DigLitWeb: Digital Literature Web

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The Modern Word: Templo Virtual da Literatura Moderna

Sandra A. P. Santos


 

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Introdução

1. Templo Virtual da Literatura Moderna

1.1. Os Direitos de Autor em Espaço Electrónico

2. Uma Experiência Digital Convincente

3. Potencialidades e Limitações

Conclusão

Bibliografia / Webografia

 

 


Introdução

 

Our main goal is to create a community of thinkers, readers, writers and artists, a community that sees modern literature and language itself as something wonderful, playful, enriching and life-affirming.

Allen B. Ruch

O desenvolvimento das tecnologias de informação tem contribuído em grande escala para a construção e consolidação de uma sociedade caracterizada pela abundância de meios audiovisuais que diariamente nos assaltam os sentidos e, não raras vezes, comandam ritmos e hábitos de vida. Numa sociedade que frequentemente se apelida de “sociedade de informação”, são muitos os meios de que podemos dispor para nos auxiliar na realização de actividades diárias da mais variada ordem e de diferentes níveis de complexidade.

Um desses meios, talvez o que mais se tem destacado, é a Internet, que tem o poder de proporcionar aos que com ela contactam experiências da mais variada ordem. É num panorama tecnologicamente apetecível que este meio se tem vindo a impor como um dos mais poderosos, apresentando-se como uma ferramenta flexível e de fácil utilização, que nos permite levar a cabo um elevado número de tarefas. De facto, desde simples trocas de mensagens a complexos trabalhos de pesquisa e investigação, passando por actividades de carácter meramente lúdico, a Internet tem vindo a criar aquilo a que muitos já designaram por this brave new world.

No trabalho que apresento interessa-me abordar a Internet como veículo transmissor de conhecimento, como recurso capaz de proporcionar aos utilizadores formas de pesquisa e investigação e, acima de tudo, reflectir sobre um dos muitos sítios que estão à nossa disposição no espaço virtual – The Modern Word, criado em Maio de 2000 por Allen B. Ruch. Numa tentativa de perceber de que forma este tipo de ferramenta permite alterar o acesso que temos à informação, procurarei, numa primeira parte, analisar quais os princípios inerentes à criação do sítio e que género de publicação em linha nos oferece. Posteriormente, dedicar-me-ei a aspectos que permitem caracterizar o sítio do ponto de vista da estrutura e do conteúdo e, numa última parte, tentarei evidenciar as suas potencialidades e limitações.

 

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1.Templo Virtual da Literatura Moderna

 

Criado há praticamente uma década, The Modern Word foi inicialmente apresentado como The Libyrinth, tendo surgido da necessidade de colmatar as lacunas existentes no espaço virtual relativamente a autores do século XX. Dedicado à Literatura Moderna, o sítio resultou das dificuldades que Allen B. Ruch, o seu criador, sentiu quando tentava encontrar na Internet informação adequada ao estudo de James Joyce e de Jorge Luis Borges. Numa altura em que a rede global de informação ainda dava os primeiros passos, Ruch lançou-se na aventura cibernética com o objectivo de preencher o vazio que havia encontrado, publicando “The Brazen Head” e “The Garden of Forking Paths”, sítios de autor dedicados a Joyce e Borges, respectivamente. Inicialmente incluídos no sítio The Libyrinth, estes sítios tornaram-se, segundo palavras do próprio Ruch, os dois pilares do seu “personal temple of literature” (Ruch in VanderMeer 2001).

O entusiasmo com que o sítio foi recebido por parte dos utilizadores fez com que o mesmo se desenvolvesse e motivou o interesse de investidores privados, facto que abriu novos horizontes ao projecto e permitiu a sua evolução para o The Modern Word, sítio a que VanderMeer  se refere como “perhaps the best source for information about authors like Borges, Joyce, Marquez and others.” (2001). Estas palavras de VanderMeer remetem para um dos aspectos fundamentais relacionados com o tipo de publicação que o The Modern Word oferece, mas não fazem jus à totalidade e diversidade de recursos disponíveis no universo labiríntico do sítio. O sítio desenvolvido por Ruch apresenta-se como uma publicação electrónica que nos coloca à disposição uma completa base de dados sobre diversos autores de literatura moderna. Alguns destes autores são autores canónicos, enquanto que outros, considerados “emerging talents” (Ruch in VanderMeer 2001), se encontram ainda em pleno processo de afirmação no panorama literário mundial.

Esta divisão parece-me uma das armas do sítio e uma virtualidade das publicações em linha. Por um lado, o utilizador pode encontrar, na mesma publicação, informação sobre grandes nomes da literatura e novos talentos ainda em ascensão. Nomes como Joyce, Kafka e Eco, por exemplo, coexistem no mesmo espaço com Kobo Abé,  John Banville, Angela Carter, menos conhecidos talvez para a maioria dos utilizadores. Por este facto, creio podermos afirmar que The Modern Word dá mostras de querer impor-se como um sítio capaz de desempenhar “[...] a particular role in undoing the various intractable formations of the literary canon, and its burden of historical preferences, and motivated exclusions and silences” (Everest 193). O sítio pode  constituir uma voz que pretende esbater as fronteiras existentes no universo literário, chamando a atenção dos utilizadores para a qualidade dos autores que não estão contemplados no cânone. 

Para além de se apresentar como um projecto que funciona como uma introdução à literatura moderna e contemporânea, The Modern Word destaca-se, ainda, pela publicação em linha de uma série de recursos relacionados com o universo literário. As secções dedicadas à recensão de livros, aos artigos de opinião e às entrevistas remetem-nos para uma publicação que faz lembrar as revistas convencionais dedicadas à crítica literária. No entanto, a diferença nas datas de publicação, a inclusão de artigos à medida em que vão sendo concluídos, entre outros aspectos, permitem que o sítio se afirme como um género literário próprio que seria impossível de encontrar em suporte tipográfico.

Por outro lado, o ambiente virtual faz ainda com que seja possível incluir no The Modern Word elementos como uma “newsletter”, galerias de arte, livrarias, entre outros elementos com características substancialmente diferentes das permitidas pelas publicações tradicionais. Em relação a esta possibilidade de criar géneros específicos do hipertexto, William S. Strong refere que ‘[t]he Internet promises – or threatens, in some people’s view – to change fundamentally what we mean by a “book” or a “journal”, even to create new publishing products that as yet hardly even have a name.’ (Strong 1999)  

Em The Modern Word podemos ver como as limitações físicas que seriam impostas pelo livro se diluem num universo que nos proporciona, de forma célere e à distância de um simples clique, diferentes níveis de informação e distintos tipos de documentos aos quais não poderíamos ter acesso nas formas de transmissão de conhecimento tradicionais. E este é um dos poderes dos projectos deste tipo. Segundo Susan Hockey, “the World Wide Web’s strength is that it can bring to the desktop material which would otherwise be inaccessible.” (1997) Sempre que utilizo o sítio dirigido por Allen B. Ruch, não posso deixar de pensar que não seria possível ter acesso a toda a informação que fornece e aos recursos que oferece a não ser através do ambiente digital. 

Para além destes aspectos, The Modern Word apresenta-se também como uma publicação virtual que permite reconstruir a relação que se estabelece entre leitores e textos e o tipo de acesso que se tem a esses textos. Todos sabemos que o conhecimento livresco tem estado, desde o aparecimento da tipografia, ligado a instituições de ensino que se impuseram como garante da cultura e guardiãs da sabedoria. Para além disso, a maior parte dos debates produzidos em torno de questões literárias, por exemplo, era feita sob a alçada dos valores e princípios defendidos pelas academias. O desenvolvimento da Internet permitiu usurpar algum do protagonismo usufruído pelas instituições universitárias, colocando à nossa disposição sítios que,  como o The Modern Word, permitem anular as fronteiras institucionais e levar a literatura muito para além das paredes carregadas de história e tradição, criando comunidades de leitores com formação académica diferente que se reúnem em torno dos seus autores predilectos.

Allen B. Ruch reconhece este alcance do seu projecto e refere, a propósito da possibilidade que a Net oferece na criação de uma comunidade de leitores de Joyce, que “[t]he last ten years of joyce on the Web has seen the birth of a Joycean community that extends well beyond campus walls. By bringing together the curious newcomer and the lifelong enthusiast, the Web has fostered a global conversation, one that can be heard outside of ivory towers and lonely libraries” (Ruch 2004). O espantoso da questão é que nós podemos, se assim o desejarmos, participar nessa conversa, fazer com que ela aconteça em nossas casas e difundir, pela partilha de ideias e de opiniões, autores e obras literárias que são alvo de interesse de muitos leitores. E este poderá constituir um dos trunfos deste tipo de projecto. Não posso deixar de concordar com Ruch quando defende que “[t]he key to a lasting Joyce readership does not lie in schools, in libraries, or in encyclopedias. It lies in a thriving community of readers, open to new ideas and maintaining a willingness to grow, change, and adapt. It depends on nurturing an evolving conversation that transcends the boundaries of nation, age, and academic background.” (ibidem)       

Apesar de o sítio desenvolvido por Allen B. Ruch não se encontrar sob a alçada de qualquer instituição, importa salientar que os trabalhos publicados estão sujeitos a aprovação de um Conselho Editorial, o que terá certamente influência no tipo de trabalho apresentado. O próprio Ruch confessa que o Conselho poderá não mostrar igual receptividade relativamente a trabalhos “mainstream” e a outros de carácter mais alternativo: “[t]hough the Advisory Board is pretty up-to-date, and has a few members who love genre fiction, I do sense a bit of the good old academic prejudice against science fiction, horror, fantasy and comics.” (Ruch in VanderMeer 2001)

Ora, se este Conselho Editorial tem uma palavra a dizer  no que diz respeito aos géneros literários e aos autores a publicar em linha, tem certamente um papel fundamental na delimitação dos critérios que devem ser seguidos para que um determinado trabalho seja merecedor de um espaço no The Modern Word. Na minha perspectiva, esses critérios são evidenciados pelo equilíbrio na qualidade que é mantida nas diferentes secções. Apesar de cada secção incluir trabalhos resultantes da experiência de diferentes autores, elemento que poderia, por si só, provocar uma flutuação na qualidade dos escritos, já que cada um tem, certamente, um estilo de expressão escrita próprio, a qualidade dos trabalhos parece-me bastante equilibrada, o que contribui para a afirmação do sítio como um recurso fiável e de qualidade bastante acima da média.

Já vimos como The Modern Word se apresenta como um excelente recurso sobre Literatura Moderna, colocando à disposição dos seus utilizadores um vasto conjunto de elementos que lhe permitem afirmar-se enquanto forma de publicação electrónica válida e credível para o estudo de inúmeros autores. Importa contudo, reflectir sobre um aspecto que condiciona o sítio e que está relacionado com o facto de se centrar no estudo de um período literário recente, mesmo contemporâneo, o que levanta questões a nível dos direitos de autor e condiciona, por exemplo, a publicação em linha de obras dos autores contemplados no site.

 


1.1. Os Direitos de Autor em Espaço Electrónico

 

A Internet é uma nova forma de comunicação que pela especificidade das suas características tem vindo a colocar novos desafios relacionados com a questão da propriedade intelectual. Uma vez que o ambiente digital se apresenta como um meio inovador, a legalidade dos processos relacionados com a manipulação da informação que veicula terá de ser abordada segundo formas de actuação e princípios específicos para o meio electrónico. John Perry Barlow coloca esta questão de uma forma bem particular, chamando a atenção para a natureza diferente dos meios que veiculam a informação:

[...] the rights of invention and authorship adhered to activities in the physical world. One didn’t get paid for the ideas but for the ability to deliver them into reality. For all practical purposes, the value was in the conveyance and not the thought conveyed. In other words, the bottle was protected, not the wine.

Now, as information enters Cyberspace, the native home of Mind, these bottles are vanishing. With the advent of digitization, it is now possible to replace all previous information storage forms with one meta-bottle: complex – and highly liquid – patterns of ones and zeros. (1993)

É neste ambiente altamente líquido e complexo, um ambiente em que as ideias transmitidas não são permanentemente fixadas no meio utilizado para as veicular que podemos encontrar, enquanto utilizadores, um sem fim de informações que nós vamos utilizando nas mais variadas tarefas do nosso quotidiano. À semelhança do que já acontecia com outros meios comunicação e transmissão de conhecimento, o utilizador pode fazer pesquisa e seleccionar, da globalidade de material que encontra, o que lhe parece mais apropriado às suas necessidades. Contudo, neste novo meio digital, que Judith Axler Turner apelidou de “colossal library” (1999), as ferramentas colocadas à disposição dos utilizadores são potencialmente mais poderosas e mais perigosas.

O que frequentemente acontece enquanto desempenhamos o nosso papel de utilizadores da Internet é que tendemos a esquecer que “each piece of material which is made available in digital form, as well as those that are in  more conventional formats, contains intellectual property created by, and belonging to, a variety of creators” (Cornish 1996), o que coloca algumas restrições e questões que são frequentemente difíceis de resolver por implicarem o choque de diferentes interesses. Questões como os direitos de autor, a liberdade de acesso, a privacidade do utilizador, as diferenças jurídicas entre países, entre outras, assumem vital relevância na discussão das implicações de utilização do ambiente virtual. 

Em termos legais, os princípios que se encontram actualmente em vigor a nível internacional resultaram da Convenção de Berna, datada de  Setembro de 1886, que estabelece a defesa e protecção dos direitos dos autores sobre as suas obras literárias e artísticas. O documento sofreu entretanto diversas revisões para que se mantenha actualizado e consiga responder aos desafios colocados pelo desenvolvimento de novos meios de comunicação. A Convenção estabelece, por exemplo, o prazo de cinquenta anos como limite temporal mínimo para a vigência dos direitos de autor. Contudo, uma vez que os países aderentes têm a possibilidade de alargar esse limite, o período de tempo em que as obras estão fora do domínio público foi fixado, já na década de 90, em setenta anos após morte do autor. Este facto condiciona a publicação em espaço virtual de muitas obras que ainda se encontram dentro desse período.

Em The Modern Word, podemos aperceber-nos das limitações que o direito de autor impõe a este tipo de projectos. O sítio não inclui qualquer publicação de obras dos autores a que se dedica. Apesar de esse não ser o objectivo do projecto, poderia ser uma mais valia se pudesse incluir algumas das obras nas suas páginas. Efectivamente, o sítio coloca em linha somente textos que não se destinam a fins comerciais, como por exemplo entrevistas, artigos de opinião e todo o tipo de informação que constitui a base de dados sobre o período literário e os autores a que se dedica.

As limitações impostas pelos direitos de autor parecem reforçar a crença que, segundo McGann, pessoas ligadas ao mundo literário têm de que “whatever happens in the future, whatever new electronic poetry or fiction gets produced, the literature we inherit (to this date) is and always will be bookish.” (54). É claro que a preservação desta herança literária está associada aos benefícios financeiros que os detentores dos direitos de autor podem vir a usufruir com a comercialização das obras, quer através dos meios convencionais, quer através do meio digital.

Importa também referir de que forma poderão assegurar-se os direitos dos autores dos textos publicados que, devido à facilidade de acesso, podem ser utilizados e manipulados por todos os que acederem ao sítio. Lance Rose coloca esta questão de uma forma muito  directa e realista: what can  “copyright” possibly mean when millions of people can download the information they find on the Internet?”, questão que chama a atenção para dois aspectos que, na minha opinião, assumem vital importância quando se discutem assuntos relativos ao ambiente virtual: o elevado número de utilizadores e a imensidão de informação disponível.

Por um lado, a Internet permite a milhões de utilizadores um fácil acesso à informação, o que torna as possibilidades de manipulação e divulgação de material praticamente ilimitadas. Por outro lado, o utilizador tem o poder de aceder a vastas bases de dados, copiar e divulgar conteúdos de uma forma nunca antes vista, pelo menos em termos de rapidez e de perfeição de execução, o que constitui uma das ameaças colocadas pelo meio digital: “[t]he Internet is well known as a threat to copyrighted material because it enables global ubiquity of information through technologies that allow people to make as many perfect copies of content as desired.” (Rosenblatt 1997). A perspectivação da Internet como uma ameaça não seria tão acentuada se não estivessem em causa interesses económicos e valores monetários que não consigo sequer imaginar. Segundo Graham Cornish,            

[…]the intellectual property industry is big business and cannot afford to allow its products to be copied, repackaged, pirated or distributed without insuring adequate economic compensation. The very fact that the content can be copied so easily is itself a major problem […] When ease and quality combine then this is a recipe for unauthorised copying, pirating and use which must be controlled. (1996)

Não posso deixar de concordar com esta ideia de limitar e controlar o uso ilícito dos recursos que a nova rede global de informação nos oferece. Contudo, creio que se afigura como essencial delinear muito bem os princípios que serão seguidos, sob o perigo de colocar em causa o direito que cada um de nós tem à informação e ao conhecimento. Este direito está já contemplado na legislação que, através do princípio de “fair use” ou “utilização livre para fins de informação”, impõe determinados limites aos direitos de autor e nos permite a utilização de conteúdos para fins não comerciais, nomeadamente aqueles que estejam relacionados com pesquisa e educação.

Uma das formas de assegurar os direitos de autor num meio a que John Barlow se refere como “lawless seas of Cyberspace” (1993), é a adopção de medidas que restringem o acesso ao que se publica electronicamente. O princípio de colocação em linha de sites restritos, sites que exigem o pagamento de uma assinatura para permitir o acesso, apresenta-se como uma limitação cada vez mais utilizada em ambiente digital, sendo visto por muitos como o princípio dominante no futuro. Este princípio de “utilizador-pagador” pode parecer justo, e é-o, certamente, na sociedade tecnologicamente desenvolvida da actualidade, mas talvez todos já tenhamos sentido, enquanto utilizadores da Internet, uma pontinha de raiva por não podermos aceder a sítios que nos parecem relevantes para o desenvolvimento do nosso trabalho. De cada vez que isso me acontece, confesso que me sinto lesada no meu direito de acesso à informação, ainda que esteja perfeitamente consciente dos princípios legais subjacentes.

Se isto se verifica ao nível da utilização individual, as implicações serão muito mais penosas se forem perspectivadas sob um ponto de vista de um acesso mais global à “digitized property” (Barlow 1993) que a Internet nos pode oferecer podendo agudizar o que Thomas Field Jr designa por “digital divide” (2000) entre países que têm acesso às tecnologias da informação e aqueles que não têm. Creio ser inevitável que a divisão se perpetue, apesar de os preços de acesso à Internet tenderem a decrescer. Esta rede global de informação nunca será totalmente global.

A Internet não chega, infelizmente, a todo o lado, mas é um facto que chega cada vez mais longe. E isto poderá também ser um elemento potenciador de conflitos devido aos princípios legais estabelecidos em cada país. Apesar de existir legislação internacional, a capacidade do meio digital em diluir fronteiras fisicamente reais chama a atenção para a necessidade de se pensar na questão da propriedade intelectual de uma forma mais global. Na opinião de Lorrie Le Jeune, “our thinking about copyright must extend beyond the borders of any single country and encompass everyone with an Internet connection, regardless of where they live.” (1999) 

Convém também não esquecer os efeitos potencialmente negativos da aplicação de tarifas de subscrição, por exemplo, ao nível de instituições de ensino e bibliotecas. O acesso limitado à informação poderá condicionar em grande medida os recursos que essas instituições colocam ao dispor dos utilizadores.Um outro aspecto relacionado com a utilização do princípio de utilizador-pagador para limitar o acesso à informação veiculada pela Internet é a implicação que essa restrição poderá trazer para as entidades que recorrem a esse sistema. É do domínio do senso comum que tudo aquilo que tem de ser pago é, não raras vezes, rejeitado em favor do que se pode obter de forma gratuita, apesar de possíveis perigos em relação à qualidade. Num meio digital onde nos deparamos com um número crescente de recursos de elevada qualidade, poderá ser muito arriscado colocar em linha conteúdos com acesso de elevados custos, podendo essa estratégia para protecção de informação ter efeitos perversos para os que a colocam em prática.

Relativamente a esta questão, William S. Strong refere que “[t]he publishers should try to see the situation from the user’s point of view, and be realistic about the sorts of activity that will truly cause harm. […] If publishers lock up their products too tight they will either lose business or induce piracy. Those mechanisms, if they do not work too well, will backfire” (1999)  O que realmente me parece importante numa altura em que o desenvolvimento do mundo virtual caminha a passos largos, é que se encontre um ponto de equilíbrio entre todos os interesses envolvidos. Para bem de uma sociedade em que as pessoas tenham acesso a informação e a recursos de qualidade.     

 

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2. Uma Experiência Digital Convincente

 

Here was a media form that people could understand – a combination of electronic text and images that […] promised global multimedia. It could be a digital library for scholars and scientists, but it could also be a new kind of shopping mall for consumers. It could entertain surfers with everything from pornography to the virtual Louvre. The Web finally presented hypertext as a convincing digital experience. (Bolter & Gromala 23)                

É com estas palavras que Bolter e Gromala se referem ao aparecimento da Internet, reconhecendo-lhe potencialidades e salientando alguns dos atractivos que nos prendem a atenção e fazem com que este meio digital assuma uma importância cada vez maior no panorama tecnologicamente avançado da sociedade actual.

Nesta secção do trabalho, proponho um breve percurso pelo The Modern Word, percurso que incluirá uma passagem pelos elementos que nos permitem caracterizar o sítio e apresentá-lo como um recurso que oferece, na minha perspectiva, “a convincing digital experience” (ibidem) a todos aqueles que o utilizam. Publicado pela primeira vez em 1995 sob a designação de The Libyrinth,  o sítio passou por um processo de evolução e de aquisição de características que lhe valeu, cinco anos mais tarde, a atribuição do nome pelo qual é conhecido actualmente. The Modern Word é um sítio muito vasto dedicado à Literatura Moderna, constituindo uma excelente fonte de informação sobre escritores associados a esse período literário.

Nomes como Franz Kafka, Gabriel García Márquez, James Joyce e Jorge Luis Borges fazem parte de um grupo a quem foram atribuídos sítios específicos que se apresentam como um completo conjunto de informação sobre os autores, estando já nos planos dos editores a publicação de mais dez sítios sobre outros grandes nomes da literatura do século XX. Para além destes autores, que podemos considerar como canónicos e que podemos encontrar na secção “Main Collection”, o sítio inclui ainda informação sobre outros nomes da literatura mundial que, por diversas razões, ainda não foram incluídos na colecção principal, fazendo parte da secção “The Scriptorium”. Esta secção apresenta-se como uma das mais importantes do sítio e alberga “an index of pages featuring writers who have pushed the edges of their medium, combining literary talent with a sense of experimentation to produce some remarkable works of modern literature” (Ruch 2003).

As duas secções que acabei de referir fazem parte de uma série de elementos que se destacam na organização estrutural de um sítio que é visto pelo seu próprio criador como “sprawling monstrosity” (Ruch 1999). Esta monstruosidade, que tem o poder de provocar alguma apreensão, como me provocou no meu primeiro contacto com o sítio, e nos torna conscientes da nossa pequenez enquanto exploradores do seu universo digital, está de tal forma bem organizada e estruturada que o nosso papel de leitores / utilizadores é simplificado.

Quanto à estrutura, The Modern Word está dividido em três grandes secções: “The Rotunda”, “The Omphalos” e “The Libyrinth”, sendo que cada uma delas inclui diferentes níveis e tipos de informação. É de salientar o facto de essa informação ser veiculada de forma estruturalmente semelhante em cada uma das secções, semelhança que assume extrema utilidade para os leitores. O que acontece é que à medida em que vamos percorrendo as páginas do sítio, vamos ganhando uma certa familiaridade com a estrutura do sítio, o que nos deixa, de certa forma, mais confiantes no nosso papel de exploradores e mais capazes de tirar partido das diferentes secções e dos diversos recursos colocados ao nosso dispor.

A escolha deste tipo de estrutura, que pode ver-se exemplificada em http://www.themodernword.com/, pode prefigurar uma estratégia que não me parece que seja, de todo, inocente por parte dos responsáveis pelo projecto. Ao colocarem em linha um sítio com um carácter tão vasto, os interessados sabiam que poderiam incorrer em determinados riscos que pretenderam, e muito bem, minimizar. Num meio em que proliferam sítios de todos os tipos, The Modern Word teria de se afirmar como recurso válido que permitisse captar, e manter, a atenção dos utilizadores. Ao apresentar uma estrutura útil e de fácil navegação, o sítio consegue, por um lado, facilitar o nosso papel de leitores e, por outro, prender a nossa atenção que seria substancialmente diferente se a organização nos parecesse caótica e duvidosa.

Apesar de muitos autores defenderem que “[t]he anarchy of the Web is one of its most attractive features” (Rockwell 1997), afirmação com que eu concordo, reveste-se de extrema importância que esse ambiente anárquico seja povoado por sítios que apresentam estruturas organizacionais que, à semelhança do que acontece com o The Modern Word, nos orientem nas nossas viagens virtuais e nos permitam usufruir ao máximo dos recursos que nos oferecem. Um outro aspecto que creio ser importante é a relação estrutura / conteúdo que assume importância substancial no sítio que estou a caracterizar. Segundo Bolter e Gromala, “[t]he form and content of Web pages are inseparable” (24) e, atendendo à harmonia entre os dois aspectos, parece-me que esta relação foi tida em consideração pelos editores do The Modern Word.

Em termos de grafismo, creio que o sítio não é nada de extraordinário, mas também não me parece que fosse esse o objectivo a atingir. Os responsáveis pela publicação recorreram a uma apresentação simples e sóbria, com a utilização de cores discretas e que criam uma imagem visual interessante da qual sobressaem, por vezes,  elementos graficamente mais arrojados. As páginas dedicadas aos sítios de autor, aquelas onde foram utilizadas cores mais vivas, são um exemplo desses elementos que não ferem, contudo, a percepção do sítio como um todo graficamente coerente. (Aceda-se, por exemplo, a  http://www.themodernword.com/joyce/index.html, a página de entrada do sítio The Brazen Head dedicado a James Joyce).

Se me é permitida uma opinião muito pessoal, gostaria de referir dois elementos que me agradam bastante no sítio. O primeiro é a utilização da cor castanha como cor dominante e o segundo é o tipo de caracteres utilizado que, por ser visualmente apelativo em diversas secções do sítio, contribui para a sua caracterização como uma publicação sóbria e inteligente. Creio que a utilização desses dois elementos constitui uma forma de conciliar muito bem a seriedade e sobriedade do tema, com a seriedade e credibilidade que, certamente, os responsáveis pelo sítio querem atingir.

Esta questão da credibilidade parece-me outro dos elementos importantes a considerar na caracterização do sítio. Quando se desenvolve um projecto como o The Modern Word parece-me óbvio que os seus objectivos passem também pela forma de prender a atenção dos utilizadores e, acima de tudo, fazer com que estes lhe reconheçam autoridade relativa ao conteúdo que transmitem. A este propósito, Judith Turner refere que “as people learn to surf the web well, they will also learn whom they can trust, and which sites are likely to be most useful. Unfortunately that takes time, and meanwhile, many of us sit here on the Web like wallflowers, hoping that someone will ask us to dance” (1999). 

Não posso deixar de concordar com esta perspectiva, nomeadamente no que diz respeito ao desenvolvimento de espírito crítico que nos permite avaliar determinados espaços do mundo virtual. Contudo, não me parece que a questão dependa somente das posições críticas que possamos adoptar. Muitas vezes, por mais que queiramos reconhecer qualidade a um sítio, não podemos fazê-lo simplesmente porque essa qualidade não existe. Quando existe, como penso que existe no sítio desenvolvido por Allen B. Ruch, os responsáveis pelos projectos podem fazer uso de diversos recursos que nos permitam reconhecê-la. Vejamos como.

Como referi na primeira parte do presente trabalho, The Modern Word não está ligado a qualquer instituição de ensino, apresentando-se como um projecto extra-institucional, o que implica aspectos que poderão ser vistos sob diferentes perspectivas. Por um lado, temos que reconhecer o trabalho e a audácia de um grupo de pessoas que, a título individual, se prontificam a contribuir com um projecto no qual acreditam, o que tem todo o mérito. Por outro lado, não podemos deixar de pensar na forma como é salvaguardada a qualidade dos conteúdos veiculados uma vez que a publicação é alheia a instituições académicas, que continuam a ser sinónimo de excelência e rigor.

The Modern Word resolve esta questãoe tranquiliza os seus leitores com a existência de um Conselho Editorial composto por professores universitários, especialistas em literatura, críticos literários, editores, entre outros, que estabelecem os critérios segundo os quais os textos são analisados e seleccionam os autores a incluir no sítio e determinam que tipo de colaboração pode ser aceite por parte dos leitores.

Se a actividade dos membros do Conselho Editorial tem a função de conferir credibilidade ao sítio, o mesmo acontece com outros elementos que passam, por vezes, mais despercebidos. The Modern Word permite, por exemplo, a ligação a outros projectos relacionados com o mundo literário e a sítios filiados em instituições académicas. (Estas hiperligações podem ser feitas a partir de http://themodernword.com/external.html ). Não me parece de todo provável que instituições como a Universidade da Califórnia quisessem ter o seu nome ligado a um projecto ao qual não reconhecessem credibilidade. A situação inversa também acontece, sendo que o sítio de Allen B. Ruch aparece referenciado em diversos projectos que se dedicam a literatura. Nos sítios The James Joyce Centre e The International James Joyce Foundation  estão contempladas hiperligações para The Brazen Head. A título de exemplo, aceda-se a http://www.cohums.ohio-state.edu/english/organizations/ijjf/ .

Relacionada com este aspecto da autoridade do sítio encontra-se a questão relativa aos critérios textuais que determinam quais os trabalhos a incluir no The Modern Word. Nas páginas do sítio podemos sentir, a cada passo e em todas as secções, que os critérios são de elevada exigência, sendo que os textos apresentados demonstram que houve cuidado com a expressão escrita, o que confere ao sítio uma uniformidade em termos de qualidade textual.  Contudo, não posso deixar de referir que, apesar dessa uniformidade, se preservam estilos de escrita muito pessoais. Destaco, a título de exemplo, a forma de escrita bem humorada, diria alternativa, que Allen B. Ruch expressa nas diferentes secções que tem a seu cargo. (Veja-se  http://www.themodernword.com/bio.html ).

Esta forma que Ruch utiliza para apresentar a informação e se dirigir aos leitores vai ao encontro dos objectivos que ele havia delineado para a criação do projecto:

I firmly believe that any intelligent reader can read Ulysses or Gravity’s Rainbow or One Hundred Years of Solitude – they just needed to be pried loose from the crust of academia; and perhaps handed over with a few words of friendly advice. Most of all, I wanted to present things in a playful way – these books are fun, and reading them can be very enjoyable as well as intellectually rewarding. (in VanderMeer 2001)

Estas palavras de “friendly advice” podem ser sentidas em praticamente todos os textos escritos por Ruch e a forma como nos apresenta a informação constitui um incentivo à nossa curiosidade e ao desejo de conhecermos melhor os autores referidos no sítio. Esta característica do sítio está, na minha perspectiva, relacionada com dois aspectos sobre os quais recomendo uma breve reflexão: o tipo de destinatários que o sítio visa cativar e o tipo de utilização permitido.

Relativamente ao primeiro aspecto, o sítio pretende fazer chegar a literatura do século vinte a um leque de destinatários muito variado, a “everyone who wants it, from beginner to rabid fan to academic scholar” (Ruch in VanderMeer), objectivo que apesar de louvável me parece demasiado ambicioso. Aqui importaria saber o que Ruch entende por “beginner” uma vez que, apesar de o sítio se apresentar como uma ferramenta fácil de utilizar, pelas características estruturais que já referimos, não parece provável que este “beginner” possa ser alguém que não possua quaisquer informações sobre Literatura Moderna. Isto porque o sítio não faculta, por exemplo, elementos que permitam fazer o enquadramento do período literário a que se dedica.

Em termos mais específicos, talvez se possa considerar que o sítio poderá atrair “iniciados” devido à diversidade de informações sobre vida e obra de variados autores. Um aluno que necessite de elaborar um trabalho sobre James Joyce, por exemplo, pode encontrar em The Brazen Head todo o tipo de informações que vão desde a biografia do autor às influências que a sua obra teve na música e na arte, passando pelas adaptações dos seus trabalhos ao cinema e ao teatro. A aliar a este aspecto, o aluno pode sempre tirar partido do fórum de discussão sobre as diferentes obras do autor e aprender pela partilha de ideias e de experiência.

Na minha perspectiva, esta característica do The Modern Word como fórum de discussão que permite a criação de uma comunidade de leitores que se reúnem à volta do mesmo autor, constitui uma das características mais relevantes do sítio e remete para uma outra – a publicação de materiais originais tais como artigos de opinião e de ensaios sobre obras e/ou escritores. Creio que este facto permite ver como as pessoas continuam a dedicar-se à leitura de grandes obras da literatura mundial e, acima de tudo, poderá ajudar a entender de que forma a leitura dessas obras é influenciada pelo contexto sociocultural actual.

Finalmente, uma breve referência a uma outra característica que se afirma como bastante relevante num sítio que possui as dimensões do The Modern Word. Refiro-me à informação que o sítio inclui sobre si próprio. Os responsáveis pelo projecto incluíram uma secção denominada “The Omphalos”, a que podemos aceder em http://www.themodernword.com/site_info.html e que nos permite obter todo o tipo de informação relevante para melhor compreendermos o sítio. Esta secção contém informações sobre a forma como o sítio está estruturado, sobre as pessoas que estão envolvidas no projecto, sobre as origens do sítio, entre outra informação. Saliento ainda a existência de um mapa que se revela de enorme utilidade devido à imensidão do projecto, uma vez que pode ajudar-nos nas nossas incursões pelo seu universo virtual.     

 

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3. Potencialidades e Limitações

 

Depois de ter apresentado o The Modern Word como publicação específica  do meio digital e de ter apontado as suas características mais relevantes, gostaria, nesta fase do trabalho, de proceder a uma reflexão sobre alguns dos aspectos que constituem mais valias para o sítio e referir outros que poderão ser considerados como limitações da aventura cibernética liderada por Allen B. Ruch. Um dos aspectos mais importantes do projecto reside na comunidade de autores a que se dedica e no facto de sobre eles apresentar uma credível e completa base de dados. Os sítios de autor e as páginas individuais constantes nas secções “Main Collection” e “The Scriptorium” assumem-se como uma das potencialidades do sítio exactamente por oferecerem excelentes recursos sobre vida e obra dos autores que incluem. Contudo, é exactamente nestas secções, ou no desequilíbrio entre elas, que se encontra a primeira das limitações que gostaria de referir.

Ao utilizarmos o sítio podemos aperceber-nos da divisão entre as secções referidas, sendo visível um certo desequilíbrio entre os diversos autores estudados, desequilíbrio que creio estar relacionado com diferentes aspectos. O primeiro tem a ver com a quantidade de informação disponível, sendo que aos nomes incluídos na colecção principal foram dedicados sítios de autor bem mais completos e com uma maior variedade de recursos do que os existentes nas páginas individuais pertencentes ao “The Scriptorium”. O segundo aspecto prende-se com a autoria de cada sítio de autor e de cada página de autor. Os sítios de autor estão, por assim dizer, a cargo de pessoas com mais responsabilidade no projecto, como sejam o próprio editor principal, Allen B. Ruch, e colaboradores mais directos, enquanto que as páginas individuais estão sob a responsabilidade dos “staff writers” que terão, porventura, uma ligação menos vincada ao sítio. Não pretendo, contudo, dizer que em termos de rigor e credibilidade uns sejam mais válidos do que outros. Uma vez que todo o material está sujeito a aprovação do Conselho de Aconselhamento Literário, creio existir uma certa uniformidade na qualidade da informação veiculada.

Relacionado com estes aspectos está um outro que pode ser considerado como uma mais valia para o sítio. Refiro-me à coexistência, no mesmo espaço, de autores de renome no universo literário e de outros que se encontram ainda em processo de afirmação. Oferecer esta possibilidade aos utilizadores é, sem dúvida, um elemento positivo. Contudo, não sei até que ponto o desejo que Ruch e os seus colaboradores têm de incluir autores pertencentes ao “literary mainstream” e outros ligados a “genre fiction” não acabará por perpetuar a divisão que eles procuram esbater. A própria divisão entre sítio de autor e página de autor parece indiciar o peso que cada um dos contemplados tem no universo literário. Enquanto utilizadores, parece inevitável que façamos juízos de valor baseados nessas divisões.

Na apresentação que Allen B. Ruch faz da secção “The Scriptorium”, o editor refere as três razões principais que justificam esta divisão e que importa ter em conta na avaliação do sítio que está em pleno processo de crescimento: a inclusão dos autores no “The Scriptorium” é o primeiro passo para serem incluídos na “Main Collection”; não foi dado tanto ênfase aos autores a quem são já dedicados sítios importantes noutros projectos virtuais; e os autores incluídos no “Scriptorium” poderão não possuir ainda uma obra suficientemente extensa para suportar um sítio de autor. ( Ruch 2003). (Ver argumentos apresentados em http://www.themodernword.com/scriptorium/index.html).

Convém também não esquecer que, uma vez que o sítio depende da colaboração de muitos indivíduos, os ritmos de trabalho serão seguramente diferentes, o que provavelmente influenciará a colocação em linha de material em preparação. Um outro elemento importante neste projecto é que existem secções em fase de construção, o que nos remete para uma outra potencialidade específica não só do The Modern Word,mas das publicações electrónicas no geral. Refiro-me ao poder de renovação, à possibilidade de inclusão de novos elementos, o que faz com que o ambiente electrónico possa ser perspectivado como “a living ecosystem, where information and its delivery systems are recognized as dynamic [and] highly changeable [...]” (Martin & Coleman 2002). The Modern Word apresenta-se, de facto, como um ecossistema dinâmico que está em permanente mutação, sendo que diversas das secções que o constituem são alvo  de alteração recorrente. Destaco, a título de exemplo, as secções “Columns” e “Book Reviews” (às quais se pode aceder através da página de entrada em http://www.themodernword.com/themodword.cfm),  que são regularmente actualizadas.

Um outro exemplo relativo à capacidade de actualização do sítio é a existência de uma “Newsletter”, que fornece informação sobre as novidades que inclui, por um lado, e, por outro, sobre actividades que estão, de alguma forma, ligadas ao tema a que o sítio se dedica e que serão levadas a cabo em diversos locais. De referir que o último número desta publicação data de 23 de Julho de 2004. (Pode ter-se acesso à “Spiral Bound Newsletter” em  http://www.themodernword.com/spiral-bound/015.html).

Não posso deixar de referir um outro elemento do The Modern Word que se apresenta como uma especificidade do meio electrónico – a secção “Daily Muse”, que exibe citações, curiosidades ou pensamentos relacionados com o universo literário. Tal como o nome indica, esta secção pretende oferecer um elemento diferente todos os dias. Contudo, talvez devido à escassez de contribuições para incluir nesta secção, é frequente encontrarmos citações repetidas, como já encontrei mais do que uma vez nas minhas viagens pelo sítio. Parece-me que os responsáveis pelo projecto não contaram com utilizações diárias e repetidas durante um prolongado período de tempo.

Relacionado com todos estes elementos está um outro aspecto que se afirma como uma das potencialidades do sítio – a sua estrutura, elemento já referido na caracterização do projecto. De facto, podemos ver que a actualização de secções ou a inclusão de novos materiais serão facilmente absorvidas por uma organização estrutural flexível que parece ter sido planeada para crescer. Refira-se que está prevista a abertura de uma nova secção, “The Sideshow”, cuja hiperligação se encontra já activa e perfeitamente inserida na estrutura da página. (Veja-se esta nova secção em http://www.themodernword.com/sideshow/index.html).

Esta possibilidade de inclusão de novos materiais que o hipertexto oferece é claramente distinto do que aconteceria se se tratasse de uma publicação impressa, reforçando a ideia de que “[e]lectronic technology provides a range of new possibilities” (Bolter 3). Creio que The Modern Word faz muito bom uso dessas novas possibilidades e, enquanto utilizadores do sítio, podemos sentir que o mesmo está em movimento e em fase de crescimento.

Sugiro agora uma breve reflexão sobre as potencialidades e limitações que o sítio apresenta, por um lado, ao nível do ensino e da aprendizagem e, por outro, em termos de investigação.

Relativamente a esta última, creio que as potencialidades do projecto dirigido por Ruch são infindáveis devido à quantidade e qualidade da informação que oferece e sobretudo devido às relações que permite estabelecer entre toda essa informação. Não consigo deixar de pensar na reacção de surpresa que tive da primeira vez que acedi ao The Brazen Head e fui confrontada com “um mundo” de elementos relativos a Joyce. Em termos de investigação os utilizadores possuem, de facto, elementos que permitem fazer um trabalho aprofundado sobre a vida e obra dos autores contemplados.

É lógico que a mesma amplitude de recursos pode ser também utilizada no ensino e na aprendizagem, sendo que a estrutura organizacional e facilidade de navegação são um elemento a favor do sítio. Creio que mesmo os utilizadores mais jovens, os iniciados, não terão grandes dificuldades em se movimentar no espaço virtual que o sítio oferece. O facto de o sítio se nos apresentar como “something friendlier than an encyclopedia” (Ruch 2004) ajuda também a cativar uma faixa etária mais jovem. A limitação que o sítio parece apresentar ao nível da sua utilização por “beginners”, vocábulo utilizado por Ruch, tem a ver com o rigor praticado pelos responsáveis, o que faz com que a informação facultada seja, em termos de exigência, colocada num nível bastante acima da média. E este facto poderá desmotivar utilizadores que não se sintam capazes de corresponder a essa exigência.

Creio que o sítio está mais direccionado para leitores que possuem já informação sobre o universo literário a que se dedica, uma vez que existem alusões recorrentes ao universo literário dos autores. Contudo, e uma vez que defendo que não devemos subestimar os jovens com quem, enquanto professores, temos o prazer de contactar, creio que o sítio potencia diversas actividades que me parecem possíveis de concretizar, desde que correctamente direccionadas e orientadas para objectivos específicos.

Um outro aspecto que pode consistir uma limitação ao sítio é o facto de não incluir qualquer edição das obras a que se refere. Contudo, este facto é minimizado pela introdução de hiperligações que permitem o acesso a outros sítios que têm em linha algumas das obras em estudo, o que constitui umas das virtualidades do espaço electrónico – podemos ler e estudar literatura, sem termos de recorrer a edições impressas: “[w]e no longer have to use books to analyze and study other books or texts.” (McGann, 168). Não resisto a referir que durante os meus tempos de estudante, recorria a livros para estudar outros livros. As obras de leitura obrigatória e recomendada eram sempre seguidas de uma lista de bibliografia que nos oferecia material da mesma natureza daquele que era suposto nós estudarmos. Hoje em dia, após ter voltado à Academia onde recebi formação, continuamos a usar livros para estudar outros livros e a nossa incursão às bibliotecas fisicamente reais continua a ser tarefa recorrente. Contudo as listas bibliográficas recomendadas incluem já fontes electrónicas que têm vindo a ganhar estatuto e a impor-se como recursos válidos no estudo e pesquisa literária. McGann tem razão quando afirma que ‘[w]e appear to be passing from a bibliographical to an “Interface Culture”.’ (171)

Uma última referência a um dos aspectos que também constitui uma potencialidade do sítio The Modern Word: as hiperligações que nos sugerem os mais diversos percursos. É recorrente encontrarmos, para além das hiperligações que remetem para outros pontos do mesmo sítio, elementos que funcionam como porta de entrada para outros projectos, grande parte deles relacionados com o seu universo literário e cultural. A exploração que o The Modern Word faz deste tipo de virtualidades facilita o nosso papel de leitores e alarga, praticamente ad infinitum o leque de possibilidades que nos são colocadas ao dispor. Enquanto utilizadores podemos ir percorrendo, ligação após ligação, as páginas que vamos seleccionando, ficando com a certeza de fazermos parte de uma comunidade que se movimenta num mundo virtual imenso que está à espera que nós o exploremos.

 

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Conclusão

 

Após reflexão sobre os aspectos analisados no presente trabalho, creio poder afirmar que foram alcançados os objectivos delineados na introdução. Julgo ter referido aspectos relacionados com a apresentação do The Modern Word como publicação específica do meio electrónico, com as suas características principais e com os elementos que poderão constituir-se como mais valias e como limitações do projecto.

Gostaria agora de referir um aspecto que se prende com a forma como me fui relacionando com o sítio desde o momento em que o descobri, ou melhor, desde o momento em que fui levada a descobri-lo, até ao momento presente. Essa relação, que teve início com contactos e viagens esporádicas e limitadas pelo trabalho, foi-se intensificando ao ponto de se estabelecerem contactos diários e de cada vez maior duração. Neste caso, um maior contacto levou a um melhor entendimento. E ao fascínio. E tenho talvez isto tenha influenciado a análise que fiz do sítio.

Pela crescente atracção que o The Modern Word tem vindo a exercer sobre mim, poderei nem sempre ter sido totalmente imparcial nas opiniões que apresentei. Contudo, parece-me inevitável que nos sintamos compelidos a expressar o nosso fascínio por novas aquisições. É isso que o The Modern Word tem sido para mim. Uma nova aquisição que me oferece um mundo que, não sendo totalmente desconhecido, me abre novos horizontes sobre o tema a que se dedica. Acima de tudo, um mundo de novidades e descobertas – fascinante descobrir as influências de Joyce em inúmeras facetas da vida cultural e artística, por exemplo – um mundo que desperta curiosidades e satisfaz a sede de conhecimento. E tudo isto à distância de um simples clique.  Acredito que o sítio exerça sobre outros utilizadores o mesmo fascínio que exerce sobre mim e se formos muitos a reconhecer-lhe o valor e a utilizá-lo de forma crescente, é certo que o objectivo de criar  “[...] a community of thinkers, readers, writers and artists that sees modern literature and language itself as something wonderful, playful, enriching and life-affirming.” ( Ruch in VanderMeer), estará em vias de ser atingido.

 

Julho de 2004

Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra

© Sandra A. P. Santos, sap.santos@portugalmail.com

 

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