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Ulisses, o texto magnificamente infinito: A odisseia de editar um texto proteico

Ana Catarina Margarido Ferreira


 

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Introdução: 'Mind your hats goan in'

1. A textualidade electrónica: reconceptualização dos processos de edição em meio digital e a importância das versões textuais

2. Ulisses: o texto proteico. De 'Stately, plump Buck Mulligan came from the stairhead,' a 'yes I will yes.'

2.1. Como editar um texto inerentemente metamórfico?

2.2. Como anotar uma obra como Ulisses?

Conclusão

Bibliografia e Webografia

 


  

O círculo é a forma eleita

É ovo, é zero.

É ciclo, é ciência.

Nele se inclui todo o mistério

E toda a sapiência é o que está feito,

Perfeito e determinado,

É o que principia

No que está acabado.

A viagem que o meu ser empreende

Começa em mim,

E fora de mim,

Ainda a mim se prende

A senda mais perigosa.

Em nós se consumando,

Passando a existência

Mil círculos concêntricos

Desenhando.

Ana Hatherly, em http://www.lumiarte.com/luardeoutono/anahatherly.html (acesso a 23 de Julho de 2004)

 


Introdução: 'Mind your hats goan in'

 

A concepção de edições e arquivos electrónicos trouxe ao panorama das Humanidades os ventos da mudança que acompanham as novas tecnologias. A aproximação destas duas áreas de estudo, até então vistas como entidades isoladas, desencadeia uma reconceptualização dos textos literários e dos processos de edição.

No trabalho que pretendo apresentar de seguida, procurarei abordar de forma mais precisa os processos de edição pelos quais a proteica obra de James Joyce passou, quer nas edições tipográficas, quer em formato digital. A obra parece ser já dotada de um carácter metamórfico, como se não admitisse qualquer vislumbre de uma versão final, um texto ideal e “correcto” pela sua proximidade da intenção autoral, como o que alguns críticos textuais e académicos tentaram estabelecer.

A obra abre-nos portas para novas dimensões, permite trilhar caminhos distintos, perdermo-nos no emaranhado da teia formada pelas palavras que brotam do universo criativo joyciano, mas sobretudo faz-nos ter a ilusão de que ao fecharmos o livro é possível uma compreensão da experiência de leitura na sua totalidade. Quando o fechamos sabemos que não é bem assim. Lemos a última página, fechamos o livro e sabemos que não compreendemos, que não queremos compreender, mas sim sentir e calcorrear novamente as páginas já gastas para descobrir novos caminhos, novos sentidos, novas experiências ou todo aquele turbilhão tumultuoso de sentimentos e lutas interiores entre racional, irracional e tudo o que está no meio. Descobrimos que é um mundo que se cria e recria cada vez que ousamos mergulhar nas suas páginas. Cada leitor que inicia a viagem por este mundo sabe que não poderá ficar indiferente. Este é o poder das palavras do texto de James Joyce em todas as formas oscilantes e únicas em que o conhecemos, o poder de falar da natureza humana sem qualquer pretensão, mas fazendo-o de forma magistral e imortal. Ulisses de Joyce é como o círculo de Ana Hatherly:

“(...)

Nele se inclui todo o mistério

E toda a sapiência é o que está feito,

Perfeito e determinado,

É o que principia

No que está acabado.”

É a cidade de Dublin e o dia em que tudo se concentra e se desfaz e onde a cada minuto se vão esboçando os círculos concêntricos da existência com todas as contradições e dilemas da alma humana.

Pretendo explorar como tema fulcral do meu trabalho a questão de como editar Ulysses em hipertexto, levantando para isto tópicos e questões essenciais que compreendem o tipo de critérios textuais a usar, os objectivos que se tem em mente ao construir este tipo de projectos, o tipo de leitores e utilizadores que terão, para além de ver de que forma é que os exemplos já existentes em linha ou os projectos em curso tentam responder a estas questões.

Para isto dividirei o trabalho em duas secções. Uma primeira secção será dedicada à elaboração de um enquadramento dos problemas de edição, não somente em meio tipográfico, mas também fazendo referência a teorias textuais e a teorias de edição aplicadas ao meio electrónico. Numa segunda secção pretendo debruçar-me sobre as edições de Ulisses. Para além de ter em atenção o historial das edições em papel e as controvérsias geradas pelas demanda do “texto correcto”, pretendo referir os problemas e limitações que a impressão em papel levanta aos processos de edição da obra. Procurarei apresentar também algumas das potencialidades a ser exploradas em edições hipertextuais e hipermédia da obra. Desta feita, farei uso de alguns argumentos usados por especialistas no estudo de James Joyce, e particularmente de Ulisses, para defender a utilidade e interesse de uma edição deste tipo no caso particular da obra supracitada. Outro dos elementos que pretendo também referir de forma breve é o tipo de público que se está a criar para a obra e em que medida o meio digital serve para desmistificar a aura de dificuldade, incompreensibilidade e inacessibilidade que rodeia a obra. Dentro desta segunda secção incluirei uma sub-secção em que pretendo levar a cabo uma avaliação crítica generalizada dos projectos que encontrei em meio electrónico, fazendo um levantamento dos problemas cuja resolução é  necessária neste tipo de edições (hipermédia e hipertextual) e as possibilidades que estas oferecem de estruturar e anotar o texto.

Com este trabalho pretendo mostrar de que forma pode o meio electrónico contribuir para uma abordagem diferente da obra, tendo em conta todas as dificuldades que existiram desde o seu lançamento e que ainda persistem para fixar o texto.

 

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1. A textualidade electrónica: reconceptualização dos processos de edição em meio digital e a importância das versões textuais

 

A textualidade electrónica é um campo que tem vindo a causar modificações no que concerne às teorias e problemáticas de edição e crítica textual. Apesar de ter surgido há pouco tempo, levantou algumas questões fundamentais e veio colocar em causa a nossa concepção do livro e da forma como o texto é entendido socialmente. O aparecimento desta nova forma de editar, publicar e estudar textos veio revolucionar a nossa concepção do texto enquanto entidade com posição definida e inalterável no seio de uma sociedade que naturalizou o livro.

Devemos começar por ver em que medida o meio digital veio trazer novos adjuvantes e ferramentas que possibilitem o enriquecimento do estudo e dos meios de edição e crítica textual, para além de levantar também alguns problemas que advêm em parte da resistência que ainda se faz sentir quando se fala em textualidade electrónica e meio digital.

Com o nascimento do hipertexto e de todas as ferramentas que disponibiliza, alargou-se o leque de possibilidades de concepção, preservação e transmissão do texto. As ferramentas hipertextuais e hipermédia permitem criar arquivos e edições electrónicas com um leque mais vasto de possibilidades, especialmente para os estudiosos de textos literários, mas também para alguns curiosos e aprendizes por conta própria. Cada vez mais a aliança entre a imagem, o som e a palavra é estreita e a sua utilização no meio digital origina uma multiplicação de sentidos que não seriam possíveis noutras tecnologias de reprodução. O hipertexto vem também obrigar a uma reconceptualização e actualização do papel do editor, do critico textual e da relação do leitor com o texto.

Os textos apresentam-se como entidades vivas, que respiram as influências de quem os cria,  lê e edita. O texto é composto por um vasto leque de factores que influenciam de forma determinante a sua passagem pelo tempo e a nossa compreensão das coisas. Os textos não são apenas uma coisa, uma entidade unívoca , que traduz uma única voz e que ficou perdida algures no tempo. Como refere Jerome McGann, “Texts are language visible, auditional, and intellectual (gesture and (type)script; voice and instrumentation, syntax and usage).”(McGann 1996: 6) O texto revê-se na combinação de todos estes elementos desde o corpo textual escrito, o contexto que rodeou o processo de criação, os leitores que o vão actualizando e recriando em cada leitura e utilização ao longo dos tempos, bem como todas as marcas da sua textualidade e materialidade.

Segundo Elizabeth Eisenstein, a crítica textual é uma actividade que precedeu a própria actividade científica e constituiu uma das primeiras práticas de conhecimento a dar ênfase à observação e à crítica racional das evidências materiais. A função da crítica textual, na sua forma mais tradicional, é detectar os fios de transmissão desde o documento original e tentar restaurar o texto o mais proximamente possível do original. A noção tradicional entendia "copy-text" como o texto-documento mais próximo da intenção autoral e como o único que deveria fundamentar as decisões que geravam novas edições. O termo "copy-text", cunhado por Ronald McKerrow, foi mais tarde apropriado e redefinido por W.W. Greg. Greg redefine-o em 1950, argumentando que pode haver razões documentadas, ou inferidas, para fugir ao "copy-text" e propor emendas e alterações baseadas noutros documentos, ou em inferências feitas pelo editor a partir da análise do processo de produção e transmissão da obra. Esta noção de "copy-text", como combinação de opções fundamentadas em vários documentos e em várias lógicas inferenciais, é a chamada teoria ecléctica da edição. Tratava-se neste caso  de chegar a um “copy-text” que combinasse elementos de vários documentos existentes de forma a conseguir alcançar uma matriz, um texto que fosse o mais fiel possível ao texto original e às intenções do seu autor. Até hoje estas divergências metodológicas não encontraram resolução.

Segundo Greg, geralmente o texto mais fiel é, em edições impressas, aquele que é publicado numa primeira edição. Contudo nem sempre esta é a versão mais fiável, por isso não se devem descurar as versões posteriores. Este é o caso de Ulisses, que ainda hoje levanta grandes problemas de edição e fixação de texto. Calcula-se que somente três capítulos têm uma forma fixa. A primeira edição que foi feita da obra, em condições não muito favoráveis por todas as condicionantes envolventes, está repleta de gralhas de impressão e erros que o próprio Joyce foi corrigindo ao longo do tempo, tendo na altura da primeira edição enviado uma cópia a Nora Barnacle com uma errata contendo algumas das correcções que tinha feito numa fase inicial. É face a este tipo de  variações e provas documentais que o editor deve usar o seu discernimento para recorrer, ou não, à matriz (“copy-text”) que seleccionou, ou propor emendas baseadas noutras fontes.

Fredson Bowers revelou-se uma figura proeminente da investigação textual na segunda metade do século XX. Retoma o argumento usado por Greg e preocupa-o a ênfase que os críticos colocam na teoria, ao invés de fazerem uso do seu julgamento literário para solucionar questões particulares de ordem mais prática. Quer W. W. Greg e Bowers, quer Paul De Man e G. Thomas Tanselle estão de acordo no que diz respeito à preservação de uma tentativa de aproximação do texto à intenção autoral. Talvez por isso Jerome McGann os apelide de idealistas textuais, como se procurassem no texto algo de transcendente,  classificação que Tanselle recusa. Durante muito tempo procedeu-se a uma incessante busca pela forma definitiva, pela tentativa de alcançar o conhecimento total e os “intentionalist editors”, que seguem os preceitos de Greg e Bowers, pensam no texto literário como produto isolado de um indivíduo,  procurando substituir a instabilidade textual pela fixação de um texto que escolhem tendo em conta as versões existentes.

É esta noção de versão final que Jerome McGann pretende apresentar como algo muito improvável e quase impossível de alcançar no seu artigo “ The Rationale of Hypertext” (1996), em claro trocadilho com o título de W.W. Greg de 1950. Segundo Jerome McGann “(…) no single editorial procedure – no single “text” of a particular work – can be imagined or hypothesized as the “correct one”, that there are many mansions in the house of editorial choices. The indeterminacy of the textual situation fluctuates in relation to the size and complexity of the surviving body of textual materials: the larger the archive, the greater the room for indeterminacy. And it must be understood that the archive includes not just original manuscripts, proofs, and editions, but all the subsequent textual constitutions which the work undergoes in its historical passages.” (McGann 1991: 62). O autor considera claramente que não existe um texto “correcto”, uma versão única, unívoca e fechada de um texto. A crítica de McGann ao “copy-text” é de que ignora os aspectos linguísticos e materiais de  transmissão e  comunicação. Questiona os critérios para o estabelecimento de um “copy-text”, e o próprio conceito de “copy-text” valorizado por W.W. Greg, e levanta questões importantes como o constante processo metamórfico por que os textos passam, a instabilidade, a importância do contexto em que o texto é produzido e actualizado pelos seus leitores  e a variação, já para não falar na capacidade de recriação material virtual do livro em ambiente electrónico.

Os textos variam consoante o propósito a que se destinam e são claramente marcados por processos históricos que foram sofrendo ao longo do tempo e todas estas alterações têm um papel na compreensão do texto e na sua transmissão. Há textos que são publicados sem a chancela do autor, mas o caso torna-se mais complexo quando falamos de autores que foram alterando e até mesmo reescrevendo as suas obras de edição para edição, como foi o caso de Balzac, Dickens e Tolstoi, que criaram várias versões de um mesmo texto. O próprio James Joyce reviu várias versões de Ulisses ao longo da sua história de publicação, nunca se chegando a uma forma final e definitiva, originando sempre novos conjuntos de alterações em publicações revistas pelo autor. Neste caso como é que se fixa uma única versão, como é que se escolhe uma matriz, um “copy-text”? Outros casos podem também levantar este tipo de dúvida, como por exemplo quando atentamos numa peça teatral que tem uma versão de pré-produção, uma versão para representação e outra para leitura em livro. Todas estas versões podem ser revistas pelo autor e no entanto não deixam de ser versões de um mesmo texto. Qual seria neste caso o texto “correcto”?

Apesar de ter sido acusado por McGann de ser um idealista textual, Tanselle afirma que houve uma mudança na ênfase dada à crítica textual nos últimos tempos. De uma preocupação com a intenção autoral deu-se uma passagem para um interesse nos aspectos sociais ou envolventes e colaborativos da produção textual. Há uma crescente preocupação com a instabilidade textual e o significado das versões, por isso Peter Robinson e David Greetham afirmam que toda a crítica e edição deve ser vista como hipotética, relativizando assim a autoridade de cada uma das versões editoriais.

Escreve G. Thomas Tanselle:  (...) if texts are social products, then texts will take different shapes as they pass from one social milieu to another; and if authors are not the only source of validity in the constitution of texts, then all these variant texts carry their own authority as products of history. (…) authorial versions obvious emblems of textual instability – are studied both as products of particular moments and as parts of an endless process, which does not cease with the author’s death, and readers, both during an author’s lifetime and afterward, participate in this process by creating their own versions of the texts they encounter.” (Tanselle 1996: 1) Os textos são produtos de momentos específicos e parte de um processo interminável  que não cessa com a morte do autor. Os leitores participam no processo criativo criando as suas próprias versões do texto que encontram; é um processo cíclico de metamorfose que não vê qualquer conclusão e que é determinado pelos factores externos de produção e actualização do texto, bem como pelas alterações formais e materiais que este vai sofrendo. Gérard Genette fala do paratexto, que é tudo o que rodeia o corpo do texto e que também determina a nossa leitura e construção de sentidos, como por exemplo o prefácio, as notas, as dedicatórias, entre os restantes elementos que fazem parte da nossa concepção do livro. O sentido é uma característica textual, a logopeia de que Pound fala. O sentido está em constante mutação também, uma vez que o próprio texto apela à experiência empírica de cada um dos seus leitores.

Tanselle e  McGann chamam a atenção para um factor que é fundamental quando se fala na problemática da edição e que é a variação. É impossível fechar o ciclo das leituras realizáveis de um texto e também das propriedades materiais que geradas por cada nova edição. A mudança, a variação são elementos fundamentais. Cada texto entra no mundo em determinadas condições socio-históricas, que se vão alterando não só com o tempo, mas também com os leitores. A percepção humana da experiência empírica é diferente, por isto a  variação está no texto mas também nos leitores e naquilo que a sua experiência lhes traz, na forma como condiciona as suas leituras não só dos textos, mas do mundo em geral: Every text has variants of itself screaming to get out...” (McGann 1991: 10)

O texto é construído histórica e socialmente. Para o leitor consiste numa imagem de um determinado período no tempo, para o escritor são eventos, resultados, consequências do tempo e da história em si.

Apesar das suas potencialidades como tecnologia de reprodução, a edição em  meio electrónico levanta também alguns problemas, que começam por se manifestar logo numa fase inicial, aquando da adaptação das estruturas e dos critérios textuais a um meio novo. Com o aparecimento do hipertexto torna-se muito fácil o surgimento de exemplos que não concretizam da melhor forma todas as potencialidades oferecidas pelo novo meio, não somente nos primórdios em que se passa por uma fase experimental, mas também posteriormente. Para o utilizador comum torna-se por vezes difícil distinguir a fiabilidade dos projectos, dos materiais e do trabalho que se desenvolve com eles.

Greetham e Peter Robinson defendem que o hipertexto pode contribuir para a resolução de alguns problemas relativos às variantes textuais. Greetham afirma que através do uso do hipertexto, das suas ferramentas e hiperligações é possível colocar todas as versões disponíveis a um mesmo nível para que possam ser consultadas. Delega-se alguma da responsabilidade no próprio leitor, uma vez que o editor já não precisa de optar por uma combinação de escolhas, por uma súmula da comparação das versões documentais existentes, ou pela demanda da intenção autoral, mas pode inclui-las todas. No entanto, cabe ao editor o papel de estabelecer os pontos específicos para colocar as hiperligações. Desta forma ao leitor é dada a possibilidade de constituir uma versão a partir das variações com que se confronta.

McGann e George P. Landow acreditam que esta nova forma de edição servirá para aproximar o leitor do texto como  processo de leitura, exploração e auto-descoberta, já para não falar numa semi-abolição da tirania e do jugo dos editores e críticos textuais. De facto, o papel do editor passa a ser diminuto, mas não dispensável e exige um maior envolvimento e capacidade de discernimento, investigação e selecção para que se permita uma escolha do que realmente interessa ao utilizador. Embora o utilizador continue sob o domínio de quem organiza e disponibiliza o sítio, pois tem de se reger pelo que lhe é cedido, a lógica inclusiva e ramificada dos materiais reconstituem os textos de um modo diferente dos suportes tipográficos.

Esta nova forma de editar vem também trazer a possibilidade de quebrar parte da linearidade do texto, bem como a disposição demasiado hierarquizada das edições em livro. Apesar de alguns arquivos e edições manterem uma versão como a mais relevante, existem já vários projectos que colocam todas as versões disponíveis a um mesmo nível. O ambiente electrónico permite descentralizar uma determinada versão do texto:Unlike in traditional editions “hyper”editions need not organize their texts in relation to a central document or some ideal reconstruction generated from different documents. An edition is “hyper” exactly because its structure is such that it seeks to preserve the authority of all the units that comprise its documentary arrays. In this respect a hyperedition resembles that fabulous circle whose centre is everywhere and whose circumference is nowhere.” (McGann 1996: 18)

Além disso, a possibilidade de alterar constantemente o que se coloca em linha permite acrescentar e alterar o que for necessário, permitindo um enriquecimento constante, que não seria possível numa edição em papel sem um grande dispêndio de tempo, dinheiro e material. Através dos arquivos e edições electrónicas tentam estabelecer-se também representações virtuais, incluindo a reconstituição facsimilada de certas propriedades materiais dos livros, como a dimensão, textura, cor, etc.. “The electronnic medium has extended the textual world (...) It has added dimensions and ease of mobility to our concepts of textuality.”( Shillingsburg 1999: 164.)

Esta capacidade de expansão e redimensionamento do universo textual  traz muitas vantagens, mas acarreta também alguns riscos que não se podem descurar. Kelvin Everest e Susan Hockey partilham a ideia de que os arquivos e as edições  electrónicas podem correr o risco de se tornarem demasiado ambiciosos e funcionar como uma espécie de depósito de materiais que não terão muito valor académico se não forem devidamente tratados. O material não deve suprir a necessidade de adicionar os estudos críticos sobre a obra ou texto em questão. Os estudos paralelos são o que acrescenta valor académico a este tipo de edição. Por isto se deve tentar alcançar um equilíbrio nos materiais a incluir numa edição ou arquivo tendo em conta determinados critérios textuais e editoriais, que influenciarão a qualidade do sítio.

Kelvin Everest foi um dos críticos que tomou uma posição cautelosa no que se refere às edições em formato electrónico. Apesar de reconhecer as vantagens do meio electrónico, como a maior capacidade de armazenamento ou o acesso a materiais que não poderíamos consultar de outra forma, Everest apresenta também alguns problemas entre os quais destaca o facto de se tentar dar um aspecto físico determinado a um texto, como se desta forma se reproduzisse o contexto histórico em que surgiu. Desta forma os textos surgem presos a um contexto ou movimento cultural específico, mas o que ele nos diz é que nem todos os textos precisam de condicionantes contextuais para serem lidos e interpretados. O texto não tem necessariamente de se tornar “now life-less” (termo usado por Everest), de perder a sua autonomia e sentido a partir do momento em que é lido fora do período histórico em que surge. Ao tentar dar um aspecto temporalmente situado à obra os editores acabam por vedar aos leitores a compreensão do texto no seu próprio tempo. Trabalham contra a vida de um texto proibindo-o de sair daquele período histórico particular. A tentativa de reconstituição do aspecto material original dá-lhe um certo distanciamento e estranheza que não são necessariamente proveitosos para os leitores. Esta visão historicista muitas vezes nega ao texto outras existências. Por isso, Everest defende que o editor deve continuar a manter a sua função de mediador na fixação dos textos e a produzir a sua própria versão do texto:  “History disappears into the present”(Everest 2000: 197) e o texto é o sitio para a projecção do juízo crítico tendo em conta o momento que se vive.

Kelvin Everest contesta a excessiva valorização da reconstituição do contexto histórico e da  forma textual original, uma vez que pode funcionar como uma limitação à criação de novos sentidos para o texto. Muitas vezes num esforço de reconstituição histórica e contextual acaba por imperar a futilidade e a atenção volta-se meramente para os aspectos formais e não para o tratamento dos materiais disponibilizados de forma competente. O texto é mais do que uma forma unicamente material, mais do que uma simples forma tipográfica. Para Everest, o facto de existir variação não descarta a ideia de que um texto deve ser entendido como uma forma predominantemente estável.

O que nos permite falar de versões então? Há elementos consistentes de versão para versão e o que as diferencia é o que se altera, quer seja em termos sintácticos, formais ou semânticos. Segundo G. Thomas Tanselle:

 (...) a version is an “utterance” (the “social act” of “making outer or external”) that is linked to one or more other utterances through “material, structure and function”. The history of a work, extending through time, is likely to comprise numerous utterances, all of which are obviously relevant to understanding that history. But, as McLaverty perceptively argues, the history of the work is to be distinguished from the text of the work, which is not the sum of all the utterances but the text of every utterance individually considered; what an edition should present, he recommends, is one or more of “the author’s intended utterance(s)”, with an apparatus enabling the reader “to construct the relation of each intended utterance to others and to actual utterances”, the choice among utterances for the reading text (or texts) would depend on the editor’s interests, and “the final intention that matters” would be “the final intention for the utterance.” (Tanselle 1996: 26)

Todas as  versões são relevantes para algum propósito e ao editor cabe o papel de seleccionar, comparar, construir e integrar de acordo com os intentos a que se destina o texto:  “The Material Text”, in other words, “is not equivalent with the work but is instead merely a coded representation or sign of the work” (...) “Versions, in turn, are not “facts to be discovered “ but rather “concepts created … by readers [including editors] as a means of ordering (or as justification for valuing) textual variants.” (Tanselle 1996: 37-38.) Os editores ao fazerem as suas alterações são também um pouco autores. Por isso muitas vezes os críticos textuais falam do conceito de múltipla autoria relativamente às versões dos textos que nos chegam. Este é um processo que ocorre com qualquer texto, mas com os textos antigos ou até mesmo como textos oscilantes como Ulisses, uma obra modernista, torna-se mais evidente. Não é por mero acaso que muitas edições se identificam pelos nomes dos editores.

Historicamente, as teorias da crítica textual definiram diversos processos de aproximação ao texto: de uma concentração na origem da intenção autoral, a um exame das formas do  texto que emergiram do processo de publicação durante a vida do autor, até ao estudo de qualquer versão póstuma como forma de tentar compreender as respostas dos leitores ao texto. Produto e processo complementam-se. Todo o produto é um elemento no processo, por isso não se pode descurar nenhuma das suas actualizações plausíveis.

Para uma das abordagens dominantes  na teoria textual continuou a ser determinante a busca do texto ideal, puro. Deste tipo de pensamento decorrem duas falácias no processo de análise de textos: a noção de que os artefactos falam claramente por eles próprios, quando na verdade não se pode dispensar a  análise e interpretação, e a ideia de que os materiais que sobreviveram são mais instrutivos do que as especulações acerca dos agora perdidos. No entanto, não faz muito sentido insistir na fixação textual naqueles termos. Qualquer processo de análise requer o uso do discernimento literário. O que os textos geralmente incluem são os juízos, as decisões dos editores acerca das intenções passadas. A função do editor é muitas vezes de “fill in the gaps”. A versão que Hans Walter Gabler tentou fazer de Ulisses, por exemplo, responde a esta tentativa de busca do ideal puro, mas é mais uma vez uma tentativa frustrada que reitera a ideia de que nenhum texto é definitivo. Apesar de todas as falhas foi uma iniciativa única na edição de Ulisses e chamou a atenção para alguns aspectos interessantes.

O ambiente electrónico encerra esta capacidade de incluir as várias versões de um texto ao mesmo nível, como referi acima, podendo até efectuar-se de forma eficaz e menos limitada do que nas edições em papel a chamada comparação entre textos paralelos, ou seja, duas ou mais versões do mesmo texto contrastadas simultaneamente. O hipertexto serve perfeitamente os propósitos de Ulisses, uma vez que também tem um carácter infinitamente metamórfico e reticular como a obra. Será que podemos dizer que o facto do ambiente electrónico se encontrar em constante mutação acentua a incapacidade de fixação do texto? Não sei se de facto será assim, mas, quando rentabilizados os seus recursos, o estudo e comparação do texto e dos ensaios críticos torna-se mais simples para o estudioso o estabelecimento de critérios para uma leitura da obra que dê conta da sua instabilidade editorial.

Editar e fixar um texto como Ulisses de James Joyce não é tarefa desartificiosa e muitas são as tentativas feitas e falhadas como referirei de forma mais detalhada no capítulo seguinte. Se em papel se tem dado origem a múltiplas quezílias no âmbito da crítica textual, especialmente em contexto académico, no ambiente electrónico é fácil constatar que há por enquanto uma inexistência quase total de sítios onde a obra em questão seja editada e tratada nos termos mais apropriados. Há várias edições dispersas de Ulisses disponíveis em linha, mas não estão agrupadas, nem acompanhadas de uma explicitação de critérios para a escolha de determinada versão, nem de ensaios críticos que nos permitam um estudo mais aprofundado do que até agora foi feito neste domínio.

Tendo em conta a minha experiência neste processo de pesquisa acerca do texto, creio que é uma obra ainda muito subaproveitada por este novo meio, que lhe poderia abrir espaço a possibilidades de estudo até agora impossíveis. Podemos imaginar a criação de uma edição e de um arquivo que contemplasse a obra, as várias versões e actualizações, que incluísse o esquema que Joyce fez para a leitura da obra estabelecendo um paralelo com a Odisseia, anotações, dados do autor, informações sobre a sua “dear dirty Dublin” e os espaços que as personagens percorrem, o reaproveitamento dos espaços numa Dublin actual (referência ao Bloomsday), aspectos contextuais, ensaios críticos de investigadores e estudiosos especializados, possibilidade de comparação de textos paralelos, acesso a digitalizações da obra,  um jornal hipermédia (como o incluído por Robert Callahan no seu sítio e do qual é co-editor), notas do autor e inclusão do paratexto das várias edições. Estas são apenas algumas das coisas que se podem fazer numa tentativa de edição electrónica da obra, mas até agora a maior parte dos sítios consiste apenas num depósito de materiais, muitos deles inacessíveis, ou centros de recursos que incluem ligações a outros sítios distintos.

É óbvio que se torna difícil editar electronicamente uma obra como Ulisses, cujo texto não está fixado sequer em formato tipográfico e muitas vezes os materiais e recursos disponíveis estão sob protecção de copyright. Pela dimensão do projecto, a menos que se encete numa colaboração entre os vários estudiosos da obra, o público e os especialistas em edição digital, com apoios de instituições dedicadas ao estudo da obra do autor ou colaboradores financeiros,  não creio que se possa produzir uma boa edição electrónica, uma vez que se torna dispendioso e trabalhoso desenvolver num projecto deste tipo sem apoios ou colaborações de outrem. O caso de Robert Callahan é representativo, pois apesar da sua iniciativa particular louvável e arrojada de criar “Work in Progress”, este foi um projecto que não encontrou um grande desenvolvimento até à data, definindo-se mais como um centro de recursos do que uma edição electrónica. Não mereceria já esta odisseia proteica dos tempos modernos uma edição que se coadunasse com o seu carácter mutante e incessantemente criativo?

 

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2. Ulisses: o texto proteico. De 'Stately, plump Buck Mulligan came from the stairhead,' a 'yes I will yes.'

 

2.1. Como editar um texto inerentemente metamórfico?

Ulisses foi considerada em 1999 pela imprensa inglesa como a obra maior da literatura de expressão inglesa. Generalizações destas são feitas acerca de várias obras, mas a verdade é que a obra de James Joyce marcou de forma indelével o mundo das letras e o uso da linguagem daí em diante, tornando-se numa das catedrais da arte literária moderna e influenciando a produção escrita de muitos escritores desde então. Em Portugal temos o exemplo de Urbano Tavares Rodrigues, ou Ana Hatherly e outros autores que lançaram em 1982 uma colectânea de textos intitulados de Joyciana, revelando a influência que beberam de Joyce e do seu “work in progress” Finnegans Wake.

Ulisses, como obra modernista e revolucionária que é, apresenta uma linguagem fragmentada, estilhaços de vidas e retratos da alma humana que o uso da “stream of consciousness” permite traduzir de forma magistral e não linear. O carácter idiossincrático da obra de Joyce confere-lhe uma posição muito peculiar no panorama literário. Pela primeira vez se invade desta forma o espaço privado, íntimo. A escrita e o universo joycianos concretizam-se como uma “… whole galaxy of new devices and stances and verbal antics, extravagant, derisive, savage, rollicking, tender, and lyrical, is held in Joyce’s ironic dominion.”, segundo a entende e traduz um dos mais conhecidos estudiosos de Joyce, Richard Ellman. (Richard Ellman, Prefácio à edição de Ulysses, The Corrected Text, edited by Hans Walter Gabler with Wolfhard Steppe and Claus Melchior. London: Penguin Books, 1986)

James Joyce vem fragmentar a linguagem e o entendimento da experiência humana e do mundo. De tal forma o texto é poderoso e brutal na sua crua imagem da alma humana, da desolação, dos dilemas, da demanda pela palavra conhecida por todos os seres humanos, da solidão e da alienação numa urbe como é a Dublin de Joyce, que Abílio Hernandez Cardoso retrata de forma certeira ao escrever “Como Proteu de Homero, também o texto de Ulisses se transforma em corrente de água e labareda de fogo.” (Abílio Hernandez Cardoso, “Bloom ou a arte de sobreviver com os despojos do dia”, Público, 12 de Junho de 2004, suplemento "Mil Folhas", a assinalar o centenário do Bloomsday). Creio que depois de lermos Ulisses jamais seremos os mesmos leitores e jamais voltaremos a ler daquela forma, mesmo que voltemos a folhear as páginas da obra e a percorrer os trilhos das personagens.

A leitura, num certo sentido, é um acto de crítica textual também, “An act of understanding that can never be observed ... or verified.” (Paul de Man apud  McGann 1991: 4) “Today, texts are largely imagined as scenes of reading rather than of scenes of writing; this “readerly” view of text has been most completely elaborated through the modern hermeneutical tradition in which text is not something we make but something we interpret.” (McGann 1991: 4)  A textualidade apresenta-se então como o cenário em que os leitores respondem aos textos que encontram. “if one locates the reader at the center of textuality, it is because the text is passive and silent, because it needs the reader’s activity to infuse it with meaning, to bring it back to life.” (McGann 1991: 4)  É neste intercâmbio humano do leitor, do editor e do crítico com o  texto que reside a criação de sentidos e a multiplicação das versões e constante actualização de edições. 

“If the Mona Lisa is in the Louvre in Paris, where is Ulysses? Adaptei a expressão usada por James McLaverty (citada por McGann [1991: 4]), e que se referia originalmente a Hamlet,  pois considero-a interessante para levantar a questão da fixação do texto,  a demanda do texto “correcto” ou até mesmo para a temática da edição em formato electrónico. Antes de falar da edição em meio digital penso que será também relevante referir os problemas de edição que a obra sofreu em formato tipográfico, por isso farei uma breve sinopse da história editorial de Ulisses referindo os aspectos que me parecem ter sido mais relevantes para as edições que a obra sofreu.

Ulisses foi pensado inicialmente como um conto que seria incluído em Dubliners, mas acabou por se tornar na odisseia dos tempos modernos, tendo no entanto como palco a cidade de Dublin e três “dubliners” específicos, Leopold e Molly Bloom e Stephen Dedalus.

É um texto complicado para fixar e editar, pois mesmo sem a interferência de todos os elementos exteriores ao processo de edição Joyce reviu a obra e alterou-a ao longo de mais de seis edições publicadas ainda em vida e os documentos de pré-publicação não deixam claro quais as variantes que o autor preferia. Quando fazia a mesma alteração repetidamente é porque estava decidido, mas quando era inconstante não se torna tão claro e por isso o texto se tornou proteico e praticamente impossível de fixar até à data.

A primeira publicação da obra foi feita por Sylvia Beach na Shakespeare and Company, em 1922 em Paris, numa altura em que a obra não foi bem acolhida e foi proibida a sua publicação em Inglaterra e nos E.U.A., justificada pelo seu conteúdo obsceno. Esta primeira edição estava pejada de erros e gralhas, para os quais os leitores são alertados pela editora  na primeira edição, nota esta que viria a ser incluída em edições posteriores da obra: “The publisher asks the reader’s indulgence for typographical errors unavoidable in the exceptional circumstances”, (Sylvia Beach, apud “The Protean Text and Why All Editions Are  Equally “Definitive”” de George Micajah Phillips, p.1.) e o próprio Joyce elaborou uma errata para acompanhar a obra posteriormente e o exemplar que enviou a Nora Barnacle. Muitos dos erros foram causados pela visão cada vez mais deteriorada de Joyce e pelos erros dos tipógrafos de Dijon, falantes não nativos de inglês.

As tentativas de correcção dos erros anteriores deu azo à existência de mais erros e ainda hoje persistem alguns dos problemas de edição. Edições mais tardias de Ulisses incluindo uma “definitiva” pela Odyssey Press em 1932 cunharam alguns dos novos “accidentals”. A frustração geral provocada pelas edições repletas de erros culminou nas chamadas “Joyce Wars” , que ocorreram nos anos 80 e  tiveram a sua origem na procura pelo texto correcto, seguindo o modelo de  “copy-text” ecléctico de que Greg falara no seu artigo de 1950. Hans Walter Gabler rodeou-se de uma equipa de académicos especializados em Joyce que o ajudariam a produzir o texto tipográfico corrigido e definitivo. A sua intenção seria a de “replace the text made public in the book’s first printing and every subsequent printing” (Daniel Klyn, “Haveth Versions Everywhere ou Here Comes Everybody’s Edition(s) of Ulysses”, em http://members.tripod.com/~fn0rd/Joyce.htm, acesso a 8 de Julho de 2004.) No entanto, a sua demanda pelo texto ideal, mais fiel às intenções autorais, foi considerado por vários especialistas um fracasso e originou uma das maiores polémicas do mundo da crítica textual e editorial.

John Kidd, um estudioso de Joyce e crítico textual, escreveu uma recensão ao trabalho de Gabler intitulado “The Scandal of Ulysses”. Kidd dizia que apoiar-se apenas em facsimiles dos documentos manuscritos e na comparação de documentos resultantes de processos de transmissão produziram uma versão que deu origem a variantes que não eram conhecidas do autor e que nem podiam ser justificadas pelos manuscritos e edições existentes. Por considerar que esta edição era um embuste e pouco rigorosa, Kidd defende que se deve retirar esta edição do mercado. Esta querela foi alvo de discussão até à exaustão em vários meios privados e públicos e o que interessa apontar é que efeitos esta controvérsia trouxe ao texto de Ulisses. De 1986 a 1990 a edição de Gabler substituiu as outras, mas Kidd destronou esta versão como definitiva e conseguiu demover a editora, Random House, de publicá-la com todas as falhas que lhe foram apontadas, tendo Jacob Epstein convocado Thomas Tanselle para fazer uma avaliação crítica do valor da edição. Devido à intervenção de Kidd relança-se a edição de 1961 e a sua vitória é a de ter chamado a atenção dos editores para a impossibilidade de ter um texto definitivo, correcto, descurando assim todas as versões existentes, o que numa obra como Ulisses seria quase impensável. Esta contenda foi também uma forma de vender a obra e relançar a questão das versões e da relativa autonomia e validade de cada uma, retirando-se da capa das edições posteriores a expressão “the corrected text”. Segundo Jeri Johnson, Kidd tem o mérito de “causing an entire generation of Joyceans to attend a little more carefully to the implications of textual bibliography”. (Daniel Klyn, “Haveth Versions Everywhere ou Here Comes Everybody’s Edition(s) of Ulysses”, em http://members.tripod.com/~fn0rd/Joyce.htm, acesso a 8 de Julho de 2004.) 

Fizeram-se entretanto novas edições da obra, contudo os críticos textuais ainda sentem necessidade de uma edição cuidada de uma versão melhorada do texto. Talvez a edição em ambiente electrónico seja o mais aconselhado para esta abordagem. Como escreve George Micajah Phillips, “In the Odyssey, Odysseus could capture Proteus only by surprising him and holding him until he became exhausted of his form changing, for a reader to capture Joyce’s protean text, exhausting all changes of form is just as necessary.” (George Micajah Phillips, “The Protean Text and Why All Editions Are  Equally “Definitive””, p.5.)  Mas será possível alguma vez eliminar este carácter metamórfico de um texto como o de Ulisses?  Creio que a sua estrutura de palimpsesto embarga a fixação do texto, mas ao mesmo tempo torna-o apetecível e adequado à publicação em hipertexto.

“Is he the penman of the pre-history of cyberspace?” (Karlin Lillington, “Ulysses in Net-town: On Bloomsday, a portrait of James Joyce as a young Web-head.”, in salon, June 1998, em http://archive.salon.com/21st/feature/1998/06/16feature.html, acesso a 4 de Julho 2004) é a questão colocada por Karlin Lillington, pois Ulisses e o espólio textual de Joyce surgem como obras à frente do seu tempo. É uma questão pertinente, uma vez que o tipo de escrita de Joyce se coaduna na perfeição com o hipertexto. A sua obra é propensa à edição em formato electrónico, uma vez que faz uso recorrente da “stream of consciousness”, como se fosse acrescentando ao seu discurso hiperligações que retratam os dilemas e os despojos da alma humana. Facilitaria o estabelecimento e compreensão das relações de intertextualidade que se vão estabelecendo ao longo do texto. É como se Ulysses preconizasse o aparecimento do hipertexto. O próprio Marshall McLuhan, uma grande figura da teoria da comunicação e da tecnologia, confessa ter sido influenciado por Finnegans Wake na sua teoriação acerca dos media.

Michael Joyce e Robert Callahan concordam também com esta identificação entre a obra de Joyce e a estrutura do hipertexto. Por isso Michael Joyce escreve que  “Hypertext doesn’t spring out of nowhere.”; “hypertext is a convergence of things”; “…values its depth, its sense of space, its ability to express the richness and multiplicity of our lives” – sounds like a summary of Ulysses. (Michael Joyce, apud Karlin Lillington, “Ulysses in Net-town: On Bloomsday, a portrait of James Joyce as a young Web-head.”, in Salon, June 1998, em  http://archive.salon.com/21st/feature/1998/06/16feature.html, acesso a 4 de Julho 2004)  Há pontos de contacto evidentes. Robert Callahan, por sua vez, escreve: “Hypertext is simply the technological means by which we have come to be able to inscribe and read texts such as Joyce’s.” “Like hypertext, Joyce’s great works eschew linear progression, are densely allusive and intricately self-referential, and invite readers to wander, to play, to explore.” (Robert Callahan, apud Karlin Lillington, “Ulysses in Net-town: On Bloomsday, a portrait of James Joyce as a young Web-head.”, in salon, June 1998. em http://archive.salon.com/21st/feature/1998/06/16feature.html, acesso a 4 de Julho 2004.) A obra de Joyce, caracterizada como “…protean, nonlinear, interlinked, self-referential, open-ended works.” (Karlin Lillington, “Ulysses in Net-town: On Bloomsday, a portrait of James Joyce as a young Web-head.”, in salon, June 1998, em http://archive.salon.com/21st/feature/1998/06/16feature.html, acesso a 4 de Julho 2004), parece ser especialmente propensa a este tipo de leitura e edição.

Apesar disso, nem tudo pode ser uma vantagem ao recorrer a este meio. Segundo Callahan, um risco que se corre ao editar Joyce em hipertexto é o de tornar os textos insípidos, pois ao invés de o leitor passar por um processo de descoberta e construção individual de sentidos que o texto tipográfico possibilita, apresenta uma série de ligações, onde já existem  interpretações e sentidos pré-construídos. Mas segundo Allan B. Ruch, criador do sítio “The Brazen Head”, o facto de ter disponível estes elementos torna a obra menos densa e mais fácil de desbravar, para além de o leitor sentir um certo apoio no processo individual de leitura.  O sítio que Allan Ruch criou foi exactamente motivado pelo desejo de partilhar o entusiasmo pela obra e para combater o sentimento de solidão que teve durante o processo de leitura. O facto de incluir grupos de discussão quer em tempo real, quer virtualmente torna-o inovador e despoletador de novas comunidades de leitores. É como se se regressasse a uma noção de gemeinschaft de que Tönnies falava, mas num contexto um pouco mais vasto que é o meio electrónico.

Antes de mais quais devem ser as preocupações de uma edição electrónica? Devem permitir um acesso mais rápido, eficaz, um sistema de pesquisa eficiente e adequado aos intentos dos estudiosos e curiosos que utilizam o sítio. As edições electrónicas académicas não devem ser só edições impressas disponíveis em formato electrónico, somente um depósito de materiais. Os textos devem poder ser representados quer como texto pesquisável e citável, quer em formatos de imagem, tirando partido dos recursos de apresentação e pesquisa do meio electrónico.

Há algumas características fundamentais para qualquer edição electrónica e a de Ulisses não é excepção, como, por exemplo, a facilidade de utilização e acesso; o design do sistema e as especificações de armazenamento dos materiais arquivados, que devem antecipar os desejos da comunidade de críticos textuais e utilizadores da edição académica (com a inclusão de materiais multimédia, possibilidade de interactividade, comentários do utilizador, capacidade de impressão, hiperligações, relações de intertextualidade, contextualização e artigos críticos que possibilitem a interpretação, construção de sentidos ou simplesmente informem). A  integridade e fiabilidade dos materiais, as indicações das opções e indicações da disponibilidade das ligações, a capacidade de armazenamento e expansibilidade também devem ser contemplados. Outro factor fundamental é a disponibilidade para impressão de forma a que os utilizadores possam dela fazer uso se desejarem. [1]

Em todos os sítios a que tive acesso durante a minha pesquisa verifiquei que não existe nenhum arquivo ou edição que compreenda as várias versões do texto. Além disso, são todas muito limitativas no seu estudo, análise e ensaios críticos. The Internet Ulysses by James Joyce, editada por Jorn Barger  em http://www.robotwisdom.com/jaj/ulysses/ inclui, por exemplo, o sumário de cada capítulo e várias ligações internas, ligações a outros locais, comparação da edição de 1922 e da edição de Gabler, os escândalos de edição, o esquema de Joyce para Ulisses, notas, registos hipermédia e grupos de discussão. De todos os sítios consultados, creio é um dos mais completos, uma vez que permite ter acesso ao texto, a informações sobre a obra e o autor, a contextualização, mapas, critérios de edição para textos complexos como Ulisses, notas, análise de passos, sistema de pesquisa (que funciona dentro e fora do sítio), entre muitas outras opções. No entanto, não me parece que estejam disponibilizadas mais do que uma versão do texto, que apesar de ter notas para alguns dos seus capítulos não permite uma comparação, paralela ou não, das várias versões existentes. Nota-se também a quase inexistência de ensaios críticos. Não pretende funcionar só como edição electrónica, mas também como um arquivo e centro de recursos. Em Finnegans Web, em http://www.trentu.ca/jjoyce/, e também noutros sítios espalhados pela rede encontramos também a obra publicada, mas na maioria das vezes não há uma referência da matriz usada para a reprodução e dos critérios para a escolha dessa mesma matriz. Peca-se também pela ausência de estudos críticos e informações relevantes para o estudo e investigação da obra.

Como editar então uma obra como Ulisses em formato electrónico? Não é algo simples, uma vez que o texto não está fixado sequer em formato tipográfico e apesar da tentativa de Gabler não ter sido inteiramente bem sucedida nunca antes se tinha tentado chegar desta forma a uma versão fixa do texto. Antes de mais deve proceder-se a um processo de pesquisa das versões relevantes a ser incluídas, das condicionantes contextuais, de todos os elementos que podem ser relevantes à construção de sentidos da obra. Ao invés de se optar por uma versão devem incluir-se todas, acompanhadas de sistemas de pesquisa, notas explicativas, artigos e ensaios críticos e a possibilidade de questionar, contrastar  e investigar por conta própria. Incluir ferramentas hipermédia, e todos os recursos que enriqueçam o estudo da obra do ponto de vista genético e social. Os materiais deveriam passar por uma comissão composta por especialistas quer no âmbito da critica textual e da prática editorial, quer no âmbito dos estudos joycianos, quer ainda no domínio dos recursos multimédia. O papel do editor e do crítico não deve ser descurado, apesar da relativa autoridade e responsabilidade que possa ser atribuída ao leitor. Da colaboração entre elementos das várias áreas envolvidas e dos projectos já existentes nasceria um sítio onde seria possível encontrar uma edição competente e um recurso de estudo de Ulysses, quer para curiosos, mas fundamentalmente para estudiosos. A maioria dos projectos existentes ou estão muito incompletos, ou servem apenas para uma abordagem muito redutora da obra, quer por opção dos organizadores do próprio sítio, quer por falta de colaborações ou apoios financeiros. A apresentação e o trabalho gráfico são também muito rudimentares e na sua maioria muito pouco apelativos.

Apesar de na sua maioria estes projectos estarem muito dispersos, há várias iniciativas em curso e um claro desejo de trabalhar sobre o espólio de James Joyce. No entanto, a maioria destes projectos respondem às necessidades dos curiosos e não tanto às necessidades dos estudiosos da obra de Joyce. São projectos pouco elaborados, exceptuando talvez raras excepções como a tentativa de Jorn Barger, com “The Internet Ulysses by James Joyce”, e um projecto muito interessante intitulado  “James Joyce Portal” um sítio que articula colaborações de várias pessoas, alguns especialistas no estudo do universo joyciano, materiais hipermédia, anotações, entre muitas outras contribuições e ainda Michael Groden com o seu “James Joyce Ulysses in Hypermedia”. Outra curiosidade que me chamou a atenção enquanto pesquisava foi a criação de versões satíricas da obra, animadas para cada fragmento específico de cada capítulo, um trabalho que pode parecer fútil, mas que  pode ser proveitoso e cativar novos leitores, inclusivamente das camadas mais jovens, desmistificando a aura de intransponibilidade e dificuldade da obra. O meio electrónico pode mesmo contribuir de forma determinante para constituir novos públicos. Mesmo através dos projectos existentes, que não estão ainda muito completos e que incluem grupos de discussão, torna-se um processo menos solitário ler Ulisses. Já não somos apenas uma única pessoa a tentar desbravar um terreno sinuoso, mas uma comunidade que partilha os mesmos medos e dúvidas.

O carácter metamórfico, hipertextual da obra de Joyce permite uma abordagem riquíssima. Devemos ter em conta ainda que muitas das limitações resultantes das leis de “copyright”. Por outro lado, essas limitações decorrem das dificuldades inerentes a um projecto desta envergadura como o são os critérios textuais a usar, a estruturação da edição, as colaborações, a manutenção do sítio que acarreta a necessidade de uma constante actualização , as dificuldades de anotação da obra e a volatilidade característica do meio electrónico.

 

2.2.Como anotar uma obra como Ulisses?

A anotação é uma parte fundamental no estudo de um texto, especialmente para fins académicos. É um meio importante para o enriquecimento e comentário ao texto, expondo as suas relações com outros elementos quer internos , quer externos. É lá que se podem procurar comentários e explicações adicionais pertinentes. São extensões e referências ao texto, mas é preciso ter também algum sentido para discernir o que interessa e faz sentido. Com uma obra como a de James Joyce e as ferramentas hipertextuais é necessário repensar o papel da anotação.

Com o surgimento do meio electrónico a anotação ganha nova dimensões. Uma vez que o espaço de armazenamento é muito maior do que numa edição em formato tipográfico, a adição de notas torna-se mais livre. No entanto, Michael Groden no seu estudo apresentado no sítio "James Joyce's Ulysses in Hypermedia": Problems of Annotation”, diz que num ecrã não consegue produzir notas da mesma forma, pois espacialmente a nota de rodapé não é a mesma coisa, não assume o mesmo valor. Tentar colocar as notas no final de uma página web seria reproduzir apenas o que se passa em formato tipográfico e não fazer uso das ferramentas disponibilizadas neste novo meio. Michael Groden usa então técnicas como as hiperligações a outras janelas através de artifícios como, por exemplo, palavras em itálico para indicar que existe algo a dizer sobre elas, um asterisco a seguir ao nome de um autor que nos leva a informações bibliográficas e referências específicas ao trabalho a que se refere. Seguindo as palavras que contêm hiperligações pode chegar-se a outras páginas no artigo ou mesmo noutros locais da rede, mas deve ter-se em atenção este processo para que não se torne confuso para os utilizadores e não cause dispersão. Também no ecrã os componentes têm de se submeter a uma ordem, mas há uma tentativa de quebra dessa linearidade e da posição hierárquica dos elementos. Independentemente disso há sempre um domínio em que tal não é possível. As notas serão sempre acrescentadas a um texto base e o papel do editor, que deverá ter também sentido crítico, não se pode descurar, pois é ele que deve decidir em que lugar se adequa melhor a adição de ligações para anotações. Não é um processo arbitrário.

O hipertexto vem de facto reconceptualizar e redimensionar o uso das anotações e há vários factores que influenciam este processo.  O tamanho do monitor tem impacto directo na coerência e utilização uma vez que se for pequeno não permite a abertura de várias janelas ao mesmo tempo, tornando o papel das anotações mais confuso e desorientador, ao contrário de um ecrã maior. A velocidade do sistema e o software usado também são importantes.

Para além de serem ferramentas importantes até para a comparação entre várias versões, na Internet torna-se mais vantajoso acrescentar notas, uma vez que podem ser mais longas e detalhadas do que nas edições em formato tipográfico, para além de poderem ser alteradas sempre que necessário sem custos tão grandes e todo o aparato que acompanha uma nova publicação em papel.

As anotações servem fundamentalmente para satisfazer as necessidades e propósitos dos leitores. A anotação textual não pode ser inserida automaticamente, uma vez que deve ter em atenção o contexto. Devem existir critérios rigorosos de escrita das notas. Ao passo que nas edições em formato tipográfico temos acesso também a informações irrelevantes, em hipertexto podemos seleccionar de forma mais rápida o que nos interessa através da consulta das ligações que permitem uma relação estreita com outros passos do texto ou outros locais da rede. Desta forma as relações de intertextualidade são mais marcadas e activas. Segundo George Landow, em “Hypertext, Scholarly Annotation and the Electronic Edition”, muitas vezes as notas são também demasiado longas para o que se pretende, por isso vê como uma possível solução para satisfazer o utilizador a criação de camadas, níveis de anotação progressiva; cada pessoa escolhe um nível consoante a explicação que precisa. Desta forma podem satisfazer-se as necessidades do utilizador curioso e do investigador, cuja análise deverá ser mais detalhada.

O trabalho de Michael Groden sobre a temática da anotação centra-se obviamente sobre a obra de Joyce e é pertinente na resposta a algumas questões fundamentais, bem como no estabelecimento de critérios de anotação para Ulisses. Também concorda com Landow quanto às camadas de anotações até porque podem destruir a descoberta da obra pelo leitor. A partir de uma nota inicial pode depois partir-se para uma mais detalhada. Isto será aconselhável à anotação de Ulisses  que, com o uso da corrente de pensamento, propicia a utilização de ligações. As ligações não devem no entanto ser colocadas ao acaso e não devem também arruinar o processo de leitura do simples curioso que procura ferramentas auxiliares adicionais na Internet. Devem por isso adaptar-se as camadas de anotações de forma a satisfazerem as necessidades dos leitores e utilizadores de primeira viagem, bem como dos leitores mais experimentados e utilizadores assíduos.

Groden chama também a atenção para a linha que se deve estabelecer entre interpretação e simples informação. Por vezes torna-se difícil dissociar as duas coisas, mas colocar interpretações em forma de anotações pode influenciar de forma determinante o processo de leitura, compreensão e construção de sentidos do leitor, bem como contaminar a sua capacidade interpretativa, resultando num processo que quebra a liberdade do leitor e que acaba por uniformizar e estandardizar as leituras de todos os que seguem aquele percurso. A anotação deve procurar ser o mais objectiva possível, se bem que se torne impossível por vezes não se oferecer um ponto de vista específico. Quando é necessária interpretação, devido à existência de versões contraditórias, o mais correcto seria apresentar as posições contrastantes e os elementos que justificam cada uma delas e deixar a cargo do juízo do leitor, agora bem fundamentado, a escolha da leitura que lhe parece mais correcta.

As notas devem também ter em atenção as diversas perspectivas pelas quais se pode abordar o texto, como o contexto histórico, as relações de intertextualidade e todos os elementos que possam assumir relevância no entendimento do texto. Todos estes elementos devem ser contemplados nas notas e discriminados para que seja mais simples a sua pesquisa e identificação.

Anotar uma obra como Ulisses levanta inúmeros problemas tendo em conta o seu carácter oscilante mesmo em formato tipográfico. Para anotar uma obra como esta para além das indicações básicas, tem de se ter em conta as diversas oscilações que o texto foi sofrendo e que determinaram de forma indelével as cambiantes interpretações que se fazem da obra. Devem incluir-se referências e contrastar versões,  tanto dos ditos “accidentals” como dos “substantives”. É um trabalho paulatino, que requer uma grande capacidade organizativa e o uso do discernimento e sentido crítico por parte dos editores, pois apesar de ser propenso ao tratamento em hipertexto, Ulisses requer também algum distanciamento e sentido de descoberta gradual. Em ambiente electrónico encontrei muito poucas anotações à obra, geralmente dedicadas a passos específicos e em número reduzido, e nenhuma delas passa pelos processos de contraste de várias versões e pelas camadas progressivas de anotações. A criação de uma edição electrónica da obra, para além dos elementos fundamentais a qualquer boa edição que já referi acima, deve conter esta ferramenta de pesquisa e informação, que se torna fundamental numa leitura de um texto como este Proteu dos tempos modernos.

 

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Conclusão

 

Para além de ser uma das obras primas da literatura e uma da mais aliciantes e angulosas experiências de leitura por que passei, Ulisses é também uma obra materialmente instável. A sua estrutura torna-a propensa a uma leitura e tratamento em ambiente hipertextual, mas como procurei demonstrar anteriormente este é um trabalho que se encontra ainda numa fase embrionária, quer pela falta de  iniciativas, quer pelas limitações que respeitam ao acesso a materiais importantes e ao próprio texto, que foi novamente colocado sob “copyright” com o alargamento do período legal para 70 anos após a morte do autor.

Há vários projectos disponíveis em linha, mas revelam-se ainda muito insuficientes e incompletos para tratar toda a riqueza e complexidade de uma experiência como a de Ulisses. Creio aliás que será uma questão de tempo até que surja uma edição mais completa e organizada, elaborada por pessoas competentes no estudo do universo joyciano, satisfazendo desta forma as necessidades dos leitores e estudiosos da obra, permitindo-lhes uma exploração e descoberta mais proveitosa que lhes poupará a sensação de perda e alienação que as personagens e os leitores sentem ao percorrer uma Dublin magistralmente traçada e sentida. De facto, o título “Bloom ou a arte de sobreviver com os despojos do dia” (cf. artigo de Abílio Hernandez Cardoso) parece-me singelamente adequado a toda esta odisseia de um dia numa qualquer Dublin perdida num espaço e num tempo nostálgico, que por mais referências espaciais e temporais que tenha vive sempre num tempo e espaço que só ao leitor pertence. Dublin surge como a última das cidades íntimas e o reduto para a descoberta e a expressão crua da alma humana. É uma demanda e uma experiência difícil, intransponível, sombria, sinuosa, dolorosa, dúbia, de perda, ambígua, única, proteica, íntima e universalmente sentida e muito mais... Qualquer leitura e cada caminho trilhado serão sempre um esquisso dos seguintes. Iniciada a viagem teremos força para mais um novo dia e mais um mergulho no universo criativo joyciano? “yes I will yes.”

 

Julho de 2004

Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra

© Ana Catarina Margarido Ferreira, catarina.margarido@iol.pt

 

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Notas

[1] Para a enumeração destas características recorri às Guidelines for Editors of Scholarly Editions, da MLAA (Modern Language Association of America) em http://sunsite.berkeley.edu/MLA/guidelines.html, acesso a 8 de Julho de 2004

 


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