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The William Blake Archive: Potencialidades da Edição Electrónica da Obra de um Artista Multimédia

Isabel Maria Graça Lourenço


 

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1. Introdução

2. The William Blake Archive: Crítica Textual, Teoria Literária e Edição Electrónica 

3. The William Blake Archive: Virtualidades e Constrangimentos

4. The William Blake Archive: Aplicação ao Ensino, à Aprendizagem e à Investigação

5. Conclusão

Bibliografia e Webografia 

 

 


We no longer need books to analize books.

Jerome McGann

The William Blake Archive is a dazzling combination of hypertextually organized texts, bibliographical and historical commentaries, and beautifully reproduced visual images, including thousands of plates of Blake drawings, watercolors, and manuscripts.

A. R. Braumuller, Timothy Brennan, Leah S. Marcus

 

I cried when I downloaded the first image from the new edition of the Songs in the Blake Archive. […] I then wandered the halls of my institution buttonholing unsuspecting colleagues with the URL of a lifetime. Trust me, I said, this is Big: a chance to see the potential of a new medium fulfilled. And how appropriate this seemed for Blake, the artisan-poet for whom the message was always inextricable from the medium. At the Blake Archive they are doing scholarly work for the ages.

Steven Jones

 


1. Introdução

 

Confrontados com as limitações do códice e perante as potencialidades oferecidas pelas tecnologias da comunicação e da informação, os académicos começaram, no decurso da década de 90, a amadurecer projectos de edição electrónica, vendo nela a possibilidade de ultrapassar esses constrangimentos. De então para cá, com a progressiva concretização desses planos, a leitura e a investigação dos textos têm vindo a ganhar um novo fôlego, que se revelou fundamental na edição e no estudo da obra daquele que foi já considerado o “primeiro artista multimédia”: William Blake.

Aquando da análise de uma edição electrónica, para além, naturalmente, da credibilidade dos seus editores, os critérios textuais e editoriais por que esta se rege revelam-se fundamentais. No sentido da optimização de todos os recursos, há que considerar também a importância das ferramentas de indexação e pesquisa que disponibiliza, uma vez que, sem elas, de pouco valeria ao utilizador o rigor académico do material que inclui.

Na minha análise de The William Blake Archive, será, sobretudo, dos princípios editoriais e das ferramentas analíticas que me ocuparei, procurando mostrar de que forma este arquivo rompe com a tradição editorial da obra de William Blake, ao mesmo tempo que se constitui como um poderoso meio de armazenamento de materiais hiperligados que lhe permitem afirmar-se como instrumento de investigação, ensino e aprendizagem.

 

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2. The William Blake Archive: Crítica Textual, Teoria Literária e Edição Electrónica  

 

A utilização de suportes electrónicos para edição de textos permitiu uma nova perspectiva na investigação da sua história e da sua forma, extremamente eficaz e inovadora, sobretudo a quatro níveis, estreitamente relacionados. Em primeiro lugar, possibilitou ultrapassar um importante constrangimento da edição tipográfica: o facto de o estudo das obras literárias impressas se fazer recorrendo a outros livros, isto é, a materiais que se inscrevem no mesmo formato que aqueles que constituem o objecto da investigação. Este factor conduz, naturalmente, ao aparecimento de uma série de novas edições, sejam elas edições críticas, fac-simile, anotadas, de materiais contextuais ou de apoio, novas “máquinas de conhecimento”, que acabam, elas próprias, por sofrer das mesmas limitações. Se considerarmos o elevado número de obras produzidas ou ilustradas por Blake, das quais, só livros iluminados são dezanove, de que existem cerca de cento e setenta e cinco cópias, facilmente concluímos que, do ponto de vista físico, um estudo comparativo seria incomportável.

O segundo desses aspectos relaciona-se com o facto de todo o texto, para além de um conteúdo semântico, ter também uma dimensão material auditiva e visual. Ainda que uma edição fac-similada permita ter acesso às propriedades visuais do texto, a reedição através de uma transcrição e repaginação pode alterar algumas dessas propriedades ou simplesmente ignorá-las. A ideia de conceber The William Archive surgiu no espírito dos seus editores, não apenas por sugestão de Jerome McGann, mas precisamente pela insatisfação sentida face às edições tipográficas da obra deste autor. Nos anos 70, David Erdman, John E. Grant e W. J. T. Mitchell, estudiosos do seu trabalho, haviam chamado a atenção para a importância dos elementos visuais para a interpretação dos seus livros iluminados. Contudo, esse era um aspecto a que a edição tipográfica, tradicionalmente literária, não dava uma resposta satisfatória. Do ponto de vista editorial, aquele que era um artista multidisciplinar, gravador, poeta, pintor, autor de ilustrações comerciais e para obras literárias de outros autores, foi, por constrangimentos económicos e técnicos impostos à reprodução de imagens em edições tipográficas, durante muito tempo encarado, essencialmente, como um poeta, cuja obra visual era conhecida e reconhecida, mas editada em separado. Esta circunstância conduziu a que, no respeitante aos livros iluminados, muitos conhecessem ou a sua vertente textual ou a visual, mas não ambas, apesar de, na fonte, elas surgirem associadas. Por outro lado, e ainda que essa possibilidade não se aplique ao arquivo da obra de Blake, o suporte electrónico, ao contrário do livro, permite a criação de registos sonoros capazes de satisfazer a eventual necessidade de acesso ao domínio fónico de um texto.

Deste ponto de vista, a possibilidade de integrar as vertentes textual e visual e, com isso, repor a verdade histórica, surge, desde logo, como a primeira grande virtualidade da edição da sua obra sob a forma de arquivo electrónico. Desta advêm novas potencialidades: num sentido lato, enquanto edição de acesso livre na World Wide Web, o Arquivo contribui largamente para a divulgação do trabalho de um autor que tem vindo a adquirir cada vez maior prestígio; pelo mesmo motivo, permite reunir, numa só localização, uma obra até então dispersa e pouco acessível, de que havia um conhecimento fragmentário e pouco sistemático, incluindo versões nunca anteriormente editadas ou reproduzidas de forma pouco rigorosa; por último, as instituições têm toda a conveniência em ver as suas colecções, muitas vezes constituídas por peças valiosas, frágeis e raras, preservadas e, ao mesmo tempo, acessíveis, o que explica que, num processo de interesses mútuos, o número de entidades que permitiram a digitalização dos seus exemplares (das quais a primeira foi The Library of Congress), fosse progressivamente aumentando, até atingir as dezoito. O Arquivo tem, assim, a virtualidade de constituir um ambiente electrónico em que museus e outras instituições sentem que os seus exemplares são expostos, por um lado, de forma adequada, por outro, em segurança.

À possibilidade de integrar simultaneamente os traços semânticos, visuais e até fónicos de uma obra, o hipertexto acresce a disponibilidade em termos de espaço para abarcar múltiplos textos e a capacidade de estabelecer múltiplas hiperligações entre eles, características que permitem à edição electrónica assumir-se como um meio poderoso de apreensão e estudo daquela que é uma das propriedades fundamentais dos textos: a variabilidade textual. O que nos conduz ao terceiro aspecto.

Ao apresentar formas concorrentes de um texto, o arquivo electrónico rompe com dois dos princípios fundamentais da crítica textual tradicional: o da possibilidade de fixação definitiva do texto – para W.W. Greg “the tyranny of copy-text” (27) - e o da intenção autoral como critério exclusivo para o estabelecimento desse texto único, no que alguns críticos designam por idealismo editorial (Tanselle 1996). Enquanto forma de edição electrónica, um arquivo permite apresentar todas as variantes, integrando materiais originais e materiais contextuais, de uma forma descentrada e não hierárquica e entrando definitivamente em linha de conta com factores de ordem material e social. Ao romper com a tradição editorial eminentemente literária, The William Blake Archive modifica o acesso e a representação dessa obra, o que conduz não só a uma nova forma de lê-la, mas também de estudá-la, tanto ao nível da investigação, como do ensino/aprendizagem. Não esqueçamos que Blake pretendeu que cada impressão dos seus trabalhos tivesse um carácter único e que, ao longo da sua vida pintou várias impressões de uma mesma gravação que diferem necessariamente entre si e devem ser consideradas na perspectiva da sua unidade e especificidade.

Contudo, a criação de arquivos electrónicos e a destruição da ideia de um “copy-text” único, fruto de um julgamento e de uma opção da parte do editor que, deste modo, estabelece uma hierarquia, pela qual é conferida autoridade a uma dada variante sobre as restantes, não é uma ideia unânime e pacificamente aceite. Kelvin Everest, que se recusa a considerar o arquivo electrónico como uma forma de edição (197), considera que, se o hipertexto, por um lado, facilita o armazenamento, acesso e manipulação de informação de uma forma flexível e descentrada, por outro, disponibiliza, apenas, uma justaposição de leituras mais ou menos numerosas, mais ou menos semelhantes, de versões criticamente distintas (196). Com isso, dá, aparentemente, maior liberdade à interpretação do leitor, não se estruturando em torno de um só texto, proporcionando-lhe não um centro, mas uma representação descentrada, o círculo cujo centro está em todo o lado, mas cuja circunferência não se encontra em nenhum, de que fala McGann (2001). O que permite introduzir uma outra questão crucial, capaz, também ela, de dividir a crítica textual: a do papel reservado ao editor e a relação do leitor com o texto.

De acordo com Everest, ao permitir ao leitor fazer as suas próprias escolhas, substituindo-se, de certa forma, ao editor, o arquivo retira ao editor a responsabilidade que este deve assumir na edição dos textos. O leitor menos avisado poderá cair na tentação de acreditar que, de facto, assim é. Contudo, um documento hipertextual não é linearmente não-sequencial, obedece a princípios organizacionais. A qualquer momento da tomada de decisões relativamente à concepção do hipertexto, se pode optar por soluções formais passíveis de conduzir a um maior ou menor descentramento (McGann 2001). O interface criado, pela forma como organiza os documentos, tem, desde logo, uma estrutura hierárquica intencional, que condiciona o acesso e possibilita o funcionamento em rede. Aliás, a própria noção de rede pressupõe a existência de um centro, ou, pelo menos, de um conjunto de pontos de entrada. Por outro lado, do ponto de vista do objecto texto, Lavagnino avança a ideia de que essa mediação editorial é necessária (1995), particularmente porque alguns aspectos textuais requerem um conhecimento especializado de que o leitor nem sempre dispõe. O que sucede é que um projecto de edição electrónica altera a função do editor, permitindo que algumas das decisões que antes eram da sua responsabilidade sejam transferidas para o leitor. Em The William Blake Archive, a mediação editorial torna-se evidente quando constatamos que toda a estrutura do Arquivo, bem como as suas ferramentas de pesquisa se encontram orientadas para a “Object View page”, aspecto a que voltarei.

É, então, evidente que o hipertexto dispõe necessariamente de uma estrutura lógica que permite ao leitor seleccionar percursos, podendo dizer-se que esses princípios estruturantes são, talvez, mais hábeis a disfarçar a sua presença e a ocultar a mediação editorial do que o que sucede, por exemplo, com um índice na edição tipográfica. Por outro lado, é também possível argumentar que a existência de um texto numa forma única oculta a mediação editorial que gerou essa forma, uma vez que não contém indícios das escolhas feitas e das variantes possíveis. A multiplicação das formas de um texto torna visível a necessidade ou a existência da mediação editorial – seja na justaposição das variantes, seja na estruturação dos percursos textuais. Contudo, o que agora aqui me importa focar, não é tanto essa possibilidade do ponto de vista do leitor, que tive já oportunidade de tratar em trabalho anterior, mas exactamente a mesma questão, considerada do ponto de vista do hipertexto e, no que respeita a este trabalho, mais concretamente de um arquivo. Refiro-me ao ponto de vista da navegabilidade, isto é, de até que ponto uma forma de edição electrónica disponibiliza as ferramentas analíticas que permitem ao utilizador, simultaneamente, ler e estudar os textos.

A inclusão, a todo o momento, de novos materiais textuais obriga ao desenvolvimento permanente de novas ferramentas de análise, sob pena de o arquivo se tornar rapidamente obsoleto. A necessidade de actualização dessas ferramentas não deverá acarretar dificuldades de maior. Enquanto edição electrónica que permite o trabalho académico com múltiplas versões, um arquivo é concebido de modo a, a qualquer momento, poder ser actualizado sem que isso obrigue, à semelhança do que sucede com o livro, a uma nova edição, conducente à duplicação de parte do texto existente. O mesmo princípio se aplica à criação de ferramentas analíticas. The William Blake Archive foi particularmente inovador deste ponto de vista, introduzindo ferramentas de pesquisa nunca anteriormente utilizadas. Por outro lado, a visão dos seus responsáveis fá-los ponderar já a concepção de um sucessor do interface “DynaWeb”.

A importância dos aspectos técnicos, para além do rigor académico, na concepção de um arquivo e na consecução dos princípios editoriais da edição electrónica é incontestável. As ferramentas analíticas deverão permitir a selecção apenas da versão que interessa ao leitor, num dado momento, mediante a especificação dos seus interesses, ou a comparação de versões alternativas em janelas passíveis de ser abertas paralelamente; oferecer hiperligações a materiais contextuais situados no interior do arquivo, mas também fora dele, mediante a inclusão de motores de busca; facilitar a intertextualidade, ou seja, a ligação a materiais pertencentes a outros géneros e formas discursivas: comentários críticos, entrevistas, recensões, cartas; promover a interactividade com o material disponibilizado, isto é, a possibilidade da inclusão de notas, da impressão e citação de texto, salvaguardando, obviamente, o “copyright” de documentos em linha, da publicação de textos que ultrapassem o mero comentário (Lavagnino 1995), aspectos que também abordarei especificamente do ponto de vista deste arquivo no próximo capítulo. Além disso, os princípios editoriais devem obedecer ao guia editado por The Modern Language Association’s Committee on Scholarly Editions, o que, nos pontos aplicáveis à edição electrónica sob a forma de arquivo, sucede com The William Blake Archive.

À preocupação com a instabilidade textual e o significado das várias versões de um texto subjaz uma nova concepção de texto, da sua apreensão e disseminação. Efectivamente, a teoria literária tem vindo a problematizar a crítica textual tradicional, despoletando uma mudança de paradigma com o objectivo de encontrar uma nova forma de pensar os textos. De acordo com a teoria social da edição, o significado de um texto constrói-se a partir de dois tipos de código: o linguístico e o bibliográfico. A forma material que toma, isto é, aspectos como a paginação, a escolha de caracteres, a pontuação, a capitalização, a ortografia, a relação dos elementos tipográficos com os espaços do texto, a forma de publicação e circulação são elementos de socialização do texto, o que o institui não apenas como resultado da intenção do autor. O texto é, então, um conjunto de textos e das suas relações (Lavagnino 1995). A partir do momento em que se materializa e começa a circular, muitas intencionalidades se desenham.

Enquanto rede de códigos linguísticos e bibliográficos, de acordo com McGann, a instabilidade textual verifica-se a dois níveis: o do sentido e o do aspecto material. Essa instabilidade, inerente à linguagem e à materialidade textual, pode, no entanto, ser descrita e analisada de forma fenomenológica: “[...] textuality cannot be understood except as a phenomenal event, and that reading itself can only be understood when it has assumed specific material constitutions.” (McGann 1991: 4-5). Deste modo, é errado partir da ideia de que os textos existem quando, na verdade, enquanto objectos materiais, não existem numa única forma. Ao encará-los como objectos sociais, a variação textual não se liga apenas à passagem do tempo. Ao passar de meio para meio, assumem formas distintas, enquanto produtos de momentos, contextos sociais e institucionais diferentes. A recepção de um texto varia, então, necessariamente, de leitor para leitor, fruto de variáveis que se encontram, quer nos próprios textos, quer nos leitores desses textos. O que leva McGann a afirmar: “Literary works do not know themselves, and cannot be known, apart from their specific material modes of existence/resistance. They are not channels of transmission; they are particular forms of transmissive interaction.” (11) Daí que seja possível “conhecer de forma fenomenológica e histórica quer as materialidades específicas, quer as leituras dos textos.” Na verdade, a única regra invariável da condição textual é a variação (McGann 1991 185), aspecto amplamente representado no arquivo de Blake, ao apresentar transcrições diplomáticas de todos os textos que respeitam a capitalização, a pontuação, a ortografia do autor e, pela primeira vez numa edição completa, o layout da página, indicando até o seu número. As transcrições dos textos não são fruto da interpretação dos editores, mas específicas de cada imagem a que se reportam, variando, frequentemente, de cópia para cópia. Por outro lado, a ênfase no objecto físico, que altera a leitura que tradicionalmente se faz da obra do autor, também permite traduzir essa variabilidade textual, aqui entendida também do ponto de vista da imagem.

É óbvio que a edição electrónica permite a edição crítica, fruto do julgamento e tomada de opção pelo editor a partir de diferentes edições. Contudo, particularmente no caso de obras como a de Blake, isso seria não tirar partido daquela que é uma das grandes virtualidades do arquivo e a forma mais completa de apresentar a “radiant textuality” de que fala McGann (2001), constatável ao analisarmos o processo de circulação dos textos. Ao permitir encará-los como objectos materiais, expõe a sua materialidade genética, o que possibilita o conhecimento do seu processo de criação e produção individual, e a sua materialidade social, isto é, o seu conhecimento no processo de reprodução, recepção e circulação. Uma vez que cada geração produz uma versão dos diferentes autores através da leitura que faz das suas obras, os textos afirmam-se como objectos materiais e sociais, isto é, como flutuantes na sua significação e na sua materialidade: “Every document, every moment in every document, conceals (or reveals) an indeterminate set of interfaces that open into alternate spaces and temporal relations” (McGann 2001 181). A ilusão da fixação é criada pela edição tipográfica. Ainda assim, os editores deste arquivo não hesitaram em incluir nele uma edição crítica, pesquisável – The Complete Poetry and Prose of William Blake - da responsabilidade de David Erdman (cgi-bin/nph-1965/blake/erdman/erd).

A dependência da edição electrónica não apenas do trabalho de académicos, mas também de especialistas de informática é evidente. Com efeito, existe o perigo de, por albergar um elevado número de materiais, o arquivo de documentos se tornar impenetrável ou dificilmente manipulável, se não dispuser de instrumentos de indexação e pesquisa adequados e se não for estruturado de uma forma hierárquica. Por outro lado, o rápido avanço tecnológico obriga a que seja encarado como um “ecossistema vivo” (Martin & Coleman 2002), isto é, uma entidade dinâmica, que prevê mecanismos de preservação e migração capazes de zelar pela acessibilidade, conservação a longo prazo e transferência de dados, por forma a acompanhar a constante evolução tecnológica e evitar a perda irremediável de informação, questão que se coloca ainda mais vivamente em relação a materiais publicados apenas em linha.

A concepção, num longo processo faseado, de The William Blake Archive foi norteada por estes princípios, tendo presente a realidade actual no que respeita a hardware e software, mas também a facilidade com que os suportes electrónicos se tornam rapidamente obsoletos, deixando margem à introdução de futuras melhorias. Os seus arquitectos têm tido o cuidado de procurar resolver as limitações técnicas recorrendo a soluções que possam ser aplicadas em projectos e situações similares, que beneficiariam das ferramentas entretanto desenvolvidas pela equipa técnica deste arquivo. A verdade é que The William Bake Archive é um projecto pensado para acompanhar a evolução dos tempos e, nessa medida, não foi concebido para funcionar como um recurso isolado, mas para, no futuro, estabelecer uma rede de cooperação com muitas outras edições do género.

Mais do que um mero repositório de textos e imagens, o Arquivo pretende assumir-se como uma edição híbrida, capaz de se constituir como catálogo, base de dados e conjunto de ferramentas académicas, apto a tirar partido de todas as potencialidades proporcionadas pelo hipertexto. Concebido como um recurso orgânico, permanentemente inacabado, é objecto de permanentes actualizações, a última das quais ocorreu a vinte e cinco de Maio.

 

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3. The William Blake Archive: Virtualidades e Constrangimentos

 

A autoridade e a credibilidade da informação disponibilizada por The William Blake Archive são um dado adquirido. A reputação académica dos seus editores - Morris Eaves, Robert Essick e Joseph Viscomi -, das instituições em que ensinam e investigam – respectivamente, Universidade de Rochester, Universidade da Califórnia, em Riverside, e Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill - e do coordenador do projecto - Justin Van Kleeck -, a existência de um Conselho Executivo, constituído por treze elementos, sem esquecer os restantes colaboradores, tanto do ponto de vista técnico como académico, são uma garantia disso. A atribuição, pela Modern Language Association, em 2003 (e, pela primeira vez, a uma edição electrónica) do Prize for a Distinguished Scholarly Edition (MLA.html.) uma confirmação. Aliás, o Arquivo é pródigo em fornecer informação sobre os seus editores[1] e o processo de planificação e consecução faseada do projecto.[2] Os critérios editoriais adoptados, extremamente rigorosos, são totalmente clarificados e temos acesso a relatos do intenso esforço colaborativo a que obrigou o facto de os principais intervenientes na concepção e realização do projectose encontrarem sedeados em diversos pontos dos Estados Unidos, que incluiu um fórum de discussão por e-mail (o Blake proj), encontros, realização de diferentes Blake camps, visita ao IATH onde se desenvolvia o projecto do Rosseti Archive, permanente correcção dos aspectos menos conseguidos do trabalho então em curso.[3]Todos estes testemunhos contribuem para inculcar no utilizador a noção da coerência, da solidez e da fiabilidade dos materiais contidos no Arquivo.

Ao analisarmos o Arquivo, dificilmente lhe encontramos aspectos negativos, pois, até mesmo aqueles que, numa primeira fase de implementação do projecto, lhe foram apontados, foram sendo corrigidos, tirando partido da flexibilidade deste tipo de edição electrónica. Não esqueçamos que, ao galardoá-lo, a MLA referiu o elevado nível de qualidade alcançado por esta edição, em todos os campos, sintetizando, em poucas palavras, alguns dos aspectos que tenho vindo a referir: “the William Blake Archive has set a high mark for future editorial practice through its clarity, userfriendliness, beauty and erudition”. O IATH colaborou, desde o início, na concepção deste arquivo e o Getty Grant Program financiou-o, desde a primeira hora.

Aliás, o Arquivo é pródigo em meta-informação, clarificando todos os aspectos do seu funcionamento, quer na secção About the Archive, que cobre questões tão diversas como o conteúdos, os editores, os princípios editoriais, a concepção e objectivos, contributos e aspectos técnicos da sua construção, quer na secção Archive Update. Esta última dispõe de três hiperligações esclarecedoras, a esse nível: Upcoming Presentations, que integra as actualizações realizadas e informa de apresentações futuras e respectiva calendarização; View All Updates, que lista todas as actualizações efectuadas; Subscribe to Blake-Update, a mesma que é disponibilizada de imediato na página de entrada do Arquivo (e que, por sua vez, contém uma hiperligação ao IATH), útil ao utilizador interessado em manter-se informado sobre os materiais entretanto disponibilizados, já que são anunciadas por e-mail aos subscritores deste serviço. No Site Information, também disponível na página de entrada,é possível obter informação relativa a actuais e passadas actualizações.

Os editores do Arquivo tomam todas as providências para que o leitor não faça um uso incorrecto do material disponibilizado ou sinta dificuldades ao explorá-lo. The William Blake Welcome Page contém, desde logo, todas as informações que o utilizador deve conhecer antes de começar a utilizar o Arquivo: hiperligações a um documento intitulado Help; aos editores, em caso de dificuldades técnicas que não constem desse documento; aos formulários de autorização para utilização de uma imagem ou de um texto; às instituições e pessoas individuais que permitiram a reprodução de material; a informação sobre “copyright” e “fair-use doctrine”. Outro aspecto positivo que aí constatamos é o facto de proporcionar ao eventual utilizador menos informado uma explicação relativamente à natureza e funcionamento de um arquivo, enquanto forma de edição electrónica, e deste em particular. Ao utilizador é também dada oportunidade de optar por um de dois servidores, já que o Arquivo dispõe de um mirror site, alojado na Universidade de Oxford, no Reino Unido, desde Dezembro de 2001, com a finalidade de tornar mais rápido e fluente o acesso, prevendo-se a criação futura de novos servidores.

Ao acedermos à página de entrada, verificamos que é muito completa, tendo sido concebida de modo a proporcionar ao utilizador um acesso tão fácil quanto possível, não apenas à obra de William Blake no seu conjunto, mas ainda a informações relativas à equipa académica que desenvolve este projecto e aos aspectos técnicos do Arquivo. Do ponto de vista gráfico (ainda que essa seja uma questão de gosto e que gostos não se discutam) o Arquivo tem uma apresentação agradável e, na página de entrada, a forma como se encontram estruturadas as hiperligações às diferentes secções transmite, desde logo, uma impressão de organização. Esta primeira imagem é reforçada por outras hiperligações aí constantes: uma de acesso ao servidor do Institute for Advanced Technology in the Humanities (IATH); outra parao EDSITEment; uma outra ao Site Information, que, como o nome indica, disponibiliza informações sobre o Arquivo. A presença de todas estas hiperligações, logo de início, contribui para reforçar uma imagem de coerência e prestígio que formámos imediatamente, ao acedermos a esta página.

À medida que exploramos o Arquivo, verificamos que a sua estrutura é extremamente hierarquizada. No nível superior, encontram-se as colecções agrupadas por tipos, designadamente, Illuminated Books, Commercial Book Illustrations, Drawings and Sketches. Esta organização hierárquica contribui para a sua clareza, particularmente se, antes de iniciarmos a sua utilização, explorarmos a sub-secção Tour of the Archive, da secção About the Archive (public/about/glance). Podemos apenas, talvez, argumentar que, quando pretendemos aceder a um dos exemplares da secção Illuminated Books, essa hierarquia torna o acesso um pouco demorado. Começamos por verificar que todos os livros iluminados são indexados pelo título (o chamado Collection Index). A partir daí, surgem-nos índices individuais de cada uma das cópias dos diferentes livros (o chamado Work Index). Até chegarmos à obra pretendida, temos de percorrer quatro hiperligações.

Até mesmo a orientação metodológica que presidiu à selecção das obras a digitalizar e editar em primeiro lugar assenta sobre critérios editoriais que, por si só, conferem coesão e unidade ao Arquivo. A decisão de partir dos livros iluminados fundamentou-se não só no seu valor artístico e histórico e interesse do ponto de vista do estudo e da investigação, mas também na integridade relativa do conjunto. Por outro lado, representavam um desafio editorial e técnico, levantado pela fragilidade e dispersão do material, que exigia (e permitia) o tratamento simultâneo de questões relativas à reprodução de aspectos textuais e visuais. A seguir à publicação de cinquenta cópias dos dezanove livros iluminados, seguindo o mesmo critério de coerência e sem pretender hierarquizar a publicação das obras, partiu-se para a edição de livros não-iluminados, escolhidos por manterem uma relação com os livros iluminados e entre si; prosseguiu-se com a inclusão de outras obras individuais relacionadas, ainda, com os livros iluminados, tais como provas, impressões a cores separadas, gravações comerciais e, finalmente, grandes grupos de materiais caracterizados por manterem entre si relações que lhes conferem uma integridade de conjunto. Não há qualquer tentativa de considerar estes últimos trabalhos como acessórios dos primeiros, mas sim um enorme rigor nos princípios editoriais e na observação da estrutura reticular hipertextual.

Toda a estrutura do Arquivo se encontra orientada para o estudo do objecto físico, da imagem, da página, da tela. Este princípio metodológico permitiu inverter a ordem tradicionalmente imposta pela edição tipográfica, que consiste em proporcionar, primeiro, a leitura do texto e, de seguida, e com carácter acessório e secundário, a visualização da imagem, ainda assim, fruto da selecção do editor, de acordo com a sua pertinência relativamente ao conteúdo semântico do texto. As ferramentas de indexação e pesquisa concretizam essa orientação, uma vez que as hiperligações desembocam na “Object View page”, permitindo seleccionar cópias individuais, compará-las, pesquisar imagens e texto.

O Arquivo constitui um bom exemplo de até que ponto as decisões editoriais têm implicações técnicas. Da estreita colaboração, frequentemente à distância, entre os três editores, o coordenador do projecto e os investigadores do IATH derivou um conjunto de técnicas e ferramentas que permitiram a digitalização e representação electrónica da obra de forma integrada e contextualizada, obedecendo aos mais exigentes padrões de concepção e construção. Desse esforço conjunto resultaram as mais fiéis imagens em termos de cor, pormenor, escala, e escrupulosas transcrições diplomáticas de todos os textos, sendo que é sempre referida a instituição que facultou as diferentes cópias disponíveis e que os textos são identificados de acordo com as três edições tipográficas de referência: Bentley, Erdman e Keynes. The William Blake Archive tem, efectivamente, “consciência textual acerca dos materiais que publica”. Por exemplo, na secção Standard References and Abbreviations, os editores referem as edições standard e os catálogos utilizados, esclarecendo que serão sempre designados pelo apelido do autor.

Uma vantagem e uma inovação desta edição e das suas ferramentas analíticas consiste em quer os textos, quer as imagens serem pesquisáveis utilizando as funções disponibilizadas pela linguagem Java. A primeira delas é o ImageSizer que permite calibrar o monitor de maneira a visualizarmos as obras na sua dimensão real, a qual é indicada junto a cada imagem. Permite também manipular a imagem, usando os botões de mais (+) e de menos (-) para aumentá-la ou reduzi-la. A segunda é o Inote, uma ferramenta de anotação de imagens, concebida no IATH, pela qual se lhes adicionam comentários escritos pelos editores. Pode ser optimizado se utilizado em conjunto com a pesquisa de imagem, dividindo-a em sectores que podem conter múltiplas anotações, às quais se acede tocando num dado pormenor da imagem. Tocando o botão Info, acedemos ao registo de “Image Documentation” de cada imagem.

Um aspecto menos positivo da análise das diferentes cópias dos diferentes livros poderá ser, por um lado, o facto de obrigar à manipulação de sucessivas janelas, o que exige alguma prática. Por outro lado, dado que os botões que possibilitam essa análise se situam na parte inferior da imagem, aquela que, em termos práticos, melhor resulta, as ligações, quer à imagem seguinte, quer à anterior situam-se acima dela, o que as torna menos funcionais. O mesmo já não sucede quando activamos a transcrição dos textos de cada página, que dispõe de duas barras, uma em cima, outra em baixo.

Apesar de se tratar de um arquivo muito vasto, o facto de dispor de cinco ícones ao fundo do Work Index Home, Navigator, Search, Java, Help – também disponíveis em muitas das páginas, facilita a navegação. Esse factor é favorecido por esses ícones manterem a mesma apresentação gráfica em todas as secções/sub-secções e se encontrarem situados sempre naquela que é a zona mais funcional em termos de utilização: o fundo da página. O ícone Help aloja uma hiperligação ao Help Document (blake/help/help.html#4 )que se revela muito útil.

O Arquivo não se limita a apresentar materiais primários, disponibiliza, também, materiais contextuais, em diversas secções, que têm a vantagem de serem, também eles, pesquisáveis. Assim, a secção About Blake (public/about/index.html)fornece informações relativamente à vida e obra do autor, disponibilizando, para o efeito, quatro sub-secções: uma biografia ilustrada, da autoria de Denise Vultee e dos editores do Arquivo; um glossário de termos que pode remeter para outros termos com eles relacionados, na mesma listagem; uma cronologia, da autoria de Alexander S. Gourlay; o texto “Illuminating Printing”, de Joseph Viscomi. A secção Resources for Further Research (resources.html) disponibiliza bibliografia, permitindo a pesquisa por termos, que assinala, a vermelho, nos documentos seleccionados, para além da já referida edição electrónica de The Complete Poetry and Prose of William Blake, editada porDavid V. Erdman. A sub-secção Related Sites (http://www.blakearchive.org.uk/public/related.html)  reúne uma selecção de sítios relacionados com William Blake que disponibiliza em linha artigos e recensões sobre o autor e o Romantismo, de uma forma geral, e também sobre computação nas Humanidades. O utilizador pode percorrer essa resenha de sítios livremente ou, se preferir, seleccionar os que pretende consultar, a partir de um quadro de conteúdos organizado de acordo com quatro sub-secções: Selected Blake Sites; Romanticism; Art and Art History e Humanities Computing.

Apesar de dispor destes materiais contextualizantes, o Arquivo não é auto-contido, permitindo pesquisar para além de si próprio, sem que o leitor se veja obrigado a sair dele: na página de entrada, a hiperligação de acesso ao IATH utiliza o Google e a de acesso ao EDSITEment remete para as fontes em linha sobre Humanidades dos maiores museus, bibliotecas e instituições culturais. A sub-secção Technical Summary da secção About the Archive remete para o arquivo Romantic Circles, permitindo a pesquisa, utilizando, novamente, o Google. Para além destas hiperligações, o Arquivo promove a comunicação com o leitor, convidando-o a fazer chegar aos seus editores os comentários que considerar pertinentes e fornecendo o e-mail para o efeito.

 

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4. The William Blake Archive: Aplicação ao Ensino, à Aprendizagem e à Investigação

 

Por tudo o que ficou dito, são óbvias as potencialidades de aplicação deste arquivo ao ensino e à aprendizagem. Apesar de os seus editores terem exprimido o desejo de que o Arquivo pudesse ser explorado e utilizado “for pleasure, study and research” [4], no Plan of the Archive [5], referem que o público que tinham em mente ao conceber este projecto era o académico. Contudo, o esforço que têm vindo a desenvolver, no sentido de incluir cada vez mais material que interessa a estudantes, permite encará-lo como uma iniciativa não só académica, mas também pedagógica, com aplicações à investigação, mas também ao processo de ensino/aprendizagem. Agora que conheço melhor o funcionamento e, sobretudo, o conteúdo deste arquivo, gostaria de rever a minha posição inicial de que ele se destina também a iniciados. Neste momento, considero que a optimização do material disponibilizado exige já um determinado grau de conhecimentos da obra do autor.

A última actualização deste arquivo ocorreu a vinte e cinco de Maio do corrente, com a inclusão das cópias A e D de The Song of Los, pertencentes, desde os meados do século XIX, à colecção do British Museum. Essas duas cópias vêm juntar-se à cópia B, da Library of Congress, já anteriormente editada pelo Arquivo. Ao todo, existem seis versões deste livro, datadas de 1795, todas elas profusamente coloridas. The Song of Los divide-se em duas secções intituladas Africa e Asia, constituindo a última parte das “Continental Prophecies”, iniciadas com America (1793) e Europe (1794).

No sentido de ilustrar até que ponto o Arquivo pode ter aplicações ao ensino/aprendizagem e, simultaneamente, o modo como se pode tirar partido das suas potencialidades, gostaria de propor uma situação, partindo do princípio de que os alunos a quem se destina não conhecem essas duas primeiras obras. Múltiplos recursos se oferecem, ao mesmo tempo que se proporcionam situações de investigação. A secção About Blake proporciona a consulta da sub-secção Bibliography, com a possibilidade de acesso apenas à página respeitante aos anos 1793-1799. Aí, encontramos um parágrafo dedicado às “Continental Prophecies” e é possível verificar que a ilustração número doze apresenta uma imagem do livro em questão. Estes passos proporcionam a contextualização desta obra do ponto de vista da vida do seu autor. Uma pesquisa realizada a partir da sub-secção Bibliographies (Specific Bibliographies) da secção Resources for Further Reasearch permite apurar três resultados utilizando a expressão “Continental Prophecies”.

Uma outra possibilidade seria a consulta do documento Illuminating Print, arquivado na mesma secção, no sentido de clarificar aspectos desta arte. É também possível consultar o Glossary para esclarecer o significado das palavras “Los” e “Urizen”, as únicas que, de entre as que são citadas na apresentação desta cópia, constam desse glossário. A secção Related Sites permite a ligação ao arquivo Romantic Circles que, através do Google, proporciona a pesquisa, utilizando, por exemplo, o título da obra em estudo.

Ao acedermos ao Work Index e, uma vez seleccionada a cópia desejada - tomemos como exemplo a A -, verificamos que esta é acompanhada de informação contextualizante, cuja exploração, por si só, constitui um momento de aprendizagem extremamente rico e completo. Ao fundo, encontra-se a lista das seis cópias da obra e o local onde se encontram. Tocando na “Bibliography for Work”, podemos ter acesso directo a bibliografia específica para esta obra que, por esse motivo e por se situar no canto superior direito, se torna bastante funcional. Por outro lado, uma pesquisa ao nível da “Object View page” diversas potencialidades se desenham. As reproduções podem ser analisadas individualmente ou, utilizando a função “Compare”, comparando as três cópias existentes, verificando como, do ponto de vista da cor, são diferentes; a utilização de Inote e Image Sizer proporciona as vantagens já referidas. Ao seleccionarmos a opção “Illustration Description”, acedemos à descrição, por escrito, da imagem, por campos, tal como sucede através do Inote, e para além disso, temos, a partir dela, acesso a esta última função.

Tocando em “Copy information”, o estudante eventualmente interessado em pormenores mais técnicos, obtém informações sobre o tipo de impressão, a cor da tinta e sobre a digitalização da obra em “Electronic Edition Information”. O mesmo estudante, se pretender obter informações semelhantes relativamente ao arquivo em si, pode aceder à secção Articles about the Archive.

Uma outra actividade interessante seria a comparação de um dos livros iluminados constantes do Collection Index com a mesma obra incluída na edição de Erdman, apenas textual. No caso de desta actividade resultar um trabalho escrito em que pretendessem reproduzir elementos do Arquivo, os estudantes poderiam, eventualmente, necessitar de informar-se do modo legal de reproduzir documentos. A hiperligação Request for Permission to Reuse Archive Materials permite obter autorização de utilização de imagens ou de textos ao abrigo das leis de direitos de autor dos Estados Unidos. Permite aceder aos URL das diferentes instituições que autorizaram a digitalização de textos e imagens, bem como aos formulários a preencher para o efeito.[6] Disponibiliza, ainda, o URL de uma página que informa do modo correcto de fazer citações em linha (mla.org/set_stl.htm). Esta situação de aprendizagem actualiza muitas das virtualidades do Arquivo acima referidas.

 

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5. Conclusão

 

De que o espólio reunido pelo Arquivo lhe permite afirmar-se como um instrumento de pesquisa e investigação académicas válido e cheio de potencialidades, não restam dúvidas. No final de 2003, continha aproximadamente quatro mil e duzentas imagens, incluindo, pelo menos, uma cópia de cada um dos livros iluminados, o que diz muito do seu potencial a esse nível. Foi recentemente pedida autorização aos responsáveis do Arquivo para a utilização dos textos como base da versão tipográfica revista da “Norton Critical Edition of Blake”. O EDSITEment considerou-o um dos melhores arquivos electrónicos dedicados às Humanidades, na categoria “Literature & Language Arts”.

Mais do que isso, The William Blake Archive tem, ele próprio, também enquanto forma de edição electrónica, sido objecto de pesquisa e de vários artigos, recensões, entrevistas, comunicações e, até mesmo, uma dissertação. Os seus responsáveis têm sido convidados a participar em colóquios cujo tema não era Blake, mas a teoria editorial ou computacional. A cooperação com o IATH prossegue e Matthew Kirschenbaum, um dos seus consultores, trabalha em colaboração com o Institute for Technology in the Humanities da Universidade de Maryland, no sentido de desenvolver a “Virtual Lightbox”, uma nova ferramenta de análise de imagem.

O reconhecimento público da edição electrónica da obra de William Blake só vem reforçar a sua credibilidade enquanto instrumento revolucionário de armazenamento de textos primários e secundários, sua leitura e estudo, com aplicações ao ensino, à aprendizagem e à investigação. A partir deste projecto é possível antever um dos caminhos futuros na edição e estudo dos textos na era da reprodução e comunicação electrónica.

 

Julho de 2004

Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra

© Isabel Lourenço, isablourenco@gmail.com

 

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Notas 

[1] Cf. a sub-secção About the Editors da secção About the Archive http://www.blakearchive.org/public/about/index.html

[2]  Cf. a hiperligação Plan of Work acessível a partir da secção About the Archive. 

[3] Cf. “Collaboration Takes More Than E-Mail: Behind the Scenes at the Blake Archive”. Journal of Electronic Publishing [Dez. 1997] , in <http://www.press.umich.edu/jep/03-02/blake.html> e “’Once Only Imagined’: An Interview with Morris Eaves, Robert N. Essick and Joseph Viscomi on the Past, Present and Future of Blake Studies”. Studies in Romanticism. (2002), in < http://www.rc.umd.edu/praxis/blake/about.html>.

[4]  Morris Eaves, Robert Essick and Joseph Viscomi, Eds. The William Blake Archive. 3 de Maio http://www.blakearchive.org

[5]  É possível ter acesso a esta planificação através da secção Editorial Principles.

[6]  É também possível ter acesso ao formulário de pedido de autorização de reutilização de materiais a partir do Site Information. O mesmo se aplica relativamente ao guia de citações da Modern Language Association.

 


Bibliografia e Webografia 

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