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Eros, Mónadas e Computadores: Michael Heim e o Neoplatonismo Ciberespacial

Miguel Sousa Santos


 

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1.

2.

3.

Bibliografia 

 


1.

 

“The Erotic Ontology of Cyberspace” (Heim, 1994) apresenta uma visão fenomenológica do ciber-espaço enquanto “laboratório metafísico” (Heim p. 70). Partindo do idealismo platónico e da metafísica do filósofo alemão Gottfried Leiniz, Michael Heim, o autor, constrói uma dimensão filosófico-ontológica da ciber-realidade que pretende explicar o fascínio do homo sapiens sapiens pela tecnologia digital. Na verdade, mais do que simples entusiasmo pelas possibilidades lúdicas e informativas da Internet e das realizações virtuais, o texto sugere que o enamoramento da nossa contemporaneidade por estas novas tecnologias compreende uma significação metafísica que materializa o desejo erótico (o Eros de Platão) pelo conhecimento e, em última instância, pelo divino.

Heim constata que a atracção suscitada pelos computadores “is more erotic than sensuous, more spiritual than utilitarian” (p. 71), constituindo em última instância uma manifestação de um sentimento de insuficiência que caracteriza a própria natureza humana. Mais do que prazer estético ou utilitário, o computador apresenta-se como objecto verdadeiramente erótico, apelando à união da carne com a tecnologia. O autor justifica esta ideia:

the world rendered as pure information not only fascinates our eyes and minds, but also captures our hearts. We feel augmented and empowered. Our hearts beat in the machines. This is Eros. (p.72)

Eros, segundo O Banquete de Platão, é simultaneamente “intérprete e mensageiro dos homens junto dos deuses e dos deuses junto dos homens: àqueles, transmite as preces e os sacrifícios; a estes, as ordens e as recompensas em paga dos sacrifícios” (Platão, 1998:70). Eros é pois intermediário entre o humano e o divino, entre o mortal e o imortal. Como estas duas dualidades não se podem misturar, é Eros que preenche o vazio e permite que o todo se encontre unido consigo mesmo (Platão, 1998:70-71).

São as ciber-entidades (cyber entities), manifestações não carnais, que preenchem o espaço erótico (de Eros) do ciber-espaço. Michael Heim considera que o escritor William Gibson, nos seus livros, demonstra claramente aquilo a que apelida de “intrinsic allure of computerized entities” (Heim, p.71), algo que se consubstancia na experiência da hiper-realidade do ciber-espaço:

cyberspace – (…) a place of rapture and erotic intensity, of powerful desire and even self-submission. In the [computer] matrix, things attain a supervivid hyper-reality. Ordinary experience seems dull and unreal by comparison.

Esta experiência da intermediação entre o humano e o divino é preconizada em O Banquete, onde Diotima afirma a Sócrates que “o homem versado nestas matérias é, consequentemente, um ser genial, enquanto outro, cujo saber se limita a qualquer outro domínio, seja ele arte ou ofício, não passa de um artífice” (Platão, 1998:71). A transição da dimensão humana e mortal para a dimensão do espaço erótico assemelha-se pois a um percurso iniciático que tem como destino final a assimilação do divino e a conquista da imortalidade. Metaforicamente, estamos perante o caminho entre a ignorância e a sabedoria trilhado pelo filósofo: “nenhum deus ama o saber ou deseja ser sábio (pois que já o é), nem qualquer outro que possua o saber se dedica à filosofia” (Platão, 1998:72). O filósofo é, em “The Erotic Ontology of Cyberspace”, o cibernauta enamorado do conhecimento, do divino, do imortal, e, como aquele que ama as coisas belas ama em concreto a sua possessão (Platão, 1998:73), o cibernauta tornado Eros pretende afinal a extensão da sua finitude, preencher o vazio, “to prolong something of our physical selves beyond our mortal existence” (Heim, p.73).

Eros é a aspiração ao Belo – o divino estado de sapiência primordial – que advém do sentimento humano de auto-insuficiência. Michael Heim refere que “Eros motivates humans to see more and know more deeply” (p.73), e defende que esta doutrina platónica da aquisição de conhecimento é, em essência, idêntica à experiência cognitiva das realidades da matriz na medida em que “both approaches to cognition first extend and then renounce the physical embodiment of knowledge” (p.73). A reconversão do espaço Erótico platónico em informação implica a transformação da realidade empírica num total digital

so that human consciousness can enjoy an integrity in the empirical data that would never have been possible before computers. With an electronic infrastructure, the dream of perfect FORMS becomes the dream of inFORMation. (Heim, p.74)

A libertação da prisão carnal e a consequente emergência num mundo de sensação digital (Heim, p. 74) significa na prática a efectuação da passagem do plano concreto ao plano simbólico. Neste último, a transformação da matéria empírica em código binário (implicando uma requalificação de natureza cognitiva) permite à realidade tornar-se perfeitamente indistinta da informação. Assim, parece estar ao alcance do cibernauta a satisfação da sede de conhecimento da sua mente através da experiência cibernética desta nova realidade não física ou, se quisermos, metafísica. Platonicamente, está aqui implícito o fenómeno de abdicação da informação de raiz sensorial: a ilusão física dos sentidos não tem lugar nesta nova realidade mental.

Apesar de a filosofia platónica tradicional fornecer os princípios ontológicos de regência do ciber-espaço, são as suas concretizações modernas que explicam a sua estrutura. Michel Heim explica: 

The modern Platonists opened up the gates of verbal-spiritual understanding to concrete experiments set in empirical space and time. The new model of intelligence included the evidence of repeatable experience and the gritty details of experiment. For the first time, Platonism would have to absorb real space and real time into the objects of its contemplation. (Heim, p. 76)

Na prática, a evolução matemática transformou a actividade contemplativa do filósofo platónico numa actividade experimentadora e calculadora. É esta reconfiguração que possibilita o surgimento de uma nova metafísica e de uma nova lógica nos trabalhos de Gottfried Leibniz: “His logic, metaphysics, and notion of representational symbols show us the underpinnings of cyberspace” (Heim, p. 76).

Ao conceber um conjunto de símbolos passíveis de permitir a realização de deduções lógicas à velocidade do próprio pensamento, Leibniz ultrapassa as limitações da linearidade da linguagem verbal e abre caminho para a formação de uma linguagem universal que possibilitaria, de facto, não apenas traduzir todas as noções e conceitos, mas também simular o próprio pensamento humano e introduzir uma nova noção de comunicação:

Like mathematics, the Leibnizian symbols erase the distance between the signifiers and the signified, between the thought seeking to Express and the expression. No gap remains between symbol and meaning. Given the right motor, the Leibnizian symbolic logic (…) can function at the speed of thought. At such high speed, the felt semantic space closes between thought, language, and the thing expressed (Heim, p. 77),

o que transformaria radicalmente as faculdades cognitivas humanas e, consequentemente, o próprio conhecimento e sua aquisição. Está aqui subjacente, como Heim nota, uma emulação da forma como uma super-consciência (ou omnisciência) infinita exerce o conhecimento da realidade total sem limitações de espaço ou de tempo. Aplicada à matriz, esta formulação significaria a possibilidade dos utilizadores do ciber-espaço realizarem ligações, associações, movimentos imperceptíveis “at the speed of a flash of intuition” (Heim, p. 79). Assim se simula o pensamento da entidade que preenche todo o vazio e se alimenta o sonho de posse do conhecimento (de novo o sonho de Eros), pois “everything [in cyberspace] exists, implicitly if not actually, all at once” (Heim, p. 79).

 

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2.

 

É na teoria das Mónadas (ou Mónades) de Leibniz que Michael Heim encontra a conceptualização da natureza dos seres capazes de constituírem a rede de entidades computorizadas, entidades estas que conhecem a realidade e apreendem informação através de um interface que também lhes possibilita a manipulação desse conhecimento. A experimentação a este nível vai possibilitar um incremento das capacidades perceptivas e cognitivas da Mónada (Heim, p.79, 80). Leibniz estabelece assim o princípio do ciber-espaço, onde múltiplas entidades experimentam representações e simulações de realidades múltiplas. A própria manifestação de presença dessas entidades é, por si mesma, apenas uma representação “[d]o corpo que lhe está particularmente afecto” (Leibniz, 1714/1947:24).

A existência de uma rede (network) implica pois a pluralidade de entidades ou Mónadas, e é a presença e as actividades exercidas por estas que garantem a existência do universo. Ora, como tudo é pleno e tudo se encontra ligado, “todo o corpo se ressente de quanto se faz no universo, de modo que o omnividente poderia ler em cada um o que se faz em toda a parte” (Leibniz, 1714/1947:24). A constante necessidade da Mónada em representar para si mesma o universo explica não apenas a citada premissa de Leibniz, como justifica o motivo pelo qual a Mónada será ela própria uma representação desse universo. O filósofo alemão esclarece este fenómeno com o argumento de que “esta adequação de todas as coisas criadas a cada uma e de cada uma a todas as outras faz cada substância simples ter relações que exprimem todas as mais e ser, portanto, uma espécie de espelho vivo e perpétuo do universo” (Leibniz, 1714/1947:22). No entanto, isto não significa que as Mónadas sejam todas iguais, uma vez que

assim como a mesma cidade parece outra e se multiplica perspectivamente sendo observada de diversos lados, o mesmo sucede quando, pela infinita quantidade das substâncias simples, parece haver outros tantos universos diferentes, que, portanto, apenas são as perspectivas de um só, segundo os diferentes pontos de vista de cada Mónade (Leibniz, 1714/1947:22).

Heim sublinha este princípio idiossincrático: “the appetitive impulses in each monad highlight different things in the sequence of representational experience”. Este apetite das Mónades será pois motivado pelo sentimento de insuficiência acima mencionado a propósito do Eros platónico, da mesma forma como a pertença daquela ao universo será também um método aproximação ao divino, “a forma de obter a máxima perfeição que se puder alcançar” (Leibniz, 1714/1947:22). 

A transplantação das consciências para o ciber-espaço catalisa a experiência de libertação da realidade física, uma vez que “telecommunication offers na unrestricted freedom of expression and personal contact, with far less hierarchy and formality than are found in the primary social world” (Heim, p. 81). Trata-se afinal de uma libertação de ordem espiritual que contraria o isolamento humano característico da vida urbana contemporânea, como o autor em foco faz notar. No entanto, esta libertação reveste-se de um carácter ilusório. A própria realidade virtual não é mais, convenhamos, que uma ilusão que pretende enganar os sentidos substituindo-se à realidade concreta. Michael Heim levanta ainda uma questão que se prende com a própria ontologia humana: “our bodily existence stands at the forefront of our personal identity and individuality”, ou seja, cada ser humano é um conjunto bio-cognitivo único, existindo na medida em que não se confunde com nenhum outro. É precisamente este aspecto que a imersão no ciber-espaço contraria, tonando aparentemente possível a separação entre entidade biológica e entidade cognitiva e tornando a identidade manipulável. Mas

can we ever be fully present when we live through a surrogate body standing in for us? The stand-in self lacks the vulnerability and fragility of our primary identity. The stand-in self can never fully represent us. The more we mistake the cyberbodies for ourselves, the more the machine twists ourselves into the prostheses we are wearing (Heim, p.82).

A substituição da interacção humana pela comunicação virtual tem consequências manifestamente nefastas: “Without directly meeting others physically, our ethics languishes” (Heim, p.83). A natureza protésica da ciber-identidade torna a desconfiança norma e esbate a consciência de comunidade. Um outro lado da questão é a criminalidade informática, estimulada pela ausência de presença. À medida que a Internet se expande mundialmente, também os perigos se tornam mais reais e as suas consequências mais negativas: “A global international village, fed by accelerated competition and driven by information, may be host to an unprecedent barbarism” (Heim, p.83).

Do ponto de vista da informação, este autor sugere mesmo que sem canais de escolha e conteúdos estáveis e seguros o ciber-espaço poderá mesmo tornar-se “a waste of space” (p.84).

 

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3.

 

O último perigo e grande paradoxo da liberdade cibernética permitida pela Internet reside na possibilidade de o fácil acesso a um super-fluxo de informação ter o efeito perverso de aniquilar a pulsão erótica que conduz à necessidade de conhecer, ou seja, nas palavras de Heim, “remove the hidden recesses, the lure of the unknown, and you also destroy the erotic urge to undercover and reach further; you destroy the source of yearning. (…) The computer God’s-eye view robs you of your freedom to be fully human” (p. 84).

A transição para uma realidade sintética e quantificativa elimina a relevância das formas (leia-se esta palavra tendo presente o seu significado platónico) e cria uma harmonia artificial. Na verdade, a consequência última para o indivíduo é a sua própria ABSORÇÃO pela deidade digital: a interpretação de Heim da teoria das Mónades de Leibniz defende que a finitude da mente destas não lhes permite, afinal, escapar às leis racionais, condenando “whatever movement or change they make [to] disappear(s) in the lightning speed of God’s absolute cognition” (Heim, p. 85).     

Daqui ao terror tecnológico é apenas um passo, uma vez que

beneath the artificial harmony lies the possibility of surveillance by the all-knowing Central System Monad. The absolute sysop wields invisible power over all members of the network. The infinite CSM holds the key for monitoring, censoring, or rerouting any piece of information or any phenomenal presence on the network (Heim, p. 85).

A verdade é que este mundo do simultâneo e do quantificável não parece de todo adequado à realidade física humana. Se de facto o acesso à informação e ao conhecimento entusiasmam o Eros presente em cada ser humano e parecem sugerir um relacionamento de essência poética entre humano e cibernética, a verdade é que as relações de poder em causa (não esquecendo a consideração de Micheal Heim de que a relação humana com a tecnologia será mesmo de natureza submissiva) parecem mais facilmente anunciar uma verdadeira distopia à escala global do que uma aproximação à escala do conhecimento divino ou uma vinda de um super-homem da era tecnológica.

 

Março de 2006

Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra

© Miguel Sousa Santos, miguelssantos@aeiou.pt

 

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Bibliografia

HEIM, Michael (1994), “The Erotic Ontology of Cyberspace”, in David Trend, ed., Reading Digital Culture, Oxford: Blackwell 2002 [2001], pp.70-86.

LEIBNIZ, Gottfried (1714/1947), A Monadologia; Discurso de Metafísica, Coimbra: Casa do Castelo – Editora

PLATÃO (1998), O Banquete, Lisboa: Edições 70

 

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