DigLitWeb: Digital Literature Web

F-C

The Three Voices (Fig 5)  

C de Conceitos Esta página web procura conceitos adequados à textualidade electrónica, considerando a criação, a edição e a comunicação electrónica.

C for Concepts This webpage searches for concepts that reflect upon digital textuality, including electronic editing, electronic literature, and electronic communication.

   

 

 


 

índice | contents

autor

associação e hierarquia no texto electrónico

ciberespaço

computador

edição hipermédia

escrita electrónica

escrita topográfica

estabilidade e instabilidade documental

géneros e formas digitais

hiperligação

HTML

leitor

leitor-autor

lexia

lógica pictográfica

presença

realidade virtual

rede

remediação

rizoma

SGML

TEI

teoria social da edição

texto descentrado

textualidade digital

world wide web

 

 


autor

Amplamente usado na história literária, este conceito sofreu modificações profundas na forma como era abordado pela teoria literária do século XX, primeiro por influência do formalismo e do new criticism, depois pela teorização pós-estruturalista. Durante muito tempo, a literatura centrou-se na figura do autor, na sua vida, nos seus interesses, nos seus motivos. Desvendar o sentido de uma obra era praticamente o mesmo que compreender qual a intenção do autor quando escreveu essa obra. Esta concepção foi contestada  e muitos consideraram que a obra possuía em si toda a informação necessária para ser entendida, pelo que as intenções do autor eram não só irrelevantes com até enganadoras. Roland Barthes, com o seu ensaio “The death of the author”, e Michel Foucault , com “What is an author?”, lançaram as bases para uma concepção inteiramente nova. Segundo estes, o autor não é mais do que uma construção cujo objectivo é legitimar as actividades de escrita e leitura, que procuram sempre a voz de um indivíduo. Barthes propõe uma alternativa: o texto é plural, uma rede de vozes que não podem ser atribuídas a uma só origem. A leitura é, portanto, não a descoberta de uma voz única mas a acção que lida com as várias vozes que compõem o texto. Barthes coloca a ênfase no leitor, figura que recebera, até então, pouca atenção por parte da teoria da literatura. Foucault, por seu turno, chama a atenção para a natureza discursiva da categoria autor e para a sua função no controlo da instabilidade e da errância do sentido. [Tiago Jerónimo]

 

índice | contents


associação e hierarquia no texto electrónico

Considerados localmente, enquanto documentos ou conjuntos de documentos, os textos electrónicos estão organizados hierarquicamente, tal como acontece num livro. Muitas das suas hierarquias têm origem, de resto, em meta-estruturas do códice, como o índice, a anotação e os índices analíticos. Os programas de criação de sítios e páginas web ligam os ficheiros segundo uma estrutura em árvore, característica da sintaxe informática. A diferença fundamental entre os dispositivos hierárquicos no texto impresso e no texto electrónico está na intersecção das diferentes hierarquias (dentro de ou entre documentos) através de ligações que destroem a modularidade característica do códice, impondo-lhe inúmeras estruturas associativas que permitem multiplicar as deslocações não hierárquicas entre documentos. Deste modo, as hierarquias são reconfiguradas e potenciadas pelas associações, libertando os textos da sua inscrição específica num espaço e numa única ordem de indexação. Este processo associativo tem o efeito adicional de desfazer a coincidência entre os limites materiais dos documentos e a unidade de género ou de forma neles codificada. A digitalização implica, provavelmente, a progressiva recodificação de alguns desses géneros e formas segundo propriedades de géneros e formas hipertextuais.  [MP]

 

índice | contents


ciberespaço

Palavra cunhada por William Gibson no romance Neuromancer (1984) para descrever a alucinação cibernética, produzida a partir de bancos de dados, no espaço mental dos indivíduos. No livro de Gibson, como noutros romances de ficção cibernética, o ciberespaço é a representação gráfica gerada pelos sistemas de processamento da informação, combinando a ligação em rede e a realidade virtual. A imaterialidade digital permitiria construir a imersão sensorial no espaço artificial resultante do processamento da informação, com o objectivo de produzir o real e controlar o pensamento individual e colectivo. Filmes como Strange Days (1995) e Matrix (1999) exploram esta concepção alucinatória do ciberespaço como simulacro da consciência alheia ou como espaço físico artificial gerado por figuração realista e imersão sensorial. Noutra acepção, ciberespaço é simplesmente a designação do espaço de informação criado pelas redes de computadores, e pelas instituições e práticas que materializam e mantêm essa rede digital. Bolter e Grusin vêem-no simultaneamente como um sistema complexo de remediação de média anteriores (da pintura ao telefone e à televisão) e como um novo tipo de espaço social.

As a digital network, cyberspace remediates the electric communications networks of the past 150 years, the telegraph and the telephone; as virtual reality, it remediates the visual spaces of painting, film, and television; and as a social space, it remediates such historical spaces as cities and parks and such non-places as theme parks and shopping malls. Like other contemporary mediated spaces, cyberspace refashions and extends earlier media, which are themselves embedded in material and social environments.

Jay David Bolter & Richard Grusin, Remediation: Understanding New Media, Cambridge, Massachusetts, MIT Press, 1999; 2ª ed. 2000, p. 183.

[MP]

 

índice | contents


computador

Até 1945, o computador era qualquer máquina simples capaz de fazer as quatro operações aritméticas. Isso porque o verbo original francês – computer – significava somar. Mesmo os primeiros computadores, por assim dizer modernos, eram chamados cérebros electrónicos, porque a palavra computação era modesta demais para exprimir as maravilhas que eles eram capazes de fazer. Foi só a partir da segunda metade do século XX que o nome computador se vulgarizou e isso deve-se, provavelmente, à fama mundial do Eniac, considerado  o  primeiro  computador. Para divulgá-lo, a imprensa usou a palavra mais fácil  de  memorizar  e  que  ocupava  menos espaço, computer, deixando de lado a que talvez o definisse  melhor, “integrador”.   Já  os  franceses não gostaram de nenhum dos dois nomes, eles chamam o computador “ordinateur”, ou seja, “ordenador”.

Actualmente, define-se computador como sendo um equipamento ou dispositivo capaz de armazenar e manipular, lógica e matematicamente, quantidades numéricas representadas fisicamente, ou seja, é um equipamento electrónico capaz de ordenar, calcular, testar, pesquisar e editar informação (dados, texto, gráficos, imagens, som digitalizado…) de acordo com instruções estabelecidas e segundo uma representação binária (sequência de algarismos binários 0 e 1), obedecendo a um conjunto de operações aritméticas e lógicas. O computador é, hoje em dia, utilizado para os mais variados fins. Desde o super-computador ao microcomputador portátil, passando pelas estações de trabalho, uma gama muito diversificada de modelos responde às necessidades dos utilizadores.

Fontes:

www.viphostsystem.com/glossario/glossario.html

pt.wikipedia.org/wiki/Computador

www.aisa.com.br/diciona.html

[Susana Basílio]

 

índice | contents


edição hipermédia

Os hipertextos permitem-nos navegar por vastos corpora de documentos e estabelecer ligações complexas entre eles. Estas relações podem ser pré-definidas ou desenvolvidas através dos vínculos criados pelos marcadores de um projecto. As estruturas hipertextuais são designadas por projectos hipermédia quando encerram o poder de incorporar elementos auditivos e/ou visuais no sistema. No artigo “The Rationale of Hypertext”, Jerome McGann diz-nos: “These documentary networks may or may not be interactively organized (…) or they can be structured for transmission through the network. In this last case, the basic hypertext structure is raised to a higher power (…) a networked structure of local hypertexts opens out into a network of networks.” Efectivamente, estas redes documentais podem ser organizadas de forma interactiva, distribuídas em formas contidas, como o CD-ROM, ou criadas para transmissão na rede. Nesta última situação, a estrutura do hipertexto torna-se numa estrutura de redes de hipertextos.

Para McGann, o objectivo óptimo é a criação de um arquivo hipermédia constituído por várias redes, dando assim origem ao arquivo dos arquivos. Todavia, para que isto seja possível, é essencial considerar dois pontos: 1) a estrutura de um projecto hipermédia tem de privilegiar as metas desse mesmo projecto; 2) o projecto tem de possuir uma organização flexível, de modo a poder adaptar-se às mudanças de software e hardware. Na prática, não teríamos um sistema fechado em si mesmo, mas sim aberto à constante evolução das novas tecnologias.

A criação de um projecto de hiperedição em formato hipermédia é importante, pois as hiperedições apenas com texto electrónico são limitadas. De facto, as hiperedições meramente verbais retêm somente o valor semântico do documento, enquanto as edições hipermédia, pelo contrário, incorporam elementos auditivos e/ou visuais, ganhando assim a capacidade de relacionar diferentes tipos de materiais.

Os projectos hipermédia, tal como o Perseus Project e o Rossetti Hypermedia Archive, estão limitados pelas características estruturais das imagens que deles fazem parte. Quando estas imagens são incluídas na organização hipermédia, têm de ser simples ilustrações, pois a informação que está no mapa de bits da imagem digitalizada não pode ser estudada da mesma forma que a de um texto electrónico. A problemática da inclusão de imagens digitalizadas no meio computacional pode ser resolvida ou minimizada através da concepção de uma estrutura de marcadores que contenham as características de todos os tipos de documentos e do desenvolvimento de uma imagem instrumental que permita ligar suportes a uma determinada imagem. Deste modo, há uma expansão das potencialidades de pesquisa e análise dos materiais audiovisuais no âmbito da hiperedição.

No que diz respeito ao Rossetti Hypermedia Archive, há que ter em conta que este, assim como todos os seus semelhantes, escapam a uma importante limitação bibliográfica: a impossibilidade de corrigir, rever ou acrescentar nova informação a um documento sem repetir todo o processo de produção. Efectivamente, os arquivos hipermédia são construídos de modo a que as suas possibilidades de expansão e desenvolvimento sejam infinitas. (cf.  Jerome McGann, The Rationale of Hypertext, 1996) [Ana Catarina Garrido]

 

índice | contents


escrita electrónica

Estudos arqueológicos revelam a utilização de um sistema linear de escrita em 3.500 a.C. na região da Mesopotâmia. Os primeiros alfabetos surgiriam aproximadamente em 1700 a.C., nas regiões da Palestina e Síria. Entre 1000 e 700 a.C., o alfabeto fenício foi adaptado pelos gregos, que adicionaram ou alteraram símbolos para representarem as vogais. Na sociedade grega o domínio da escrita era considerado como um ofício entre outros. A tragédia e a poesia eram conservadas graças à memória colectiva e transmitidas oralmente, mantendo assim a primeira posição na transmissão do conhecimento. A escrita era vista com desconfiança, pois acreditava-se que a partir do momento que o indivíduo recorresse a esse suporte iria descurar o exercício da memória. No entanto, começou a ter uma forte difusão e tornou-se na primeira memória externa ao ser humano. O facto de a escrita ser a exteriorização de um acto interior fez com que fosse difícil considerá-la como tecnologia. Facto é que a biografia dos alfabetos comprova que a escrita foi uma das invenções mais elaboradas e complexas da história da humanidade. Ela seria um registo visual que permitia organizar e registar o pensamento, com fluidez e linearidade. O pensamento humano transferiu-se ao longo do tempo para este suporte, tornando-se num objecto visível, palpável, provocando um distanciamento que resultou numa maior consciência da linguagem oral. Livre da sequência obrigatoriamente temporal do discurso, o ser humano tinha finalmente um espaço onde poderia explicitar o seu raciocínio. Até ao século XII, a escrita terá sobretudo uma função de conservação e memorização. No scriptorium medieval, o livro não era copiado para ser lido. Os poucos hábitos de leitura que implicava eram sobretudo religiosos, envolvendo meditação e oração, segundo Marshall Mcluhan, a ruminatio do texto. Já com a fundação das primeiras universidades e escolas, o livro vai passar a ser um instrumento escolástico. O local de produção do livro muda do scriptorium para a oficina. Passa a existir um método de leitura, com uma necessidade de decifração. Elementos gráficos como espaçamento entre as palavras, pontuação, cabeçalhos e sistemas de arquivo e categorização permitiram a reorganização do conhecimento. No dealbar da imprensa era o editor que detinha a posição central neste processo. O livro foi sendo produzido de forma a conseguir responder às exigências do mercado. Segundo Marshall Macluhan, no livro The Gutenberg Galaxy, a invenção da tipografia tornaria possível a criação da primeira linha de montagem, o que fez do livro a primeira mercadoria a ser produzida em série. Com a imprensa, torna-se também possível a revisão e correcção das edições e surgem as erratas e as edições corrigidas. Ao mesmo tempo, guias de leitura, índices e notas de rodapé facilitavam a sua leitura e instituíam uma estandardização estrutural dos textos.

O texto electrónico herdou vários aspectos da tecnologia tipográfica, o que fez Jay David Bolter afirmar que o hipertexto adoptaria e remediaria as características da escrita do seu antecessor. Para Bolter, o sistema de hiperligação em links não é nada mais do que a versão electrónica das notas de rodapé, embora aplicadas até ao infinito. Esta estrutura garante novas formas de agir com o texto, recusando colocar o leitor à margem do processo de escrita. Para além disso, deixa entrever uma nova forma de escrever/ler. O computador inclui interactividade, enquanto que o papel é estático e avesso a qualquer modificação. Graças à sua memória, é capaz de compreender e tratar qualquer escrita alfabética complementando-a com outros media. Garante uma total flexibilidade porque permite a alteração do que já foi inscrito, ao passo que o livro permanece inalterável. Com o texto electrónico o leitor pode, não só submeter o texto a múltiplas operações (produzir um índice, anotações, cópias, divisões de texto, recomposições, etc.), mas também pode tornar-se no seu autor. Isto resulta num verdadeiro desafio à hegemonia da entidade autoral e obriga a que a noção de copyright e de direitos de autor sejam revistos. A distinção, fortemente marcada no livro impresso, entre escrita e leitura, entre autor e texto, desaparece, dando lugar a textos fragmentários. O hipertexto é subversivo na sua forma. Ele amplia os recursos expressivos do texto escrito na possibilidade de articular imagens, palavras e sons. Por vezes, a imagem e o som dominam a textualidade. Reclamam para si um significado, concebendo novas textualidades. O texto deixa de ser predominantemente verbal. É uma malha de bytes que se estende num espaço virtual transparente. Por tudo isto, a criação do hipertexto permitiu chegar reconceptualizar o sistema comunicacional que é a escrita. O hipertexto pode mudar a nossa concepção de signo ainda muito ligada a uma ciência linguística, que resumia a escrita à transcrição fonética; pode também fornecer novas concepções de texto e discurso, bem como promover o uso de novas linguagens gráficas.

Writers of hypertext create the elements of their writing system in the act of writing - by adding new composite elements to the alphabet, graphics, and icons available on their computers. Writing in the electronic medium can be challenging precisely because writers are compelled to define their own system as they proceed. Reading in the electronic medium can be challenging as well, for readers must decipher the system as they read.

Jay David Bolter, Writing Space: Computers, Hypertext, and the Remediation of Print, Mahwah, New Jersey: Lawrence ErlBaum Associates Publishers, 2001 [1991], p. 38.

[Daniela Maduro]

 

índice | contents


estabilidade e instabilidade documental

Quais seriam as possíveis consequências para o conhecimento da história, e de tudo o que nos rodeia, se o conteúdo dos livros pudesse ser alterado?  Esta pergunta é interessante de um ponto de vista de uma teoria do conhecimento histórico: num certo sentido, o conhecimento histórico depende da estabilidade dos documentos. Por outro lado, o conhecimento consiste na descoberta de novas relações entre os factos e os processos históricos descritos ou inferidos a partir das evidências materiais e documentais. Ou seja, ainda que os documentos mantenham a sua estabilidade textual, o conhecimento da história obriga a reescrever, sempre com novas aproximações e perspectivas, as narrativas em que surgem os documentos do passado. Por outras palavras, ainda que os textos permaneçam fechados (na sua estrutura narrativa e na sua forma material), os processos de leitura e os actos de conhecimento estão constantemente a reabri-los. Sob este ponto de vista, o hipertexto apenas tornaria materialmente visível o processo semântico e hermenêutico de escrever e ler como prática social e cognitiva inscrita na temporalidade que tenta descrever. A alegada volatilidade da produção documental electrónica resulta de uma concepção de arquivo e de biblioteca em que à escrita e ao suporte da escrita é atribuído o poder mágico de fixar os significantes fora da temporalidade que os produziu. Esse preciosismo arqueológico ignora a dimensão performativa dos actos simbólicos de que os documentos apenas podem constituir vestígios. Ao aproximar a escrita da fala, as tecnologias da informação redefinem a documentabilidade. [MP]

 

índice | contents


géneros e formas digitais

Que alterações resultam da utilização do meio digital para a criação literária? Existem  géneros e formas intrinsecamente digitais? Ou apenas formas resultantes da adaptação e transposição de géneros e formas de outros meios? A remediação cria novos géneros ou modifica apenas os géneros anteriores? O web-site é um género característico do novo meio, como o jornal, por exemplo, se tornou característico da imprensa? Ou é apenas uma estrutura de organização susceptível de acomodar géneros e formas muito diferentes, como o códice? Se assim é, haverá propriedades dos programas de hipertexto e das páginas web que tenham consequências poéticas? Se certas propriedades dos textos são intrínsecas aos géneros e formas, isto significaria que mesmo reproduzidas sob a forma de hipertexto haveria uma unidade de escrita e de leitura que os definiria e limitaria de um ponto de vista discursivo e semântico. Neste caso, ainda que pudessem ser um elemento de uma rede hipertextual e lhes fossem acrescentados elementos específicos da transmissão digital, possuiriam ao mesmo tempo a completude, fixidez e funcionalidade de um género tipográfico. Visto assim, o hipertexto seria mais um arquivo de textos que manteriam as suas propriedades fundamentais, ainda que reconfigurados de forma diferente de uma biblioteca, ou de uma antologia, ou de um jornal. O que significa a infinitude hipertextual? Considerado como rede de textos (isto é, um hipertexto de hipertextos, ou arquivo de arquivos) a infinitude parece caracterizar o ambiente de leitura em linha. Todavia, há a possibilidade de publicar os textos respeitando as modularidades (de género, de edição, de desenho gráfico, etc.) característicos da reprodução impressa. O formato PDF, por exemplo, é muitas vezes usado com essa finalidade, fazendo coincidir a unidade ficheiro com a unidade documento impresso. Quer dizer que é possível recriar as unidades discursivas e semânticas características dos textos impressos, uma vez que a estrutura princípio/meio/fim é também uma propriedade do género e da forma e não apenas do suporte material. Ou seja, a continuidade introduzida pela inserção do texto numa rede não exclui a descontinuidade da percepção de um todo, ainda que este não possa ser percepcionado como a unidade material discreta que resultaria de um volume impresso.

Por outro lado, é evidente também a ligação das propriedades do meio às propriedades dos géneros, ligando-os a tecnologias específicas. O desenvolvimento do romance, por exemplo, nos seus inúmeros subgéneros, não se pode separar da tecnologia da imprensa. Que grau de transformação dos géneros e formas anteriores é necessário para que o meio digital seja mais do que uma tecnologia de reprodução e de distribuição, passando a determinar certas propriedades formais e discursivas dos textos? A utilização de dispositivos como a animação, o grafismo digital e a hiperligação são suficientes para produzir um género digital? Por outro lado, a digitalidade dos géneros digitais actuais não será também uma função das aplicações informáticas actuais? Isto é, não haverá propriedades textuais que devam ser ligadas a ferramentas informáticas específicas e não à natureza digital da criação e transmissão? E teríamos de falar da página web Dreamweaver, do poema Flash, do conto StorySpace? Neste caso, certas propriedades textuais e gráficas dependeriam de gerações específicas de aplicações e de hardware. Na medida em que tais propriedades modificassem substancialmente as possibilidades combinatórias e estruturais dos elementos que definem uma forma, os programas informáticos passariam a fazer parte da descrição do género e da forma. Além disso, da construção de hipertextos como arquivos estruturados de textos ligados a uma obra ou a um autor, por exemplo, não resultará a criação de novos géneros, ou meta-géneros, caracterizados precisamente por uma determinada forma de ligar entre si os ficheiros e produzir uma teia discursiva? Neste caso, a edição electrónica, ao arquitectar um determinado ciberespaço meta-documental com o corpus de um autor, por exemplo, estaria também a definir um género ou forma digital específica. [MP]

 

índice | contents


HTML (Hypertext Markup Language)

Ao premir simultaneamente as teclas de atalho CTRL e U tem-se acesso ao código fonte de qualquer página na Internet. Este código fonte é o texto HTML ou Hypertext Markup Language. Trata-se de uma linguagem de marcação aplicada na construção de qualquer hipertexto tal como o vemos na World Wide Web. Esta linguagem é composta por etiquetas ou tags adicionadas a um texto integral que possibilitam a sua publicação na World Wide Web. As tags são uma série de comandos circunscritos por dois símbolos: “<” no início e “>” no final. Um texto HTML é composto por uma tag introdutória que representa o início do texto (<html>); por uma segunda que define o cabeçalho de um documento HTML (<head>) e por outra que define a formatação do hipertexto (<body>). A essência do hipertexto está na sua linguagem HTML. A World Wide Web, o primeiro browser da história, foi lançada em finais de 1990 por Tim Berners-Lee. No entanto, havia a necessidade de criar uma linguagem de marcação mais simples, capaz de interligar computadores remotos e que possibilitasse um fácil acesso à informação. O HTML nascia em 1991 no CERN (European Council for Nuclear Research). A partir daí só seria possível estabelecer a ligação entre computadores graças ao HTML e à utilização do protocolo de comunicação chamado HTTP ("HyperText Transfer Protocol"). O conceito do texto HTML contou com a contribuição de vários nomes. Em 1945, Vannevar Bush, no artigo "As We May Think", chamava a atenção para a quantidade de informação em desenvolvimento e para a necessidade de encontrar uma forma rápida e eficiente de categorizar a informação. Eis então que, usando a tecnologia do microfilme, imaginava uma interface mecânica chamada memex. Este aparelho era inspirado no pensamento humano, o qual funciona segundo processos de associação. O leitor do memex poderia aceder a dois textos no seu ecrã, ligados de forma associativa por “nós”, sendo memorizados para futura pesquisa. Os termos trails (trilhos); linkage (ancoragem); links (nós) e webs (redes), tão usados hoje em dia no contexto da Internet, têm a sua origem no trabalho de Vannevar Bush. Foi no seu pensamento que Ted Nelson se inspirou quando em 1965 cunhou o termo hipertexto num artigo chamado "A File Structure for the Complex, the Changing, and the Indeterminate". Nelson pretendia criar um dispositivo material que tornasse fluida a circulação de informação ligando textos de autores diferentes, ficando assim acessíveis a qualquer pessoa. No projecto “Xanadu” criaria uma estrutura em links ligando textos não-sequenciais. Esta estrutura era criada mediante o livre arbítrio do leitor, formando assim novos locais na rede.

George Paul Landow comparou a estrutura do hipertexto com a do texto aberto idealizado por pós-estruturalistas como Roland Barthes e Michel Foucault. O texto idealizado por Barthes seria composto por blocos de palavras e de imagens ou lexias, ligadas por trilhos, potenciados até ao infinito. Michel Foucault descreveu um texto sem fronteiras, incomensurável, construído sob um sistema de referências a outros livros, traduzindo-se numa rede de referências. Estes autores reclamavam a libertação do texto e o fim da hegemonia autoral. O hipertexto responde aos anseios pós-estruturalistas porque tem uma estrutura descentralizada e democratizante. Qualquer conhecedor de linguagem HTML ou qualquer utilizador de programas com essas ferramentas integradas pode ser editor. Para além disto, um hipertexto exige um tipo de leitura semioticamente diferente da tipográfica. O leitor torna-se também editor, visto que ele próprio escolhe o caminho a percorrer, o que resulta em diferentes versões do mesmo texto. Pode ainda acrescentar notas ou partilhar opiniões com outros leitores, contribuindo para uma leitura crítica de um texto. A leitura linear associada ao livro impresso combina-se, no hipertexto, com uma leitura labiríntica, exploratória e não-sequencial. Trata-se de uma experiência descentralizada, em que o leitor escolhe o início e o enredo da obra actualizando as coordenadas dadas por um autor. Existe um controle bilateral sobre o texto, o emissor e o receptor podem trocar de funções. O leitor pode manipular o material mudando a paginação, a fonte, o tamanho e o conteúdo. Ele depara-se com imagens, filmes ou música, ou seja, uma materialidade muito diferente daquela associada à cultura tipográfica.

The presence of multiple reading paths, which shift the balance between reader and writer, thereby creating Barthe’s writerly text, also creates a text that exists far less independently of commentary, analogues and traditions than does printed text. This kind of democratization not only reduces the hierarchical separation between the so-called main text and the annotation, which now exist as independent texts, reading units, or lexias, but it also blurs the boundaries of individual texts. In so doing, electronic linking reconfigures our experience of both author and authorial property, and this reconception of these ideas promises to affect our conceptions of both the authors (and authority) of texts we study and of ourselves as authors.

George P. Landow, Hypertext 2.0: The Convergence of Contemporary Critical Theory and Technology, Baltimore: Johns Hopkins UP, 1997, p. 25. Homepage: George P. Landow

[Daniela Maduro]

 

índice | contents


leitor

A figura do leitor tinha recebido pouca atenção por parte da teoria literária até à década de sessenta. A teoria clássica, partindo do princípio que a literatura era um meio passível de provocar efeitos e produzir estímulos, considerava que o leitor era obviamente afectado, contudo não lhe atribuía qualquer atenção. Após algum tempo, aumentou a ênfase colocada no leitor enquanto figura activa e não como mero receptor de estímulos e instruções. Barthes considerava o leitor como o espaço no qual se encontravam todas as citações que compõem o texto. Outras teorias literárias atribuíram importância não só à variedade de interpretações possíveis por parte de leitores diferentes, mas também à forma como o contexto de cada leitor pode afectar a sua interpretação dos textos. Algumas teorias consideram que a interpretação é o resultado da interacção constante entre texto e leitor. A estrutura do texto guia o leitor mas este modifica constantemente o seu ponto de vista, estabelecendo novas relações entre partes do texto e preenchendo os espaços que são deixados na obra. [Tiago Jerónimo]

 

índice | contents


lógica pictográfica

Os primeiros exemplos de funcionamento desta lógica podem ser observados nas pedras de barro da antiga suméria e, mais tarde, nas placas cuneiformes que antecederam a escrita. As pedras de barro contêm em si dois elementos: símbolos referentes aos objectos (pictogramas) e símbolos referentes à quantidade. Esta propriedade chama-se dupla articulação e virá a ser preponderante para o funcionamento da escrita fonética. Saussure defende que cada signo linguístico é composto por duas faces: o significante e o significado. Isto quer dizer que ele é composto por um som ou a impressão psíquica de um som e por um conceito ou a representação mental que temos de um objecto (Saussure,1998: 66). Esta dupla articulação distingue a escrita de outro tipo de notação ou representação visual e oferece à escrita a capacidade de codificar qualquer tipo de enunciado. Um pictograma funciona como uma imagem representativa de algo. Contudo, a maioria dos sistemas pictográficos são “mistos”, ou seja, uma imagem de um animal ou objecto poderia vir acompanhada de um símbolo silábico, fonético ou ideográfico. Há várias características de formatação que compõem a lógica pictográfica: a colocação dos símbolos em colunas; o espaço entre símbolos; a ordem de leitura; a superfície gráfica (pedra, papiro, barro, papel, casca de árvore, etc.). Estes são orientados segundo os seguintes princípios: a descrição de uma entidade e a articulação das relações entre entidades.

Aplicada ao hipertexto, a lógica pictográfica ajudará a tornar explícita a forma segundo a qual os elementos dos textos, imagens e formas gráficas se organizam no ambiente electrónico. A lógica pictográfica relembra que a comunicação não se resume à sua forma linguística. As frases, os parágrafos, os capítulos; forma em verso, que é complementada com rima e formas métricas, estrofes, cantos; a página, a entrada de um livro, todas estas divisões permitem construir um texto alfanumérico e gráfico (e não exclusivamente linguístico) graças à sua relação de segmentação. Ao desdobrar os diferentes tipos e escalas de segmentos podemos criar campos de meta-segmentação e expor o seu contributo para o significado do texto. A escrita pictográfica, pré-existente à escrita fonética, vem-nos recordar que existem outras formas de comunicação para além do texto alfabético. O hipertexto é um texto multimédia, com uma natureza diferente do livro impresso: a sua estrutura assemelha-se mais à intuitiva e interactiva da lógica pictográfica do que à da escrita alfabética, extremamente condensada e rígida. É nas origens da própria escrita que teóricos como Johanna Drucker e Jerome McGann foram resgatar a essência do texto electrónico.

This logic provides the primary groundwork for conceptualizing information design in visual and textual environments, not on the basis of their specific content or form, but at another level of organizational logic usually left inexplicit. Our premise is that the concept of a pictographic logic, or metagraphic logic, is a useful way of making explicit the abstract ordering of elements in texts, images, and graphic forms. First we want to show how this logic can be elicited from pictographs and graphic forms that are fundamentally non-linguistic in nature.

Johanna Drucker and Jerome McGann, “Images as the Text: Pictographs and Pictographic Logic”, 2001, in <http://www.iath.virginia.edu/~jjm2f/old/pictograph.html>

[Daniela Maduro]

 

índice | contents


presença

A noção de presença define-se na relação do sujeito com o seu espaço-tempo. Cientificamente, o termo apresenta-se vago, o que levou à sua utilização com conotações variadas. Numa tentativa de clarificar e fixar o significado, John Waterworth e Eva Waterworth, a propósito de Realidade Virtual, em “The Meaning of Presence” (2003), definem  presença como “the feeling a conscious organism experiences when immersed in a concrete external world”. O cérebro humano processa dois tipos de informação: abstracta e concreta. Se a primeira compreende uma realização puramente mental no campo da imaginação, é a segunda que permite descodificar o que nos rodeia, ou seja, a realidade concreta. Dado que a capacidade humana de realizar o pensamento abstracto funciona em detrimento da consciência do mundo exterior, será pois lógico concluir que o grau de presença varia na relação directamente inversa do grau de ausência (absence) motivado pelas concretizações conceptuais do cérebro.

Os autores do referido texto concluem que o sentido de presença é biológico, uma vez que “core consciousness is directed to the here and now”, funcionando como mecanismo essencial à sobrevivência e associado às regiões sub-corticais do cérebro humano. É por este motivo que é tão intrinsecamente humano poder considerar possibilidades que não as directamente afectas ao ambiente externo. Já a sobrevivência de um animal em ambiente natural dependerá de uma forte consciência do momento que lhe permitirá responder com a maior brevidade possível a uma situação de potencial perigo. Esta dicotomia presença/ausência encontra-se pois directamente relacionada com a distinção entre realidade concreta e mundos imaginários. A realidade virtual possui a potencialidade de produzir informação concreta e induzir o sentido presencial no experimentador. [Miguel Sousa Santos]

 

índice | contents


realidade virtual

Por “realidade virtual” entende-se um simulacro computorizado destinado a induzir sensações visuais que poderão ser, ou não, complementadas com efeitos sonoros. A relação entre o sujeito experimentador e a realidade virtual efectua-se através de dispositivos de input, como seja um simples teclado, e de output, como um ecrã, embora existam outros mais complexos. Cenários de realidade virtual têm sido utilizados, por exemplo, em simuladores de voo ou em jogos, mas sugestões recentes sugerem a validade da aplicação deste conceito à psicoterapia e às artes visuais. Na literatura, as experiências virtuais têm sido tema recorrente pelo menos a partir do romance cyberpunk Neuromancer (1984) de William Gibson, onde são explorados os efeitos da dependência sensorial à hiper-realidade e os perigos da rejeição da realidade física e corpórea. Mais recentemente, a popularização deste conceito junto do público mainstream deve-se aos irmãos Wachowsky, autores da triologia Matrix. No entanto, continua ainda longe das possibilidades tecnológicas actuais emular a realidade empírica de forma convincente. De resto, a consciência que o sujeito tem do hardware como factor de intermediação é sem dúvida um entrave à suspensão da descrença que, conseguida, elevaria a realidade virtual a níveis de verosimilhança totalmente novos.  [Miguel Sousa Santos]

 

índice | contents


remediação

Conceito elaborado por Jay David Bolter e Richard Grusin para compreender a relação entre diferentes média, e em especial a importação de média anteriores para novos média, como acontece com as aplicações hipermédia características da tecnologia digital.  Segundo esta teorização, as aplicações hipermédia herdam propriedades das tecnologias de representação que procuram suplantar (imprensa, pintura, fotografia, telégrafo, telefone, cinema, vídeo), ao mesmo tempo que as reconfiguram segundo as estratégias de remediação características do meio digital (jogos de computador, realidade virtual, fotorealismo gráfico, internet, computação ubíqua). A compreensão dos novos média implica portanto a compreensão dos processos de mediação e remediação que caracterizam as formas e práticas culturais enquanto média. A remediação é decomposta por Bolter em três aspectos: primeiro, como mediação de mediação, isto é, como parte do processo através do qual os média se reproduzem e se substituem uns aos outros; segundo, como inseparabilidade entre mediação e realidade, que faz da mediação e dos seus artefactos uma parte essencial da cultura humana como realidade mediada; terceiro, como processo de re-forma da mediação da realidade, ou seja, como meio de transcender as formas e meios de mediação anteriores.

Para Bolter e Grusin, uma das características da experiência hipermediada pós-moderna é este ensimesmamento nas tecnologias de representação, através do qual a imediaticidade da experiência é um efeito da ubiquidade da mediação. A autenticidade da experiência resulta assim da autenticidade da mediação, a ponto de o corpo se tornar também um medium. Na sua análise do sujeito digital, Bolter e Grusin referem a mediatização e virtualização do sujeito, quer através das práticas de comunicação e interacção em rede, quer através das tecnologias de imersão e de ponto-de-vista da realidade virtual e dos jogos hipermédia. O conceito de remediação permite coreografar conceptualmente a dupla lógica da transparência e da hipermediação, que estrutura a economia representacional de todos os média, e a dialéctica entre negação e afirmação do corpo, que sustém os dispositivos auto-perceptivos do sujeito digital. Mediação e remediação são fulcrais para o entendimento das práticas culturais características do capitalismo tardio.

It would seem, then, that all mediation is remediation. We are not claiming this as an a priori truth, but rather arguing that at this extended historical moment, all current media function as remediators and that remediation offers us a means of interpreting the work of earlier media as well. Our culture conceives of each medium or constellation of media as it responds to, redeploys, competes with, and reforms other media. In the first instance, we may think of something like a historical progression, of newer media remediating older ones and in particular of digital media remediating their predecessors. But ours is a genealogy of affiliations, not a linear history, and in this genealogy, older media can also remediate new ones. Television can and does refashion itself to resemble the World Wide Web, and film can and does incorporate and attempt to contain computer graphics within its own linear form. No medium, it seems, can now function independently and establish its own separate and purified space of cultural meaning.

Jay David Bolter & Richard Grusin, Remediation: Understanding New Media, Cambridge, Massachusetts, MIT Press, 1999; 2ª ed. 2000, p. 55.

[MP]

 

índice | contents


SGML (Standard Generalized Markup Language)

A SGML tem como objectivo fornecer um sistema de codificação para a distribuição de textos electrónicos que mantenha a integridade das características estruturais do texto, independentemente do mecanismo de output utilizado. A SGML foi concebida para tornar possível a identificação de todos os aspectos relativos ao texto nas mais diversas tarefas, tais como as análises linguística e estilística. Assim sendo, o sistema lida com a identificação das características estruturais dos textos (livro, título, conteúdo, capítulos, secções, parágrafos, frases, palavras), as características genéricas do texto (antologia, introdução, poema, estrofe, verso), as características bibliográficas dos textos de origem (folha, página) e toda ou qualquer hierarquia estrutural, como por exemplo a estrutura do discurso. [Tiago Jerónimo]

 

índice | contents


TEI (Text Encoding Initiative)

Iniciada em 1987, a TEI é um projecto modelo internacional e interdisciplinar que permite a representação digital de uma variedade de textos literários e linguísticos por parte de bibliotecas, museus, editoras e académicos, com o intuito de promover a pesquisa, ensino e preservação destes documentos. Numa primeira fase, esta iniciativa foi apoiada por um consórcio de instituições e programas a nível mundial, nomeadamente a Association for Computers and the Humanities (Associação para Computadores e Humanidades), a Association for Computational Linguistics (Associação para a Linguística Computacional) e a Association for Literary and Linguistic Computing (Associação para a Computação Literária e Linguística). O seu financiamento é assegurado pela União Europeia, pelo Conselho Canadiano de Investigação no âmbito das Ciências Sociais, pela Fundação Mellon e pelo US National Endowment for the Humanities, responsável pelo apoio às Humanidades.

Em Dezembro de 2000, foi criado um organismo sem fins lucrativos, o TEI Consortium, que possui colaboradores de várias instituições académicas, designadamente das Universidades de Brown, da Virgínia e de Oxford, de editores sem fins lucrativos, de associações editoriais e de entidades comerciais interessadas na concepção, produção e transmissão de texto electrónico estruturado. As suas directrizes estabelecem o acesso dos utilizadores a todos os estatutos, dados e actividades do Consórcio. A TEI constitui o mais importante esforço e realização internacionais no século XX no que diz respeito à uniformização de dados relacionados com as Humanidades. [Ana Catarina Garrido]

     

índice | contents


teoria social da edição

Teoria crítica textual associada a autores como D.F. McKenzie (1931-1999) e Jerome McGann, entre outros. D.F. McKenzie contribuiu decisivamente para pôr em evidência os processos de significação bibliográfica como parte das redes de sentido que estruturam as formas textuais. Alguns dos seus ensaios seminais foram coligidos em Bibliography and the Sociology of Texts (The British Library, 1986; 2ªedição, Cambridge University Press, 1999) e Making Meaning: "Printers of the Mind" and Other Essays (University of Massachusetts Press, 2002). Criticando as limitações de uma abordagem meramente semiótica das marcas bibliográficas, McKenzie redefiniu bibliografia como sociologia dos textos, capaz de integrar produção e recepção no conhecimento da historicidade específica dos actos e das marcas de significação. Defendeu também o alargamento dos princípios bibliográficos ao estudo de formas textuais não-impressas e não-bibliográficas, considerando que a  textualização é um fenómeno transversal aos diferentes média e suportes documentais, da gravura à fotografia, ao teatro, ao cinema, à televisão, ao computador e a formas de significação das culturas orais. A crítica de McKenzie à bibliografia descritiva e analítica implica a rejeição da existência de uma fronteira entre crítica textual e crítica literária e, igualmente importante, a valorização da materialidade específica de cada edição. Embora não pondo em causa a possibilidade de recuperar a intenção autoral, McKenzie reconheceu que todas as reconstituições textuais inscrevem a sua própria historicidade no processo de re-produção e re-leitura dos artefactos textuais do passado. Simultaneamente notação tipográfica e acto de leitura, qualquer codificação bibliográfica representa uma ressocialização do texto num novo contexto.

My argument therefore runs full circle from a defence of authorial meaning, on the grounds that it is in some measure recoverable, to a recognition that, for better or worse, readers inevitably make their own meanings. In other words, each reading is peculiar to its occasion, each can be at least partially recovered from the physical forms of the text, and the differences in readings constitute an informative history. What writers thought they were doing in writing texts, or printers and booksellers in designing and publishing them, or readers in making sense of them are issues which no history of the book can evade. 

D.F. McKenzie, Bibliography and the Sociology of Texts, Cambridge University Press, 2004 [1986, 1999], p. 19.

Nas obras Critique of Modern Textual Criticism (1983) e The Textual Condition (1991), também Jerome McGann argumentou que as obras literárias não são apenas codificações linguísticas, mas estão codificadas bibliograficamente, isto é, na forma material específica que o seu modo de reprodução e transmissão assume. Esta forma material específica representa o estágio inicial de socialização da obra, uma vez que muitos aspectos da codificação bibliográfica não dependem das intenções do autor, mas resultam do modo de produção dos artefactos textuais. Daí decorre que a intenção do autor não pode ser o único critério nas decisões textuais quando se trata de estabelecer a matriz a partir da qual se geram novas edições de uma obra. Esta teoria pressupõe um certo grau de indeterminação na possibilidade de limitar a flutuação e a variabilidade textual, que será tanto maior quanto maior for o arquivo dos materiais textuais existentes. Além disso, o arquivo de uma obra seria constituído não apenas pelos materiais originais (manuscritos, provas tipográficas e primeiras edições), mas incluiria todas as reconstituições textuais e bibliográficas da obra em momentos posteriores. Isto significa que qualquer reedição de uma obra é uma recodificação da sua materialidade com consequências semióticas e hermenêuticas. McGann vê na tecnologia digital a possibilidade de simular os processos bibliográficos de textualização e socialização textual, ou seja, um instrumento para investigar a natureza e a história da textualidade. Esta teoria está na base de vários projectos de arquivos electrónicos em curso, como é o caso dos arquivos Blake, Rossetti, Dickinson e Whitman, que procuram representar electronicamente o acervo de produção e de recepção das obras daqueles autores em redes desierarquizadas de documentos textuais e visuais. [MP] 

 

índice | contents


texto descentrado

Editores e teóricos do texto interrogam-se: será que a hiperedição necessita de um “texto” (entenda-se “texto”como elemento ou estrutura) central para organizar o hipertexto de documentos? Ainda que o hipertexto não esteja organizado de forma centralizada, a sua estrutura não é desprovida de ordem. Com efeito, o hipertexto está estruturado com base em planos pensados para materiais específicos e que pretendem responder aos desejos e necessidades do utilizador. No que diz respeito a esta questão, temos de considerar dois pontos fundamentais: 1) o hipertexto está em permanente actualização, logo, nunca está completo; 2) a própria forma do hipertexto encoraja a descentralização, pois fornece-nos a possibilidade de criar um número indefinido de “centros” que podem, por sua vez, ser expandidos e relacionados de diversas formas. Os exemplos dados por Jerome McGann são a Internet e a biblioteca. A primeira é descrita como uma estrutura não-centralizada de relações complexas, onde as diversas partes do conjunto, nomeadamente ficheiros do hipertexto e os diversos elos que encontramos na Internet, actuam como unidades estruturadas de modo independente (“divided into packets, [with] each packet separetely addressed”), assegurando que as relações e as conexões se estabeleçam arbitrariamente. Então, cada documento ou parte de documento tem um valor absoluto dentro do hipertexto, isto é, cada uma das unidades, mesmo que ínfima, de um documento, remete para o todo. A biblioteca, por seu lado, assemelha-se ao hipertexto, pois também é um arquivo e, apesar de estar sempre completa, isto é, de incluir tudo o que é relevante, pode ser infinitamente expandida, é adaptável a qualquer ambiente físico e é um organismo neutro, pois permite-nos conduzir livremente as nossas pesquisas.

Quando o hipertexto é usado como suporte para estudo e navegação de um vasto conjunto de documentos, surge uma nova forma de descentralização. Se antes a forma do códice exigia pontos fixos, ou seja, pontos de apoio, como forma de estabelecer relações entre documentos, nomeadamente o “definitive text”, o “standard text”, o “Ur text”, o “ideal text” e o “copy text”, agora, as estruturas hipertextuais não necessitam de recorrer a estes mecanismos para ordenar os diversos documentos. Apesar disso, a estruturação dos ficheiros nem sempre realiza o potencial de descentração. Efectivamente, à semelhança do que acontece com o arquivo Rossetti, nenhum dos projectos hipermédia existentes é descentrado. Pelo contrário, todos possuem estruturas centradas e com falta de dinâmica. De acordo com Jerome McGann, o objectivo é implementar, ao nível do interface, as capacidades de dinamização e descentralização das novas tecnologias. (cf.  Jerome McGann, The Rationale of Hypertext, 1996) [Ana Catarina Garrido]

 

índice | contents


textualidade digital

A reflexão sobre a textualidade electrónica leva repensar a textualidade em geral. Em que medida, por exemplo, o livro ou o computador podem ser vistos como meros suportes de escrita e não como formas de escrita? Um texto existe antes da escrita? Um texto pode ser concebido como independente de uma forma de escrita particular? Podemos imaginar que uma estória da tradição oral, nunca registada, tem uma forma verbal e para-verbal que é independente do eventual registo escrito e que seria captável, por exemplo, por uma filmagem ou um registo áudio. Por outro lado, uma vez escrita, ganhará propriedades da forma escrita que a regista (representação alfabética ou ideográfica, segmentação das palavras, espacialização segundo determinadas convenções, notação para entoação, pausas, ênfases, etc.). Neste momento tornou-se um texto porque se materializou segundo as regras da escrita e dos suportes e formas da escrita. Por outro lado, é preciso recordar que "texto" foi originalmente uma metáfora, transferida do trabalho de entrelaçar os fios para o trabalho de entrelaçar as letras. A identificação entre "texto" e "escrita", ou entre "texto" e "escrita impressa",  resulta da hegemonia daquelas tecnologias de comunicação, que permitiram apagar a metáfora contida no tecido da escrita. Ou seja, talvez uma forma oral constitua uma forma de textualidade semelhante à textualidade dos textos escritos.

O texto escrito tem sido usado como modelo para descrever diversos sistemas semióticos e sociais, resultando na textualização de práticas sociais e de média não-bibliográficos. Neste caso, a textualização consiste na semiologização de uma forma, prática ou medium não-verbal, ou não predominantemente verbal, segundo regras sintácticas e semânticas que definem uma gramática combinatória para os significantes que a compõem. De resto, a possibilidade de representação científica depende sempre de um certo grau de textualização do objecto. A textualização característica da descrição estruturalista, centrada na identificação das oposições e funções que produzem um sistema semiótico, foi entretanto socializada através da consideração da fenomenologia e das práticas de leitura como um factor não inferível a partir do texto verbal ou semiótico em sentido restrito. No caso da textualidade digital, dar atenção à socialização do texto digital implicaria semelhante atenção à relação entre as propriedades verbais e gráficas da textualidade digital e as práticas de leitura digital. Do ponto de vista do acto de leitura, será realmente diferente ler em hipertexto e ler em livro? Segurar o volume ou segurar o rato? Passar os olhos pelo papel ou passar os olhos pelo écrã? Ler é apenas processar a informação? Em que sentido a presença do texto e do sujeito se alteram? A leitura privada, em especial como leitura silenciosa, foi acentuada com a imprensa. Qual a diferença introduzida pelo computador? O que significa interagir com o texto em cada um dos casos? Qual o grau de interactividade adicional para que haja uma diferença entre seguir um índice e uma nota, ou sublinhar e anotar à margem, num texto impresso, e seguir uma hiperligação, seleccionar texto, copiá-lo, alterar as suas propriedades gráficas, comentá-lo ou modificá-lo? Por outro lado, no caso de ambientes gráficos tridimensionais (jogos, MUD, MOO e realidade virtual), as técnicas de ponto-de-vista e de identificação criam mecanismos diferentes dos do romance e do cinema? A graficalidade redefine a textualidade ao aproximar as formas abstractas textuais das formas concretas visuais? O texto verbal da escrita alfabética impressa deixa assim de ser o modelo central do objecto textual?  [MP]

 

índice | contents


world wide web

World Wide Web é o nome dado à rede de servidores da Internet que mantém documentos em hipermédia (o hipertexto), interligados entre si por hiperligações e que formam uma grande teia de informações espalhadas pelo mundo. Para ver a informação, pode-se usar um software chamado navegador (browser) para descarregar informações (chamadas "documentos" ou "páginas") de servidores de internet (ou "sites") e mostrá-los no ecrã do utilizador. O utilizador pode então seguir os links na página para outros documentos ou mesmo enviar informações para o servidor para interagir com ele. O acto de seguir links é normalmente chamado de "surfar" na Web.

A World Wide Web foi a grande responsável pela popularização da Internet, oferecendo um método mais intuitivo de pesquisar e consultar informações na grande rede. O hipertexto significa que se pode escolher uma palavra destacada numa determinada página e obter assim uma outra página de informação relativa. As páginas podem conter texto, imagens, sons, animações, etc. A World Wide Web é uma gigantesca base de dados, acessível de uma forma muito atraente e intuitiva.

A funcionalidade da Web é baseada em três padrões: a URL (Uniform Resource Locutor), que especifica como cada página de informação recebe um "endereço" único onde pode ser encontrada; HTTP (Hypertext Transfer Protocol), protocolo que especifica como o navegador e servidor enviam informação um ao outro; e HTML (Hypertext Markup Language), um método de codificar a informação de modo que possa ser exibida em uma grande quantidade de dispositivos.

Fontes:

pt.wikipedia.org/wiki/World_Wide_Web

www.cruiser.com.br/duvidas/duvidas6.htm

http://www.plug.com.br/index_.php?n=10

www.intergate.com.br/suporte/glossario/glossario_w_x_y_z/glossario_w_x_y_z.html

[Susana Basílio]

 

índice | contents


 

 

Valid CSS!| Valid XHTML 1.0 Transitional| Site Map | Contact | Updated 11 Feb 2013 | ©2005-2013 Manuel Portela