pretende leccionar o discurso indirecto. Para tal é necessário que os alunos tenham presente a formação dos vários tempos verbais, o que na maioria dos casos não acontece. O que acaba por suceder é que, devido aos constrangimentos do tempo e do cumprimento do programa, o professor ensina as regras básicas da construção do discurso indirecto sem, no entanto, rever os tempos verbais. Na maioria dos casos os alunos ouvem, tentam perceber (alguns até conseguem) e seguem atentamente (ou não) as indicações do professor de modo a conseguirem realizar os exercícios com sucesso. O que acontece de seguida é que, devido à falta de conhecimentos acerca da formação dos tempos verbais, se torna complicado acertar os exercícios. A partir do momento que os alunos têm à disposição permanentemente e para quando desejarem, informação, neste acaso sobre a formação dos tempos verbais, a compreensão do discurso indirecto torna-se bastante mais acessível. Ainda mais o é se, para a leccionação da própria matéria, forem utilizadas hiperligações para conteúdos programáticos relacionados.

Em relação à tipologia de exercícios, esta pode ser adequada a alunos com um ritmo de aprendizagem mais rápido ou mais lento, uma vez que quem constrói o conhecimento são os próprios alunos.

Há no entanto várias ideias que necessitam ser clarificadas. Para o sucesso de um projecto como este, o professor teria de assumir desde o início uma postura esclarecedora e séria para que os alunos não se iludissem com as novas tecnologias e deixassem para trás o empenho numa disciplina por acharem que está facilitada. O professor deveria esclarecer desde o início os objectivos da disciplina e acima de tudo os objectivos e o papel da utilização do hipertexto no contexto escolar. Teria de ser utilizado desde o início do ano e mantido até ao final, sempre com a mesma postura. O professor teria que incentivar os alunos durante todo o ano, sem deixar a motivação esmorecer com o passar do tempo.

 

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3. O papel do aluno

 

Um dos maiores desejos de todos os professores é o de terem alunos que consigam perceber a necessidade de pesquisar e que o façam por iniciativa própria. Este é sem dúvida um anseio utópico. Para os alunos a escola é as aulas e mais que isso já é uma imposição ao seu espaço. Procurar o que quer que seja na biblioteca é trabalho dos professores, muito menos percebem a necessidade de o fazer. Segundo Landow, enquanto os alunos não se questionarem o porquê de certas situações e começarem a relacionar o que lhes é fornecido com outros acontecimentos, muito menos saberão utilizar a biblioteca. O que Landow também refere é o facto de os alunos não saberem como utilizar os materiais que pesquisam. O hipertexto ajuda a perceber tudo isto: os materiais presentes são relacionados entre si, ajudando o aluno a perceber o tipo de relações que pode existir entre eles e também pode fornecer alternativas de utilização dessa informação.

No entanto, Landow refere nas instruções para um trabalho “...the hypermedia materials, like the library, may provide the materials to create an answer but not answers themselves.” (Landow 233) Neste caso as instruções e advertências dirigidas aos alunos num trabalho que tem por base a pesquisa num sistema de hipermédia são as mesmas de um trabalho tradicional de busca à biblioteca. Os alunos são os mesmos e a capacidade de fazer relações entre matérias mantém-se. A investigação on-line apenas torna mais acessível a informação. O facto de os materiais on-line conterem eles próprios ligações entre si, e apesar de tudo o que foi dito, não quer dizer que o aluno as entenda e comece a fazê-las por si.

O hipertexto facilita, então, o contacto do aluno com outras disciplinas, sem descurar a aprendizagem daquela em questão. Esta situação é positiva pois permite ao aluno, mais uma vez, perceber relações existentes, neste caso entre várias disciplinas. Utilizando este sistema, o aluno aprende não só o conteúdo da disciplina como também, por exemplo, a sua cultura e vocabulário, pela familiarização com os mesmos.

Para os alunos, o hipertexto traz outra vantagem – a aprendizagem ao seu próprio ritmo. É um sistema adaptável às necessidades de cada aluno. Pode conter materiais bastante avançados para alunos melhor preparados mas, por outro lado, pode também conter textos mais acessíveis para alunos com outros ritmos de aprendizagem.

No entanto, a maior vantagem da utilização do hipertexto é o facto de os alunos também poderem contribuir para o sítio com informações que acharem relevantes. Esta possibilidade motiva os alunos, que normalmente se interessam bastante pelas novas tecnologias, a querer também colocar ao lado de textos e pesquisa de professores e de colegas de turma, algo que eles próprios tenham descoberto. Há uma motivação diferente, e neste caso quase sublinhada por traços de vaidade, para pesquisar e querer saber mais. Contudo, seja qual for a motivação, o facto de um aluno se interessar e querer contribuir já é, nos dias de hoje, de louvar. O aluno passa a ser quase um autodidacta ao escolher o percurso a seguir, o rumo da sua exploração.

Todo este sistema não faria sentido se o aluno não estivesse interessado e motivado para aprender e para querer saber mais. Landow parte do princípio que todos eles estão interessados e motivados. Mas na realidade, numa turma de 25 alunos, apenas uma pequena percentagem realmente o está. Um outro revés é o facto de se partir do princípio que neste sistema os alunos aprendem lidando com um sistema que os ajuda a perceber e entender relações entre vários assuntos, sendo perspicazes o suficiente para perceber se o estão ou não a fazer bem. Não nos podemos esquecer que esta necessidade de o aluno ter de ser mentalmente activo e estar a apreender tudo o que o hipertexto tem para oferecer, é uma ideia também utópica. Parte-se do pressuposto que todos os alunos têm essa capacidade e responsabilidade. Isto não é de todo correcto. A grande maioria dos alunos não está preparada para ser condutora do seu próprio conhecimento, não o sabe fazer e não está mentalmente madura ao nível de conhecimentos para receber tal responsabilidade. Até porque para trabalhar com um sistema destes é preciso saber seleccionar informação e com a variedade de caminhos possíveis e de informação hipermédia, um aluno menos preparado pode perder-se com facilidade no excesso de informação.

Posso, inclusivamente, dar um exemplo, não de um programa de hipertexto criado por um professor para uma determinada disciplina, mas dos recursos on-line que a Porto Editora faculta aos alunos dos ensinos básico e secundário. Esta reconhecida editora disponibilizou on-line um sítio onde os alunos poderão pesquisar e ficar a saber mais acerca de determinados assuntos. O que frequentemente acontece é que, em primeiro lugar os alunos que não têm acesso à Internet ficam discriminados em relação aos que possuem; e em segundo lugar, os alunos que se deslocam ao espaço virtual, acabam por perder imenso tempo à procura de um determinado assunto, que depois é desenvolvido muitas vezes excessivamente para o nível em que o aluno se encontra. Este acaba, por isso, por se perder tanto no excesso de informação obtida, como em tempo dispendido. Ainda há pouco tempo dei por mim a recomendar a uma aluna que procurasse informação nas enciclopédias existentes na biblioteca da escola, em vez de perder tempo na Internet. Às vezes a utilização da Internet vem perturbar o estudo dos alunos. Eles consideram a Internet um meio tão fiável que entram em linha só para procurar o significado de uma palavra. Depois de entrar há toda uma variedade de alternativas acessíveis bastante mais interessantes do que estudar e pesquisar, como é o caso das salas de chat e dos jogos em linha.

A possibilidade de poder colocar e contribuir para a disciplina por escrito e para um sítio acessível a muita gente, facilita a participação dos mais tímidos, que se podem esconder atrás de um ecrã. Possibilita também, segundo Landow, a abertura ao público da colaboração dos estudantes (neste caso, mais os estudantes universitários) com os professores e com alunos de outros anos. Esta colaboração, que sempre existiu mas de uma forma menos exposta, traria frutos tanto para o aluno, como para o professor, e ainda para a comunidade em si.

Porém, o facto de todos os alunos poderem contribuir com informação pode também baixar a qualidade do próprio projecto se as contribuições dos alunos ficarem aquém do esperado. Teria de haver um controlo muito grande por parte do professor para que a qualidade do sistema de hipertexto pudesse corresponder aos anseios de sucesso escolar. Mas esta correcção de trabalhos e a orientação dos mesmos por parte do professor, se não for levada a cabo com seriedade e responsabilidade, pode levar a que os alunos desmotivem e se desinteressem. Um aluno pode ficar entusiasmado com a ideia de ter um texto seu na Internet, imaginemos, mas pode também ficar completamente desmotivado se a sua pesquisa for infrutífera e o professor decidir não a colocar em linha.

Também a acessibilidade é importante e é uma vantagem inegável. Um aluno não tem obrigatoriamente que estar na escola para poder estudar e ter acesso ao sistema de hipertexto. Hoje em dia nem sequer precisa de estar em casa se o programa utilizado estiver na Internet. É aqui que se levanta mais um problema. Para uma plena utilização de um sistema de hipertexto numa disciplina, todos os alunos deveriam ter acesso a ele na escola e em casa. Nem todos os alunos têm a possibilidade de ter computador em casa, muito menos Internet.

 

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4. O papel das instituições

 

A utilização do hipertexto para as escolas e instituições educativas seria vista talvez com um pouco mais de apreensão. O motivo é o mais comum – encargos financeiros. Para a implementação de um projecto desta amplitude, seria necessária a compra de computadores com um certos requisitos técnicos, bem como programas que pudessem suportar as ambições dos professores que orientassem o projecto e ainda a manutenção dos custos de tudo isto. O investimento neste projecto teria de ser de larga escala. O equipamento de uma escola poderia realmente ficar bastante dispendioso. Teriam de ser pesados os prós e os contras desta instalação e a resposta positiva teria hipóteses  talvez diminutas. O maior interveniente teria de ser o Estado e, com a ‘malfadada’ crise instalada, não seria de todo fácil.

Há também outro tipo de problemas como é o caso da adequação dos currículos das disciplinas ao novo sistema. Talvez fosse mais fácil adaptar o sistema ao currículo, correndo o risco de se limitar as suas potencialidades. Isto porque a organização de um sistema de hipertexto num contexto escolar teria sempre de ter pontos de partida temáticos que, na minha opinião, teriam de ser limitados em hiperligações pois poder-se-ia correr o risco de um aluno levar a pesquisa para campos demasiado afastados do programa inicial. Por outro lado, limitar o aluno na sua investigação e nas hiperligações a realizar seria voltar ao sistema de ensino tradicional.

Além disso, a utilização dos sistemas hipermédia poderia ser implantada nas escolas como um recurso aberto, livre e adicional ao programa escolar, onde os temas poderiam ser explorados livremente. A criação de uma base de dados que incluísse todos os sítios e materiais didácticos disponíveis seria uma mais valia para os alunos, uma vez que nela poderiam ser incluídos os projectos realizados pelos próprios.

A aplicação de um sistema de hipertexto seria portanto bastante complicada de gerir e organizar. Teria de ser um projecto levado a cabo por várias pessoas e instituições, bem pensado e, sobretudo, apoiado a todos os níveis. Poderia funcionar primeiramente como um projecto piloto, a realizar numa escola ou numa turma, sendo mais tarde avaliados os resultados.

Parece-me claro que seria utópico da minha parte pensar que a aplicação de uma tecnologia deste género no ensino poderia ser aplicada a nível nacional. Penso que este tipo de projectos teria de ser levado a cabo por uma pessoa com o olhar no futuro, provavelmente um professor, disposta à experimentação, como foi o caso de George Landow.

 

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5. Análise de recursos em linha

 

5.1. Cyber English Syllaweb <http://www.tnellen.com/cybereng/log.html>

Este é um sítio criado por um professor de inglês, Ted Nellen, que pretendeu fazer aproximadamente o mesmo que George Landow. Os alunos, do ensino secundário, devem fazer um webfolio e colocá-lo on-line à medida que vai sendo acrescentado com textos, pesquisas e trabalhos para a disciplina. É esta noção de webfolio que é interessante para percebermos a importância da utilização das novas tecnologias na educação.

A webfolio is an electronic version of the portfolio(…) The webfolio is a collection of the scholar's work placed on the webpage with links to other Internet resources. The webfolio when it is complete, though many folks consider it always UNDER CONSTRUCTION, will be introduced by a piece which explains the webfolio, introduces and links to the work represented in the webfolio, and assesses the scholar's progress. The webfolio is a collection of all of the scholar's work created throughout the year. (…)

Your webfolio will include your hypertext essays, your own writings, using a paper template, and any other elements you wish to represent you and your capabilities as a web scholar.

The webfolio is a tool to promote scholarship: make it public, peer review, pass it on. By making it public, I mean publish it. I prefer the web for scholarly publishing as it can be continually worked on more efficiently than that in print. (…) The webfolio, the web based portfolio, is in my opinion, is the better way to go instead of print since the scholar can share his work with more scholars more immediately and change and adjust his work based on interaction with other scholars.

<http://www.tnellen.com/cybereng/webfolio.html>

Este sítio está dividido por temas e, ao seleccionarmos um tema, podemos encontrar ligações a outros sítios, artigos e análises de todos os géneros relacionados com o tema principal. Exemplo

Este sítio está dividido por temas e, ao seleccionarmos um tema, podemos encontrar ligações a outros sítios, artigos e análises de todos os géneros relacionados com o tema principal. Exemplo disso é a ligação para Shakespeare, “The Shakespeare Web”, onde se encontram ligações para uma vasta lista de artigos, quer de enciclopédias como a Britannica, quer para artigos de outros estudantes e professores. Este sítio está bastante bem organizado e tem um carácter quase informal. A ‘viagem’ por este sítio torna-se bastante agradável.

 

5.2. The Victorian Web <http://www.victorianweb.org/>

The Victorian Web (hompage screen capture)

Este é um dos mais requisitados sítios na Internet acerca da época vitoriana. A sua apresentação é bastante agradável e simples de seguir. Os vários temas e divisórias são logo identificados e dão acesso a novas ligações, que por sua vez dão acesso a outras; e assim sucessivamente. Os artigos não são muito extensos e dão ao aluno uma visão algo inicial acerca de um assunto. São, por assim dizer, um bom ponto de partida para uma investigação mais profunda. Este sítio é bastante elucidativo de como as hiperligações e associações de matérias podem ajudar um aluno a perceber que muito, senão tudo, o que aprende está relacionado com múltiplos e variados acontecimentos.

 

5.3. Infopedia.pt <http://www.infopedia.pt/default.jsp>

Este é um sítio português ligado criado pela Porto Editora, cuja utilização é paga anualmente. Pretende ser um sítio onde alunos e professores poderiam pesquisar acerca de vários assuntos. O primeiro problema é mesmo o facto de ter de se pagar para ter acesso à informação. Nos dias de hoje, com a World Wide Web tão desenvolvida, entre pagar para saber e tentar pesquisar noutro sítio, penso que os alunos tentarão procurar outra alternativa. O segundo problema prende-se com a escassa informação disponível e com as ligações pouco coerentes entre um tema e os artigos disponíveis. Serve este exemplo para perceber a importância de uma boa organização num sítio de pesquisa.

Gostaria ainda de referir um outro exemplo, não de um  sítio em linha mas de uma experiência pela qual passei e que se relaciona com a aplicação das novas tecnologias no ensino. Há três anos, quando realizei o meu estágio na Escola Secundária Nº1 de Aveiro, estava em curso um projecto conjunto entre a escola, a Câmara Municipal e a Portugal Telecom (penso eu). Esse projecto consistia em providenciar aos alunos de uma turma e seus professores a instalação gratuita de Internet e a criação de um alojamento para um sítio com uma página por disciplina, um fórum para discussão de vários assuntos e uma página onde seriam discutidos assuntos relacionados com a direcção de turma. Era suposto cada professor colocar os sumários, matérias importantes e exercícios complementares às aulas nas suas páginas. Os alunos teriam também a oportunidade de expor as suas dúvidas que seriam respondidas pelos professores, ou pelos colegas, em linha. Um dos principais problemas tinha sido resolvido, o da acessibilidade geral à Internet, uma vez que a instalação e o acesso durante o ano eram gratuitos. A intenção era bastante boa mas a concretização da ideia não foi levada a cabo a cem por cento. Todos os alunos e professores (excluindo os estagiários!) tiveram acesso à Internet. O sítio foi criado, bem como as páginas por disciplina. A Directora de Turma esforçou-se bastante para convencer os professores da turma a participar no projecto mas não foi bem sucedida. A única pessoa a utilizar o espaço era ela própria e, esporadicamente, o professor de informática. Por outro lado, a informação que ela publicava em linha era raramente vista pelos alunos. Foram aliás estes quem mais lucrou com o projecto – com o acesso livre à Internet passavam horas a fio e até altas horas em salas de chat.

A minha intenção ao referir esta experiência foi apenas para demonstrar que para enveredar por um projecto que envolva a escola e a Internet, é necessária muita organização, motivação e interesse por parte de todas as  pessoas implicadas.

 

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6. E o professor no futuro?

 

Há quem defenda que o papel do professor vai ser alterado devido à introdução das novas tecnologias. Parece-me óbvio que esta é uma realidade, mas talvez não o venha a ser da maneira que muitos o defendem. Quanto a mim, um professor nunca pode ser substituído por um computador ou um programa. Os alunos precisarão sempre de uma pessoa que os acompanhe, os oriente e os ensine. Claro que um programa pode ser muito bom, ensinar perfeitamente bem e tirar dúvidas, mas será sempre preciso quem oriente o estudo, quem saiba explicar de maneira diferente à segunda vez, quem aconselhe e organize estratégias de recuperação para um determinado caso ou quem insista e motive até o objectivo ser concretizado. Há também um aspecto que é muitas vezes esquecido. Um bom professor não ensina apenas conteúdos programáticos, ensina valores; tem de saber separar uma briga, aconselhar num momento menos bom (tantos na adolescência) e saber repreender pelas pequenas coisas que se passam no intervalo. O professor também é um educador e nesse sentido não pode ser substituído por uma máquina. O professor também dá reforços (positivos ou negativos) e uma caixinha no ecrã a dizer ‘Very well!” ou  “Well done!” não tem propriamente o mesmo significado de um “Estás a ver? Eu não te disse que eras capaz?!” acompanhado por um sorriso.

 

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Conclusão

 

O século XXI já é uma realidade. As novas tecnologias estão cada vez mais desenvolvidas e a sua aplicação está quase generalizada a todas as áreas. A sua aplicação nas instituições de ensino traria bastantes vantagens tanto para os alunos como para os professores mas também teria de ser acompanhada por alterações a vários níveis, algumas até estruturais. Não podemos pensar que tudo seria fácil e que a tecnologia do hipertexto, a Internet e as novas tecnologias teriam uma aceitação completa por todas as  partes envolvidas no processo de ensino e aprendizagem. Apesar de todos reconhecermos bastantes vantagens em relação ao método de ensino tradicional, temos de considerar questões exteriores a estes sistemas como a falta de conhecimentos por parte de professores para conseguir uma implementação efectiva, as condições de vida, tantas vezes precárias, em que vivem os nossos alunos, não podendo portanto ter acesso a novas tecnologias (que muitas vezes nem conhecem), e também, como não poderia deixar de ser, o ‘sistema’ que atravessa uma crise de verbas onde ainda não se vislumbra saída.

Neste sentido, concordo com Andrea Cecília Ramal que diz “está em nossas mãos, agora, a possibilidade de deletar a escola de portas fechadas e cercadas por muros, para deixar nascer a escola da multiplicidade, do hipertexto, do link, das janelas abertas e das salas de aulas conectadas com o mundo” (Ramal, “O professor do Próximo Milénio”)

 

Março de 2004

Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra

© Sílvia Brites, silvia_brites@sapo.pt

 

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Bibliografia e Webografia

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