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Romantic Circles: O Romantismo em Hipertexto

Maria da Graça Neto


 

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Introdução

1. Editar em Meio Electrónico: A Crítica Textual e o Hipertexto

2. Romantic Circles: O Estudo do Romantismo num 'Arquivo de Arquivos'

3. Romantic Circles: Virtualidades e Limitações

Conclusão

Bibliografia e Webografia

 


Introdução

 

[Information Technology] has revolutionized communications, has induced major changes in economic activity, has begun to influence the way in which we educate our children, and has made a difference to how we conduct our social lives. (Dearnley 43-44)

A narrator should not supply interpretations of his work; otherwise he would have not written a novel, which is a machine for generating interpretations.

The author should die once he has finished writing. So as not to trouble the path of the text.

Umberto Eco, Postscript to The Name of the Rose (1984)

As vozes cépticas que, até aqui, se têm insurgido relativamente ao uso das novas tecnologias da informação como parte integrante e indispensável da sociedade moderna, começam a cair no vazio do silêncio e a dar lugar a uma aceitação crescente dos inegáveis contributos e das já provadas vantagens deste novo meio de transmissão da informação e do conhecimento.

De facto, a viragem do século concretizou por completo uma revolução no campo do processamento e transmissão da informação e do conhecimento, e a cultura digital introduziu e reacendeu novas discussões, nomeadamente no campo dos estudos literários. O computador e o hipertexto, que inicialmente pareciam servir o único propósito de armazenar grandes quantidades de informação e de a “hiperligar”, permitem actualmente o acesso “to new and ever more sophisticated tools to assist [scholars] in the preparation of traditional codex editions and to aid textual analysis” (Abram, 2002).

Estamos, pois, perante uma verdadeira revolução no campo da crítica textual. De que forma o hipertexto alterou e/ou se transformou num instrumento de crítica textual é o que pretendemos discutir no primeiro capítulo deste ensaio. Num segundo capítulo, teremos oportunidade de proceder à caracterização e análise do sítio Romantic Circles (http://www.rc.umd.edu/) -   um “arquivo de arquivos” destinado à divulgação e ao estudo do período e literatura do Romantismo, com inúmeras edições em linha de obras de grandes autores deste período. Trata-se igualmente de um arquivo claramente orientado para a aprendizagem, levantando questões de extrema relevância quanto ao papel activo das novas tecnologias no campo do ensino, em particular da literatura, sobre as quais teremos também oportunidade de reflectir.

 

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1. Editar em Meio Electrónico: A Crítica Textual e o Hipertexto

 

Traditionally the function of textual criticism has been to follow the threads of transmission back from an existing document and to try to restore its text as closely as possible to the form it originally took in the author’s manuscript. (Gaskell 336-338)

 Because electronic publishing is incunabular, energetic, and exciting, it is surrounded by hype, exaggeration, ignorance, and skepticism. (Shillingsburg 161)

Durante séculos, tal como Philip Gaskell refere, a crítica textual procurou atingir um simples objectivo – a recuperação de textos e a sua fixação. Determinar a intencionalidade dos autores, bem como proceder à designação do copy-text adequado, parecem ter estado na base das práticas seguidas pelos críticos textuais.

Há, no entanto, que fazer a distinção entre as formas de actuação da crítica textual relativamente aos textos antigos e aos modernos, e que derivam dos diferentes processos de transmissão dos mesmos – manuscrito ou tipográfico. Enquanto que em relação aos manuscritos, os críticos textuais são confrontados com falta de informação e vêem a sua actuação reduzida aos processos de recensio e emendatio [i] , baseados sobretudo na tentativa de estabelecer a relação genealógica entre os manuscritos existentes e na correcção de erros; em relação aos textos modernos, pretende-se estabelecer ou fixar um texto, entre inúmeras variantes textuais, que resultam do acesso a diferentes fontes documentais, desde os manuscritos dos autores, a versões impressas e revisões das mesmas, entre outras. Estamos, pois, perante um processo de subordinação, uma vez que a tentativa de estabelecer uma versão única de um dado texto e de a fixar como autêntica – no sentido em que é a que mais se aproxima da intenção autoral – acaba por originar aquilo a que W.W. Greg chama “the tyranny of the copy-text” (Greg, 1950-51).

Segundo Greg, a autoridade é relativa e nunca absoluta, pelo que ao editor [ii] cabe o importante papel de tomar decisões, nomeadamente quanto àquilo a que este autor chama de “substantives” (palavras, que podem alterar o sentido do texto). Na sua opinião, “[…] it may not be optimistic a belief that the judgement of an editor, fallible as it must necessarily be, is likely to bring us closer to what the author wrote than the enforcement of an arbitrary rule” (Greg, 1950-51). Já no que se refere a aspectos que se prendem com a forma dos textos, como a pontuação, o uso de maiúsculas, a ortografia, etc. – a que Greg chama “accidentals”, o editor deve permanecer fiel ao copy-text.

Com esta questão parece estar aberto o caminho para uma das possibilidades da edição hipertextual, e que resulta do facto de o hipertexto poder, de algum modo, facilitar a tarefa dos editores, pois permite não serem obrigados a optar por uma dada versão, mas sim facultar diferentes variantes do mesmo texto, colocando, assim, o próprio leitor no papel de crítico textual. Esta virtualidade do hipertexto opõe-se claramente às limitações da edição impressa, mas levanta igualmente questões relevantes. Se, por um lado, a edição electrónica pode contribuir para uma maior autonomia do leitor em relação às escolhas do editor, tal como defendido por McGann, e pode proporcionar uma maior interactividade entre o leitor e o próprio texto; por outro, nem todos os leitores estarão aptos a seleccionar os textos/variantes que mais lhes interessam, vendo-se obrigados a proceder a uma actividade de selecção textual que pertence aos editores, e que Lavagnino descreve como “a sizeble burden” (Lavagnino, 1995).  Esta é a teoria defendida por Kelvin Everest, que se mostra bastante céptico em relação à disponibilização de diferentes variantes de um mesmo texto, pois “[t]he substitution of one variant for another will, in the context of a reading of the text as a whole, only make a specifiable difference to the meaning if the substitution is made against the relative stability of the text as a whole” (Everest 196). Tal como Greg, Everest defende que é ao editor que cabe tomar decisões e não ao leitor.

A uma estrutura linear e hierarquizada, tal como nos é facultada pelo códice, o hipertexto contrapõe uma sequência aparentemente não-linear e com múltiplas hierarquias, que parecem conceder total liberdade de movimentação ao leitor. Contudo, esta não é a verdade dos factos. Uma edição hipertextual obedece a critérios organizacionais definidos, que começam por se fazer notar logo na página de entrada, tal como se verifica em Romantic Circles: desde logo, o utilizador é confrontado com uma página de entrada que disponibiliza uma série de secções (algumas das quais verdadeiros arquivos), que, até pela sua apresentação, se assemelha a um índice numa edição tipográfica. De facto, a liberdade do leitor em relação às escolhas do editor revela-se relativa, pois tal como Kathryn Abram afirma, [a] hypertext document is not a non-sequential document because an editor has inserted and chosen what he considers the most suitable places for links to be. A reader can, therefore, only navigate to a part of a document to which an editor has chosen to offer a path" [iii] (Abram, 2002).

Retomamos as palavras de Umberto Eco [iv] relativas à não interferência do autor no percurso do texto, para introduzir a questão da relação do texto com o autor e com o próprio leitor. Independentemente da intenção autoral, e da incessante tentativa dos editores em manter o texto o mais próximo possível desta, o texto vai seguindo o seu trilho ao longo dos tempos, sofrendo alterações de interpretação consoante quem lê e quando lê. Vai igualmente adquirindo novas variantes provenientes dos julgamentos e actuações dos editores e críticos literários. É com base nestas interferências que McGann concluiu que os códigos bibliográficos dos textos são tão importantes como os linguísticos e que os textos são produtos socializados, tanto no acto de produção, como de transmissão. Assim, “[…] ‘author’s intentions’ rarely control the state or the transmission of the text. In this sense literary texts and their meanings are collaborative events” (McGann, 1991). Tanselle, por seu turno, acentua a ideia de instabilidade textual e não considera que aos críticos textuais, que procuram recuperar os textos tal como se pensa ter sido a intenção do seu autor, se deva exigir “to reconsctruct the ‘idea’ that lies behind a work” (Tanselle, 1996). De facto, esta está longe de ser a intenção dos próprios editores, pois “an authorially intended text is a text that once existed, though it may not have existed in physical form”(Tanselle, 1996). Este autor salienta igualmente o papel importante dos editores, pois estes devem fazer julgamentos e em determinados momentos “fill the gaps”, que irão permitir contextualizar os próprios textos e, assim, facilitar a leitura dos mesmos [v].

A este respeito, o que a edição electrónica permite fazer é fornecer aos leitores diferentes materiais, desde anotações, comentários críticos, entre outros, que podem ajudar a leitura e a compreensão dos textos. No sítio Romantic Circles, na subsecção Electronic Editions (http://www.rc.umd.edu/editions/),que consideramos ser um “arquivo de mini - arquivos”, a edição de alguns textos contém hiperligações a notas explicativas. Poderíamos argumentar que não se trata de uma novidade, pois numa edição impressa também nos são fornecidas notas explicativas. A grande diferença reside na facilidade com que se acede a essas notas, e a maior vantagem de todas está na intertextualidade que a edição hipertextual permite: ao aceder ao poema de Felícia Dorothea Hemans, The Sceptic: A Hemans – Byron Dialogue (1820)(http://www.rc.umd.edu/editions/sceptic/poem.html) logo no primeiro verso encontramos uma hiperligação a uma nota explicativa, que por sua vez nos remete para o poema de Lord Byron, Childe Harold's Pilgrimage(http://www.rc.umd.edu/editions/sceptic/Pilgrimage.html#canto2). Todo este processo, que numa edição impressa implicaria a consulta de livros diferentes e levaria algum tempo, em meio electrónico está à distância de um clique. Neste exemplo especifico acresce, ainda, a oportunidade dada ao leitor de ter acesso a uma versão fac-similada do texto de Byron.

O contexto histórico de produção de um determinado texto e a sua recepção são, sem dúvida alguma, aspectos de extrema importância para a compreensão de determinados textos. Contudo, é igualmente verdade que um texto, como obra de arte, vale por si só e pode ser compreendido e interpretado independentemente da reconstrução desse contexto. Tomemos como exemplo a obra de Mary Shelley, Frankenstein [vi]. Trata-se de um romance extremamente actual, devido em parte, à sua temática, que resvala os limiares da ficção científica. Como estudiosos de Literatura Inglesa, jamais poderemos pôr de parte o estudo da vida e obra de Mary Shelley, bem como do período (histórico e literário) em que esta escreveu o romance. Como críticos literários, somos confrontados com aspectos relevantes da época e da autora que condicionam a nossa interpretação do romance e que, em última instância, nos colocam mais próximos da intenção autoral. Estamos, contudo, conscientes de que essa intenção não é estática ou absoluta. Assim, o “hideous progeny” de Mary Shelley pode sofrer diferentes leituras, se os leitores que as fazem não tiverem acesso aos aspectos contextuais que referimos anteriormente [vii]. Também aqui as funcionalidades da edição hipertextual se sobrepõem às limitações do códice, pois para além do acesso ao texto a estudar, pode fornecer dados contextuais relevantes. Este aspecto é visível no sítio Romantic Circles, pois para além dos textos de Mary Shelley, temos igualmente acesso à sua bibliografia, a uma cronologia completa da sua vida e obra, entre outros, que teremos oportunidade de salientar no próximo capítulo deste trabalho.

Toda a questão que rodeia a crítica textual e o papel do editor está longe de ser consensual. Todavia, a discussão em torno da intencionalidade do autor e até que ponto se deve procurar um único copy-text e considerá-lo como a versão correcta, parecem suscitar o desacordo de todos, pois a instabilidade do texto e a sua variabilidade são dados incontornáveis.

É precisamente quando se aborda a questão da variabilidade textual, que o computador e o hipertexto se impõem como “uma mais valia” para a crítica textual e literária. De facto, o hipertexto apresenta-se como um instrumento de crítica textual, ao potenciar uma nova forma de produção literária e ao permitir uma forma de edição que põe à disposição dos editores uma série de ferramentas, que em muito facilitam o estudo dos textos. Entre outros, salientam-se a possibilidade de editar diferentes arquivos paralelos, de representar as diferentes variantes textuais produzidas pelos diferentes processos de leitura e pela apresentação dos textos. Acresce, também, a possibilidade de inclusão de outras formas textuais, como as imagens, imagens com som e imagens com animação.

Na opinião de John Lavagnino, as potencialidades deste novo meio para a crítica textual são inegáveis, mas só poderão ser totalmente aproveitadas se a edição hipertextual colocar à disposição dos utilizadores ferramentas analíticas que permitam, mais do que ler os textos [viii], estudá-los. Ferramentas como as que permitem a colação textual e análise de versões paralelas, ou aquelas que facilitam a pesquisa intratextual.

Para este autor, seleccionar, comparar, construir e integrar versões constituem os objectivos principais de uma edição hipertextual. Numa conferência intitulada “Why Edit Electronically?” [ix], Lavagnino reitera esta posição, ao afirmar que uma edição que vise apenas publicar em meio electrónico, embora possa acrescentar informação, continua a desempenhar o mesmo papel que sempre esteve a cargo do livro impresso. O que o hipertexto traz de novo é a apresentação de um outro leitor – a máquina. Embora a máquina não tenha a capacidade para compreender e interpretar o que lê, desempenha um papel fundamental, pois permite encontrar referências, contar, ligar, identificar, para referir apenas algumas entre muitas funcionalidades. Para este autor, em última instância, uma edição hipertextual deve servir dois propósitos que estão intimamente ligados: “to enable new ways of understanding the text, and to articulate what the editors think” (Lavagnino, “Why Edit Electronically”, 1995). Como teremos oportunidade de evidenciar mais adiante neste trabalho, os editores do sítio Romantic Circles tiram quase total partido destas ferramentes hipertextuais.

O uso e as vantagens destas diferentes ferramentas estão, contudo, longe de serem consensuais, nomeadamente no que se refere à possibilidade de aceder a partes de um texto, sem ter que obrigatoriamente lê-lo na íntegra. Refiram-se as palavras de Kelvin Everest a este propósito: “[b]eing able to find things in texts without actually having to read them is not necessarily an unmixed blessing”(193). Se pensarmos bem, o hipertexto não se distancia muito do códice neste aspecto, ou não teríamos no nosso vocabulário a tão conhecida expressão “leitura oblíqua”! O que o hipertexto acrescenta é a facilidade que se desenha nessa procura,  através dos motores de busca. Todavia, para uma análise mais aprofundada de determinada obra literária, (o principal objectivo das ferramentas descritas anteriormente), esta pode ser uma “mais valia”. Basta conjecturarmos sobre as inúmeras vantagens que teriam para o estudo da obra de Mary Shelley, Frankenstein, a identificação de todos os adjectivos utilizados por Victor para descrever a sua Criatura, ou que a Criatura utiliza para se referir ao seu criador, ou até, porque não, identificar as diferentes falas de Walton e Victor, que os identificam como duplos, no sentido em que partilham das mesmas ambições, entre muitas outras possibilidades.

Assim como parece existir unanimidade quanto à questão da instabilidade e variabilidade textual, que inviabilizam critérios textuais assentes exclusivamente na intenção autoral, em relação à edição hipertextual, essa unanimidade existe relativamente ao tipo de materiais a incluir numa dada “hiperedição”, e que Peter Shillingsburg sumaria do seguinte modo: “[t]he electronic archive can (some would say must) provide more than access to source materials” (Shillingsburg 165). O que se pretende numa edição hipertextual (do ponto de vista da aprendizagem) é, na opinião deste autor, “[…] annotations, textual variants, variorums of critical commentaries, dramatizations, and film and TV versions available from the archive at the click of a ‘hop spot’ in the text […]” (165). No fundo, tudo aquilo que o sítio Romantic Circles tem para oferecer, como vamos ter oportunidade de verificar no capítulo que se segue.

 


2. Romantic Circles: O Estudo do Romantismo num 'Arquivo de Arquivos'  

 

O sítio Romantic Circles encontra-se alojado na Universidade de Maryland e é patrocinado, em parte, pelo Maryland Institute for Technology and the Humanities (MITH). Neil Fraistat, Steven E. Jones e Carl Stahmer, Professores de Inglês nas Universidades de Maryland, Chicago e Califórnia respectivamente, são os editores principais, de entre um número elevadíssimo de editores e colaboradores – onde se destaca um Conselho Consultivo constituído por vinte e sete elementos, do qual faz parte Jerome McGann, que desde 1996 mantêm o sítio activo. RC encontra-se referenciado como um dos vinte e um melhores sítios para o estudo das Humanidades e participa actualmente no EdSITEment [x], factos que lhe conferem autoridade e credibilidade relativamente aos materiais nele publicados.

A fiabilidade dos materiais contidos neste sítio é corroborada pelos objectivos dos editores e pela exaustiva meta-informação disponibilizada, que clarifica os diversos aspectos de funcionamento do sítio e suas principais características. Entre informações sobre o historial do sítio (http://www.rc.umd.edu/pubinfo/history.html), o índice geral de colaboradores (http://www.rc.umd.edu.pubinfo/contributors.html) e as condições de utilização (http://www.rc.umd.edu/pubinfo/prospectus.html), destacam-se as seguintes secções meta-informativas: Romantic Circles Editorial Policy (http://www.rc.umd.edu/pubinfo/policy.html) - uma descrição detalhada dos critérios textuais tidos em linha de conta e procedimentos levados a cabo antes de qualquer tipo de publicação em linha, onde se destacam a exigência e o rigor daquilo a que os editores chamam “ carefull peer-review process” [xi]. É interessante verificar que um dos critérios avaliativos das propostas de publicação seja a utilização das potencialidades do hipertexto e do meio electrónico, facto comprovativo da consciência editorial dos próprios editores e uma antevisão clara de que este sítio procura tirar total partido das vantagens da edição hipertextual. Romantic Circles: Introduction (http://www.rc.umd.edu/hpfiles/prospectus.html) - nesta subsecçãoos editores procedem a uma breve introdução a todas as secções às quais se pode aceder a partir da página inicial. Na subsecção Contributor’s Guidelines for Romantic Circles Electronic Editions (http://www.rc.umd.edu/editions/guidelines.html), são dados a conhecer os objectivos que estiveram na base da criação do arquivo Electronic Editions (http://www.rc.umd.edu/editions/), bem como fornecidas diferentes directrizes de como proceder à elaboração de uma edição electrónica. É igualmente facultado o acesso a ligações externas ao sítio, que visam uma preparação teórica sobre a edição electrónica, de todos os possíveis interessados em contribuir para o enriquecimento do arquivo. Destacam-se aqui os textos de John Lavagnino e Jerome McGann, que tivemos oportunidade de consultar e utilizar como bibliografia do presente trabalho.

Como é facilmente verificável através deste último aspecto, este sítio, embora se sirva do Google para pesquisar os materiais nele publicados, está longe de ser auto-contido, pois fornece uma série de hiperligações, que permitem pesquisar no exterior, sem que o utilizador seja forçado a sair dele. Através da página de entrada, começa logo por se abrirem as portas ao acesso à página da Universidade de Maryland, bem como ao Maryland Institute for Technology and the Humanities (MITH) e ao EdSITEment, colocando, assim, o leitor em contacto com uma das mais conceituadas instituições dedicadas ao estudo em linha das Humanidades. Para além destas, é igualmente possível aceder a muitas outras ligações de interesse para o estudo do Romantismo. Na impossibilidade de referir todas elas, salientamos as que são apresentadas na secção Scholarly Resources (http://www.rc.umd.edu/reference/), sob o tópico Links to Related Sites. O utilizador é, ainda, convidado a entrar em contacto com os diversos editores, através de e-mail, facto que promove a interacção entre leitor e editor.

Apesar de se tratar de um sítio vastíssimo, diríamos mesmo, interminável, o leitor dificilmente se “perde”, pois as oito secções apresentadas na página de entrada encontram-se presentes em cada uma das secções, quer ao cimo da página (exactamente com o mesmo layout), quer no final, permitindo sempre o acesso à página inicial ou a qualquer uma das secções. Poderemos, pois, concluir, que houve da parte dos editores um esforço redobrado no sentido de facilitar a navegabilidade no interior do sítio. Através desta organização, torna-se evidente que houve a preocupação em colocar todas as secções ao mesmo nível, não permitindo que umas se sobreponham a outras, cabendo ao leitor escolher os caminhos a percorrer, consoante os motivos que o levaram a pesquisar o sítio. Salienta-se também, o facto de ao seleccionar uma dada secção, mesmo sem clicar, o utilizador ter acesso a uma breve descrição dessa secção, contribuindo para alguma economia de tempo. É igualmente possível através da página de entrada aceder a um índice completo de todo o conteúdo do sítio [xii]. Nas hiperligações New at Romantic Circles e RC Blog tem-se acesso a novas actualizações do sítio e a informações de interesse geral para a Romantic Circles Community. Em última análise, RC tem uma estrutura circular (em “círculos”), que permite o acesso à informação nele contida por diferentes vias, tirando total partido das potencialidades do hipertexto, facto que contribuiu igualmente para a solidez do sítio.

Embora o sítio RC não pretenda hierarquizar as diferentes secções em que está dividido, a secção Electronic Editions (http://www.rc.umd.edu/editions/) merece a nossa particular atenção, uma vez que se trata de um arquivo, que coloca à disposição do leitor uma série de edições de diversos autores. Arriscaríamos afirmar que se trata de um “arquivo de arquivos”, pois disponibiliza quinze “mini – arquivos” distribuídos por Current Editions, Archived Editions e Forthcoming Editions (duas edições em fase de preparação). Neste arquivo, os editores tiram total partido das potencialidades e vantagens de editar em meio electrónico, fornecendo ao leitor uma série de edições que obedecem a critérios textuais e editoriais bastante rigorosos. Assim, é dada ao leitor a oportunidade de ver e ler digitalizações de poemas, tal como originalmente publicados na época (http://www.rc.umd.edu/editions/oceanides/pages/original1.html), podendo ao mesmo tempo confrontar essa versão com a que é apresentada pelos editores (embora neste exemplo em particular, o leitor beneficiasse com uma ferramenta que lhe permitisse seleccionar e/ou aumentar algumas partes do texto); comparar de forma activa a transcrição de textos com edições impressas da época (http://www.rc.umd.edu/editions/LB/html/Lb98-b.html), ou ainda, proceder à comparação de edições através de colação dinâmica (http://www.rc.umd.edu/cgi-bin/LB/dcoll/make_poem_frameset.pl/0051); o acesso a textos paralelos, confrontando diferentes variantes, vindas de diferentes publicações (http://www.rc.umd.edu/editions/cain/parallelcanto2.html); reproduções fotográficas ou fac-similadas de volumes originais (http://www.rc.umd.edu/editions/contemps/barbauld/poems1773/contents.html); transcrições diplomáticas e confronto com os originais (http://www.rc.umd.edu/editions/hone/jacktext.htm); entre muitos outros exemplos.

Todas estas edições apresentam-se como edições críticas e não se limitam à publicação em linha dos textos, mas fornecem uma série de materiais contextuais, desde introduções críticas dos editores, a notas explicativas, directrizes que facilitam a interpretação dos textos, fontes secundárias, bibliografias completas, ensaios críticos sobre as obras, entre muitos outros. Acresce ainda um aspecto de extrema relevância, e que evidencia claramente a qualidade e credibilidade do trabalho levado a cabo por estes editores – para toda e qualquer edição os respectivos editores facultam informações sobre as edições através da hiperligação About this Hypertext [xiii], como por exemplo as edições impressas utilizadas, tipos de critérios editoriais seguidos, a fonte dos diferentes materiais (imagens, gravuras), etc. Cada edição, a que chamamos “mini - arquivo”, tem uma página inicial, que para além da hiperligação referida anteriormente, contém o Contents, que funciona como um índice dos materiais disponíveis, onde se inclui, mais uma vez, a possibilidade de entrar em contacto com os editores responsáveis e o acesso a outras obras disponíveis em linha do autor em questão, ou de outros autores importantes para seu estudo, promovendo a intra e intertextualidade. 

Aquelas vozes mais cépticas em relação às edições hipertextuais, que já tivemos oportunidade de referir, e que acreditam que a edição electrónica leva a uma suposta desresponsabilização dos editores e a uma consequente responsabilização do leitor pela tarefa editorial, encontram no RC a negação dessas suposições. Embora os editores coloquem à disposição do leitor diversas variantes de um mesmo texto, e em muitos casos a edição hipertextual esteja subordinada à edição tipográfica, é igualmente fornecida a transcrição de um texto, que é da total responsabilidade dos editores. O leitor não é obrigado a fazer a tarefa do editor, é antes, convidado a julgar o trabalho realizado. Impõe-se igualmente reflectir sobre o público-alvo deste sítio: tal como nos é referido pelos responsáveis, RC destina-se a toda uma comunidade de estudantes e/ou professores interessados no estudo do Romantismo e de alguns dos autores deste Período: uma comunidade que tem muito a ganhar com o conhecimento não só dos textos, mas também das diferentes flutuações que estes foram sofrendo nas diferentes edições. Teorizar sobre as possíveis flutuações observadas pode, por si só, despontar um trabalho de investigação interessante. Merece igualmente referência o facto de estas edições proporcionarem o acesso ao aspecto material dos textos, que McGann tanto defende. Ao ter acesso a imagens fac-similadas, o leitor tem acesso à materialidade específica do texto, a pormenores do seu código bibliográfico numa dada época, podendo estudá-lo não só como entidade abstracta, mas também como portador de uma textualidade específica, que merece ser objecto de estudo.

O acesso a todos estes materiais é livre, não sendo, no entanto, permitido o seu uso para fins que não sejam os estabelecidos pelos editores, que como já vimos, se dedicam ao estudo e à aprendizagem da literatura e cultura do Romantismo. 

Um dos objectivos dos editores do RC é promover a sua durabilidade, pois tal como afirmam, “[w]e are commited to (…) planning for a future in which Romantic Circles electronic texts will have sustainable, long-term archival value” [xiv]. Daí que estes editores tenham formalizado a colaboração com a Universidade da Virgínia, nomeadamente com o University of Virginia Library’s Electronic Text Center, que se compromete a arquivar todas as edições do RC em TEI-Conformant SGML, assegurando, assim, não só a durabilidade, mas também a estabilidade dos textos.

Embora o sítio não forneça muitas informações quanto às datas de actualização, à excepção da secção Reviews -  actualizada pela última vez em Abril de 2004, o leitor tem acesso a uma série de informações relativas à preparação de novas edições a publicar, o que leva a concluir que há a preocupação em manter o sítio activo e em fomentar o seu crescimento.

 


3. Romantic Circles: Virtualidades e Limitações

  

Depois da reflexão feita no capítulo anterior, não restam dúvidas quanto às inúmeras potencialidades do RC, que se apresenta como um “meta-resource that is open-ended, collaborative and porous” [xv], cujos editores revelam consciência textual em relação aos textos que publicam e usufruem quase por completo de todas as ferramentas analíticas de que dispõem. Dizemos quase por completo, pois em algumas edições fac-similadas não é possível ler os textos, dado que não é disponibilizada uma ferramenta que permita seleccionar e/ou aumentar algumas partes dos mesmos, afim de os tornar perceptíveis.

Analisar aprofundadamente todas as edições contidas no RC seria incomportável, sobretudo, tendo em conta a dimensão do trabalho a que nos propusemos. Por esse motivo, o presente capítulo terá como objecto de estudo a autora Mary Shelley e a edição de algumas das suas obras. Este estudo reger-se-á por duas vertestes distintas: por um lado, análise das virtualidades e/ou limitações do RC, no que concerne as edições electrónicas dos textos da autora; por outro, análise da relevância do sítio para o estudo da obra da autora em termos gerais e pessoais – como estudante de Literatura Inglesa e como professora de Inglês como Língua Estrangeira.

Relativamente ao primeiro aspecto, gostaríamos de começar por referir que as obras de Mary Shelley publicadas no RC, nomeadamente The Last Man (http://www.rc.umd.edu/editions/mws/lastman/index.html) [xvi] e The Mortal Immortal (http://www.rc.umd.edu/editions/mws/immortal/index.html), tiveram por base critérios textuais e editoriais rigorosos, como podemos ver na hiperligação About this Hypertext, e fazem-se acompanhar de outros textos contextuais, ensaios críticos sobre as obras, bibliografias críticas, acesso a outras obras da autora, nomeadamente as suas cartas, entre outros. Relativamente ao romance The Last Man, a edição está dividida por volumes e por capítulos, podendo o leitor aceder directamente ao capítulo que pretende, sem ter que percorrer todo o texto. Curiosamente, o editor salienta o facto de a leitura no ecrã não ser de todo fácil, como aliás todos sabemos, pelo que esta edição pretende ser apenas um complemento à edição impressa. Trata-se de facto de um complemento valioso, se pensarmos por exemplo, na intertextualidade que permite, dificilmente exequível numa edição impressa.

É em relação à edição do romance Frankenstein [xvii] que constatamos algumas limitações. O texto foi transcrito a partir da versão impressa de 1831 – London: Henry Colburn and Richard Bentley, 1831 -  e é da responsabilidade do University of Virginia Library Electronic Text Center. A paginação é a constante do original, mas os capítulos foram identificados como sendo narrados por Frankenstein ou pela Criatura, pormenor da responsabilidade do editor, pois não aparece na versão impressa. O leitor pode optar por aceder a um índice geral [xviii] da obra, podendo escolher a parte do texto que lhe interessa, sem ter que percorrer todo o texto – tarefa facilitada pela inclusão do conteúdo de cada capítulo e respectivo narrador. Um dos aspectos negativos a apontar em relação a esta edição, é o facto de não colocar à disposição do leitor a edição de 1818. Dadas as potencialidades do meio electrónico, perfeitamente aproveitadas e colocadas em prática em outras edições do RC, estas poderiam ser utilizadas em prol de um estudo aprofundado da obra, nomeadamente através da colação dinâmica. Não se trata de uma questão de pormenor, pois quem estuda esta obra está consciente das alterações que a autora efectuou à versão de 1818 e que são passíveis de interpretação, pois em alguns exemplos específicos alteram o sentido original. Embora algumas edições impressas executem essa colação, o manuseamento é dificultado pelas limitações materiais do códice.

Outros dos aspectos a salientar é a falta de intra e intertextualidade. Já tivemos oportunidade de sugerir em capítulos anteriores neste trabalho, como seria vantajoso poder aceder a determinados aspectos do texto, como a identificação de falas ou de termos específicos utilizados por uma ou outra personagem. Relativamente à intertextualidade, ao estudar esta obra sabemos da importância de conhecer alguns textos contextuais de outros autores, como por exemplo, Milton, Paradise Lost, Coleridge, “Rime of the Ancient Mariner”, os dados biográficos e obras de Lord Byron e Percy Shelley – duas figuras de extrema importância para a vida e obra de Mary Shelley. Contudo, embora muitas destas obras estejam disponíveis no RC, não são fornecidas hiperligações que promovam essa intertextualidade. Para o estudo de Frankenstein como um romance gótico, seria igualmente proveitosa a ligação a sítios sobre a literatura gótica.

Interessante seria também ter acesso à digitalização de alguns manuscritos da autora e da transcrição desses para a edição tipográfica. Este trabalho, desenvolvido pelo Professor Charles Robinson, encontra-se disponível em versão impressa, da qual RC faz a recensão e disponibiliza um pequeno exemplo em http://www.rc.umd.edu/reviews/back/facsim.htm

Em termos gerais, a relevância da informação contida neste sítio é por demais evidente, quer para a investigação, quer para o ensino / aprendizagem, concretizando por completo os objectivos dos editores. Como estudante de Literatura Inglesa, especificamente da obra de Mary Shelley, RC permite-nos o acesso a uma série de materiais, através do Mary W. Shelley Chronology & Resource Site(http://www.rc.umd.edu/reference/mschronology/mws.html), que ajudam a conhecer e estudar a vida e obra da autora. Salientam-se o acesso a uma cronologia completa, a dados biográficos, listas bibliográficas, recensões das suas obras publicadas na época e acesso a outros recursos disponíveis em linha. Através da secção Reviews é possível ter informação sobre obras recentemente publicadas e respectivas recensões.

Quanto ao estudo do romance Frankenstein, encontramos na secção Romantic Circles Praxis Series uma colectânea de ensaios críticos sobre a obra, intitulada “Frankenstein’s Dream”( http://www.rc.umd.edu/praxis/frankenstein/), da responsabilidade de diversos professores de Inglês de diferentes universidades. Através da secção Romantic Circles Features and Events, temos acesso auma páginaque indexa diferentes materiais para estudo desta obra.Salientam-se as diferentes adaptações da obra ao cinema, reminiscências desta em outros filmes ou romances e uma selecção de reacções à obra publicadas na época, reveladoras da forma como esta foi vista e recebida, aquando da sua primeira publicação.

O projecto Frankenstein MOO é exclusivamente dedicado a estudantes do ensino secundário e universitário que estudam esta obra da autora. Trata-se de um espaço virtual construído com base no romance de Mary Shelley. Cada espaço no romance é representado por uma divisão ou espaço dentro do MOO, podendo os utilizadores interagir com os objectos e “robots” das personagens que reproduzem as palavras da autora. De acordo com os responsáveis por este projecto, Frankenstein, como romance gótico, presta-se a ser transformado num espaço MOO, devido ao papel que os diferentes espaços físicos desempenham e à influência que exercem sobre as personagens e sobre o próprio leitor. Tanto o romance como o MOO são espaços arquitectados, a narrativa no romance está estruturada e o espaço narrativo do MOO estabelece-se através de “ramos” e ligações hierárquicas (os caminhos que um utilizador vai percorrendo). A interacção com a arquitectura do Frankenstein Moo torna o texto vivo aos olhos do aluno. Argumentam, ainda, que a leitura que o aluno faz do texto é inseparável de uma leitura crítica. O aluno é convidado a reescrever o texto à medida que o vai lendo. “Teaching the novel Frankenstein along with the experience of the Frankenstein MOO can open the text for students in ways that illuminate both the original text, and the process of reading itself.” [xix]

A importância de espaços virtuais como este é salientada por Jay Bolter, que refere que os MOOs “embody the assumption of transparency: that to read a descriptive or narrative text is to look through a window onto another world” (Bolter 74), facilitando, assim, o próprio acto de leitura. Outra grande vantagem é que este tipo de projectos podem levar os leitores não só a “looking through the text”, mas também “at the text” (Bolter 75).

Estamos conscientes que este tipo de projecto não poderá ser aplicado a alunos de Inglês como Língua Estrangeira do ensino secundário, dadas as limitações linguísticas. Contudo, o RC pode ser aproveitado e utilizado por estes alunos – ainda que em situações muito menos exigentes. Voltemos à experiência pessoal com um excerto do romance Frankenstein [xx]. Nessa aula, após analisado o texto e ouvidas as opiniões dos alunos sobre o mesmo, foram facultadas algumas informações biográficas da autora e uma breve contextualização da época e da recepção à obra, aquando da publicação do romance. De uma forma bem planeada e organizada, que teria que obrigatoriamente passar pela elaboração de fichas de trabalho para os alunos, seria possível deixar que estes procurassem as informações sobre a autora e sobre a obra, através do RC. Para isso poderiam consultar a cronologia e biografia da autora, bem como aceder e analisar uma ou outra reacção ao romance. Para além de colocar os alunos a navegar na Internet utilizando a Língua Inglesa, estaríamos a fomentar o gosto pela pesquisa (algo a que poucos estão habituados e aptos a fazer). Estaríamos, igualmente, a fomentar a autonomia no acto de aprendizagem, pois “[t]he essence of the coming integrated, universal, multimédia, digital network is discovery – the empowerment of human minds to learn spontaneously, without coersion, both independently and cooperatively. The focus is on learning as an action that is ‘done by’, not ‘done to’ the actor” [xxi].

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Conclusão  

           

Analisado o sítio Romantic Circles, uma das primeiras conclusões a que chegamos é que muito ficou por dizer. Gostaríamos, no entanto, de salientar algumas das suas principais características.

Começamos pela fácil navegabilidade. Embora a extensão e quantidade de materiais inseridos neste sítio seja quase imensurável, o utilizador consegue manter um percurso estável dentro do sítio, voltando com facilidade ao ponto de partida. Salienta-se o facto de ser possível o acesso a um mesmo material seguindo caminhos diferentes, facto que atesta a organização e funcionalidade do sítio.

A quantidade e, sobretudo, a qualidade dos materiais disponibilizados conferem-lhe um lugar de destaque no âmbito da investigação e do estudo do período do Romantismo. A credibilidade deste sítio está assegurada pela Universidade que o aloja e patrocina, bem como pelos conceituados editores, que dão provas de se guiarem por critérios textuais rigorosos.

Ao privilegiar as virtualidades do hipertexto, RC não só incute solidez e facilita a utilização dos materiais, como fomenta, igualmente, a interdisciplinaridade, pois procura que os seus potenciais colaboradores tenham o máximo de informação possível, quanto às potencialidades do hipertexto e de como tirar total partido das ferramentas de que este dispõe.

Ao pôr em prática projectos inovadores para o estudo do texto literário, como o Frankenstein MOO, RC evidencia abertura para uma nova era da transmissão do conhecimento e potencia uma nova abordagem ao estudo da literatura.

Em última análise, podemos afirmar que o sítio Romantic Circles se apresenta como um excelente exemplo de como “[o]s arquivos electrónicos modificam a transmissão e o uso dos textos [e de como] a cultura digital está em vias de transformar o modo como se ensina e se estuda literatura.”

 

Julho de 2004

Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra

© Maria da Graça Neto, gneto@sapo.pt

 

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Notas

[i] Tal como referidos e descritos por Thomas Tanselle, Textual Criticism and Scholarly Editing.

[ii] Usado aqui no sentido da palavra inglesa “editor”.

[iii] Um exemplo retirado do sítio Romantic Circles: somos confrontados com uma única versão do texto de Mary Shelley, Frankenstein – a de 1831. Ao não optar por publicar a edição de 1818, o editor está, de certa forma, a condicionar o acesso do leitor a esta última. Para um estudo mais aprofundado desta obra, o acesso à versão de 1818 é muito importante, como teremos oportunidade de exemplificar no terceiro capítulo deste trabalho.

[iv] Vide epígrafes da secção 1.

[v] Tanselle defende que a intenção autoral tida como base de trabalho da maior parte dos editores não é negativa, mas sim salutar. Estes editores não procuram estabelecer um copy-text rígido e imutável e, ao procurar recuperar a intenção do autor, não estão a negar a instabilidade dos textos, que advém de diversos factores, nomeadamente dos diferentes processos de leitura de que são alvo. Tanselle refere, ainda, que “[a]n intended text must be eclectic in that it is not documentary and therefore has to be constructed from all available sources. But it is neither unhistorical nor ahistorical because the intention being reconstructed is tied to a particular moment” (Tanselle, 1996).

[vi] Escolhemos este exemplo pois é uma das obras publicadas no sítio Romantic Circles e será objecto de reflexão noutros passos deste trabalho.

[vii] Gostaríamos de partilhar uma experiência pessoal com o texto de Mary Shelley ocorrida no ano lectivo transacto. Ao partilhar com alunos de Inglês de décimo ano – nível seis de língua – um excerto de Frankenstein, tivemos a confirmação (embora dela não precisássemos) que transportamos para as leituras que fazemos dos textos, experiências e conhecimentos, que, obviamente, condicionam essas leituras. Estava a ser abordado o tema “A Technological World”, no qual foi inserida a temática, e a problemática questão, da clonagem. Após feita uma introdução ao tema e ao próprio texto, da qual foi deixado de fora qualquer tipo de contextualizaçãp histórica, e após analisado o texto seleccionado, os alunos prontamente tiraram conclusões que integraram a leitura daquele pequeno excerto no contexto dos perigos da clonagem e das desconhecidas consequências que podem advir desse processo. Esta experiência, embora possa ser vista como “violação” do texto de Mary Shelley, não passa de um acto que dá vida ao texto e que o coloca junto do leitor como uma identidade independente do seu autor, embora se mantenham os “substantives” e os “accidentals”.

[viii] A este propósito Peter Shillingsburg salienta a importância do aparato editorial, ao constatar que, “[f]or study behond an initial reading experience, an edition without scholarly apparatus is seriously limited” (38). Ao contrário do que muitos pensam, nomeadamente os que vêem no hipertexto e nas edições hipertextuais a morte do códice, Shillingsburg defende que, “[t]he electronic edition is not primarily (…) a place to sit and read (…).  It is a tool for students of a work, returning to it with the intention of exploring its history, its connective tissues, its roots and ramifications” (165).

[ix] In http://www.stg.brown.edu/resources/stg/monographs/wee.html

[x] National Endowment for the Humanities (The Best of the Humanities on the Web).

[xi] idem.

[xii] http://www.rc.umd.edu/hpfiles/index1.html

[xiii] Inserimos apenas um dos inúmeros exemplos: http://www.rc.umd.edu/editions/mws/lastman/readme.htm

[xiv] http://www.rc.umd.edu/editions/guidelines,html

[xv] http://www.rc.umd.edu/hpfiles/prospectus.html

[xvi] http://www.rc.umd.edu/editions/mws/lastman/index.html

[xvii]  Frankenstein, London: Henry Colburn and Richard Bentley, 1831.

[xviii] http://etext.lib.virginia.edu/toc/modeng/public/SheFran.html

[xix] Citação retirada das notas explicativas do funcionamento e relevância do Frankenstein MOO, in http://www.lcc.gatech.edu/~broglio/rc/frankenstein/started.html

[xx] Vide nota 11.

[xxi] Lewis Perelman, School’s Out: Hyperlearning, the New Technology, and the End of Education. (Apud http://www.lcc.gatech.edu/~broglio/rc/frankenstein/started.html. Data de Acesso 25/04/2004).

 


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