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Edições e arquivos electrónicos: o caso do The Walt Whitman Archive

Odília Gaspar


 

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Introdução

1. Do códice ao hipertexto

2. Caracterização do The Walt Whitman Archive

3. Limitações e potencialidades do The Walt Whitman Archive

3.1. Confronto com critérios já definidos para a elaboração de edições electrónicas

Conclusão

Bibliografia

 


Introdução

 

As edições em meio electrónico revolucionaram a forma como pensamos nos textos e na relação que, seja enquanto editores ou leitores, temos com eles. Talvez seja este o único aspecto que una quem argumenta a favor ou contra este tipo de edições.

A secção inicial deste trabalho visa reflectir sobre os problemas com que a crítica textual se deparou na preparação de edições impressas. Interessará verificar como estas questões irão influenciar o processo editorial das edições em meio electrónico, se oferecem soluções para os problemas existentes e, ainda, fazer um levantamento das implicações que trazem.

Mas mais do que nos ficarmos pela teoria, interessa ver como esta se materializa na prática e tirar conclusões daí, pois uma teoria bem fundamentada tem que evocar argumentos que resultem da sua aplicabilidade prática. Só assim poderemos atestar, ou não, a sua validade. Neste trabalho o caso prático escolhido é o The Walt Whitman Archive, cujos editores são Ed Folsom e Kenneth Price. É um projecto abrangente e com objectivos bastante ambiciosos. Verificaremos como estes estão a ser cumpridos. Interessará também comprovar não só a forma como o arquivo tira partido das potencialidades que o hipertexto oferece, mas também a forma como lida com as limitações que lhe impõe. A maior ou menor consciência das limitações e/ou falhas do arquivo por parte dos editores será igualmente alvo de atenção, bem como da forma como eles as tentam, ou não, colmatar.

 

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1. Do códice ao hipertexto

 

As novas tecnologias vêm alterar a forma como conceptualizamos e editamos os textos e põem em causa não só o papel do editor, mas também a relação do leitor com o texto.

A crítica textual tem-se debatido, desde sempre, com o problema da fixação de um “copy-text” [i] e da autoridade que este assume. A classificação genealógica dos manuscritos prevaleceu durante muito tempo, reduzindo a crítica textual a um conjunto de regras invariáveis e, consequentemente, relegando o papel do editor para segundo plano. São autores como Houseman e Greg que vêm revolucionar a prática editorial feita até aí, aproximando-se da prática editorial moderna cujo objectivo é estabelecer um texto que se aproxime o mais possível da intenção autoral. Mas isso não implica que se siga um único texto cegamente. Greg defende que “authority is never absolute, but only relative” (Greg, “The Rationale of Copy-Text”, p. 20). Tomar um certo texto como “copy-text” até aí significava segui-lo rigorosamente a nível da forma e do conteúdo. Greg discorda e estabelece a diferença entre “accidental readings” e “substantive readings” (Greg, op. cit., p. 22). As primeiras estão relacionadas com a apresentação formal do texto. Neste caso, Greg argumenta que se deve seguir o “copy-text” escolhido. É no tratamento das “substantive readings” que os problemas surgem. A crítica textual anterior a Greg entendia que as leituras que o “copy-text” escolhido possuía eram as únicas verdadeiras, pelo que todas as outras seriam rejeitadas. No entanto, pode-se pôr em causa a sobrevalorização de tal “copy-text”. Greg afirma que “it may happen that in a critical edition the text rightly chosen as copy may not by any means be the one that supplies most substantive readings in cases of variation” (Greg, op. cit., p. 27). Assim, tenta-se não só desmistificar a “tyranny of copy-text” (Greg, op. cit., p. 27), mas também reinstalar o papel do editor como primordial.

G. Thomas Tanselle põe a questão em termos de objectividade vs. subjectividade. A tónica posta num ou noutro aspecto tem repercussões na forma como as questões textuais são abordadas, nomeadamente na autoridade que é dada ao “copy-text” e na maior ou menor liberdade para fazer alterações. A tentativa de atingir a objectividade absoluta no processo editorial, e ao contrário do que se poderia pensar, pode afastar-nos da intenção autoral. O editor tem sempre que interferir neste processo, seja em menor escala, como na determinação de leitura possíveis, seja em maior escola, na determinação de um “copy-text”. Na verdade, “the judgement of an editor, fallible as it must necessarily be, is likely to bring us closer to what the author wrote than the enforcement of an arbitrary rule”(Greg, op. cit., p. 27). Fredson Bowers vai mais longe ao dizer que “whilst rules and theories are necessary, the very nature of editing means that a certain amount of editorial judgement will always be needed” (in Kathryn Abram “Electronic Textuality”, p.1). É importante guiarmo-nos por um texto, mas esse mesmo texto pode não ter autoridade sobre os outros no que diz respeito às “substantive readings”, pelo que o editor terá sempre de fazer escolhas e usar o seu bom senso para construir a sua edição de um determinado texto. No caso das edições impressas, a primeira edição irá reclamar autoridade – mais nos “accidentals” do que nas “substantive readings”. No que diz respeito aos manuscritos, a situação é diferente uma vez que entre eles não se estabelece uma relação ancestral, como entre as edições impressas, mas sim uma relação colateral, em que cada um deriva do original independentemente. Segundo David Greetham mesmo hoje em dia estabelecem-se dois polos: um que argumenta que se pode estabelecer uma leitura correcta de um texto “given enough information about the texts and enough intelligence and inspiration on the part of the editor” (Abram, op. cit., p.2). No pólo oposto estão aqueles que acreditam que “any speculation on the part of an editor is likely to result in a move away from authorial intention” (Abram, op. cit., p.2) e, por isso, “documental evidence should be given priority over editorial judgement and wherever possible this documental evidence should be in the form of one document – that chosen as the copy-text” (Abram, op. cit., p.2).

Jerome McGann vai mais longe do que os autores anteriores. Enquanto estes questionavam qual o texto que deveria se elegido como “copy-text” e como se deveria encarar a inclusão de alterações, McGann vai questionar a própria eleição de um texto o mais correcto possível e o mais próximo da intenção autoral. Nesse caso, “every text, is unique and original to itself when we consider it not as an object but as an action. That is to say, this text is always a new (and change) originality each time it is textually engaged” (McGann, “Text and Textualities”, p. 183). Desta forma, cada texto contém um valor próprio que o aproxima, mas também o afasta, do original. Aqui está em causa não só o valor do texto, mas do que ele representa para uma dada sociedade e a forma como ele é modificado por esta, pois “no book is one thing, it is many things, fashioned and refashioned under different circumstances” (McGann, “Textonics: Literary and Cultural Studies in a Quantum World”, 2002, p. 14). A distinção entre texto e paratexto pode ser útil em determinadas circunstâncias, mas pode excluir determinadas características como a tinta, o tipo de papel ou o tipo de letra, entre outras, que, por não serem linguísticas, não são tidas em conta pela crítica textual. McGann afirma que “it is the rare editor or bibliographer who is conscious of the semiotic function of bibliographical materials, much less of their place in the autopoietic process of textuality as such” (Abram, op. cit., p.2McGann, “Text and Textualities”, p.15). Assim sendo, cada edição de um livro/texto terá o seu próprio valor, não só a nível textual, mas também a nível histórico e social.

Pensar em fazer uma compilação das várias edições de um determinado livro será quase impensável, seria demasiado dispendioso. Este é este um dos aspectos em que o hipertexto se apresenta como uma alternativa viável às edições impressas. Primeiro porque permite armazenar grandes quantidades de informação, mas não só. Peter Donaldson diz que “technology can be used to create new forms of text that incorporate variants in a way that is not practical in a codex edition” (Abram, op. cit., p.2). Desta forma, o hipertexto poderia constituir uma solução para o problema da eleição de um “copy-text”. Numa edição electrónica poder-se-iam incluir todas as diversas “substantive readings” que uma obra pode suscitar. Mas mais do que isso, atendendo à teoria de McGann de que cada obra possui um valor próprio, que se materializa de forma independente da obra original a partir da qual foi produzida, o hipertexto pode permitir o acesso a todas as edições de uma obra. Assim, David Greetham chama a atenção para o facto de o problema da intenção autoral estar resolvido, uma vez que há espaço numa edição electrónica para incluir todas as variantes. Na opinião de Kelvin Everest esta não é uma mais valia, visto que “the very aspiration to a naturalistic effect calls attention to the futility of the project, which is driven to try to include more and more material, in a bid for inclusiveness which can never exhaust itself in completion”(Kelvin Everest, “Historical reading and editorial practice”, p. 195). Contudo, verifica-se que, para além de poderem ajudar na preparação e na produção de edições impressas, os textos electrónicos também oferecem um novo meio de publicação através de edições electrónicas ou de arquivos electrónicos disponíveis em linha ou em cd-rom.

É certo que o hipertexto se apresenta como solução para alguns dos problemas com que os editores se deparam, mas Kathryn Abram chama a atenção para o facto de que estas novas edições também levantam novas questões. David Greetham afirma que perante uma edição electrónica o papel do editor é como que passado para o leitor, na medida em que cabe a este estabelecer o seu próprio percurso de leitura de acordo com as suas necessidades. “The traditional concept that textuality is linear (…) need not dominate the user’s experience of electronic editions” (Peter Shillingsburg, “Electronic Editions”, p. 164). Ou seja, a linearidade que caracteriza as edições impressas não se concretiza da mesma forma no hipertexto, pois este permite a descentralização da escolha de um texto central em prol da inclusão de todos os textos. Também constitui um avanço visto que permite cruzar informação de forma mais rápida e eficaz. Exemplo disso é o trabalho que está a ser desenvolvido por Peter Robinson na edição electrónica dos Canterbury Tales de Chaucer [ii]. Ao não seguir um percurso de leitura previamente estabelecido pelo editor, McGann defende que este tipo de edição liberta o leitor, “the computerized structure allows the reader to undertake searches and analyses of the material that would have been impossible, even unimagined, in a codex environment” (McGann, “The Rationale of Hypertext”, 1996, p. 68). Contudo, no entender de P. Aaron Potter isso não acontece, pois à semelhança dos editores das edições impressas, também os editores das páginas da Internet controlam o material que disponibilizam e também condicionam o seu acesso ao escolherem determinadas hiperligações em certos pontos da edição/arquivo. Potter chega mesmo a afirmar que as hiperligações são “no more transparent than any reasonable index” (Abram, op. cit., p.2), pelo que os leitores são enganados uma vez que, no seu en in Kathryn Abram “Electronic Textuality”, p.1tender, a liberdade que se promete é ilusória pois os mecanismos de controlo existem, estão é mais dissimulados.

Mas neste contexto há que colocar outra questão: a transferência de parte do papel do editor para o leitor faz com que o editor seja dispensável? Kelvin Everest conclui que sim. A designação por ele dada para o trabalho que pode ser feito com as novas tecnologias é de “electronic archiving”, não “electronic editing”, uma vez que aquilo a que estas edições se propõem é apenas uma recolha de material (Everest, op. cit. p. 197).

A grande vantagem de poder armazenar maiores quantidades de informação também se apresenta como desvantagem. Segundo Susan Hockey há o perigo de este tipo de projectos se tornarem demasiado ambiciosos. Kathryn Sutherland vai mais longe ao afirmar que, ao quererem incluir o máximo de informação possível, o grau de exigência para com o leitor é muito superior àquele das edições tradicionais. George Landow argumenta que o hipertexto traz vantagens ao proporcionar uma maior interacção entre o leitor e o texto, mas ao ter que ser o leitor a seleccionar o seu percurso, ele próprio se pode perder ao deparar-se com um vasto leque de material.

Claire Lamont aponta como vantagem o facto de nas edições electrónicas se poder aceder a anotações mais facilmente. Mas não só, McGann acrescenta que para além destes recursos, também possíveis, ainda que não tão facilmente acessíveis, numa edição impressa, também se podem incluir recursos visuais e auditivos. A destacar será ainda a possibilidade de actualização se tornar mais viável e menos onerosa do que a das edições impressas.

Concluímos que analisar e entender os problemas com que os editores se depararam até hoje ajuda a compreender como o hipertexto pode ajudar na resolução desses problemas.

 

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2. Caracterização do The Walt Whitman Archive

 

O Walt Whitman Archive é, tal como o nome indica, um arquivo dedicado à vida e obra de um dos maiores poetas americanos. Os dois editores do arquivo são Ed Folsom (Universidade de Iowa) e Kenneth M. Price (Universidade de Nebraska-Lincoln). Trata-se de um projecto bastante ambicioso que visa disponibilizar toda a obra de Whitman, incluindo os manuscritos, as edições impressas, toda a crítica textual produzida sobre a sua obra, todas as fotos que são conhecidas e reproduções áudio. De acordo com os próprios editores, o arquivo pretende alcançar objectivos nunca antes conseguidos numa edição impressa. Tirando partido dos recursos que o meio electrónico oferece, o arquivo permitirá colocar novas questões sobre a obra do autor. Os autores dão um exemplo: “Curiously, scholarship has largely ignored Whitman's poetry manuscripts in part because of related problems of access. The manuscripts are scattered widely at over sixty different libraries. Our work on the manuscripts, once completed, ought to significantly alter the conversation about the nature of Whitman's creative process, his compositional practices, and the meaning of some of his key poems” [iii]. Apesar de já ter sido lançado em 1995, certas secções do sítio ainda não se encontram concluídas, uma vez que o processo para incluir todos os materiais a que os editores se propõem é moroso. Contudo, até agora o trabalho publicado pelos editores cumpre criteriosamente os objectivos propostos.

Quanto à sua estrutura, poderíamos dizer que se trata de um arquivo bastante bem organizado. Toda a informação que contém apresenta-se-nos subdividida em catorze secções, às quais podemos aceder da página inicial através de uma barra azul do lado esquerdo ou em qualquer secção do arquivo, uma vez que essa barra é permanente. As designações das secções são bastante específicas quanto ao seu conteúdo, pelo que facilitam a navegação, quer dos utilizadores que só visam conhecer o arquivo, quer daqueles que procuram um assunto específico. Logo numa das secções iniciais é-nos dado conta que a página de entrada do arquivo foi alvo de uma remodelação, em Fevereiro de 2002, com o objectivo de facilitar a navegação e o acesso às diferentes secções [iv]. Nota-se assim, por parte dos editores, uma preocupação com o interface e a consciência de que este influencia a forma como os utilizadores apreendem o conteúdo do arquivo num primeiro vislumbre da página inicial. A mudança reflecte também uma tentativa para que a página de entrada seja o mais “user-especific” (McGann, “Textonics: Literary and Cultural Studies in a Quantum World”) possível, o que advém da necessidade que os editores sentiram em avaliar o seu trabalho e a forma como este era espelhado pela página de entrada. Uma grande inovação trazida pela mudança de página inicial, à qual já foi feita alusão, é a inclusão de uma barra lateral, com todas as secções do arquivo, e que acompanha o trajecto do utilizador por todas as secções e subsecções do arquivo. A navegabilidade é assim facilitada, sendo que o utilizador tem mais liberdade em saltar de secção para secção, construindo um percurso de acordo com os seus interesses.

Tal como o nome indica, ao tratar-se de um arquivo, os editores não se ocupam de uma obra de Whitman em particular, mas todas as suas obras.

Uma das secções dedicada à sua obra é a secção “Whitman’s Manuscripts” (http://www.whitmanarchive.org/manuscripts/), que se encontra subdividida em quatro secções. A primeira dá pelo nome de “Poetry Manuscripts” e permite-nos aceder a transcrições diplomáticas, bem como versões facsimiladas das páginas dos manuscritos de onde essas transcrições são feitas. A página encontra-se em constante actualização à medida que novas transcrições vão sendo feitas [v]. A segunda sub-secção – “Notebooks from the Library of Congress” - dá-nos ligação a uma página do sítio da “Library of Congress” dedicada aos cadernos de apontamentos de Whitman (http://memory.loc.gov/ammem/wwhtml/wwhome.html). A terceira secção, “Integrated Guide to Walt Whitman's Poetry Manuscripts”, também em construção, relaciona cada um dos manuscritos com as publicações impressas. Por fim, na última secção, “Finding Aids for Manuscripts at Individual Repositories” <http://www.whitmanarchive.org/manuscripts/manuscriptsframeset_files/findaidsindex.html>, são-nos descritas compilações de materiais originais de Whitman, relacionando-os sempre que possível com outros materiais, como fotografias, correspondência ou outros. Como podemos concluir, pela enumeração e breve descrição das secções, há uma preocupação por parte dos editores em incluir o máximo de recursos possíveis que ajudem o utilizador a ter um conhecimento mais aprofundado da obra de Whitman. Há que destacar que são recursos aos quais dificilmente teríamos acesso, pelo menos numa única fonte ou num único local, se esta se tratasse se uma publicação impressa. A vantagem do meio electrónico aqui é muito explícita, uma vez que nos permite cruzar informação alojada em diferentes locais “físicos”, sem que o utilizador tenha de se deslocar. Merecedor igualmente de destaque é o trabalho dos editores ao apresentarem resultados das associações que podem ser feitas entre os manuscritos e outros materiais. Desta forma, verificamos que o arquivo não se resume a uma compilação da obra de Whitman, mas envolve também um trabalho de investigação, e de edição, cujos resultados nos são facultados.

A obra mais emblemática de Whitman, Leaves of Grass, teve seis edições muito diferentes umas das outras. É um dos objectivos dos editores disponibilizarem essas seis edições em linha na secção “Whitman’s published Works” (http://www.whitmanarchive.org/works/). Neste momento já podemos consultar as primeiras quatro. O texto é-nos facultado em formato de página web, sendo que para cada página transcrita existe uma hiperligação para a versão facsimilada correspondente à da edição impressa. O acesso a estas duas versões torna-se importante, uma vez que para além de podermos comparar as duas versões do texto, usufruímos ao mesmo tempo das ferramentas disponibilizadas pelas páginas web de procura, etc.

Para além de conhecermos a obra de Whitman, os editores também nos dão a conhecer a vida do autor através de uma extensa biografia e de uma cronologia, ambas da autoria dos próprios editores [vi].

Contudo, este arquivo não se ocupa só da vida e obra de Whitman, também nos oferece uma perspectiva crítica em relação à sua produção literária. Aliás, os editores afirmam mesmo que apresentam no arquivo a mais completa recolha de críticas à obra de Whitman de que há conhecimento [vii]. Esta compilação inclui não só as recensões críticas mais actuais, como também as contemporâneas de Whitman. Proporciona-se assim ao utilizador uma melhor compreensão da obra de Whitman e a percepção de como esta foi recebida à medida que foi sendo publicada. O utilizador é incitado a contactar os editores no caso de conhecer recensões que não estejam incluídas no arquivo.

Uma outra vantagem que o meio electrónico oferece, e da qual os editores souberam tirar proveito, foi a possibilidade de inclusão de recursos de natureza visual e sonora. A secção “Images of Whitman” (http://www.whitmanarchive.org/gallery/) inclui todas as imagens conhecidas de Whitman, distribuídas por seis décadas (1840 a 1890). Mas as imagens, neste caso, não valem por si só, pois cada uma delas é acompanhada de um comentário que serve de contextualização. É também providenciada uma introdução à galeria feita por Ed Folsom, um dos editores do arquivo. Um outro recurso multimédia é a inclusão de uma gravação em formato MP3 da que se pensa ser a voz do autor lendo quatro versos do poema “America” [viii]. Temos igualmente acesso à vida e obra de três discípulos de Whitman (http://www.whitmanarchive.org/disciples/).

O arquivo contém ainda uma “searchable bibliography (that) contains articles, books, chapters of books, and poems about Whitman, published from 1975 to the present” [ix]. Esta secção dispõe de um motor de busca que permite ao utilizador procurar informação através das seguintes categorias: palavra-chave, autor, título, editor, ano e anotação (a maior parte das entradas da base de dados estão anotadas). Este é um dos dois motores de busca que o arquivo disponibiliza, o outro está alojado na secção “Search” e é mais abrangente, visto que engloba todos os conteúdos do arquivo (http://www.iath.virginia.edu/Architext/AT-Whitmanquery.html).

Depois de apresentados os conteúdos-base do arquivo, conclui-se que os editores pretendem, e quanto a mim conseguem, fazer deste arquivo um sítio bastante abrangente, que proporciona uma visão geral, mas ao mesmo tempo paradoxalmente específica, da vida e obra de Whitman. O rigor, a preocupação e o empenho na codificação do texto, na reprodução digital dos manuscritos e das imagens, e na organização do arquivo são evidentes em todas as secções e comprovam os altos padrões estabelecidos pelos editores na construção de um arquivo credível e de alta qualidade.

No que diz respeito aos critérios utilizados para elaborar o arquivo, mais especificamente a transcrição dos manuscritos, que é o aspecto que levanta mais questões, há vários locais dedicados a explicar rigorosa e detalhadamente a metodologia utilizada. Um desses locais é a subsecção “Technical Summary” (http://www.whitmanarchive.org/introduction/), à qual temos acesso na “Introduction”. Esta subsecção ramifica-se, por sua vez, em cinco hiperligações: “Methodology and Standards”, “Imaging”, “Network Communication”, “Access Tracking” e “Backup and Record Keeping”. O utilizador encontra aqui descrito, de uma forma bastante pormenorizada, todo o processo técnico de construção do arquivo. Não só são dados a conhecer os métodos de codificação do texto e transposição das imagens, como também os servidores do arquivo, entre outros dados. Existe ainda outro local dedicado a questões mais técnicas. Trata-se da secção “Encoding Guidelines” (http://www.whitmanarchive.org/guidelines/index.html), inserida na secção “Introduction”. Entrar nesta secção significa entrar numa página cuja estrutura é paralela à da página de entrada do arquivo e que dá pelo nome de The Walt Whitman Arquive – Encoding Guidelines for Poetry Manuscripts. Também esta serve de página de entrada para variadíssimas secções e subsecções onde se fornecem informações e descrições minuciosas, e creio que exaustivas, sobre a transcrição de manuscritos de poesia. A vasta quantidade de informação de nível técnico contribui não só para a transparência no processo de codificação do material apresentado, justificando as escolhas dos editores, mas também confere credibilidade ao arquivo.

No que diz respeito aos destinatários do arquivo, os editores afirmam que este é acessível a “scholars, students and general readers” [x] para quem a obra de Whitman tenha algum interesse. Concordo com os editores em certa parte, na medida em que é disponibilizada muita informação e de diferente natureza que permitiria ao utilizador desconhecedor da obra de Whitman navegar pelo arquivo sozinho, mas também a um especialista encontrar material de grande interesse.

No entanto, penso que o arquivo contém secções que, talvez não especificamente elaboradas para especialistas ou entendidos na obra de Whitman, mas que acabam por ser mais úteis na investigação. Uma delas é o “Integrated Guide to Walt Whitman's Poetry Manuscripts” que nos descreve cada um dos manuscritos de poesia de Whitman, relacionando-os com as publicações impressas. A outra secção, que ainda não está concluída, intitula-se “Finding Aids for Manuscripts at Individual Repositories” e permite aceder a descrições de compilações de materiais originais de Whitman. Para além de informação acerca de cada item, também são descritos materiais associados, como correspondência e/ou fotografias, entre outros. Estes são apenas dois exemplos que mostram que, apesar de toda a informação disponível no arquivo adquirir importância no ensino, a aprendizagem e/ou investigação da vida e obra de Whitman, algumas secções serão melhor aproveitadas no ensino pós-secundário ou na investigação. Isso mesmo é verificável na secção “Teaching materials” (http://www.whitmanarchive.org/teaching/), que se subdivide em duas secções. A primeira dá-nos acesso aos programas das cadeiras leccionadas pelos editores nas respectivas universidades. A segunda remete-nos para uma página fora do arquivo, intitulada The Classroom Electric – Dickinson, Whitman and American Culture (http://jefferson.village.virginia.edu/fdw/). Este projecto, que data de 2001, é apoiado pelo US Department of Education’s Fund for the Improvement of Post-Secondary Education (FIPSE). Esta página contém diversos artigos sobre Emily Dickinson, Walt Whitman e a cultura americana do século XIX, aos quais podemos aceder segundo várias linhas de pesquisa. Deste modo, verificamos que a informação disponibilizada é mais direccionada a professores e alunos do ensino pós-secundário. No que toca à investigação há ainda que referir que o arquivo poderá conter várias vantagens. Para além das secções já acima referidas, lembramos que este arquivo constitui uma base de dados bastante alargada que reúne num só local o material que está disperso por diversas bibliotecas e instituições americanas.

Quanto à propriedade, o Walt Whitman Archive, como um todo, está protegido por direitos de autor que pertencem aos dois editores – Ed Folsom e Kenneth Price. A publicação ou reprodução com fins comerciais de qualquer material disponível no sítio, sem a autorização dos editores, é proibida. Os direitos de autor das imagens reproduzidas são propriedade das instituições e das pessoas que as disponibilizaram.

Apesar de serem bastante peremptórios nas informações disponibilizadas na secção “Conditions of Use” (http://www.whitmanarchive.org/fair_use/), encontramos noutra secção [xi] referência a duas situações distintas no que diz respeito à utilização do material e à propriedade deste. Por um lado, há que considerar a obra de Walt Whitman que, como é referido pelos editores, já não se encontra protegida pelos direitos de autor e, por isso, pode ser citada sem que seja necessária autorização. Contudo, todas as outras informações e materiais disponíveis (introduções editoriais, anotações, a biografia e as recensões críticas) têm direitos de autor, podendo ser citadas mas dentro dos limites impostos pelos direitos de propriedade. Na secção “Conditions of Use” providencia-se ao utilizador, através de uma hiperligação, informação sobre os direitos de autor e as restrições e obrigações que eles implicam. Os editores indicam também, exemplificando, como se deve citar alguma informação contida no arquivo. Para um uso mais extenso destes materiais pede-se ao utilizador que entre em contacto com os editores.

O projecto é financiado e apoiado pelo National Endowment for the Humanities, o US Department of Education, o Institute of Museum and Library Services, a Universidade de Iowa, a Universidade de Nebraska-Lincoln e o Institute for advanced Technology in the Humanities na Universidade da Virginia. Esta é a informação que encontramos na página inicial do arquivo. Contudo, há uma secção própria (http://www.whitmanarchive.org/credits/) em que são referidas todas as entidades que contribuem o projecto. Encontramos ainda junto a cada manuscrito ou publicação uma referência à instituição ou entidade que cedeu o material. Igualmente a referir é a secção “Staff” (http://www.whitmanarchive.org/staff/) na qual são elencados todos os elementos que, de alguma forma, directa ou indirectamente, ajudaram a conceber o arquivo. Dos colaboradores mais importantes é disponibilizada uma foto, bem como um pequeno artigo sobre os seus interesses e artigos publicados. Os restantes colaboradores são igualmente identificados, bem como a área em que trabalharam.

O acesso ao arquivo é livre [xii] e gratuito.

 

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3. Limitações e Potencialidades do The Walt Whitman Archive

 

O The Walt Whitman Archive é um exemplo positivo de como o meio electrónico veio alterar a forma como os textos são editados. A obra de Walt Whitman sempre colocou problemas ao nível da sua edição impressa, sobretudo uma edição que pretendesse reproduzir toda a sua produção literária. Reunir num só volume as seis diferentes edições de Leaves of Grass, juntamente com anotações, uma biografia do autor e ainda algumas fotos seria impensável. Ora o arquivo em análise proporciona-nos isso e muito mais.

A vantagem da grande capacidade de armazenamento da informação é óbvia e este é, no fundo, um aspecto fundamental com que a crítica textual sempre se debateu. Se pensarmos que neste tipo de edições há espaço para incluirmos todas as edições de uma determinada obra, como é o caso da Leaves of Grass, a problemática criada em torno da eleição de um “copy-text” não se põe. O meio electrónico permite a descentralização, pelo que o utilizador pode aceder a qualquer um dos textos, sem que haja um texto central que guie a sua leitura. As críticas que se podem colocar quanto a este aspecto não são especificamente direccionadas a este arquivo, mas ao tipo de edição que o meio electrónico proporciona. O facto de não haver um percurso pré-estabelecido pode exigir demasiado do leitor/utilizador e levar à sua dispersão. Penso que a forma como o arquivo está estruturado facilita não só a visualização, como o acesso aos diferentes conteúdos. A inclusão de uma secção introdutória ao arquivo adquire importância pois providencia ao utilizador uma visão geral do mesmo, o que facilitará a sua consulta. A inclusão de um texto introdutório e/ou explicativo em praticamente todas as secções minimiza a dispersão, uma vez que o seu conteúdo é, dessa forma, contextualizado.

A propósito da navegação, Peter Shillingsburg afirma que o utilizador deve poder voltar atrás no arquivo até ao ponto em que iniciou o seu percurso. Nas diversas vezes que consultei o arquivo não tive problemas em reconstituir o percurso que tinha empreendido através da ferramenta “retroceder” providenciada pela página web. No entanto, o que Shillingsburg propõe vai para além disso, ele defende que o próprio arquivo deveria disponibilizar ao utilizador um mecanismo através do qual o percurso do utilizador fosse registado e este tivesse acesso a ele em qualquer altura. De facto, o utilizador não tem bem a noção de quanto do arquivo é que já consultou, “one can move anywhere and it appears that one has moved only a screen away” (Shillingsburg, Peter, “General Principles for Electronic Scholarly Editions”, p.4). Esta crítica resulta claramente da comparação da leitura possível numa edição impressa. O arquivo em análise não disponibiliza a função acima enunciada, mas desconheço um arquivo electrónico/edição electrónica que o faça.  

Voltando ainda às dificuldades com que a crítica textual se deparou ao longo do tempo, analisamos agora o caso da obrigatoriedade de escolha entre várias “substantive readings”. No meio electrónico esta deixa de fazer sentido, na medida em que o utilizador pode ter acesso a todas as leituras possíveis de um determinado passo através de uma hiperligação. Em alguns casos, tal como é o caso deste arquivo, como são providenciadas cópias facsimiladas dos manuscritos, juntamente com transcrições diplomáticas dos mesmos, também o utilizador pode tirar as suas próprias conclusões. Acho que ao ter contacto com este tipo de material, o utilizador apercebe-se melhor do papel que o editor tem na elaboração de uma edição impressa e de como esse pode mudar na realização de uma edição electrónica.

A construção de um percurso próprio por parte do utilizador, em lugar do seguimento de um percurso previamente estabelecido por um editor, não só é possível neste arquivo, como a inclusão da barra lateral auxilia em muito essa tarefa. Decerto que este deve ter sido um benefício em que os editores pensaram ao incluí-la. Uma vez que ela se encontra sempre disponível, qualquer que seja a secção ou subsecção em que o utilizador se encontre, a navegabilidade pelo arquivo é facilitada. O facto de se poder saltar de secção para secção mais facilmente permite ao utilizador relacionar conteúdos e cruzar informação de natureza semelhante (entre dois textos, por exemplo) ou de natureza diferente (entre um texto e uma imagem, por exemplo). A facilidade de cruzar informação também está intimamente ligada com a possibilidade de armazenar grandes quantidades de informação num só sítio. É um outro ponto positivo de que os editores souberam tirar partido e que já foi mencionado na secção anterior.

Os dois motores de busca disponibilizados no arquivo também facilitam o cruzamento de informação. O que está incluído na secção “Bibliography” será mais restrito, na medida em que remete para apenas para conteúdos incluídos na secção. Porém, o motor de buscar inserido na secção “Search” é mais abrangente, permitindo a pesquisa de todo o conteúdo do arquivo. A procura de um determinado aspecto na obra de Whitman irá abranger não só as ocorrências na sua obra, como as ocorrências na crítica textual produzida em torno dela.

“Our goal is to create a dynamic site that will grow and change over the years” [xiii] parece ser o lema adoptado pelos editores que apostam num trabalho de qualidade. Esta afirmação pressupõe também que se proceda a avaliação durante o processo de construção do arquivo, na medida em que só assim se poderá mudar para melhor. De facto, há vários indícios que nos revelam que os editores se preocupam em avaliar o seu trabalho, o mais evidente para o utilizador é a mudança da página de entrada. Decerto que ao fazê-lo os editores devem ter tido em mente o que seria melhor para o utilizador aceder ao conteúdo do arquivo. Um outro aspecto que deve contribuir como avaliação do arquivo é o facto de o acesso ao site ser gravado diariamente [xiv]. Isto permite aos editores saber, por exemplo, que secções são mais frequentadas, os textos ou imagens consultados pelos utilizadores ou de onde é feito o acesso ao sítio (através de sítios dedicados ao ensino ou sítios comerciais). Este tipo de registo tem grandes potencialidades; não só permite saber quais os conteúdos que os utilizadores procuram mais, mas também pode potencialmente revelar zonas do arquivo que passam despercebidas ao utilizador, por exemplo por a hiperligação fornecida não ser suficientemente explícita quanto ao seu conteúdo. Julia Martin e David Coleman referem que “documents prepared without carefully considering how people Access or read information inevitably end up as a digital landfill” (Julia Martin e David Coleman, “Change the Metaphor: The Archive as an Ecosystem”, p. 1). Este é apenas um exemplo da importância que este tipo de registo pode assumir, pelo que acho que este é mais um aspecto positivo a apontar aos editores do arquivo.

Um conceito que faz sentido salientar neste contexto é o de “migration”: “Migration is a set of organized tasks designed to achieve the periodic transfer of digital materials from one hardware/software configuration to another, or from one generation of computer technology to a subsequent generation. The purpose of migration is to preserve the integrity of digital objects and to retain the ability for clients to retrieve, display, and otherwise use them in the face of constantly changing technology” (J. Martin e D. Coleman, op. cit., p. 4). A capacidade de adaptação às novas tecnologias é essencial para que um trabalho de anos não se perca. Para evitar isso, também é necessário que os editores possuam cópias do material incluído no arquivo. No caso do The Walt Whitman Archive, os editores afirmam que para além de “hard-copies” de tudo, a informação do arquivo é guardada em formato digital diariamente [xv]. Esta tarefa está a cargo da Universidade da Virgínia. Deste modo, verificamos que há uma interdependência entre o meio impresso e o digital. Os originais impressos estarão disponíveis se houver alguma falha no sistema e as cópias digitais salvaguardam os manuscritos e as cópias impressas de se deteriorarem (Willett, Perry, "The Victorian Women Writers Project: The Library as a Creator and Publisher of Electronic Texts”) ou no caso de estas serem destruídas, por exemplo por um incêndio [xvi]. O nome de um projecto da Universidade de Stanford ilustra perfeitamente este ponto: LOCKSS – “Lots Of Copies Keep Stuff Safe” (J. Martin e D. Coleman, op. cit., p. 5).

John Unsworth levanta algumas questões que poderão ser úteis na avaliação, dos sucessos, mas sobretudo dos fracassos, de projectos que utilizam o hipertexto como suporte. Segundo o autor, é imprescindível documentar os fracassos e a forma como estes foram ultrapassados. As conclusões que se poderão retirar destas reflexões sobre como solucionar um problema podem ser úteis para projectos semelhantes ou em outras áreas que à partida não estarão ligadas ao hipertexto. Sabe-se que dos primeiros projectos em meio electrónico não houve registos pois os editores dos projectos não sentiram necessidade de preparar documentação. De facto, antes da TEI, não havia metodologia comum para descrever e documentar textos electrónicos (Susan Hockey, “Electronic Texts: The Promise and the Reality”, p. 3). Por isso, a primeira responsabilidade dos editores “(...) is to document what we do, to say why we do it, and to preserve the products of our labour, not only in their fungible, software-and-hardware-independent forms, but also in their immediate, contemporary manifestations. The greatest mistake we could make, at this point, would be to suppress, deny, or discard our errors and our failed experiments: We need to document them with obsessive care, detail and rigor” (John Unsworth, op. cit., p. 9). Os editores do The Walt Whitman Archive apontam para isso mesmo ao afirmarem que se esforçam para “make our (their) mistakes correctable” [xvii], isto é, não basta só ter consciência dos erros, mas também encontrar uma forma de os corrigir mais facilmente.

Um exemplo que ilustra de que forma isto se consegue é-nos dado pelo The PerseusProject. Para este projecto, os editores responsáveis criaram uma versão da SGML que se adaptasse às suas necessidades. Mas quando surgiu a necessidade de corrigir certos erros, ou introduzir alterações nos textos já codificados, estes tiveram de ser feitos manualmente, o que demorou muito tempo. Esta experiência serviu para os editores criarem novas “tags” que facilitassem alterações futuras, mas também serviu para que outros editores ficassem alerta para este tipo de situações (Gregory Crane, “The Perseus Project and Beyond”, 1998). No caso do arquivo em questão este tipo de reflexão também é feita e é útil não só para os utilizadores, mas também serve de exemplo para editores de outros projectos.

O espaço no arquivo dedicado à meta-informação evidencia por si só a preocupação dos editores em dar a conhecer o processo de elaboração do arquivo. Contudo, John Unsworth argumenta que “Theory has one set of responsibilities, and craft has another. (…) Where experimental endeavors are concerned , theory ought to be able to explain, predict, and produce practical results, and practice ought to provide the occasion to test, implement, modify, or falsify theoretical assertions” (John Unsworth, “The Importance of Failure”, p. 3). Assim, toda a teoria que nos é enunciada sobre como o arquivo foi construído de pouco servirá se não providenciar, na prática, um arquivo bem estruturado e de fácil acesso ao utilizador. De nada valerá a perfeita transcrição de uma manuscrito se depois o utilizador não a conseguir localizar. A indissociabilidade entre teoria e prática, bem como a necessidade de avaliação quer do trabalho durante a elaboração do arquivo, quer dos seus resultados práticos, tornam-se fundamentais.

A utilização, as limitações e as potencialidades do arquivo no ensino/aprendizagem e investigação já foram discutidas na secção anterior aquando da caracterização do arquivo [xviii].

 

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3.1. Confronto com critérios já definidos para a elaboração de edições electrónicas

 

Apesar de a elaboração das edições em meio electrónico ainda não estar regulamentada, já foram estabelecidas algumas directrizes que guiam os responsáveis pelos projectos e que nos permitem avaliar o trabalho desenvolvido [xix]. Não se pretende nesta secção fazer uma análise exaustiva de todos esses critérios, mas sim providenciar uma avaliação do arquivo no geral, salientando aspectos que me parecem mais importantes.

Uma das metas a que os editores de uma edição electrónica /arquivo electrónico se devem propor é “enhance the usability and reliability of scholarly editions by making full use of the capabilities of the computer” (op. cit. 2002, p. 1), só assim se explica fazer uso do meio electrónico e não continuar a elaborar edições impressas. Para isso é necessário apresentar um trabalho credível e de qualidade a nível documental, metodológico e editorial. Segundo a Modern Language Association (MLA), estes objectivos são conseguidos através de cinco aspectos: “accuracy with respect to texts, adequacy and appropriateness with respect to documenting editorial principles and practice, expliciteness and consistency with respect to methods” (itálicos meus). De forma geral, podemos afirmar que estes critérios são seguidos pelos editores do The Walt Whitman Archive.

Em relação à estrutura proposta pela MLA para as edições electrónicas, podemos concluir que a estrutura do arquivo em questão se aproxima bastante dela em muitas secções. Para além de secções dedicadas ao texto, a MLA prevê secções introdutórias à edição, secções que contemplem recursos multimédia, textos explicativos, bibliografia, notas explicativas e índices, entre outras, o que, de facto, existe no The Walt Whitman Archive. A importância da indexação é referida por todos os artigos, tal como a clareza da nomenclatura dada a cada item. Quanto a mim acho que a indexação no arquivo é bastante explícita, não só na página de entrada, como dentro das secções. Será ainda de referir que, ao entrarmos dentro de uma secção, todas as hiperligações enumeradas vêm normalmente acompanhadas de um pequeno texto que sumaria o seu conteúdo. Desta forma, o utilizador tem à partida uma noção do material de que poderá dispor, o que facilita a sua procura.

Um outro requisito é uma introdução geral à edição, seja esta histórica ou interpretativa, e que pode estar ou concentrada numa secção, ou dispersa pela edição. No arquivo em análise, verifica-se que os editores providenciam uma introdução geral sobre o arquivo, sendo que outras introduções, essas sim históricas e/ou interpretativas se encontram dispersas um pouco pelo arquivo, contextualizando ou explicando os aspectos incluídos nas diferentes secções que as acolhem. Também são disponibilizadas anotações explicativas nalguns pontos do arquivo, por exemplo das fotografias de Whitman. Os autores destas directrizes afirmam que apesar de este tipo de notas não serem essenciais, acrescentam valor e utilidade à edição.

Outras formas de enriquecer o arquivo passam pela inclusão de materiais multimédia, como imagens, vídeos, som (audição de poemas), entrevistas, e mapas, entre outros recursos, que permitam ao editor, mas também ao utilizador, tirar o maior partido das vantagens que o meio electrónico põe à sua disposição. No arquivo em análise verificamos a disponibilização de fotografias e da recitação de uns versos do poema “América” de Whitman, crê-se que pelo próprio. Nota-se assim que os editores talvez sejam um pouco selectivos no material que querem incluir no arquivo, pois podiam disponibilizar mais leituras de outros poemas de Whitman, ou até de várias versões do mesmo poema. Há a referência de que no futuro se pretendem disponibilizar mapas para consulta, mas no que toca aos outros recursos, os editores não mencionam a contemplação futura de tais itens. Acho que seria uma mais valia para o arquivo se o tipo de recursos acima mencionados fossem incluídos, ou pelo menos providenciadas hiperligações para eles. Para além de enriquecer o arquivo, seria uma forma de promover a intertextualidade.

Ainda referente à forma como o arquivo interage com o utilizador, Peter Shillingsburg chama a atenção para o facto de que o arquivo deve proporcionar alguma interactividade com o utilizador, fazendo dele um utilizador activo. Este autor refere que também seria oportuno um programa no arquivo que exemplificasse ao utilizador a forma como poderia explorar o arquivo. Não me parece que neste caso se justifique, até porque o utilizador ao ler a parte introdutória ao arquivo fica com uma noção do que pode encontrar. Também não me parece que os conteúdos sejam difíceis de encontrar, visto que a indexação é bastante específica e é disponibilizado um motor de busca para auxiliar nessa tarefa. O arquivo não se torna tão interactivo quanto Peter Shillingsburg recomenda, uma vez que, apesar do utilizador ser encorajado a enviar as suas críticas e sugestões, estas não se encontram disponíveis para os outros utilizadores consultarem. Não temos, por isso, a noção da quantidade de utilizadores, do tipo de utilizadores ou das suas reacções perante o arquivo.

Outras secções a incluir devem ser dedicadas à meta-informação sobre o arquivo e sobre as alterações de que foi alvo. Em ambos os casos, o The Walt Whitman Archive providencia na secção “Introduction” subsecções que nos dão conta das metas que os editores se propõem a alcançar, do que já foi alcançado e como – nomeadamente a nível técnico, bem como das mudanças e adições introduzidas. Também se pede que haja disponível informação sobre os editores e/ou colaboradores. O The Walt Whitman Archive conta com uma secção [xx] exclusivamente com esse fim. Nela, bem como em outras secções do arquivo, são-nos providenciados os endereços electrónicos dos editores.

Recomenda-se que a edição seja expansível, isto é, que facilite a introdução de alterações ou a reformatação de certos conteúdos. Este aspecto é já previsto pelos editores e já lhe foi feita referência nesta secção.

No seu todo, penso que as potencialidades que o hipertexto oferece são bem exploradas pelos editores, oferecendo ao utilizador um arquivo bem estruturado, facilmente navegável e de grande qualidade. As limitações com que me deparei não estão especificamente relacionadas com o arquivo, mas com questões levantadas com o próprio processo de edição em meio electrónico. Apesar disso, acho que os editores, ao estarem conscientes delas, tentaram minimizá-las.

 

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Conclusão

 

O meio electrónico veio, sem dúvida, transformar o processo de edição que era praticado há séculos. Para além de reavivar antigos problemas com que a crítica textual sempre teve dificuldade em lidar, também colocou, e continua a colocar, novas questões que envolvem não só o processo de edição como a relação que o leitor/utilizador estabelece com o texto. As vantagens trazidas por este tipo de edições são muitas. A interactividade do leitor com o texto é muito maior, mas será a liberdade concedida ao leitor demasiada? Quaisquer que sejam as teorias apresentadas será sempre importante, para aceitá-las ou refutá-las, verificar como elas se concretizam na prática.

O caso prático analisado – The Walt Whitman Archive - constitui um exemplo da exploração das potencialidades que o meio electrónico põe à disposição dos editores. Trata-se de um projecto bem estruturado, credível e com altos padrões de qualidade. Os objectivos delineados pelos editores Ed Folsom e Kenneth Price, ainda que não totalmente cumpridos, estão a ser levados a cabo de forma rigorosa. As limitações e/ou críticas que podem ser colocadas ao arquivo são poucas e estão mais relacionadas com as dúvidas que o hipertexto suscita do que com o arquivo em si.

A transição do códice para o hipertexto não se adivinha pacífica, acho que até se pode pôr em causa que haja de facto uma transição, uma vez que a ainda estamos perante a interdependência entre os dois tipos de edição. Contudo, quer a posição seja a favor ou contra este tipo de edições em meio electrónico, a verdade é que «hyperediting is “what we will be doing for a long time» [xxi]. Veremos o que o futuro lhe reserva.

 

Julho de 2004

Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra

© Odília Gaspar, dilagaspar@gmail.com

 

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Notas

[i] Conceito usado pela primeira vez por McKerrow em 1904.

[ii] no artigo “Ma(r)king the Electronic Text: how, why and for whom?”, 2000.

[iii] Citação retirada da entrevista dada por Ken Price sobre a história do projecto. Esta encontra-se inserida dentro da secção “Introduction”, na subsecção “History of the Project” - http://www.whitmanarchive.org/introduction

[iv] A página de entrada anterior ainda se encontra disponível e podemos consultá-la através de uma hiperligação fornecida pelos editores.

[v] A última actualização data de 22/7/04.

[vi] Tanto a biografia como a cronologia da vida de Whitman estão alojadas na secção “Biography”- http://www.whitmanarchive.org/biography/

[vii] Confrontar com a secção “Criticism” - http://www.whitmanarchive.org/criticism/

[viii] Ver secção “Audio recording” - http://www.whitmanarchive.org/audio/

[ix] Ver secção “Bibliography” - http://www.whitmanarchive.org/bibliography/

[x] in “Overview of the Archive”, http://www.whitmanarchive.org/introduction

[xi] A informação que se segue é disponibilizada na secção “FAQ”, inserida na “Introduction” - http://www.whitmanarchive.org/introduction/

[xii] De acesso restrito são apenas alguns trabalhos de alunos da cadeira leccionada por Ed Folsom.

[xiii] Citação tirada da entrevista dada por Ken Price e que é transcrita na subsecção “History of the Project”, inserida na secção “Introduction” - http://www.whitmanarchive.org/introduction/

[xiv] Ver secção “Access Tracking”, inserida na secção “Techinal Summary” dentro da “Introduction” - http://www.whitmanarchive.org/introduction/

[xv] Informação disponibilizada na secção “Backup and Record Keeping”, inserida na secção “Technical Summary”, por sua vez incluída na “Introduction” - http://www.whitmanarchive.org/introduction/

[xvi] Exemplo providenciado no artigo “Digital Preservation, Restoration, and Dissemination of Medieval Manuscripts” de Kevin S. Kiernan.

[xvii] Ed Folsom, “Projecting Whitman: The Evolution and Remediation of The Collected Writings of Walt Whitman”, 2001, p. 3. Este artigo está incluído no arquivo na secção “Articles about the Archive”, inserida na “Introduction” - http://www.whitmanarchive.org/introduction/

[xviii] Cf pp. 8-9 e 11-12.

[xix] Os textos que são utilizados como referência nesta reflexão são os seguintes: Shillingsburg, Peter (1993): “General Principles for Electronic Scholarly Editions”, in http://sunsite.berkeley.edu/MLA/principles.html; Modern Language Association of America (Committee on Scholarly Editions) (2002): “Guidelines for Electronic Scholarly Editions”, in http://sunsite.berkeley.edu/MLA/guidelines.html; e, Modern Language Association of America (Committee on Scholarly Editions) (2003): “Guidelines for Editors of Scholarly Editions with Guiding Questions for Vettors, a Glossary, and an Annotated Bibliography”, in http://jefferson.village.virginia.edu/~jmu2m/cse/CSEguidelines.html

[xx] “Staff” - http://www.whitmanarchive.org/staff/

[xxi] Abram cita McGann a este propósito – Abram, op cit, p.4.

 


Bibliografia

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