DigLitWeb: Digital Literature Web

E-E


EPC - Electronic Poetry Center: Novas formas editoriais para novas formas literárias

Cláudia M. J. Pinto


 

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Introdução

Novas formas editoriais para novas formas literárias

Problemas e soluções: o que muda e o que permanece

Conclusão

Bibliografia

 


Introdução

 

Quero primeiramente chamar a atenção para a dupla leitura que o nome deste sítio permite: Electronic Poetry Center; (<http://wings.buffalo.edu/epc/>  <http://epc.buffalo.edu/>) este sítio é, portanto, tanto um centro electrónico de poesia, como um centro de poesia electrónica. Neste duplo nome, diz-nos o que é, sobre o quê e também para quem é. Possibilita aos interessados (académicos, autores ou apenas curiosos) pela poesia contemporânea, principalmente aquela de cariz mais inovador ou mesmo de vanguarda, um centro de recursos em linha muito vasto e diversificado. Serve também como um importante pólo de divulgação para uma nova e ainda muito pouco explorada prática poética.

A poesia electrónica engloba genericamente textos que exploram em ambiente digital as potencialidades quer do hiper-texto quer das facetas icónicas e sonoras da linguagem, indo para além do signo linguístico como único elemento de significação. Desta forma, uma poética electrónica, ou as várias poéticas, exploram a descentralização e não linearidade, a não-narratividade, a interacção do poema com o leitor e com o espaço digital e também o som e o movimento: uma hiper-poética.

Tendo em consideração que o prefixo hiper significa na Física “existindo em mais do que uma dimensão simultaneamente”, uma hiper-poética é aquela onde a linguagem e o signo linguístico, quando no espaço virtual, se desdobram nas suas facetas presença/ausência, intrínseca/extrínseca, simultaneamente: "Materiality is important because writing is not an event isolated from its medium but is, to varying degrees, an engagement with its medium." (Glazier, 2002, citado em Weishaus , 2002); a materialidade plástica do signo ao nível significação eleva-se a um novo mínimo, a forma da letra e o seu som, que invoca por si sentido e sentidos vários. Contudo, o espaço digital não faz mais do que realçar ou tornar visível uma característica inerente à própria linguagem: “One's mind is continually creating and manipulating words and images, in "real" time and in dreams; thus cyberspace is more ethereal than material, as are texts created in it”. (Weishaus,2002) [1] Uma poética electrónica, porque recusando uma centralização ou uma fixidez no espaço e no tempo, corre o risco de se tornar totalmente independente do seu autor, de existir não além dele, mas apesar dele: “Although the Internet lends itself to collaboration over distance, we also need writers who stand behind their words, even with the knowledge that all language is virtually provisional. In fact, not materiality, but the development of an aesthetics of nonlocality, is the challenge that a poetics of cyberspace offers.”(Weishaus,2002)

É porque o espaço virtual da World Wide Web coloca muitos e novos desafios aos autores de poesia que nesta análise, procurarei, mais do que apenas avaliar o sítio do ponto de vista pragmático, da sua concepção e utilização, encontrar também no campo editorial deste “centro de bibliotecas” características semelhantes, em inovação e comunicação, àquelas do conjunto de textos que este se propõe “curar”. Este último termo também define este sítio como um espaço de expressão visual, como uma galeria ou um museu (estes é que têm curadores), pelo que toda a questão da edição se vai redimensionar redimensionando os critérios específicos a estas novas formas de literatura. Da mesma forma é preciso interpretar aquilo em que consiste esta nova forma de expressão - de produção, reprodução e recepção multimédia - que redefine os próprios conceitos de poesia e de textualidade, continuando o romper do paradigma epistemológico iniciado pelos modernistas, já em início do século passado.

 

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Novas formas editoriais para novas formas literárias

 

Hypermedia editions that incorporate audial and/or visual elements are preferable since literary works are themselves always more or less elaborate multimedia forms. When Pound spoke of the three expressive functions of poetry -- phanopoeia, melopoeia, and logopoeia -- he defined the optimal expressive levels that all textual works possess by their nature as texts. Texts are language visible, auditional, and intellectual (gesture and (type)script; voice and instrumentation; syntax and usage). (McGann, 2001)

Hypertext is the word’s revenge on TV. (Joyce: 47)

O EPC – Electronic Poetry Center –  apresenta-se como várias coisas que servem um mesmo objectivo: centralizar e divulgar em edição electrónica e em linha formas de poesia contemporânea formalmente inovadoras, como a poesia concreta e a poesia digital. A inovação e a divulgação são então as “palavras de ordem” deste sítio.

A poesia considerada pelos editores deste sítio como formalmente inovadora é aquela que recusa a linearidade do discurso e o fechamento dos sentidos poéticos pelo autor, em privilégio de uma descentralização e um afastamento do cânone autor-crático e academicista. Enquanto poesia em formato electrónico, estas formas são radicalmente inovadoras na medida em que aquilo que é expresso depende fundamentalmente do suporte onde é expresso e consequentemente, de quem lê/vê/experimenta. Uma das maiores “virtudes” do hipertexto é a interactividade, onde o leitor escolhe a maneira como quer ler/experienciar o texto, em vez de seguir um caminho pré-traçado pelo autor. Podemos falar também da poesia visual, embora mais antiga, na medida em que esta também é concebida para ser exposta, tratando-se de um género em que o signo manifesta a sua materialidade icónica, visual, recusando um centro, um início e um fim. A poesia visual já pressupõe uma não linearidade sintáctica e linguística, uma vez que a produção de sentido – desdobrando-o e permitindo leituras múltiplas – faz-se a partir da forma, da disposição dos signos, no espaço da página. Dificilmente se lerá/verá um poema visual da mesma maneira duas vezes.

Ao nível da edição, na Web é onde se pode ver a maior proximidade entre o texto e a sua edição em linha, já que o texto/poema é concebido para o formato electrónico, para ser exposto e disseminado. Na sua composição, e é aí que altera fundamentalmente o modo de escrever (mais do que exigir uma nova maneira de ler), o autor domina a tecnologia editorial, podendo controlar a forma como esse texto vai ser posteriormente divulgado e reproduzido. Existe uma proximidade intensa, senão uma identificação, entre os elementos linguísticos e os elementos icónicos, visuais, cinéticos e sonoros. Esta proximidade também é o espaço virtual em que este vai ser exposto e consumido: “the realization that the Web is itself an instance of writing” (Glazier, 2002). O texto constrói-se ou materializa-se no espaço virtual/electrónico e nele vive apenas. Ao nível sensorial esta textualidade nova exige uma confluência dos sentidos em interactividade. O leitor torna-se espectador, o leitor torna-se parte do sentido, parte do texto. Ele vê, lê, ouve, clica com o rato, interage com os elementos do poema digital no hiper-texto ou no poema multimédia.

Este sítio não se propõe alojar todos os textos mas antes centralizar informação de onde eles se podem encontrar na Web, quer em páginas pessoais de autores fora da EPC, quer em revistas (e-mags ou e-zines) deste tipo de poesia. Na página de introdução, http://epc.buffalo.edu/intro.html, os responsáveis pelo EPC esclarecem os seus objectivos e providenciam uma breve explicação da estrutura do sítio e do que nele se pode encontrar. Assim, o EPC apresenta-se como um centro de recursos em linha, providenciando a catalogação e a indexação de materiais de natureza diversa que possam servir os interesses científico, artístico e pedagógico relacionados com novas formas de poética.

Existe no EPC uma estrutura tripartida que assenta na diferenciação de materiais em função da sua localização e relação com o Centro. Por um lado, o EPC providencia alojamento, espaço virtual, a uma série de autores e a uma série de projectos poéticos. Estes autores e projectos encontram-se ligados directamente ao EPC através da instituição que aloja e patrocina o sítio, a Universidade de Nova Iorque em Buffalo NY (SUNY) e o Programa de Poética deste importante pólo (http://epc.buffalo.edu/poetics/). Por outro lado, apresenta listas coligidas de sítios semelhantes, com a particularidade de não excluir sítios de outras nacionalidades e outras línguas, como se pode comprovar pela hiper-ligação logo na página de entrada para uma introdução e uma lista de autores e textos em espanhol (http://epc.buffalo.edu/esp/), já que os editores têm a noção de que esta língua é considerada “segunda língua” nos Estados Unidos.

Desta forma, apresenta-nos logo na parte superior da página de entrada (http://epc.buffalo.edu/) uma barra de navegação com hiper-ligações para as várias secções do sítio, barra esta que permanece visível ao utilizador de qualquer outra página ao longo da navegação dentro do sítio, sendo possível a qualquer altura mudar o foco de pesquisa ou voltar à página de entrada. Contudo, além de não haver indicação em todas as hiper-ligações se as páginas são “in-site”ou “out-site [2], apesar de haver algumas que estão referenciadas com a respectiva instituição [por exemplo, “Center for Programs in Contemporary Writing (University of Pennsylvania)], não há, uma vez nestas páginas, maneira de voltar ao EPC a não ser através da função “retroceder” do browser. Para facilitar ainda mais a navegação e a pesquisa poderia estar previsto, na concepção técnica, que qualquer sítio que fosse acedido a partir do EPC, abrisse numa nova janela ou num outro frame dentro da mesma, para não se perder de vista o “Centro” e a respectiva barra de navegação. Um outro aspecto que poderia facilitar, já que o sítio é dirigido por académicos da matéria, seria acompanhar cada uma destas hiper-ligações de uma breve descrição – ou sinalética indicativa -  do conteúdo de cada sítio ou página. Contudo, este sítio permite a um utilizador que queira uma pesquisa restrita apenas sobre e.g. poesia visual canadiana, usar o motor de pesquisa “Google” (para o qual tem uma hiper-ligação logo a partir da página de entrada: http://epc.buffalo.edu/search/ ) que lhe permite pesquisar quer dentro do sítio, quer na WWW, por forma a tornar a pesquisa mais fácil e eficaz.

No que diz respeito à pesquisa no EPC sobre poesia em si, constituem-se assim dois índices alfabéticos, aos quais os responsáveis chamam “bibliotecas”: um de autores (http://epc.buffalo.edu/authors/) e outro que contempla hiper-ligações para poemas, sítios, ferramentas e revistas de poesia electrónica (http://epc.buffalo.edu/e-poetry/). Por outro lado, colige em outras duas secções, facilitando uma pesquisa mais direccionada, sítios na WWW relacionados com este vasto “tema”, numa indexação também alfabética – Links-Alpha (de hiper-ligações para todos os sítios registados, que não sejam páginas individuais de autores) – , ou numa indexação por tipologia de assunto – Links-Subj.

Este sítio não é, portanto, um arquivo fechado, auto-contido, ou uma biblioteca possuidora e responsável por todo o material que apresenta. É antes um “portal” temático, “a central gateway” a partir do qual um utilizador/leitor pode aceder a várias formas de edição em linha. Teremos, portanto, alguma dificuldade em atribuir o nome biblioteca, já que estes textos não partilham um mesmo espaço. Dentro do espaço virtual o EPC encontra-se distribuído por vários servidores: < http://epc.buffalo.edu > < http://wings.buffalo.edu/epc/ > < http://www.writing.upenn.edu/epc/ >. Os textos apresentados não são propriedade do Centro (e sim dos seus autores), mas apenas apresentam uma tipologia de natureza, a electrónica, que tanto pode ser a de produção como apenas a de suporte ou divulgação. Contudo, como uma biblioteca, está construído e organizado para uma indefinida expansão que não depende do espaço. O Centro é apenas o “curador” destes textos, acrescentando-os e indexando-os, não se responsabiliza pela actividade permanente das ligações ou por posteriores mudanças e alterações que os textos que não estão aí alojados possam sofrer. Consultando por exemplo alguns poemas de John Ashbery podemos ver que estes estão alojados em vários sítios e e-mags que muitas vezes estão indisponíveis ou mudaram-se (eg. http://www.jacket.zip.com.au/jacket02/ashbery02a.html). Contudo, os editores têm o cuidado de referir o sítio onde os poemas estão alojados, apenas o omitindo quando estes estão alojados num dos servidores do próprio EPC. Na página referente a cada autor, e de novo dando Ashbery como exemplo ( http://epc.buffalo.edu/authors/ashbery/), encontramos uma foto do mesmo, uma hiperligação para uma lista bio-bibliográfica das suas obras e um conjunto de hiper-ligações para poemas, entrevistas e artigos sobre o autor na Web, em sítios associados e/ou creditados pelo Centro.

Tal como as bibliotecas modernas são cada vez mais mediatecas, também o EPC tem uma counterpart à palavra escrita. Através da hiper-ligação “Sound” (http://epc.buffalo.edu/sound/), no menu principal, temos acesso a poesia cujos sentidos, devido à sua “forma”, dependem muito do som ou da sua performatividade na voz/interpretação. Esta secção do EPC descreve-se como uma “collection of sound poetry, audio art, audio hypermedia and arts radio boadcasts” e permite uma pesquisa alfabética por autor. Embora localizado noutro servidor, o EPC está íntima e directamente ligado com a UBUWeb (www.ubu.com), uma fonoteca virtual donde é possível ouvir e descarregar ficheiros áudio (em formato Mp3) de poetas lendo a sua poesia. Através da UBUWeb é possível ouvir poemas nas vozes de poetas já falecidos, como Sylvia Plath, Robert Duncan ou W.S. Burroughs, para além de outros documentos áudio de incontornável importância histórica, cultural e artística.

Para além da UBU, que é um verdadeiro arquivo com uma estrutura própria e distinta, o EPC tem uma colecção própria, também pesquisável alfabeticamente por autores, de ficheiros de som (http://wings.buffalo.edu/epc/sound/file-list.html). A edição deste tipo é algo diferente, já que requer do editor a preocupação de escolher e informar o utilizador acerca da utilização dos ficheiros de som. Para isso é também disponibilizado uma espécie de tutorial (http://wings.buffalo.edu/epc/sound/info.html) com informação mais técnica sobre software e formatos de ficheiros. Assim, o editor de literatura em formato digital tem que, além de seleccionar os “textos” pela sua qualidade e interesse artístico, também tem que seleccionar a qualidade desse material a nível acústico. Debruçando-me mais sobre esta lista de documentos áudio, é possível ver que o editor dá informação, em cada documento, do formato do ficheiro em que este está (e.g. .wav ou .AU; ) e o seu tamanho [e.g Telefonazo 22 kHz / 8 bit .AU (1 MB)], quando disponibiliza o seu download. Mas apesar de ter essa preocupação, não existe em relação a alguns destes ficheiros referência às suas fontes, como data e local de gravação. Ao seleccionar essas ligações, acedemos imediatamente ao ficheiro. As próprias informações não estão distribuídas coerentemente: algumas entradas têm uma pequena descrição daquilo que são e de onde vieram e outras não. Apenas na página LINEbreak, (http://wings.buffalo.edu/epc/linebreak/), um desdobramento do EPC, dedicada à edição e divulgação de uma série de programas de rádio realizados em 1997 com autores “From the Literary Edge”, o produtor e realizador Mark Spinelli tem em atenção os dados da gravação dos documentos, tal como o cuidado de, em cada página, indicar a data e autoria da sua última actualização.

 

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Problemas e soluções: o que muda e o que permanece

 

Podemos apontar ao EPC o facto de não possuir uma secção apenas de “Teoria”, que compilasse artigos de natureza académica sobre o assunto. É importante reflectir acerca destas novas formas de poesia, principalmente as que surgem, desde a sua criação, em ambiente electrónico. Há 3 tipos de poesia electrónica que se destacam: hiper-texto, poesia visual/cinética e LGC (ou CGL-Literatura gerada por computador). Podemos considerar qualquer uma destas formas como “hiper” strictu sensu, na medida em que trabalham as várias dimensões simultâneas da linguagem e do texto (quer as sensoriais, quer as físicas de espaço-tempo) para a produção de sentido. Contudo, qualquer uma destas tipologias desdobra-se nas outras ou tende à hibridez. Estas formas não dependem necessariamente da Web (muitas vezes antecedem a sua existência) pois podem ser mostradas e utilizadas em vídeo ou num computador isolado, consoante o seu grau de interactividade. Assim, a sua edição ou divulgação poderiam ser feitas e controladas apenas através de CD-Rom ou DVD (ou cassete vídeo), concentrando num único objecto físico, como o códice, que pode ser numerado, comprado, enviado pelo correio, usado e “possuído” individualmente ou por instituições. Se em edições hiper-textuais cada leitor escolhe o seu percurso dentro do texto, tornando virtualmente impossível que o mesmo percurso seja feito quer por 2 quer por 2000 leitores, com a edição em linha na Web, os textos são virtualmente lidos por todos, sendo impossível conceber o número de janelas abertas em que aquele texto está a ser lido/visto, de uma forma exponencial.

O director e fundador do sítio, Loss Pequeño Glazier, é não só um autor que explora o hipertexto e a tecnologia multimédia na composição poética, mas também um académico interessado por estas questões (com bastantes artigos e inclusive um livro – tipográfico - sobre a poética digital). Na introdução a este livro Glazier explica a “filosofia” e a política por detrás da concepção do EPC, uma “subject village”, com alguma organização temática mas sem a pretensão de controlar tudo. Destaco para aqui aqueles que acho mais relevantes e que ainda não foram aqui abordados:

No entanto, a “política editorial” não é descrita em qualquer secção do EPC, nem este explica qual é o “focus”. Olhando com algum cuidado, é fácil ver ou deduzir que os autores escolhidos de alguma forma são considerados inovadores e vanguardistas ou estão relacionados com as várias instituições que patrocinam o EPC: professores e poetas da UB, ou cuja instituição possui os direitos de publicação. Muitos autores alojados no EPC são poetas consagrados ou reconhecidos dentro da poesia L=A=N=G=U=A=G=E, um dos muitos movimentos (mas talvez o mais importante) poéticos vanguardistas norte-americanos dos anos 70 e que agora se institucionalizou. Se esta associação fosse declarada, facilitaria a história dos Estudos Literários (cumprindo uma função pedagógica) ao mesmo tempo que a divulgação dos autores e da sua obra.

A criação de pequenas editoras marcou e ainda marca uma tendência de resistência ao cânone e às grandes casas editoriais. Muitos poetas, individualmente ou em grupo, têm a sua pequena editora, onde editam chapbooks [3] ou revistas. Através das páginas pessoais destes autores podemos ter acesso a bibliografia e a formas (tradicionais ou electrónicas) de adquirir certas publicações. Este statement esclarece a posição do EPC em relação à edição tipográfica. A questão dos direitos de autor torna-se manifesta, principalmente quando ultrapassa a questão da propriedade intelectual e lida com o direito que qualquer escritor tem de receber remuneração como consequência da comercialização do seu trabalho.

Quanto às publicações “less than profitable”, podemos deduzir que a publicação tipográfica de poesia visual – principalmente quando esta usa também cores ou montagem fotográfica – sai substancialmente mais cara do que apenas o texto formatado a negro em times new roman sobre papel de gramagem standard. No ambiente electrónico, esse problema não se coloca dessa forma, mas apenas com a qualidade e o tamanho em bytes dessa imagem. Neste caso, o editor deverá fornecer informação técnica sobre as propriedades da imagem, quer sobre o meio em que foi produzida (se tiver essa informação) como sobre as propriedades da imagem em ambiente electrónico.

O EPC cumpre a missão de circular os textos tanto na Web como fora dela, dando a conhecer aqueles que aloja como uma ampla variedade de outros que se encontram noutros servidores, e que de lá, por sua vez, remetem para o Centro. Assim assume a divulgação de poesia como a sua principal tarefa, de uma maneira geral, quer usando a Web para divulgar poesia não-electrónica (aí volto à distinção que marquei na introdução e o EPC é um centro electrónico de poesia), quer usando o espaço digital para divulgar a poesia feita neste e para este espaço, alterando-se e alterando-o (em que o EPC é um centro de poesia electrónica). Há uma intenção de democratizar o acesso a diversas formas poéticas através da Web que é cumprida apenas em parte, já que a democratização da exposição de poesia digital não obedece aos mesmos critérios na política editorial. Os editores seleccionam os autores a editar não por critérios de espaço (já que esta questão também não se coloca aqui), mas por outros que não estão bem descritos. Para usar uma popular expressão “a caridade começa em casa”, os editores deviam dar maior visibilidade aos (seus) alunos do Programa de Poética que têm sob a sua alçada e que exploram a poesia digital, ao lado dos poetas já consagrados neste domínio. Embora no espaço virtual haja este esforço para uma des-hierarquização de poder e poderes, eles permanecem no mundo real da edição.

Este ponto é uma ressalva que marca de novo a especificidade de um espaço e de uma tarefa. Assume um espaço em constante expansão e aperfeiçoamento, uma macro-estrutura que é em si instável e que depende das instâncias tecnológicas em que assenta, um “uncharted territory” não hierarquizado nem controlado por uma só entidade. Esta ressalva de que a World Wide Web não é um mundo perfeito e organizado, serve de “lembrete” de que este é antes um fascinante universo de outros textos e outras linguagens, de sentidos invisíveis gerados e mantidos numa engenharia quase mística. Da mesma maneira que uma edição tipográfica lida com gralhas, páginas que faltam ou informação mal estruturada, também o contexto da edição electrónica na Web não consegue suprimir o contingente de erro (humano ou tecnológico), pois são muitos os factores que nele se articulam.

McGann faz um excelente paralelismo entre a estrutura hiper-textual da Web e a biblioteca tradicional, a estrutura hiper-textual mais antiga: “You stand before a set of books and other documents, which may be more or less extensive. Nothing in that body of materials tells you where to begin or what volume to pull down. It is up to you to make such a decision.” (McGann, 2001); também a biblioteca, um arquivo de arquivos organizado para a expansão indefinida, tem um carácter não-centralizado e o(s) seu(s) próprio(s) sistema(s) de organização; mais do que isso “the library is logically "complete" no matter how many volumes it contains – no matter how many are lost or added.” (McGann, 2001).

Quanto à organização interna do EPC, embora não haja uma hierarquização de elementos, esta obedece a uma organização que não é rígida ou convencional mas sim associativa, como a natureza de qualquer texto, de qualquer acto de consulta, de leitura ou de escrita. Jay David Bolter fala da natureza associativa da escrita: “the table of contents, listing chapters and sometimes sections, reveals the hierarchy of a text, while the indexes record associative lines of thought that permeate the text…an index defines other books that could be constructed from the original book…and so invites the reader to read the book in alternative ways” (citado em Joyce, 1995).

No EPC a estrutura não é muito óbvia mas existe uma organização que se quer dinâmica. A página de entrada revela-nos à partida, com uma pequena animação, o dinamismo multimédia que a poesia electrónica oferece. Outra amostra de dinamismo é a alternância: sempre que o utilizador acede a e.g. uma página de autor: o servidor mostra uma imagem diferente se cada vez que se acede à mesma página. Este conjunto de imagens é limitado e restrito, obviamente, mas é uma prova das várias dimensões do hiper-texto e da sua capacidade de “variação” no espaço e no tempo; a página nunca é, rigorosamente, sempre a mesma (ver como exemplo http://epc.buffalo.edu/authors/glazier/).

Da mesma maneira, como portal, a partir da página de entrada o utilizador tem contacto com uma série de hiper-ligações destacadas pelos editores; estas remetem para recursos variados, páginas sobre autores, revistas, ficheiros de som ou eventos literários, quer dentro ou fora do servidor, como uma espécie de amostra da diversidade que o Centro oferece. Estas hiper-ligações podem ser mudadas consoante a expansão e a actualização do sítio; contudo, como já foi referido no capítulo anterior, não há referência à data e autoria da última actualização do sítio.

Uma outra preocupação que também já foi referida, e para a qual os editores do sítio chamam a atenção a partir da página da entrada, é aquela que diz respeito aos direitos autorais de copyright e a propriedade dos ficheiros do próprio sítio. Embora este seja de livre acesso, não necessitando o utilizador de subscrição, pagamento ou palavra-passe, os editores ressalvam a propriedade dos recursos e as condições do seu uso na Internet, apenas para fins educativos, dando inclusive indicação de como os materiais presentes no sítio devem ser referenciados noutras publicações em linha ou tipográficas (http://epc.buffalo.edu/display/copyright.html).

O EPC, tal como esclarece na página de introdução e descrição do sítio, apresenta uma colecção de versões definitivas, revistas e editadas pelos próprios autores, pelo que a instabilidade do texto ou problemas de crítica textual não se colocam. Assim, os editores do sítio não são editores textuais mas sim “curadores” desses textos, arranjando-lhes um espaço em que estes podem ser lidos/vistos/experienciados. A responsabilidade de editores revela-se na selecção e catalogação da informação e posterior organização dentro  do sítio ou associada ao mesmo. Em todo o caso, em relação a textos que circulam ou circularam noutros formatos, por exemplo, como chapbooks de papel, põem-se questões de variação textual, uma vez que a digitalização implica por vezes alteração de padrões textuais específicos da versão inicial.

É indubitável a importância e o valor que o Electronic Poetry Center tem no âmbito dos Estudos Literários e no contexto da Web em geral. Neste sítio, ou  a partir dele, o utilizador interessado por poesia pode ter contacto em linha com o que mais inovador se faz no campo da poesia um pouco por todo o mundo, bem como ter acesso a informação sobre eventos literários. É natural também que, sendo fruto do trabalho de dois autores e professores tão produtivos como são Charles Bernstein e Loss Glazier, que o sítio não seja mais vasto ou mais completo. Estes autores colocaram ao dispor dos interessados na poesia em ambiente electrónico um vasto número de recursos e um mapeamento, ainda que reduzido, de hiper-ligações sobre o assunto. Apesar de possibilitar num primeiro “encontro” uma variedade ampla de formas poéticas inovadoras, este não é um sítio que dê ao mesmo utilizador ferramentas teóricas para entender melhor as questões e as problemáticas em torno da textualidade em ambiente digital ou da edição destas formas. Sobre o assunto, apenas duas hiper-ligações: uma encontra-se deslocada e outra remete para o livro de Loss Glazier, Digital Poetics, ficando muito aquém daquilo que poderia disponibilizar online, principalmente quando este sítio e os seus autores estão associados ao Programa de Poética da Universidade de Nova Iorque em Buffalo, uma instituição tão rica em produção teórica sobre as novas poéticas.

 

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Conclusão

 

Como diz Philippe Castellin, "créer avec le web n'est pas mettre des choses en ligne". É tomar consciência da plasticidade da linguagem a outros níveis, ao nível do signo, em todas as suas dimensões, realçando o carácter hiper da linguagem e de todas as linguagens. A utilização de um código algorítmico, uma linguagem natural e primeva como é a matemática para a criação literária mais natural e primeva que é a poesia, para falar sobre o próprio acto de falar e comunicar e exprimir a natureza hiper-textual humana, é sem dúvida um dos maiores actos de avanço na Arte desde a invenção da Imprensa, ou da escrita. Mais uma vez na História do mundo Ocidental se põe a tecnologia não só ao serviço da arte mas como parte integrante dela e condição essencial para a sua função múltipla: pensar, expressar, guardar, divulgar, ensinar, deleitar.

É de louvar que, de entre os recursos facilitados pelo EPC, haja hiper-ligações (http://epc.buffalo.edu/e-poetry/) para software específico (e.g. http://www.burningpress.org/toolbox/index.html) para os utilizadores/autores interessados na produção de poesia digital. Contudo, a estruturação do sítio e o grafismo escolhido muitas vezes deixam passar despercebidos algumas secções que poderiam ser de maior interesse para o utilizador. Compare-se este em termos de grafismo e estruturação com o site francês http://www.sitec.fr/users/akenatondocks/. Apesar de menos vasto em termos de listagem de autores, este sítio tem numa das suas secções um maior número de textos teóricos ou meta-poéticos, em várias línguas, sobre estas questões, dando uma visão mais abrangente sobre o impacto que esta prática está a ter no domínio da Literatura por todo o mundo.

O EPC peca por estar demasiado centrado na sua localização académica e geográfica [4]. Contudo, essa é também uma das suas maiores virtudes, pois embora não fosse essa a sua intenção, colige e divulga como nunca até agora textos dispersos dos poetas norte-americanos que mais inovaram dentro da ética/estética L=A=N=G=U=A=G=E. Como antes foi visto, este sítio poderia ser melhorado em alguns aspectos, mas cumpre os objectivos a que se propôs. 

 

Julho de 2004

Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra

© Cláudia M. J. Pinto, poetixar@hotmail.com

 

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Notas

[1] Embora este autor faça uma severa crítica à obra de Glazier, Weishaus também é autor e crítico de poesia electrónica explorando na sua própria prática poética desde 1995 os elementos hipertextuais e multimédia que o ciberespaço permite. Curiosamente, ou não, este autor não se encontra representado no EPC.

[2] Não creio que esta terminologia exista; contudo, permito-me usá-la e à sua dupla leitura (sonora e referencial) no contexto de análise de espaço virtual.

[3] alternativa editorial ao livro tradicional, em que o autor controla o processo editorial, desde a paginação até à sua divulgação, financiamento e comercialização, resultando em pequenas e numeradas tiragens de belos livros-objecto.

[4] É de referir como exemplo que apesar de estar referido em http://epc.buffalo.edu/authors/glazier/, com uma hiper-ligação para a crítica a Digital Poetics, Joel Weishaus, um pioneiro na poesia hipertextual, não está incluído no índice de autores do EPC.

 


Bibliografia

Castellin, Philippe, créer avec le web n'est pas mettre des choses en ligne, 1998, http://www.sitec.fr/users/akenatondocks/DOCKS-datas_f/forums_f/theory_f/CASTELLIN_f/en-ligne_f/castellin.html (acesso a 22 de Julho de 2004)

Glazier, Loss Pequeño, “Introduction”, Digital Poetics: The Making of E-Poetries, Tuscaloosa: University of Alabama Press, 2002, http://epc.buffalo.edu/authors/glazier/dp/intro1.html (acesso a 15 de Junho de 2004)

Glazier, Loss Pequeño, “Poetics of Dynamic Text”, Dichtung Digital, http://www.dichtung-digital.org/2003/issue/3/Glazier.htm (acesso a 20 de Julho 2004)

Joyce, Michael, “Siren Shapes: Exploratory and Constructive Hypertexts” in Of Two Minds: Hypertext Pedagogy and Poetics, Ann Arbor: The University of Michigan Press 2002, [1ª ed. 1995], 39-49.

McGann, Jerome, “The Rationale of Hypertext”, http://www2.iath.virginia.edu/public/jjm2f/rationale.html (acesso a 20 de Junho de 2004) e “The Rationale of Hypertext”  in Radiant Textuality: Literature after the World Wide Web. New York: Palgrave/St. Martin’s, pp. 167-191.

Weishaus, Joel, “Digital Poetics Review”, 2002, in Rain Taxi Online (http://www.raintaxi.com/online/2002summer/glazier.shtml (acesso a 19  de Julho de 2004)

Weishaus, Joel, “On-line Work”, http://web.pdx.edu/~pdx00282/ (acesso a 19 de Julho de 2004)

 

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