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Livro e/vs. Computador: Qual a relação possível?

Maria Conceição Bastos


 

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Introdução

1. Do Pergaminho ao Computador

2. Hipertexto – Mudanças

2.1. Presença Física vs. Imaterialidade

3. Vantagens Associadas ao Hipertexto

4. As Consequências da Reprodução Electrónica

5. Determinismo Social

6. Coexistência ou Destruição do “Velho”?

Conclusão

Bibliografia e Webografia

 


Introdução

 

Será que o livro tem lugar numa cultura em crescente globalização ou está destinado a tornar-se uma peça de museu? Esta questão é actualmente bastante pertinente, visto que vivemos numa sociedade que já não dispensa a utilização das novas tecnologias. De facto, ao códice opõe-se agora o computador, como uma forma mais rápida e mais eficaz de comunicação e de veículo de conhecimento.

Desta forma, é interessante analisar quais as alterações provocadas pela passagem do livro tipográfico ao computador e aos média electrónicos, assim como reflectir sobre qual a relação possível entre estes dois meios.

Nem sempre estamos atentos às transformações que ocorrem à nossa volta ou temos a sensibilidade necessária para reflectir sobre as consequências que essas mudanças acarretam, todavia vejamos de seguida de que forma é que a popularização do computador e a divulgação das tecnologias digitais alteraram hábitos e funções instituídas na sociedade desde o desenvolvimento da imprensa de Gutenberg .

No que concerne directamente à análise das consequências e relação entre os dois meios anteriormente mencionados, o objectivo será, não o de proceder à avaliação de qual dos dois instrumentos é o mais eficaz e mais adequado, mas sim o de tentar compreender de que forma é que esta passagem se está a proceder e quais as repercussões que está a gerar.

 

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1. Do Pergaminho ao Computador

 

Se considerarmos o pergaminho como protótipo do livro moderno iremos verificar que já se passaram quase 20 séculos. É surpreendente, porém inegável que o livro, como objecto, mudou muito pouco desde a época clássica até aos dias de hoje. Contudo, é impossível negar que o livro não se modifica e adapta às condições tecnológicas da época. O livro, enquanto veículo de conhecimento, alterou, por isso, não só a forma de leitura, como também a relação do indivíduo com o conhecimento. É óbvio que a leitura feita através do pergaminho ou aquando das enormes encadernações do século XVIII era muito diferente da leitura que hoje é possível através das edições de bolso.

As transformações trazidas pela passagem do rolo para o códice foram, na opinião de Roger Chartier, as mais importantes porque transformaram os hábitos de leitura e nos legaram o livro tal como o conhecemos. Chartier refere mesmo que depois de Gutenberg as coisas não mudaram muito, pois a ideia de um livro com páginas, numeração, índice e capa surgiu com essa primeira revolução, que também liberou o leitor para escrever ao mesmo tempo que lê, coisa impossível quando se segurava o rolo com as duas mãos.

Actualmente a questão não está em conseguir ler ao mesmo tempo que se escreve, mas no facto de o próprio leitor (não tem as mesmas funções do leitor de outrora, como iremos verificar mais adiante) poder simultaneamente ler um texto, fazer anotações, ler um outro texto ou admirar um quadro desse mesmo autor e obter uma inúmera quantidade de informações acerca desse autor.

Esta vontade de passar rapidamente de uma informação para outra não é tão recente quanto possamos pensar, pelo contrário. Em 1598 já Agostino Ramelli tinha apresentado uma roda de livros constituída por calhas, contendo cada uma um livro aberto, permitindo ao leitor, sentado diante dessa roda, passar imediatamente de um texto para outro. Já no século passado, em 1945, Vannevar Bush apresentou a sua proposta de conceber um dispositivo – “Memex” – que permitisse ao leitor ligar documentos distintos com anexos que, uma vez activados, produziam a aparição no ecrã dos documentos vinculados. Nos nossos dias qualquer utilizador da Internet pode, por menos instruído que seja em relação às técnicas de informação, sentado diante de um computador, passar de um documento para outro apenas através de um clic no ecrã.

Vivemos numa era de informatização, em que quase todas as funções e actividades humanas acabam sendo incorporadas ao computador, não é por isso surpreendente que o livro também se tenha de adaptar a esse contexto. A proposta de Bush e a ideia associada à teoria do “Memex” foi muito importante para o desenvolvimento de um conceito que faz, e tem vindo a fazer, oposição ao livro. O conceito de Hipertexto está ligado à ideia de associação que Vannevar Bush explora no “Memex”, pois esta máquina permitiria o armazenamento de informação que poderia ser procurada depois, através de um sistema de relação e associação entre segmentos de informação. Portanto, segundo Nelson, o Hipertexto funciona por analogia ou por associação de ideias tal como o pensamento humano. Deste modo, em vez de ler o texto de forma sequencial e linear, o leitor avança por saltos, faz uma leitura fragmentada e particular, pois introduz continuamente textos dentro de outros textos.

Como podemos perceber, o Hipertexto trouxe várias mudanças. É sobre essas mudanças que vamos passar a tratar.

 

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2. Hipertexto - Mudanças

 

Uma das mudanças mais relevantes provocadas pelo Hipertexto foi, como anteriormente referido, ao nível da leitura. O Hipertexto não permite ao leitor uma leitura sequencial, mas sim fragmentada, já que a natureza dessa leitura se aproxima da leitura que se faz quando se pesquisa numa enciclopédia. Poderemos então afirmar que a leitura do Hipertexto é muito mais temática do que a leitura de um livro. Normalmente o indivíduo que acede a um Hipertexto tem já em mente um tema que pretende pesquisar, sendo este frequentemente consultado mais como uma base de dados do que como uma obra, já que para romances ou ensaios, que pressupõem uma leitura mais prolongada, é necessário um livro que possa ser transportado para aqueles lugares que nos são mais agradáveis e mais propícios à leitura. O facto de continuamente se poder introduzir textos dentro de outros textos, torna a leitura de uma obra completa, com início, meio e fim, praticamente impossível. Verificamos, por isso, que a este nível o computador e o Hipertexto tornaram a leitura um acto descontínuo, hipertextual e temático. Neste sentido, é óbvio que o papel do leitor também foi alterado.

O Hipertexto apresenta ao leitor, em cada bloco de texto no ecrã do computador, elementos interactivos inseridos – um ícone, uma palavra, frase ou imagem. Quando o leitor prime o cursor surge outro bloco de texto (node), que por seu turno, tem outros links que dele partem. O texto não existe como um conjunto de páginas ordenadas sequencial e linearmente, mas sim como uma “rede” de janelas que o leitor activa a seu bel-prazer. A possibilidade que o Hipertexto oferece ao leitor de construir o seu próprio caminho e as suas próprias leituras fazem deste, não só um mero leitor passivo, que se limita a ler aquilo que lhe é oferecido por um autor, mas, pelo contrário, permite-lhe seguir uma trajectória diferente e pessoal. O leitor tem, desta forma, não só a função de leitor, mas acumula também a função de autor ao realizar as suas leituras de acordo com o seu interesse pessoal.

A related reversal occurred when the consumer of popular art was invited by new art forms to become a participant in the art process itself. This was the moment of transcendence of the Gutenberg technology. The centuries-old separation of senses and functions ended in a quite unexpected unity. (McLuhan citado em Media as Prostheses)

O leitor obtém, tal como é referido por McLuhan, poder de intervenção no processo de criação, uma vez fisicamente libertado do suporte da leitura e encorajado pelas ferramentas tecnológicas a intrometer-se no texto, experimentando assim uma confusão produtiva de papéis entre autor e leitor.

 

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2.1. Presença Física vs. Imaterialidade

 

A book doesn’t simply contain the inscription of a text, it is the inscription. It is as fat as the text is long, it opens at the beginning of the text, and if we break off our reading, we are left literally “in media res”. A computer doesn’t have to store texts in a form that corresponds to the space they occupy when they are displayed; that is the source of all its informational capacity. (Nunberg 18)

Nunberg defende também a ideia de que o códice está associado a elementos físicos e espaciais enquanto que o computador se relaciona com o conceito de imaterialidade, pois não existe correspondência entre os limites do texto e as propriedades físicas do artefacto que o apresenta. A imaterialidade dos signos no ecrã em comparação com a tinta sobre a página constitui a passagem do texto de um registo fixo para um registo volátil. Quando pensamos que aquilo que lemos no ecrã do computador não existe nesse espaço tal como o observamos, deparamo-nos com o carácter virtual que nos é proporcionado pelo computador. A relação afectiva que o livro proporciona ao leitor enquanto o lê ou quando percorre as suas folhas, o odor que um livro mais antigo emana, a sensação de tocar nas folhas já amareladas pelo tempo e pelas mãos de leitores anteriores, tudo isto deixa de ser possível com a leitura através do computador. Apesar de o computador nos oferecer um grande leque de meios que nos permitem associar texto, som, imagem e movimento, proporcionando-nos uma sensação de verdadeira realidade, tudo aquilo não existe tal como é percepcionado por nós, é apenas um amontoado de bytes regulado por estruturas simbólicas hierarquizadas controladas por um computador, como refere Michael Joyce no texto de 1995, Hypertext and Hypermedia.

Relativamente ao carácter virtual do computador podemos verificar que a linguagem informática usada pretende substituir a realidade, já que, por exemplo vamos a uma “página” do Hipertexto, através do rato que é controlado por nós, podemos mudar de página ou simplesmente “sair” ou “fechar” a página com as nossas próprias mãos (ou melhor, através do rato). Esta realidade virtual é tão real que frequentemente o leitor se esquece que está a “navegar” num mundo que apenas existe dentro daquela “caixa” pequena e não pode ser transportada para o mundo do concreto.

De facto, a sensação de imaterialidade e de virtualidade que é transmitida pelo computador ao leitor ou utilizador parece não constituir um entrave à utilização do computador. Contudo, alguns autores têm reflectido sobre as possíveis consequências da progressiva utilização deste meio e as suas conclusões prevêem um crescente afastamento da verdadeira profundidade da experiência humana.

Lakoff refere que “muitas coisas ditas interactivas são bem pouco interactivas! Têm a ver com qualquer menu fixo, não com a capacidade de sondar, como se sonda alguém, ou de julgar ou emocionar-se como uma interacção em directo. Tem de haver respostas de conserva e possibilidades de conserva” (citado em Mourão). Os “chats”, grupos de discussão ou a correspondência trocada pela Internet demonstram uma interactividade que não pode ser comparada à interactividade proporcionada por uma conversa ou discussão cara-a-cara entre duas pessoas. Toda conversa ou discussão que é produzida através da Internet torna-se efémera, uma vez que não podem existir neste meio noções de propriedade, expressão, identidade, movimento ou contexto, pois estes conceitos baseiam-se na relação física.

Além da desmaterialização provocada pelo novo meio electrónico, há ainda uma outra consequência da passagem do livro ao Hipertexto, a privatização do acto de leitura, já que o futuro da leitura nos espaços públicos não está assegurado contra a emergência da leitura individual e privada proporcionada pelo Hipertexto.

 

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3. Vantagens Associadas ao Hipertexto

 

Todavia, há vantagens associadas ao desenvolvimento do computador e do Hipertexto e das novas tecnologias de informação e comunicação que não podem ser esquecidas. A possibilidade de comunicar textos e de consultar livros à distância em tempo real, não obstante a sua localização física anula a distinção entre o lugar do texto e o lugar do leitor. Esta possibilidade é a concretização do “grande sonho pirata” de Ted Nelson (como chamou Gary Wolf) de construir uma biblioteca universal, um instrumento de publicação de Hipertexto mundial que se intitulava “Xanadu”. Este sistema pretendia disponibilizar todos os livros a qualquer pessoa. O Hipertexto, ao contrário do livro, não está limitado por qualquer tipo de fronteiras. Põe ao dispor do leitor uma inúmera e infindável variedade de textos que não se dispõem de acordo com uma ordem sequencial de princípio, meio e fim, mas que se apresenta ao leitor como se estivesse eternamente a meio do processo de leitura, cujo fim é impossível alcançar. O conteúdo do Hipertexto está em permanente transformação e actualização, uma vez que cada leitor o transforma através das suas próprias escolhas. Enquanto que o códice nos apresenta uma visão limitada pelas fronteiras materiais do livro, o computador através do uso do Hipertexto oferece-nos um mundo sem quaisquer limites ou fronteiras. O conceito de monumento associado ao “medium” material – o livro impresso – está a ser ultrapassado pela ideia de movimento constante aliado ao “medium” electrónico.

Geoffrey Nunberg faz referência no texto The Place of Books à nova preocupação aliada ao modo de encontrar qualquer tipo de texto: “what is important here is not the relation of inclusion but the relation of access: we no longer ask whether a text is “in” the Bibliothèque nationale, but whether and how easily we can get to it from there” (Nunberg 28).

O movimento perpétuo ao qual o Hipertexto está “condenado” deve-se à sua estrutura rizomática (conceito apropriado por Landow a partir de Deleuze), uma vez que é formado por um sistema não hierárquico que permite uma multiplicidade de trajectos através da interligação contínua entre nodes. A estrutura rizomática “operates by variation, expansion, conquest, capture, offshoots. Unlike the graphic arts, drawing, or photography, unlike tracings, the rhizome pertains to a map that must be produced, constructed, a map that is always detachable, connectable, reversible, modifiable, and has multiple entryways and exits and its own lines of flight…”(Landow 40). Desta forma, rejeita qualquer tipo de hierarquia, poder central ou elemento determinante. Porém não significa que o Hipertexto seja constituído por um amontoado de informações sem qualquer ordem. Pelo contrário, quando o leitor acede a um Hipertexto verifica que este possui uma estrutura bem organizada que lhe permite percorrer os vários links associados à página que está a consultar. Jerome McGann refere que “[T]o say that a hypertext is not centrally organized does not mean – at least does not mean to me – that the hypertext structure has no governing order(s), even at a theoretical level. Clearly such a structure has many ordered parts and sections, and the entirety of the structure is organized for directed searches and analytic operations. (McGann 71).

A visão do Hipertexto como um texto infindável e sem limites é como que uma confirmação da ideia de desterritorialização de Pierre Lévy: “o mecanismo hipertextual nas redes numéricas desterritorializou o texto. Em consequência disso, emergiu um texto sem fronteiras nem limites precisos, sem interioridade definível. Agora há simplesmente o texto como quem diz a água ou a areia. Mas o texto ainda está em movimento, em estado de perpétua mudança, de vectorização e metamorfismo contínuos” (citado em Mourão).

 

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4. As Consequências da Reprodução Electrónica

 

A revolução provocada pela invenção de Gutenberg concedeu à palavra escrita uma autoridade nunca antes sentida, uma vez que a transmissão manuscrita não podia assegurar ao autor o mesmo direito de propriedade que a impressão permitiu. A técnica anterior de reprodução de textos utilizada pelos monges além de ser um processo bastante moroso não poderia ser considerado como um meio de transmissão de informação fidedigno, uma vez que as cópias estavam sujeitas frequentemente à re-organização do indivíduo responsável pela cópia.

Com o desenvolvimento da imprensa tornou-se possível reproduzir as obras dos escritores em grande escala, baixando desta forma o custo de produção. Proporcionou também a estes autores a capacidade de subsistência através dos rendimentos obtidos com a venda das suas obras. Tornava-se, então, necessário instituir um mecanismo que regulasse o processo compreendido entre o autor e o leitor e que assegurasse os direitos dos autores. Foi então que surgiu o editor, cuja função foi evoluindo bastante até se tornar indispensável no circuito de ligação entre o escritor e o leitor. O editor adquiriu (entre outras) a função de acompanhar os autores durante o processo de escrita, coordenar a produção do livro e de trabalhar com os designers para desenvolver capas eficientes e apropriadas.

Contudo, com o aparecimento da reprodução electrónica, tanto a função do editor como a salvaguarda dos direitos autorais foram ameaçados. A anterior hierarquia autor – editor – leitor foi muitas vezes substituída pela relação directa autor – leitor. A facilidade de acessibilidade e de subsequente impressão de um texto através do acesso a um computador e a uma impressora torna o processo de reprodução bastante rápido e facilitado, por isso “[A]t this point publishing seems no longer to be subject to many of the laws that govern the production and distribution of physical commodities” (Nunberg 19).

Quando um texto se encontra disponível via electrónica torna-se impossível controlar o número de pessoas que o visualiza ou que faz uma reprodução, já que isso está ao alcance de qualquer utilizador munido de um computador com acesso à Internet e de uma impressora.

Este problema tem sido discutido e têm sido realizados esforços no sentido de evitar que os autores e as editoras possam vir a ter ainda mais prejuízos do que aquando da reprodução mecânica. A democratização da informação e a disseminação do poder provocada pelo uso do computador e da W.W.W. aboliram, de certa forma, os custos materiais da produção de livros. Se compararmos com o que acontecia anteriormente à divulgação da W.W.W., podemos verificar que para obtermos qualquer tipo de informação era necessário deslocarmo-nos a uma livraria ou biblioteca e gastar dinheiro ou então fazer um empréstimo (temporário) do livro ou de outro tipo de texto manuscrito, enquanto que o tempo que medeia a localização de um texto na Internet e o armazenamento ou impressão desse mesmo texto é bastante reduzido.

Actualmente na Internet existe uma inúmera quantidade de sites grátis ou que subsistem através da publicidade, mas existem também já alguns sites que requerem o número de cartão de crédito ou uma password para permitir o acesso. As edições em CD-ROM e em linha de Enciclopédias, por exemplo, têm suplantado as edições impressas, uma vez que permitem ao leitor uma leitura bastante mais diversificada (texto, fotografias, vídeos…) e mais interactiva. Esta forma de edição pretende, de certa forma, assegurar os lucros das editoras, já que o utilizador tem de comprar o CD-ROM para ter acesso à versão em linha da Enciclopédia.

A facilidade de acesso aos textos electrónicos é vista, normalmente, como uma grande vantagem, por outro lado se pensarmos que a circulação de textos de um leitor para outro, de forma incontrolada, pode resultar numa alteração gradual, tal como acontecia na transmissão manuscrita. O texto original irá, sem dúvida, acabar por ser alterado. Fazer uma cópia de um texto disponível via-electrónica pode não ser sinónimo de originalidade, visto que se torna bastante fácil modificar algumas palavras desse texto sem deixar qualquer tipo de rasto. É relevante por isso salientar que as cópias que resultam de uma impressão electrónica são, por vezes, pouco fidedignas ou nem sempre podem ser consideradas originais.

A digitalização de textos e obras afectou não só a estrutura dos artigos, mas afectou também o carácter do trabalho editorial e as responsabilidades do editor. Por exemplo, o editor de um site acerca de um autor tem a função de produtor e de coordenador da produção do conteúdo desse mesmo site.

Como se pode verificar, o aparecimento e a consolidação da reprodução electrónica trouxe grandes mudanças ao nível do acesso à informação e aos textos. Contudo, estas mudanças têm necessidade de ser regulamentadas através da criação de leis comuns a todos os países, já que a transacção de textos é realizada através de redes internacionais. É curioso imaginar que se a regulamentação da transacção internacional de produtos físicos é difícil, como será então tentar regulamentar as trocas virtuais realizadas através da Internet.

  

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5. Determinismo Social

 

The medium, or process, of our time – electric technology – is reshaping and restructuring patterns of social interdependence and every aspect of our personal life. It is forcing us to reconsider and reevaluate practically every thought, every action, and every institution formerly taken for granted. Everything is changing you, your family, your education, your neighbourhood, your job, your government, your relation to the others. (McLuhan citado em Fuqua)

Esta afirmação de Marshall McLuhan data de 1967, numa altura em que a Imprensa estava a ser ameaçada pelo desenvolvimento dos meios electrónicos e pela ascensão da televisão. Apesar de a afirmação não ter uma relação directa com a Internet, podemos verificar que ela descreve perfeitamente os efeitos que a Internet tem sobre a sociedade. McLuhan diz-nos que os meios electrónicos alteram a forma como as pessoas pensam, agem e sentem. Não é só o ser humano que age sobre a máquina, mas a máquina também age sobre o ser humano. Os meios de comunicação (mais ou menos abrangentes ou mais ou menos rápidos) têm uma influência directa no estilo e qualidade de vida dos indivíduos, “the channels of communication are the primary cause of cultural change” (citado em Huster.) É inegável que as invenções ao nível da comunicação ao longo da história modificaram o pensamento do indivíduo em relação a si próprio e em relação ao mundo que o rodeia.

As barreiras provocadas pela distância física deixam de existir numa época dominada pela comunicação electrónica, visto que possibilitam a troca de informação instantânea, por exemplo, entre um Dinamarquês e um Australiano, não obstante a distância que os separa. A abolição das fronteiras físicas remete para a globalização prevista por Marshall McLuhan (“the global village”) que iria assentar na descentralização do poder e da informação através da tecnologia electrónica, permitindo que as pessoas pudessem viver afastadas dos centros urbanos e que, da mesma forma, pudessem ter acesso à informação.

A popularização da comunicação electrónica tende a ser vista como o ponto de partida para a globalização das sociedades, porém existem alguns factos que não podem ser esquecidos, pois a globalização não é assim abrangente ou “global” como possamos pensar.

O desenvolvimento da comunicação electrónica a partir do aparecimento do computador e da W.W.W. foi responsável pela criação de novas minorias ou de novas classes sociais distinguidas pela capacidade de poder suportar os custos (para alguns demasiados elevados) que implica a aquisição de um computador. É relevante lembrar que existem várias famílias que não possuem capacidades para adquirir o instrumento essencial para a comunicação electrónica. Convém esclarecer que estas situações não acontecem apenas nos países subdesenvolvidos, cujas atenções estão centradas noutro tipo de prioridades muito mais básicas, mas pelo contrário, acontecem ainda em muitos países considerados desenvolvidos, como Portugal. Com efeito, a falta de informação é muito mais evidente nos países subdesenvolvidos e podemos verificar que apesar de todo o desenvolvimento e constantes inovações que visam a construção de uma sociedade global, estes países não estão a tomar parte da globalização, sendo excluídos de uma globalização que tem como princípio unir todas as sociedades.

Surgem por este motivo novas questões associadas ao desenvolvimento das tecnologias da comunicação. Entre elas podemos realçar a questão do fosso existente entre dois tipos de sociedade: aquelas que têm capacidades económicas, técnicas e intelectuais para aceder às tecnologias e aquelas que não reúnem nenhuma destas capacidades.

Outra consequência que importa realçar tem que ver com o surgimento de um novo tipo de iliteracia. Desta vez não seria a incapacidade de ler ou escrever, mas a incapacidade de utilizar o novo tipo de comunicação – o computador e a W.W.W. Se atentarmos mais pormenorizadamente no caso de Portugal onde ainda existem várias pessoas iletradas, podemos concluir que existem muitos portugueses que não sabem como utilizar um computador. Daí se infere que a popularização dos meios electrónicos não atingiu ainda o seu objectivo de globalização, pois, apenas fazem parte do quotidiano de pessoas com formação a nível das novas tecnologias e que possuem capacidades ou oportunidades de utilizar estes meios electrónicos.

Desta forma, podemos concluir que de facto o grau de presença dos meios electrónicos no quotidiano dos indivíduos influencia directamente o seu estilo e qualidade de vida.

 

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 6. Coexistência ou Destruição do “Velho”?

 

Todo o tipo de inovação é inicialmente observado com algum receio pelas suas consequências futuras, foi assim aquando da passagem para a imprensa de Gutenberg e aconteceu o mesmo com o surgimento do computador e da comunicação electrónica. A problemática actual recai na questão da sobrevivência do livro após o desenvolvimento da revolução electrónica e do aparecimento do Hipertexto. Assim que a comunicação electrónica se começou a desenvolver com o aparecimento da W.W.W., muitos autores começaram a predizer a morte dos textos impressos (livros, revistas, jornais). Jay David Bolter, apologista da nova tecnologia, considera que:

[T]he printed book…seems destined to move to the margin of our literate culture. The issue is not whether print technology will completely disappear; books may long continue to be printed for certain kinds of texts and for luxury consumption. But the idea and the ideal of the book will change: print will no longer define the organization and presentation of knowledge, as it has for the past five centuries. The shift from print to the computer does not mean the end of literacy. What will be lost is not literacy itself, but the literacy of print, for electronic technology offers us a new kind of book and new ways to write and read…. (citado em Nunberg 15)

Bolter acredita que o livro, como é entendido por nós ainda hoje em dia, está destinado a perder a sua autoridade como veículo de conhecimento sendo substituído por um outro tipo de livro electrónico.

Todavia, alguns anos após a popularização da Internet, esta tendência parece não estar a acontecer tal como era esperada. As versões electrónicas, por exemplo, de jornais e revistas não conseguiram sobrepor-se em número de leitores aos correspondentes das edições impressas. Os leitores das edições on-line são normalmente diferentes dos leitores das edições impressas, visto que as consultam e utilizam de forma diferente. A relação que se estabelece a nível destes dois tipos de edição é de distinção ou de complementaridade, mas não de competitividade.

O adjectivo “novo” não tem necessariamente de ter uma conotação positiva, enquanto que o adjectivo “velho” não tem de ser utilizado para caracterizar algo já ultrapassado. Tudo isto para dizer que nem sempre o “novo” tem de substituir ou anular o “velho”; o surgimento do “novo” pode apenas significar uma mudança exigida pela evolução do tempo. Actualmente já não nos conseguimos imaginar, por exemplo, sem o computador, sem a Internet e sem o e-mail; o ritmo de vida exige meios de comunicação e de transmissão de conhecimento mais rápidos e mais eficazes. Os meios de comunicação estão em constante desenvolvimento, contudo, isso não significa que se possa colocar de parte aqueles que sempre fizeram parte do nosso quotidiano.

Apesar de todas as vantagens associadas ao uso do computador e do Hipertexto, o livro não irá extinguir-se, visto que para que esta passagem seja efectiva é necessário reunir um conjunto de condições específicas que ainda não estão disponíveis. Se o aparecimento de um novo meio implicasse a imediata substituição do anterior isso significaria que estávamos sempre dependentes de um único meio. Desta forma, torna-se muito mais vantajoso que os meios de comunicação e de conhecimento possam coexistir, de forma a fornecer uma multiplicidade de recursos. 

 

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Conclusão

 

De certa forma é ainda prematuro tentar chegar à conclusão se realmente o livro deixará de fazer parte do nosso quotidiano e se se tornará apenas uma boa recordação, do tempo em que as prateleiras da nossa biblioteca estavam repletas desses veículos de conhecimento, e que consultávamos sempre que queríamos saber algo de novo ou apenas líamos pelo prazer que essa leitura nos proporcionava.

O crescente domínio das novas tecnologias trouxe grandes alterações ao nível do acesso ao conhecimento, da leitura, da função do leitor, do autor e do editor, e também ao nível da reprodução de textos. Assim sendo, verificamos que há perdas e ganhos na passagem do livro para o computador, e que todas estas alterações acabam por ter consequências sociais, já que as mudanças nos meios de comunicação têm repercussões directas na sociedade e são frequentemente consequências da necessidade de meios que possam adaptar-se à evolução da sociedade.

A melhor forma de concluir este trabalho é esperar que, na verdade, os dois meios, livro e computador, possam coexistir, pois a multiplicidade de recursos é sempre mais benéfica do que a unicidade. Enquanto que, se houver uma multiplicidade de recursos, o utilizador poderá fazer as suas próprias escolhas de acordo com os seus interesses e gostos pessoais, o domínio de um só recurso acaba por destruir a variedade e por criar um todo homogéneo que exclui e marginaliza tudo o que não faz parte da tecnologia dominante.

Então, que o computador e as tecnologias a ele ligadas e as prateleiras onde estão guardados os livros possam coexistir lado a lado sem que o uso de um tenha de significar a destruição ou anulação da importância do outro.

 

Março de 2004

Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

© Maria Conceição Bastos, maria_cbastos@hotmail.com

 

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Bibliografia e Webografia

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