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Uma leitura de 'The Rationale of Hypertext', de Jerome McGann

Ana Catarina Garrido


 

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1. As ferramentas digitais nas Humanidades

2. O caso do Rossetti Hypermedia Archive

 


1. As ferramentas digitais nas Humanidades

 

Numa pequena nota introdutória, Jerome McGann diz-nos que as reflexões actuais sobre o significado cultural da informação tecnológica desempenham uma importante função social. Com efeito, algumas fornecem conhecimento à sociedade em geral, promovendo uma maior proximidade com as novas tecnologias, e outras a grupos cuja profissão os incita à problematização da questão da informação sobre a informação. Deste último grupo, fazem parte os académicos literários, que olham com desconfiança para as novas tecnologias.

No que concerne à materialidade do texto, o autor chama a atenção para a importância que esta questão assume, quer na perspectiva de um poeta, quer na de um cientista. O primeiro dá relevância à forma do texto, nomeadamente à exploração do espaço da página. O segundo, pelo contrário, centra a sua atenção apenas no conteúdo, ou seja, naquilo que o texto pode comunicar, relegando a sua materialidade para um plano marginal.

O texto em análise coloca-nos perante a seguinte questão: Porquê usar as ferramentas digitais ou procurar novos meios de edição, se ambas as tarefas exigem tanto de nós? Ainda que estes ofereçam mais rapidez, maior poder de análise e acesso a uma fonte potencialmente inesgotável de informação, a resistência que se faz sentir por parte de muitos académicos literários é ainda assaz grande. As mudanças ocorridas na transmissão de conhecimento e informação são facilmente colocadas à margem por qualquer especialista literário que perspective o livro como o símbolo cultural por excelência, não podendo nunca ser destronado por qualquer tipo de ficção ou poesia electrónica. O códice assume ainda hoje, numa era profundamente marcada pelas novas tecnologias, um prestígio sem precedentes. A democratização do acesso ao computador e, por consequência, à Internet não foi ainda suficiente para preterir a leitura de um texto em códice ao seu formato electrónico. Porém, presentemente, a análise de livros através de livros tem vindo a ser substituída por mecanismos digitais, pois aquela estratégia de pesquisa limitava os resultados obtidos. A simetria entre o objecto que estuda e aquele que é estudado fornece-nos produtos em tudo semelhantes, inibindo-nos de obter perspectivas mais alargadas. A versão digital de um documento permite-nos olhar para ele de outra maneira e a um outro nível, obtendo uma leitura que seria difícil ou até impossível no códice. A digitalização dá-nos então a possibilidade de mergulhar mais profundamente na estrutura de cada texto e tirar maior proveito das suas potencialidades.  

Os limites do livro levaram à criação de mecanismos de auxílio, tais como as edições críticas, as edições fac-similadas e as edições anotadas. A reedição era morosa e exaustiva, pois era necessário reproduzir todo o processo de edição, inclusive os seus mecanismos. As edições críticas podem tornar-se difíceis de ler e usar porque estamos perante um livro que estuda outro livro. De facto, nenhum livro ou conjunto manejável de livros é capaz de incorporar todos os documentos relevantes para o estudo de um determinado tema. No que diz respeito às edições fac-similadas, estas são a cópia do original e a sua utilidade revela-se apenas no acesso a livros raros, dado que não fornecem nada para além do conteúdo semântico e disposição gráfica do original. Contrariamente ao que sucede com todas estas ferramentas de apoio, a versão electrónica de um texto permite incorporar uma série de documentos relacionados com esse mesmo texto, de forma simultânea, e oferece uma visão mais clara e capaz sobre um determinado grupo de coisas, nomeadamente livros, textos e documentos.

O carácter electrónico da hiperedição liberta-nos, em grande parte, dos limites do códice mas a edição de texto por meio de um processador textual é diferente da hiperedição, pois os mecanismos do primeiro estão estruturados para a expressão. O formato digital do OED (Oxford English Dictionary) é em tudo semelhante ao documento original, no entanto, reorganiza-o a um outro nível. Este documento passa a ter a possibilidade de ser analisado enquanto livro e usado como ferramenta electrónica.

O Oxford English Dictionary electrónico não utiliza hipermédia, ou seja, não utiliza som, texto e imagem de modo simultâneo. Todavia, é um projecto de hiperedição, pois pode ser constantemente corrigido e acrescentado, à semelhança do que acontece com o programa COLLATE. Este último foi criado por Peter Robinson, docente na Universidade de Cambridge, com o objectivo de proceder à colação, análise e publicação de textos existentes em múltiplas versões. O modelo actual do COLLATE aceita cerca de 2000 versões do mesmo documento e possui mecanismos de regularização, que podem ser utilizados na produção de ficheiros com concordâncias linguísticas, sem alterar a variante original. O COLLATE pode ainda produzir ficheiros “output” para edições em papel ou publicações digitais. Ambos os exemplos aqui referidos ilustram a quebra que a digitalização representa em relação aos limites de análise impostos pelo códex.

Os hipertextos permitem-nos navegar por entre vastos corpora de documentos e estabelecer ligações complexas entre eles. Estas relações podem ser pré-definidas ou desenvolvidas através dos vínculos criados pelos marcadores de um projecto.

As estruturas hipertextuais são denominadas de projectos hipermédia quando possuem autoridade para incorporar elementos visuais e/ou auditivos no sistema. Estas redes documentais podem ser organizadas de forma interactiva ou criadas para transmissão na rede. Enquanto que, na primeira situação o utilizador interage com o computador, na segunda, a estrutura do hipertexto torna-se numa estrutura de redes de hipertextos que, por sua vez, se transformam na rede das redes. Para Jerome McGann, o objectivo principal é a criação de um arquivo hipermédia constituído por várias redes, dando assim origem ao arquivo dos arquivos. No entanto, para que isto seja possível temos de considerar dois pontos essenciais: 1) a estrutura de um projecto hipermédia tem de privilegiar as metas desse mesmo projecto; 2) o projecto tem de possuir uma organização flexível, de modo a poder adaptar-se às mudanças de software e hardware. Na prática, não teríamos um sistema fechado em si mesmo mas sim aberto à constante evolução das novas tecnologias.

A criação de um projecto de hiperedição em formato hipermédia é indispensável, pois as hiperedições apenas com texto electrónico estão limitadas, dado que retêm somente o valor semântico do documento. As edições hipermédia, pelo contrário, incorporam elementos auditivos e/ou visuais, ganhando assim a capacidade de relacionar diferentes materiais.

Na secção intitulada“The Necessity of Hypermedia”, Jerome McGann dá-nos exemplos quepretendem ser elucidativos dos limites do texto impresso, nomeadamente os trabalhos de Emily Dickinson. Os seus editores negligenciaram, durante várias décadas, a importância que a exploração do espaço gráfico assume no conjunto da sua obra literária. O efeito visual dos seus textos é de particular importância para a análise e compreensão dos mesmos. Para uma edição fiel da sua produção artística, é necessário conjugar os mecanismos da edição crítica com os da edição fac-similada. Todavia, esta é uma tarefa difícil de concretizar no campo do livro, em virtude das suas limitações. Talvez a digitalização seja o único meio através do qual possamos descobrir e desfrutar plenamente da obra literária de Emily Dickinson.

Os projectos hipermédia, tal como o Perseus Project ou o Rossetti Hypermedia Archive, estão limitados pelas características estruturais das imagens que deles fazem parte. Quando estas imagens são incluídas na organização hipermédia, têm de ser simples ilustrações, pois a informação que está no mapa de bits da imagem digitalizada não pode ser estudada da mesma forma que a de um texto electrónico.

A problemática da inclusão de imagens digitalizadas no meio computacional pode ser resolvida ou minimizada através da concepção de uma estrutura de marcadores que contenham as características de todos os tipos de documentos e do desenvolvimento de uma imagem instrumental que permita ligar suportes a outra imagem. Deste modo, há uma expansão das potencialidades de pesquisa e análise dos materiais no âmbito da hiperedição. Finalmente, é importante reter ainda que todo o projecto hipermédia escapa à impossibilidade bibliográfica de corrigir, rever ou acrescentar nova informação a um documento sem repetir todo o processo de criação. Com efeito, os arquivos hipermédia são construídos de modo a que as suas possibilidades de expansão e desenvolvimento sejam infinitas.

 

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2. O caso do Rossetti Hypermedia Archive

 

O Rossetti Hypermedia Archive é um dos projectos pioneiros no âmbito das edições electrónicas. Em desenvolvimento desde o início dos anos 90, esta ferramenta hipertextual criada e editada por Jerome McGann, pretende tornar o trabalho de Dante Gabriel Rossetti acessível ao público em geral. Efectivamente, o objectivo primordial é a reunião de todos os documentos originais, quer sejam manuscritos, desenhos, esboços, pinturas ou edições originais e munir cada um de comentários e notas contextuais. Um dos componentes mais importantes do arquivo é o conjunto de documentos contemporâneos de Rossetti, nomeadamente os dados biográficos que nos chegaram através do seu irmão, William Michael Rossetti. Deste modo, o utilizador do arquivo terá acesso não só a informações acerca do seu legado artístico mas também a aspectos da sua vida, que podem ser, eventualmente, importantes para a compreensão dos textos e pinturas.

A estrutura do Rossetti Hypermedia Archive é composta por onze secções distintas e por um mecanismo de pesquisa. Cada um destes segmentos inclui um vasto corpus de documentos, que são estruturas complexas constituídas por níveis sub-documentais, e que permitem a ligação a outros espaços do arquivo assim como a documentos específicos noutras áreas. Inicialmente, o utilizador depara-se com uma introdução geral que possibilita o acesso a listas alfabéticas e cronológicas dos trabalhos disponíveis para consulta. Os links escolhidos conduzirão a ficheiros que organizam o intrincado corpo textual e/ou visual disponível. Se o utilizador pretender consultar um determinado documento, abre outro ficheiro, contendo a transcrição textual do documento, comentários críticos e um link a uma imagem digital do objecto. Em cada página, o utilizador poderá encontrar links que lhe permitam regressar a níveis mais elevados do arquivo.

Numa versão futura, o utilizador encontrará um pequeno ícone, na forma de uma estrela dourada dentro de uma caixa, colocada ao lado de títulos de obras literárias. Este ícone será um link para a página que tem todas as notas editoriais e comentários críticos acerca daquele trabalho. Presentemente, o utilizador tem como suporte listas disponíveis na página principal do arquivo e no mecanismo de pesquisa, desde a navegação ao comentário.

Editores e teóricos do texto interrogam-se: será que a hiperedição necessita de um “texto” central para organizar o hipertexto de documentos? Ainda que o hipertexto não esteja organizado de forma centralizada, a sua estrutura não é desprovida de ordem. O hipertexto está estruturado com base em planos pensados para materiais específicos e que pretendem responder aos desejos e necessidades do utilizador. No que diz respeito a esta questão, temos de considerar que o hipertexto está em permanente actualização e logo nunca está completo, e que a própria forma do hipertexto encoraja a descentralização, pois fornece-nos a possibilidade de criar um número indefinido de “centros” que podem, por sua vez, ser expandidos e relacionados de diversas formas. Os exemplos dados por Jerome McGann são a Internet e a biblioteca. A primeira é descrita como uma estrutura não-centralizada – “decentered text”- de relações complexas, onde as diversas partes do conjunto, nomeadamente ficheiros do hipertexto e os diversos elos que encontramos na Internet, actuam como unidades estruturadas de modo independente, assegurando que as relações e as conexões se estabeleçam de modo arbitrário. Então, cada documento ou parte de documento tem um valor absoluto dentro do hipertexto, isto é, cada uma das unidades, mesmo que ínfima, de um documento, remete para o todo. De seguida, a biblioteca assemelha-se ao hipertexto pois também é um arquivo e, apesar de estar sempre completa, isto é, de incluir tudo o que é relevante, pode ser infinitamente expandida, é adaptável a qualquer ambiente físico e é um organismo neutro, pois permite-nos conduzir livremente as nossas pesquisas.

Quando o hipertexto é usado como suporte para o estudo e navegação num vasto conjunto de documentos, surge uma nova forma de descentralização. Se antes a forma do códex exigia pontos fixos, isto é, pontos de apoio como forma de estabelecer relações entre os documentos, nomeadamente o “definitive text”, “standard text”, “Ur text”, “ideal text” e “copy text” agora, as estruturas hipertextuais não necessitam de recorrer a estes mecanismos para ordenar os diversos documentos.

Todavia, nenhum dos projectos hipermédia existentes é verdadeiramente descentrado. Pelo contrário, todos possuem estruturas centradas e com falta de dinâmica, isto é, todos eles possuem estruturas hierarquicamente instituídas.

O supra mencionado Rossetti Hypermedia Archive pretende que a sua estrutura atinja um nível de organização no qual textos, imagens e outros documentos não estejam centralizados. Deste modo, ao consultar um texto poético, por exemplo, nenhum aspecto do documento assume protagonismo em relação aos outros. As opções existentes são apresentadas ao utilizador e é este quem conduz as suas próprias escolhas. O objectivo é implementar, ao nível do interface, as capacidades de dinamização e descentralização das novas tecnologias.      

 

Março de 2006

Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra

© Ana Catarina Garrido, acgpg@hotmail.com

 

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