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A Evolução dos Computadores e da Internet

Susana Basílio


 

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Introdução    

1. Breve História dos Computadores

a. O Computador Moderno

b. Joseph Licklider

c. Douglas C. Engelbart

2. A Origem da Internet

a. Antecedentes

b. Origem da Internet

c. Desenvolvimento da ARPANET 

d. A Internet

e. A Velha e a Nova Internet

Conclusão

Bibliografia

                                                                                                                  


Introdução

 

Desde a mais remota antiguidade que o ser humano procura e desenvolve meios e máquinas para realizar cálculos, do mais simples ao mais complexo, com o mínimo de tempo e o máximo de eficiência. Do cálculo primitivo feito através de contas e conchas, até aos resultados hoje alcançados pelos super computadores, muito tempo se passou mas o princípio continua o mesmo: Calcular!

Foi nos anos do Pós-Segunda Guerra Mundial, que com a incorporação das novas tecnologias então desenvolvidas, o projecto computador se tornou realidade. O computador foi, primeiramente, idealizado e utilizado como instrumento de defesa na Segunda Guerra Mundial (por exemplo em radares), depois usado pela IBM nos anos 50 para desenvolver o sistema SABRE (Semi-Automatic Business Related Environment) que constituiria um modelo para todas as transacções comerciais e, finalmente nos finais dos anos 70, com a comercialização do Apple II, o computador torna-se num instrumento de trabalho e de lazer (por exemplo devido aos jogos de computador) para as massas.

De que forma se deu a evolução do computador? E da Internet? Quais foram os acontecimentos que originaram a sua criação? De que modo é que estas tecnologias revolucionaram a sociedade?

 

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1. Breve História dos Computadores

 

"Os computadores não tinham de ser enormes máquinas colocadas numa sala, pelo contrário, poderiam ser humanos, máquinas íntimas, respondendo-nos e ajudando-nos como indivíduos. Poderiam alcançar a criatividade humana, democratizar o acesso à informação, aproximar comunidades e construir uma nova comunidade global para comunicações e comércio.  Em resumo, o computador poderia ser um instrumento de poder individual”.[1]

 

a. O Computador Moderno

O computador moderno nasce das ideias sobre algoritmos, publicadas em 1937 por Alan Turing, e dos planos de John von Neumann para uma nova máquina de calcular que pela primeira vez inclui, além de cálculos matemáticos, o processamento lógico de informações. O primeiro computador operacional foi construído por Alan Turing e pela sua equipa para o serviço de inteligência britânico em 1940. Chamava-se Heath Robinson, utilizava tecnologia de relés e foi construído especificamente para decifrar mensagens alemãs cifradas pela máquina Enigma. Esta primeira máquina foi substituída em 1943 pelo Colossus, com tecnologia de válvulas e capaz de decifrar o código da segunda geração de máquinas Enigma. No final da guerra, dez Colossus em operação constante permitiam que os ingleses soubessem melhor que o comando alemão onde se encontravam seus submarinos. A evolução posterior dos computadores pode ser dividida em três períodos.

De 1945 a 1950 foram fabricados os primeiros computadores, enquanto que, simultaneamente, eram construídas as últimas das grandes calculadoras. Cinco máquinas construídas neste período podem reivindicar o título de primeiros computadores:

1. O EDVAC, concebido por John von Neumann, Eckert e Mauchy, foi desenvolvido na “Moore School”. Foi colocado em funcionamento em 1951.

2. O IAS, construído no ”Institute of Advanced Study” da Universidade de Princeton por von Neumann e concluído em 1952.

3. O BINAC, construído por Eckert e Mauchy, ficou pronto em 1949.

4. O EDSAC, construído na Universidade de Cambridge pelo professor Wilkes, entrou em funcionamento em 1949.  

5. O MARK 1, desenvolvido na Universidade de Manchester por Max Newman e Alan Turing, tornou-se operacional em 1948, o que a torna o primeiro computador a funcionar no mundo.

Duas outras máquinas, o ENIAC desenvolvido por von Neumann e H.H. Goldstine, e o IBM SSEC da IBM, apesar de serem ainda grandes calculadoras, foram utilizados de maneira semelhante aos novos computadores.

De 1951 a 1958, o computador passa a ser comercializado em grande escala. Esta década é marcada pelo surgimento dos primeiros computadores civis e pelo desenvolvimento de grandes computadores militares. Máquinas como o UNIVAC 1 e o Whirlwind caracterizam este período. O UNIVAC 1, concebido e construído depois de inúmeros percalços por Eckert e Mauchy, foi o primeiro computador para uso civil. O seu projecto foi todo voltado para aplicações em administração. Já o Whirlwind, construído entre 1946 e 1951 no Massachusetts Institute of Technology, era uma máquina militar voltada para aplicações de aerodinâmica e simulação de voo. Esta mesma máquina, sob o nome de AN/FSQ 7 e 8, tornar-se-á a base para o sistema de defesa antiaéreo dos Estados Unidos - SAGE -, do inglês, “Semi Automatic Ground Environment System”. Inspirados no IAS, surgem em 1953 os computadores IBM 701, para uso militar, e IBM 702, para uso civil na administração, dando origem a uma longa série de máquinas, como o 650, 704, 709, etc., que tornaram a IBM líder absoluta no fabrico de computadores.

O período de 1959 a 1962 caracteriza-se pelo aparecimento dos computadores baseados nos transistores inventado no “Bell Laboratories”. As primeiras máquinas transistorizadas foram:

1. O SEAC, construído pelo Departamento do Comércio dos Estados Unidos e terminado em 1950.

2. O TRANSAC S 100, construído pela Philco sob contrato do governo americano.

3. O Atlas Guidance Computer Model 1, utilizado para experiências espaciais e terminado em 1956.

4. O CDC 1604 da Control Data que ficou pronto em 1959.

A primeira máquina IBM transistorizada foi o 7090.

O sistema SAGE e as pesquisas militares em geral, no contexto da Guerra Fria, foram os grandes impulsionadores do desenvolvimento dos computadores e responsáveis pela origem da maioria das inovações introduzidas na área.

A partir da década de setenta, a indústria da informática começa a não mais depender das verbas militares para seu desenvolvimento. Foi a época das séries 360 e 370 da IBM e do surgimento dos primeiros super computadores, por exemplo, o ILLIAC IV, construído pela Universidade de Illinois e pela Burroughs com verbas militares, o Cyber 205 da Control Data e o Cray 1. As tecnologias utilizadas ao longo do tempo para a construção dos computadores podem ser utilizadas para separá-los em quatro gerações: primeira geração – válvulas, segunda geração – transistores, terceira geração - circuitos integrados e quarta geração - circuitos integrados de larga escala.

Paralelamente, inovações como o “time-sharing” e a tecnologia de redes que tornavam o computador disponível para uso individual, levaram à ideia a construção de mini computadores, como a série dos PDPs “Programmed Data Processor Model” da Digital Equipment Corporation. O primeiro micro computador também foi construído na Digital, em 1973, sob a direcção de David Ahl. No entanto, o projecto não teve continuidade. Os primeiros micro computadores comercializados foram o MARK 8, vendido sob forma de “kit” para montar e o ALTAIR 8800, construído a partir do circuito integrado Intel 8080. Finalmente, com a criação da linguagem Basic e o aparecimento dos micro computadores Apple 1 e 2, estava iniciada a revolução da micro-informática, hoje representada por empresas poderosas como a Apple e a Microsoft.

 

b. Joseph Licklider

Em 1960, J. C. R. Licklider esperava ver concretizados no terreno dentro de 10 a 15 anos os cenários de computação distribuída e partilhada com que sonhava. Mas só 40 anos depois se começam a dar os primeiros passos.

Ian Foster, um dos investigadores norte-americanos na ribalta desta área emergente, considerou o trabalho de Licklider “absolutamente seminal”. “Em muitos aspectos, começamos, agora, a ser capazes de perceber a visão dele de há 40 anos atrás” referiu para chamar à atenção do artigo científico escrito em Março de 1960 por Licklider.

Sugestivamente intitulado “Simbiose Homem-Computador”, era baseado nas experiências de partilha de recursos de computação desenvolvidas por uma pequena equipa que ele liderou na Bolt, Berenek & Newman, uma empresa histórica da área de Boston. No artigo referido, Licklider escrevia, com algum optimismo, que “(…)é razoável prever, dentro de 10 a 15 anos, um 'centro de pensamento' que incorpore as funções actuais das bibliotecas com os avanços no campo do armazenamento e recuperação de dados e com as funções de simbiose entre homem e máquina (…)”. Esta visão implicaria “(…) uma rede de centros daquele tipo, conectados uns aos outros por linhas de comunicação de alta velocidade e ligadas aos utilizadores individuais através de serviços alugados(…)”[2].

 

c. Douglas C. Engelbart 

Em 1945, leu o artigo de Vannevar Bush, “As We May Think”, do qual resultou a sua visão de que instrumentos baseados num computador poderiam aumentar o intelecto humano, melhorando portanto a nossa capacidade total para enfrentar os problemas e objectivos, quer individuais, quer da sociedade.

Durante os anos 50 e 60, dedicou-se a desenvolver o rato e muitas das características que se podem encontrar em todos os GUI's, sistemas de auxílio integrados, correio electrónico, teleconferência e hipermédia interactivo. Em 1963, criou o esqueleto para um sistema hipermédia interactivo, num artigo intitulado A Conceptual Framewok for an Argumentation of Man's Intellect. Em 1965, Engelbart criou sua maior contribuição para a informática: o rato. A sua primeira versão era de madeira, tinha apenas um botão e movia-se sobre pequenas rodas. Antes de ele existir, tudo era feito no teclado, o que exigia muito do usuário. Em 1968, deu por completo o NLS (N Line System), que foi a primeira realização do conceito de Douglas Engelbart para o Augmentation System (AS). O NLS foi pioneiro em muitas das características que hoje integram os modernos sistemas multimédia on-line: rato, windows, e-mail, processamento de texto e hipertexto. Em Dezembro de 1968, na histórica conferência Joint Computer Conference, realizada em São Francisco, no Estado da Califórnia, além de realizar a primeira demonstração do uso do rato, Engelbart também introduziu conceitos experimentais que acabariam por mudar o rumo da evolução dos computadores: Videoconferência com computador e vídeo, groupware, hipermédia, hipertexto, e as ideias básica do que num futuro não muito longe viria a ser a Internet. Engelbart é internacionalmente conhecido por ter revolucionado a forma como o ser humano interage com o computador. Para Engelbart, o hipertexto era uma parte muito importante do seu AS, que iria permitir aos utilizadores expandir a informação que lhes era disponibilizada, facilitar a criação colaborativa e tornar-se um foco crítico para a comunidade, todos eles elementos chave da Rede. O engenheiro também contribuiu com o seu génio para outros projectos de longo prazo e sucesso. Em 1969 surge a ARPANET (precursora da internet), que tinha como objectivo inicial a criação de uma rede que fosse indestrutível aos bombardeiros e que interligasse pontos estratégicos com fins militares, como por exemplo centros de pesquisa e tecnologia e serviços de informação nacional. A ARPANET foi criada devido a requisitos do Departamento de Defesa dos EUA.

Em 1988, Douglas Engelbart fundou, com a sua filha Christina Engelbart, o Bootstrap Institute para promover alta performance nas organizações e desenvolver novas tecnologias, com a mesma meta do desenvolvimento do NLS, cujas funcionalidades avançadas pouco foram exploradas pelas pessoas da época. Somente 30 anos depois é que foram plenamente exploradas, talvez porque Engelbart estivesse muito à frente do seu tempo.

Actualmente, com 80 anos feitos em 2005, Douglas Engelbart ainda é o director da sua própria empresa, o Bootstrap Institute, que está sedeada na cidade de Fremont na Califórnia e que promove o conceito de Collective IQ e o desenvolvimento do que Douglas Engelbart chama de Open Hyper-Document Systems (OHS) e HyperScope, uma subsidiária do OHS.

 

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2. A Origem da Internet

 

A origem da Internet, como a conhecemos hoje, remonta aos anos 60. Era a época da Guerra Fria entre as duas potências mundiais, os Estados Unidos da América e a União Soviética. As inovações na manipulação de dados electrónicos provinham principalmente de iniciativas militares. 

 

a. Antecedentes

No decurso da Segunda Guerra Mundial, entre 4 e 11 de Fevereiro de 1945, quando as forças armadas russas tinham atingido o rio Oder (fronteira entre a Polónia e a Alemanha) e os exércitos dos Estados Unidos da América e de Inglaterra se encontravam perto das margens do rio Reno (fronteira entre a França e Alemanha), os presidentes dos governos dos países aliados reuniram-se em Yalta na Península russa da Crimeia. Nessa reunião Roosevelt, Churchill e Stalin estabeleceram as regras para a divisão do território alemão e do território dos aliados na Europa de Leste. Roosevelt e Churchill aperceberam-se que o poder do exército russo era muito superior ao do poder conjunto dos exércitos dos EUA e da Inglaterra, pelo que no final da reunião declararam que o resultado obtido "não tinha sido bom, mas o possível". Considera-se que nessa reunião se iniciou a denominada Guerra Fria passando a Rússia de aliado a inimigo. A denominada Guerra Fria passou a consubstanciar-se em acções de espionagem em que ambas as partes procuravam atingir um estado de equilíbrio militar que tornasse inviável o ataque de uma à outra.

 

b. Origem da Internet

A 4 de Outubro de 1957, a Rússia lançou para o espaço exterior à Terra o primeiro satélite artificial na história da humanidade. O satélite denominava-se Sputnik, completava uma órbita em volta da Terra em cada 90 minutos e emitia sinais rádio nas frequências de 20 MHZ e 40 MHZ que eram audíveis por qualquer pessoa que utilizasse um rádio receptor. Como reacção a este avanço tecnológico russo, o Presidente dos USA, Eisenhower, criou, em Outubro de 1957, a ARPA (Advanced Reasearch Project Agency). O objectivo principal da ARPA era o desenvolvimento de programas respeitantes aos satélites e ao espaço. A criação da NASA (National Aeronautics & Space Administration), no verão de 1958, parecia retirar à ARPA razão para a sua existência. No entanto, em 1961 a Universidade da Califórnia (UCLA) em Santa Bárbara, herdou da Força Aérea um enorme computador IBM, o Q-32. Este facto iria permitir à ARPA orientar a sua investigação para a área da, recém-nascida, Informática.

Para dirigir e coordenar o Command and Control Research (CCR) foi contratado o psicólogo Joseph Licklider que era um especialista em computadores já com reputação internacional. No CCR o trabalho baseava-se na utilização do “batch processing”, processamento de dados por lotes e em tempo diferido. Este processo que satisfazia a maioria das necessidades de cálculo não se adequava à comunicação interactiva com computadores nem à transmissão de dados entre eles. Licklider criou então o IPTO (Information Processing Techniques Office) orientado para a comunicação interactiva e transmissão de dados. Para a comunicação rápida entre as equipas de investigadores era necessária a construção de uma rede (NET) pelo que a investigação, no âmbito da ARPA, foi orientada para a construção de redes de comunicação de dados.

Em 1965 Licklider deixou a ARPA, mas a sua orientação foi continuada pelo seu sucessor Robert Taylor, também psicólogo. Dispondo de um orçamento de 19 milhões de dólares, Taylor iniciou o financiamento da primeira rede de computadores. A tarefa não era fácil. Já existiam redes de computadores desenvolvidas pelos fabricantes, mas cada um deles impunha as suas normas e utilizava linguagens de comunicação incompatíveis com as dos restantes. Por outro lado, a rede deveria oferecer confiança aos utilizadores, isto é, as mensagens deveriam chegar intactas aos receptores quaisquer que fossem os acidentes encontrados no seu percurso entre o emissor e o receptor. A solução proposta para o problema compreendia a utilização de redes do tipo distribuído, nas quais era possível conectar um receptor e um emissor utilizando vários percursos. Se um nó da rede avariasse a mensagem deveria continuar o seu percurso utilizando outro caminho disponível.

Alguns anos antes o norte-americano Paul Baran e o inglês Donald Davies tinham imaginado um sistema de comutação por pacotes que resolveria o problema. Uma mensagem nunca circularia completa na rede; seria “cortada” previamente em “bocados” que seriam enviados por caminhos distintos. Cada “bocado”, “encapsulado” num pacote conteria o endereço do emissor, o endereço do receptor, o número de ordem do “bocado” e, evidentemente, o conteúdo do “bocado”. Deste modo, o computador receptor poderia reconstituir, localmente, para o receptor a mensagem original. Para aliviar o trabalho dos computadores emissor e receptor (denominado “host”) foram construídos computadores intermediários que processassem o trabalho de “routing”. Cada computador seria assim conectado à rede através de um computador intermediário denominado IMP (Interface Message Processor). Para que todos os computadores pudessem comunicar era necessário criar um protocolo de comunicações que regulasse o intercâmbio de mensagens. Os primeiros protocolos construídos foram o Telnet (ligação interactiva de um terminal com um computador remoto) e o FTP (File Transfer Protocol), ou seja, transferência de ficheiros entre dois computadores. As denominações originais dos protocolos eram DEL (Decode – Encode – Language, isto é, linguagem de codificação / descodificação) e NIL (Network Interchange Language, ou seja, linguagem de intercâmbio na rede).

A primeira rede de computadores foi construída entre a Universidade da Califórnia em Los Angeles, o Stanford Research Institute (SRI), a Universidade de Utah e a Universidade da Califórnia em Santa Bárbara. No dia 1 de Dezembro de 1969 “nascia” a ARPANET. Os estudantes destas quatro Universidades criaram um grupo de trabalho que auto-denominaram Network Working Group (NWG). O protocolo de comunicações instalado nos “host” era insuficiente para gerir este novo tipo de comunicações. O NWG desenvolveu um Network Control Protocol (NCP), que podia ser instalado em cada um dos diversos “hosts” que estabelecia as conexões, as interrompia, as comutava e controlava o fluxo das mensagens. A primeira rede passou a ter a sua linguagem própria independente do “hardware” que a suportava. A ARPANET utilizava a rede telefónica normal através do sistema de aluguer de circuitos. Os iniciais quatro nós da rede forma ampliados para trinta em Agosto de 1972. Considera-se esta data como o marco para início da actividade da primeira comunidade virtual. Paralelamente, foram construídas outras redes nos Estados Unidos da América, em Inglaterra e, nomeadamente em França, onde no âmbito do projecto Cyclades, concebido por Louis Pouzin, foi construída a TRANSPAC.

 

c. Desenvolvimento da ARPANET

No início, a actividade principal que se desenvolvia na comunidade virtual da ARPANET era o actualmente banal correio electrónico (e-mail). As discussões “on-line” (actualmente denominadas “fóruns”) e milhares de mensagens pessoais circulavam entre os membros da comunidade acelerando o desenvolvimento de programas utilitários que simplificavam a utilização deste instrumento nunca antes utilizado. A importância da ARPANET era tal que, em 1972, foi rebaptizada DARPANET em que o D significava Defense e lembrava que a rede dependia do Pentágono, o qual financiava os investimentos para a ligação entre computadores geograficamente afastados de modo a ser permitido o seu acesso remoto e a partilha de fontes de dados. Surge então a ideia da criação de uma “International Network” (rede internacional) e de uma “Interconnected Networks” (conexão de redes regionais e nacionais que ainda não comunicavam entre si). Estas expressões apadrinharam a futura denominação “Internet”.

Entre 1973 e 1978, uma equipa de investigadores coordenada por Vinton Cerf no SRI (Stanford) e Robert Kahn na DARPA desenvolveu um protocolo que assegurava a interoperacionalidade e interconexão de redes diversas de computadores. Este protocolo denominou-se TCP/IP (Transmission Control Protocol e Internet Protocol) que substituiu totalmente o NCP em 1983.

Entretanto, o controlo da ARPANET foi transferido, a 1 de Julho de 1975, para a US Defense Communications Agency conhecida pela sigla DISA (Defense Information Sistems Agency). A operacionalidade e controlo da ARPANET eram então totalmente executados pela Secretaria de Estado da Defesa dos Estados Unidos da América. A DARPA financiou também projectos que permitissem a utilização da técnica de comutação de pacotes para navios em navegação e unidades móveis terrestres que dispusessem de meios rádio. Este financiamento deu origem à construção da rede local Ethernet, que para além da utilização do rádio, também suportava a transmissão por cabos coaxiais.

No princípio do ano de 1980 a ARPANET foi dividida em duas redes. A MILNET que servia as necessidades militares e a ARPANET que suportava a investigação. O Departamento de Defesa coordenava, controlava e financiava o desenvolvimento em ambas as redes. A NSF (National Science Foundation), criada em 1975, não via com bons olhos o domínio dos militares sobre as redes de comunicação de dados e decidiu construir a sua própria rede denominada CSNET (Computer Science Network) com o objectivo de conectar todos os laboratórios de Informática dos Estados Unidos da América. Entre 1975 e 1985 formam criadas várias redes de comunicação de dados utilizando fontes de financiamento diferentes, como por exemplo a UUCP, USENET e a BITNET.

Em Julho de 1977, Vinton Cerf e Robert Kahn realizaram uma demonstração do protocolo TCP/IP utilizando três redes: a ARPANET, a RPNET e a STATNET. Considera-se que foi nessa demonstração que nasceu a Internet.

No final dos anos 80, o sistema de conexão e comunicação entre grandes centros de computação, ao qual as redes menores podiam se incorporar, recebeu o nome apropriado de Backbone (espinha dorsal).

Na Europa, nesta mesma época, desenvolvia-se um projecto semelhante. No velho continente, a tónica eram as Normas ISO. Não havia interesse no modelo TCP/IP americano porque este não era normalizado. Em 1986 foi fundada a organização RARE (Réseaux Associés pour la Recherche Européenne). Esta organização deveria coordenar todos os esforços de sistematização das redes europeias e criou um projecto, denominado COSINE (Cooperation for an Open Systems Interconnection Networking in Europe).

 

d. A Internet

Em 1990, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos da América desmantelou a ARPANET que foi substituída pela rede da NSF, rebaptizada NSFNET que se popularizou, em todo o mundo, com a denominação Internet. Para expansão da utilização da Internet foi decisiva a criação WWW (World Wide Web) criada por dois engenheiros do CERN (Centre Européen por la Recherche Nucléaire), Robert Caillaiu e Tim Berners-Lee, do HTML (HyperText Markup Language) e dos Browsers. O primeiro browser utilizado foi o LYNX que apenas permitia a transferência de textos. O MOSAIC, concebido na Universidade de Illinois (EUA), já permitia a transferência de textos e imagens. Do MOSAIC derivaram os populares Netscape e Internet Explorer.

O que se entende por Internet nos dias de hoje não é uma rede única e homogénea, mas sim, uma interligação de muitas redes territoriais ou organizacionais menores. Estas redes possuem uma conexão com os Backbones e, através deles, com a grande rede. Os servidores comerciais também estão conectados da mesma forma.

A Internet transforma-se num sistema mundial público de redes de computadores (numa rede de redes), ao qual qualquer pessoa ou computador, previamente autorizado, pode conectar-se. Obtida a conexão o sistema permite a transferência de informação entre computadores. A infra-estrutura utilizada pela Internet é a rede mundial de telecomunicações.

 

e. A Velha e a Nova Internet

O que vemos hoje no ecrã do nosso computador, quando nos ligamos à Internet, é muitíssimo diferente daquilo que aparecia nos computadores dos anos 70, pois nessa data surgiam apenas informações escritas. Além disso, quem quisesse aceder um desses textos precisava de aprender uma linguagem de computador muito complicada, chamada Unix. Era a velha Internet. A Internet é tão recente na história e já tem uma velha geração, visto que as mudanças são muito rápidas.

A partir de 1991, tudo mudou. Um físico suíço chamado Tim Berners-Lee inventou a World Wide Web, que significa "rede de alcance mundial". Nessa nova cara da Internet, as páginas ganharam hipertextos. São textos comuns que podem ser interligados a outros. Quem faz a ponte são os links, as palavras-chave em que clicamos. Elas levam-nos de uma página para a outra. A Internet passou a ser, graças a Berners-Lee, uma imensa colecção de páginas. Mas ainda não tinham imagens.

Quem conseguiu a façanha foi Marc Andreessen, o criador do Netscape, em 1993. Ele inventou o primeiro navegador, um programa que permite a deslocação facilmente de uma página a outra, de uma forma simples e agradável. Chamava-se Mosaic, funcionava em qualquer tipo de computador e permitia a integração do texto com a imagem. Foi nesse momento que surgiu a expressão navegar, que significa passear pela Internet, indo de uma página a outra, livremente. A partir de então, estudantes de diferentes universidades começaram a fazer páginas com informações pessoais, com fotos dos animais de estimação, da universidade, da família, dos amigos. Também entravam nessas páginas os gostos musicais e os hobbies.

Depois dessas páginas pessoais, começaram a aparecer as páginas de empresas, de institutos científicos, de fãs de bandas, de filmes, de bibliotecas, de cidades, de turismo, de supermercados e tudo o que se pode imaginar. Nesta imensa biblioteca há de tudo. São mais de 800 milhões de páginas sobre os assuntos mais variados. Tudo o que a imaginação humana pudesse conceber ía parar à rede, que se tornou uma grande arena de conhecimento e diversão. Depois da Internet, o mundo nunca mais foi o mesmo.

 

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Conclusão

 

O que nos reserva o futuro? Será que ainda vai haver uma evolução significativa do computador e da Internet? Haverá limites para a imaginação humana?

A meu ver, a evolução dos computadores ainda não ficou por aqui. Há-de haver sempre alguém com um intelecto e uma imaginação fora de série que revolucionará, mais uma vez, o computador quer a nível de hardware, quer a nível de software. Aliás, isto não é nada que não tenha já sido antevisto por diversos cineastas norte-americanos, nomeadamente por Stanley Kubric que, no seu filme “2001, Odisseia no Espaço” de 1968, precisamente no auge da corrida espacial entre os EUA e a URSS, contendo uma espectacularidade única, prescindiu de diálogos em favor de imagens e efeitos especiais espectaculares. De facto, este filme é uma contagem decrescente para o amanhã, um mapa de estradas para o destino humano, uma busca do infinito, algo que esteve sempre inerente à condição humana.

No que se refere ao futuro da Internet, Nelson Simões, no site da Rede de Pesquisa e Ensino do Brasil, escreve num artigo intitulado «Nova Internet» o seguinte:

Seria possível depender da Internet que conhecemos e temos utilizado nos últimos anos para aplicações com alta interatividade, por exemplo, em medicina ou educação? Com toda certeza, ninguém se sentiria confortável dependendo da atual Internet para que um médico a distância pudesse produzir um diagnóstico a partir de informações transmitidas pela rede, sejam elas imagem e som, ou até mesmo gráficas. Mesmo em educação, apesar da grande oferta de ambientes visando o treinamento e a capacitação de pessoas a distância, muitos são os problemas enfrentados na realização de uma interação real entre aluno e professor através da rede. (…) Uma das principais características da nova Internet é a sua capacidade de tratar de forma diferenciada aplicações com necessidades distintas e, desta forma, atender adequadamente a cada uma. Isto se chama qualidade de serviço, abreviado em inglês por QoS - quality of service - e, no fundo, consiste em transformar a rede que é extremamente equânime com todos as informações que trata, em uma rede capaz de discriminar aplicações que exigem tratamento diferenciado. (…) A nova Internet não surgirá na tela do computador com data e hora marcada. Ela estará se incorporando ininterruptamente à velha Internet, tornando-a melhor, mais segura, mais fácil. Será como uma nova pele que nasce para substituir a antiga. Não será tão rápido como gostaríamos, mas a boa notícia é que ela já nasceu.[3]

 

Março de 2006

Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra

© Susana Basílio, susyb1981@hotmail.com

 

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Notas

[1] WALDROP, Mitchell M.(2001): “The Origins of Personal Computing”, p. 73.

[2] http://memex.org/licklider.pdf

[3] http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=010150040419

 


Bibliografia

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