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Análise do sítio The Geoffrey Chaucer Website Homepage

Ana Sousa


 

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0. Introdução

1. A edição em ambiente electrónico

1.1. Princípios editoriais gerais

1.2. Problemas específicos da edição em ambiente electrónico

1.3. Edição electrónica de manuscritos medievais

2. O caso de The Geoffrey Chaucer Website Homepage

2.1. Apresentação do sítio

2.1.1. Autoria

2.1.2. Estrutura

2.1.3. Critérios textuais

3. Análise do sítio

3.1. Textualidade

3.2. Ensino, aprendizagem e investigação

4. Conclusão

Bibliografia

Webografia

 


0. Introdução

 

Os arquivos electrónicos modificam a transmissão e o uso dos textos. A cultura digital está em vias de transformar o modo como se ensina e se estuda literatura. (Portela 2003)

 

A importância do meio electrónico na disseminação da cultura literária

Os seres humanos são seres sociais. Esta sociabilidade, característica que garantiu a nossa sobrevivência enquanto espécie, permite uma série de trocas e de interacções entre indivíduos, garantindo a manutenção não só da espécie, mas de uma quantidade de informação que de outro modo desapareceria. Isto quer dizer que da interacção social surgem produtos culturais. Mas o que entendemos por esta designação? SARAIVA (1993: 43) afirma que "entende-se por cultura todo o conjunto de actividades lúdicas ou utilitárias, intelectuais ou afectivas". Esta designação, apesar de não ser a mais abrangente dentro das teorias gerais explicativas da cultura, acaba por ser ainda muito extensa, já que, durante muito tempo a designação cultura andou associada, em exclusivo às artes. Assim, e para não nos alongarmos demasiado neste ponto, podemos dizer que esses produtos culturais assumem diversas formas, sendo uma delas a literatura. Ao longo dos tempos, a literatura foi distribuída sob vários formatos: inicialmente sob a forma de transmissão oral; depois, com a invenção da escrita, alguns dos textos passaram a transmitir-se sob a forma de manuscritos; mais tarde, com a invenção da imprensa, esses textos aumentaram em número e em cópias. Essa explosão tipográfica tem a sua expressão máxima nos nossos dias. Nunca foram produzidos tantos livros novos por dia, e em tanta quantidade de cópias. Ainda assim, se compararmos a relação que temos com os livros, hoje em dia, com aquela que os intelectuais da Idade Média tinham com os manuscritos, chegamos à conclusão de que há diferenças, mas também algumas semelhanças.

Uma das semelhanças tem a ver com a atitude perante os livros. Acerca disto LE GOFF afirma que os livros na Idade Média "não são feitos para serem lidos. Vão engrossar os tesouros das igrejas e dos particulares ricos. (…) Os livros não passam de baixelas preciosas." (1990: 28). Hoje em dia esta relação ainda se verifica em alguns casos. Os livros servem muitas vezes para enfeitar, para preencher a estante da sala de estar e dar um ar "culto".

Uma das principais diferenças tem a ver com a forma e a quantidade de circulação das obras. A propósito desta questão na Idade Média, LE GOFF afirma que "[o]s magníficos manuscritos da época são obras de luxo. O tempo passado a escrevê-los numa bela escrita – mais do que a cacografia, a caligrafia é sinal de uma época inculta em que a procura de livros é extremamente reduzida –, e ornamentá-los magnificamente para o Palácio ou para algumas grandes personagens laicas ou eclesiásticas, torna evidente que a velocidade de circulação dos livros é ínfima"  (1990: 28). A tipografia veio responder à necessidade de circulação de livros, obrigando à reedição do património manuscrito através da tecnologia da imprensa. Com a introdução das novas tecnologias e com a sua aplicação à produção literária muito tem sido feito para aumentar a disseminação electrónica literatura. Na última década, foram criados  inúmeros arquivos, sítios e edições electrónicas, que se dedicam à transmissão de textos literários.

 

Objectivo

O trabalho a que nos propomos agora vem no seguimento de uma outra reflexão sobre o hipertexto e a sua aplicabilidade no ensino (SOUSA: 2004a). Nesse ensaio, procurámos reflectir (superficialmente, a nosso ver) sobre o hipertexto e a sua aplicabilidade à educação. Já aí tentámos uma primeira reflexão crítica sobre o sucesso, ou não, da aplicação das teorias hipertextuais em projectos explicitamente voltados para a educação. Com este trabalho pretendemos verificar se isso foi conseguido, na prática, analisando o sítio The Geoffrey Chaucer Website Homepage. Em SOUSA (2004a), usámos a perspectiva de utilizadora, tanto como aprendente, como sob o ponto de vista de quem ensina. Neste trabalho vamos procurar não só estes dois pontos de vista, mas também tentar pôr-nos na pele do editor, daquele que produz o arquivo e que tem de tomar as decisões. O objectivo é analisar, como já referimos, o sítio The Geoffrey Chaucer Website Homepage.

Este sítio é dedicado a um autor inglês, Geoffrey Chaucer, e à sua obra, The Canterbury Tales, peça fundamental na história da literatura inglesa. A nossa escolha não foi aleatória. Para além da curiosidade pessoal pela literatura do período medieval, achámos interessante reflectir sobre a sua forma de transmissão. Julgamos que a influência das novas tecnologias se vai sentir muito vincadamente na reprodução e transmissão deste tipo de obras. É óbvio o enorme benefício que o uso das novas tecnologias trará à humanidade, sob o ponto de vista da manutenção do património cultural. A edição electrónica é também um excelente exemplo para todos os outros especialistas, que se dedicam à transmissão, sob este formato, de literatura mais recente. Se é possível fazê-lo com obras tão antigas, em que os problemas e as dificuldades são tantos, também é possível fazê-lo com obras mais recentes e sem os problemas dos manuscritos.

Ficam aqui algumas questões que vamos percorrer ao longo deste breve trabalho[1]: Como é que as novas tecnologias se propõem disseminar as obras medievais de referência? Quais são os critérios editoriais utilizados? Como podem as novas tecnologias ser utilizadas para o ensino das obras e dos autores? Quais são os limites dessas edições? E quais são as suas potencialidades? Este trabalho contará com a análise do sítio já acima referido, mas também abordará algumas questões/detalhes encontrados noutros sítios/ arquivos que tratam obras e autores medievais (Langland e Beowulf).

 

Estrutura

Vamos partir de um breve enquadramento teórico sobre os princípios gerais da edição, tanto em formato impresso como em formato digital, em busca das especificidades das edições electrónicas dos manuscritos. Em seguida, e após a apresentação breve do nosso objecto de estudo (The Geoffrey Chaucer Website Homepage), vamos tentar analisar o sítio de forma crítica, tendo em conta a teoria de edição digital. A apresentação inicial será resumida uma vez que a estrutura do sítio será objecto de análise com maior profundidade no último capítulo. No fundo será verificar, na prática, como é que o hipertexto electrónico está a ser/pode ser usado.

 

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1. A edição em ambiente electrónico

 

1.1. Princípios editoriais gerais

Os principais temas de discussão entre os teóricos da edição em suporte de papel centram-se basicamente à volta de cinco questões: 1) Qual é o peso que o autor e a intenção autoral devem assumir nos critérios de edição?; 2) Qual deve ser o papel do editor? 3) Qual é o peso que os elementos externos ao texto [2] devem ter nas opções editoriais?; 4)Quais são os tipos de edição pretendidos pelas várias correntes da teoria da edição?; e, por fim, relacionada com a questão anterior, 5) Qual é a posição do tradicional copy-text?

Há mais de meio século, W.W. GREG provocou uma mudança de paradigma no meio da crítica editorial quando publicou o seu artigo "The Rationale of Copy-Text" (1950). A teoria crítica anterior defendia a existência de um único texto autorizado. Isso implicava uma postura "tirânica" por parte do copy-text. A este propósito, GREG, logo no início do seu artigo, lembra-nos que "authority is never absolute, but only relative." (1950:19). Para este autor a intenção autoral é importante, mas não é absoluta. Ele propõe uma teoria ecléctica da edição, que permita comparações com outros textos impressos ou manuscritos que possam ter sido revistos ou não pelo autor. Dessas comparações surgirão diferenças, que GREG distingue em dois planos: o primeiro diz respeito àquilo que chama de "‘substantive’ readings of the text, those namely that affect the author’s meaning or the essence of his expression" (1950: 21) e que se refere às palavras; o segundo tipo de diferença assenta naquilo que GREG chama de ‘accidentals’ ou seja a ortografia, a pontuação, a divisão silábica e todos os elementos do género que afectem a apresentação formal de um texto (1950: 21).

Um outro autor que desenvolve criticamente esta teoria é G. Thomas TANSELLE (1990). Ele participa desta distinção, e da sua importância, dando um lugar relativo à intenção do autor na fixação do texto. Tanto GREG como TANSELLE têm posições que admitem a necessidade de compromissos e de decisões baseadas no juízo do editor. O primeiro afirma, no final do seu artigo, que "My desire is rather to provoke discussion than to lay down the law" (1950: 36), enquanto TANSELLE (1990) defende, ao longo do seu artigo, um intercâmbio não só entre editores de manuscritos e editores de obras impressas, mas também entre editores com diferentes objectivos, tais como editores de textos críticos e de textos diplomáticos.

Ainda na linha da edição em suporte de papel, surgem as teorias de Jerome MCGANN (1991), que também atribuem importância aos elementos externos ao texto. Este autor defende que o estudo do texto está intrinsecamente ligado à leitura desse mesmo texto, e que isso é definido material e socialmente. Todos os elementos que constituem um texto são importantes para compreender a textualidade. O material bibliográfico acaba por ter uma função semiótica.

Enquanto GREG e TANSELLE admitem a existência e a preponderância do copy-text [3], MCGANN afirma que a variação é inerente à condição textual. O texto está em constante mutação. Sempre que é reproduzido, é actualizado. Ele defende que todo o texto é único, e mesmo cópias linguisticamente idênticas podem conter dois textos diferentes, uma vez que a sua materialidade bibliográfica e contextual os socializa de forma diferente:

All of these texts may have (virtually) the same linguistic constitution, may even have, to a certain varying degree, similar or analogous bibliographical forms. Nonetheless, all are different, radically so. This typescript preserved in the Library of Congress is not at all the same as this typescript which lies before me now because the linguistic text, in each case, will have been socially constituted in utterly different ways. …Texts are always linked to contexts – are, in fact, the chief means we have of understanding and reengaging contexts. (MCGANN:183-184).

Contra esta teoria social da edição, que valoriza a materialidade dos textos e pressupõe uma visão historicista, temos, por exemplo, a posição de Kelvin EVEREST. No seu artigo "Historical Readings and Editorial Practice" (2000), EVEREST vem criticar essa excessiva valorização da materialidade. Ele afirma que um texto não pode ser limitado pela reconstituição do contexto em que surgiu. Um texto tem uma identidade estável, que não se confina a um suporte físico ou à consciência de uma pessoa ou de um grupo de pessoas (2000: 199). O mesmo autor explica: "Poems are not existent in time in the same way as for example human beings, or material objects, or institutions…" (2000: 199) Os textos não se degradam da mesma maneira que os objectos físicos. EVEREST admite a existência de variação, mas adverte para os perigos do exagero dizendo que "the mere fact of the existence of variation is no reason in itself for the wholesale dismissal of the notion that a text might have a formal identity which is predominately stable, in its verbal substance and even in its punctuation, which predominant identity might in turn be regarded as constituting, in at least significant part, an editorially determined ‘best form’ for the text." (2000: 198).

EVEREST acredita na extrema importância do papel do editor, e afirma que tem de ser este a fazer as escolhas. É a sua inteligência e intuição que permitem ter uma leitura correcta da obra. MCGANN, por outro lado, entende que a intromissão de um editor gera sempre uma nova obra, e que o conhecimento da obra implica a interacção constante entre forma documental e contexto. Por outras palavras, Everest acredita na possibilidade e na necessidade de se fixar um texto a partir da análise do arquivo de uma obra. Para McGann, qualquer fixação gera uma nova versão da obra num novo contexto social e numa nova codificação bibliográfica. Para esta hipótese, um texto seria sempre também a interacção com o seu contexto material imediato; para a hipótese de Everest, um texto tem uma identidade formal que se pode considerar estável, independentemente das variações contextuais e materiais.

EVEREST afirma também que a tentativa de procurar a "pureza" original de um texto é uma actividade fútil: "the aspiration to suplement the reconstituted historical moment with the pristine original purity of the first textual form can never be fulfilled" (2000: 195). Acrescenta ainda que essa ambição editorial não é nada positiva para o texto, uma vez que lhe dá uma áurea exótica, distante e estranha, que não é nada desejável. E dá o exemplo dos projectos de criação de arquivos electrónicos que tentam recuperar a tal pureza original dos textos ao colocar num mesmo ambiente todas as versões possíveis. Em primeiro lugar, isso retira ao editor o controlo sobre o que o leitor lê; em segundo lugar, coloca o leitor, que muitas vezes não está preparado para isso, no lugar do editor. Estes são, muito resumidamente, alguns dos principais pontos de discussão e de divergência entre os teóricos sobre a edição em suporte de papel.

 

1.2. Problemas específicos da edição em ambiente electrónico

A edição em ambiente electrónico, e os problemas que normalmente se levantam, dependem, tal como na edição em papel, do objectivo do editor. Antes sequer de entrar nos problemas da edição, julgamos útil referir que o aparecimento das novas tecnologias criou uma nova cisão entre os editores. Desde logo, há a clara demarcação de espaço entre aqueles que aderem a esta nova forma de edição, e os mais cépticos, que preferem manter os formatos tradicionais de edição. Depois, mesmo aqueles que admitem utilizar o ambiente electrónico, dividem-se entre os que apenas o vêem como uma ferramenta que os ajude na criação de edições em formato tradicional e os que vão mais longe e encaram o meio electrónico como um suporte ideal para a edição. (ABRAHAM: 2002). Também encontramos os cépticos, como Kelvin EVEREST, que critica os arquivos electrónicos, dizendo que este acumular de informação não é útil senão para especialistas e que é mesmo uma actividade fútil devido à dificuldade em ser concluída. (EVEREST: 2000: 195).

John LAVAGNINO (1995) e Jerome MCGANN valorizam a dimensão social e material do texto. O hipertexto apresenta-se como um meio ideal para o tratamento de uma edição que valoriza este ponto de vista. Em primeiro lugar, o formato electrónico é infinito e flexível. Pode armazenar uma grande quantidade de informação sob vários formatos. Em segundo lugar, permite estabelecer ligações entre a informação. Esta última característica é fundamental para os teóricos que valorizam a comparação entre versões. No entanto, e apesar de todas as vantagens, fica no ar uma questão: Como enquadrar o leitor comum numa destas versões hipertextuais, repletas de informação especializada?

A questão não é nova. Desde sempre os editores se debatem com o problema da escolha do tipo de edição. Essa escolha depende muito dos objectivos e do público alvo pretendido. Desta forma, uma edição como a que MCGANN defende, inclusiva e cumulativa, servirá apenas o especialista (isso se não forem feitas opções que permitam ao não-especialista participar desse mesmo material).

Quanto ao papel do editor, que muitos afirmam estar ameaçado com este tipo de edições, é uma discussão que se mantém com algumas nuances. Por um lado, uns pensam que os textos electrónicos permitem a desresponsabilização do editor, face às escolhas que teria de fazer. Por outro lado, MCGANN e outros pensam que o hipertexto liberta o leitor da influência do editor. Kathryn SUTHERLAND contrapõe esta ideia, afirmando que o leitor fica com uma responsabilidade que pode ser talvez demasiada. Este tipo de edição exige mais do leitor do que uma edição em livro (citado em ABRAHAM). Entre os vários teóricos existe também ideia, em jeito de crítica, de que o hipertexto não cria "leitores" mas antes "localizadores" de informação. A informação não é absorvida e compreendida, mas antes localizada e armazenada. Citando outros autores, Katryn ABRAHAM refere que o perito passa a ser um mero técnico de manipulação de informação, sem no entanto compreendê-la.

Independentemente do tipo de edição electrónica escolhida, existem princípios uniformes para a sua criação. Peter SHILLINGSBURG (1993) propõe oito princípios gerais para as edições electrónicas. São elas a acessibilidade (a ideia é que as edições electrónicas estejam disponíveis de forma simples e relativamente democrática, para que sejam acessíveis ao maior número de pessoas possível); a transportabilidade (há que ser compatível com as várias plataformas existentes); o design (deve permitir uma utilização lógica, deve conter documentos multimédia, deve permitir estabelecer ligações entre a informação); a segurança (impossibilidade de alterações não autorizadas, por exemplo); a integridade; a expandibilidade; a possibilidade de impressão (mais uma vez ligado ao acesso democrático, independente de questões do copyright) e por fim a navegação (em que o conceito básico é ser user friendly, permitindo uma orientação semelhante à do raciocínio e lógica humanos e também à lógica de utilização do livro em papel).

 

1.3. Edição electrónica de manuscritos medievais

A questão da edição dos manuscritos medievais em formato electrónico é indissociável das questões levantadas na edição em formato de papel. Julgamos que a questão orientadora de sempre refere-se ao objectivo e ao público que se pretende atingir. Existem alguns aspectos incontornáveis que devem ser considerados no que diz respeito à edição de manuscritos em formato digital. Um deles é o mais óbvio: a possibilidade de reconstruir o processo de produção e de transmissão dos manuscritos. A teoria social da edição, defendida por MCGANN, pretende um estudo dos manuscritos que implica a sua comparação. Essa comparação permite reconstruir o processo de produção e transmissão dos textos, estabelecendo uma relação genealógica entre eles.

No caso do projecto Electronic Beowulf, levado a cabo por Kevin KIERNAN, este problema não se põe. Como só há um manuscrito, a questão da reconstituição do processo de produção não pode ser muito desenvolvida. Já no projecto The Piers Plowman Electronic Archive essa possibilidade é no entanto muito importante. Estabelecer a genealogia e as formas de transmissão dos manuscritos é mesmo uma das questões centrais.

Outra questão importante quando nos referimos à criação de uma edição electrónica prende-se com o problema levantado pela necessidade de combinar a digitalização das páginas e a transcrição dos textos. KIERNAN, no artigo "Digital Preservation, Restoration, and Dissemination of Medieval Manuscripts" (1993), refere, com bastante detalhe, as fases e os problemas por que passaram ao preparar uma edição electrónica do fragmento Beowulf. Um dos problemas está relacionado com a necessidade de utilizar imagens digitais de alta resolução e a capacidade de se poder armazenar, trabalhar ou transportar essas imagens. Ele conta mesmo que, numa fase do seu trabalho nesse projecto, chegaram a ficar sem espaço no disco duro e que, por falta de vias de comunicação eficientes, perderam os dados. A questão que KIERNAN mais aborda é a questão da digitalização.

Os responsáveis pelo outro projecto de literatura medieval que estou aqui a utilizar como apoio para a minha análise (Langland), Hoyt N. DUGGAN e Gail DUGGAN, centraram a sua discussão num outro ponto, que tem a ver com a transcrição e a codificação do manuscrito e não referem a questão dos problemas de digitalização dos manuscritos, talvez por já terem uma boa parte desse trabalho feito.

A terceira questão que está relacionada com a criação de edições electrónicas de manuscritos medievais prende-se com a sua utilidade. Mais uma vez a utilidade está relacionada com o objectivo definido à partida, bem como com o público alvo. The Piers Plowman Electronic Archive aposta num rigor textual próprio para o trabalho de especialistas. Não é um sítio para principiantes no assunto. O projecto Electronic Beowulf também tem esse rigor e o mesmo objectivo. O mesmo não acontece com o sítio sobre Chaucer. The Geoffrey Chaucer Website Homepage tem objectivos e públicos diferentes dos dois primeiros sítios. É um sítio virado para os iniciantes e para a vertente didáctica.

 

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2. O caso de The Geoffrey Chaucer Website Homepage

 

2.1. Apresentação do sítio

Como já foi referido na introdução, após uma apresentação sumária das teorias que regem as práticas editoriais, tanto a nível textual como a nível da edição em ambiente electrónico, propomo-nos, antes de entrar na análise do sítio escolhido, proceder a uma breve apresentação do objecto a ser estudado. Esta apresentação terá em conta a autoria, a estrutura e os critérios textuais utilizados.

 

2.1.1. Autoria

Neste ponto vamos debruçar-nos sobre as pessoas e instituições que se dedicaram à criação, manutenção e financiamento do sítio. The Geoffrey Chaucer Website Homepage começou a ser publicado em linha em 1999, pelo Departamento de Inglês e pela Divisão de Formação Contínua da Universidade de Harvad, e está alojada num dos servidores da mesma universidade. Tem como principal autor e editor do sítio Larry D. Benson. Ao contrário de outros sítios dedicados a autores ingleses da época medieval (como é o exemplo do sítio dedicado a William Langland http://www.iath.virginia.edu/seenet/piers/), o sítio dedicado à obra de Chaucer não tem referência directa a outros colaboradores e responsáveis pelo sítio e pela informação. Só encontramos a referência a outros colaboradores quando se trata de artigos vindos de outras fontes. O nome de Derek Pearsall é um exemplo disso.

Quanto ao modo de financiamento do sítio, não há uma informação específica, mas o facto de possuir uma ligação, logo na página inicial, ao National Endowment for the Humanities (uma das instituições que patrocina, por exemplo, o já referido sítio dedicado a Langland) faz pressupor que este sítio seja, de uma forma ou de outra, apoiado financeiramente por esta instituição. Também o facto de estar alojado num dos servidores da Universidade de Harvard demonstra que este projecto não é "órfão" e que tem um forte apoio institucional. Mas, de um modo geral, não há referência a outros patrocínios.

 

2.1.2. Estrutura

Objectivos

Nas palavras do responsável, este sítio tem como primeiro objectivo auxiliar os alunos do Departamento de Inglês e da Divisão de Formação Contínua que frequentam as aulas sobre Chaucer, mas encoraja a sua utilização por outros. É um sítio que inclui não só excertos de uma obra de Chaucer (The Canterbury Tales), mas também toda a informação que pode ser relevante para a sua compreeensão. O que se pretende é, a longo prazo, incluir toda a obra do poeta inglês neste sítio.

This site provides materials for Harvard University's Chaucer classes in the Core Program, the English Department, and the Division of Continuing Education. (Others of course are welcome to use it.) It provides a wide range of glossed Middle English texts and translations of analogues relevant to Chaucer's works, as well as selections from relevant works by earlier and later writers, critical articles from a variety of perspectives, graphics, and general information on life in the Middle Ages. At the moment the site concentrates on the Canterbury Tales, but the longer-term goal is to create a more general Chaucer page. http://www.courses.fas.harvard.edu/~chaucer/

 

O que contém?

Como já foi dito acima, o sítio tem como objectivo reunir toda a obra de Chaucer. No entanto, apenas a obra The Canterbury Tales (c. 1386-1400) está a ser trabalhada. Para além da obra propriamente dita, também estão disponíveis outros recursos de âmbito contextual. Há uma forte vertente educativa que gere toda a organização do projecto, e, por isso, muitos dos materiais podem ser utilizados como complemento para aulas, tanto de literatura como de cultura medieval. Também foi contemplada a vertente auto-didacta, incentivo tanto à auto-formação inicial, como à formação contínua.

 

Como está organizado?

A página de entrada do The Geoffrey Chaucer Website Homepage apresenta, assim que se abre, 15 hiperligações. Estas estão, ou podem ser agrupadas segundo PORTELA em seis grandes temas: vida e obras de Chaucer (secções 1, 2 e 3); edições das suas obras (5); o inglês medieval na época de Chaucer (6 e 7); literatura, sociedade e cultura medieval (2, 9, 10, 11, 12, 13 e 14); recursos de auto-formação para estudar Chaucer (5); e, finalmente, secções meta-informativas sobre bibliografia dedicada a Chaucer e à literatura medieval, e ainda um índice analítico do próprio sítio (8 e 15). (2004: 4)

Assim, o esquema sugerido por PORTELA teria a seguinte representação:

Vida e obras de Chaucer

Edições das suas obras

O inglês medieval na época de Chaucer

Literatura, sociedade e cultura medievais

Recursos de autoformação para o estudo de Chaucer

Secções meta-informativas

Life of Chaucer

Chronology

The Canterbury Tales

Translations

Chaucer’s Language

Middle English

Chronology

Other authors

Literary Subjects

Courtly Love

Life and Manners

Pilgrimage

Medieval Science

Chaucer’s Language

 

Bibliography

Site Index

 

Pensamos que a secção "Teach yourself Chaucer" também poderia ser incluída no tema "Recursos de Auto-formação para estudar Chaucer", uma vez que prepara um leitor desprovido de conhecimentos prévios para um estudo mais ou menos aprofundado da obra.

 

2.1.3. Critérios textuais

É difícil referir quais foram os critérios textuais utilizados, uma vez que não há verdadeiramente uma edição. Este sítio preocupa-se mais em fazer uma aproximação à obra, disponibilizando ferramentas que permitam ler uma boa edição, quer seja no original, quer seja na tradução, em formato de papel.

Há, no entanto, na secção "Translations", no início de cada conto, uma referência à edição em "Middle English" utilizada : "The Middle English text is from Larry D. Benson., Gen. ed., The Riverside Chaucer, Houghton Miflin Company; used with permission of the publisher." Quanto à tradução, o responsável pelo sítio adverte que esta deve ser usada apenas numa fase inicial e que o melhor é ter sempre à mão uma boa edição em papel:

These translations should be used for a first reading; go carefully through the text, concentrating on the Middle English and checking your reading against the translation. Then move on to the original in whatever printed text you are using, and refer back to this text only when you encounter difficulties. (cf. http://www.courses.fas.harvard.edu/~chaucer/teachslf/tr-index.htm#list)

No que diz respeito a outros textos que não os da obra de Chaucer (excertos de livros, artigos, etc) a fonte dos mesmos é quase sempre referida. O mesmo não acontece com as imagens utilizadas para ilustrar (salvo raras excepções).

 

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3. Análise do sítio

 

Esta análise centrar-se-á em duas vertentes: em primeiro lugar, analisaremos o sítio do ponto de vista da sua construção textual. De que forma reflecte os problemas da teoria da edição em ambiente electrónico, e de que forma se enquadra nos problemas específicos das edições de manuscritos em ambiente electrónico; depois, analisaremos a adequação do sítio ao ensino, à aprendizagem e à investigação.

 

3.1. Textualidade

O que faz

No que diz respeito à textualidade, o sítio The Geoffrey Chaucer Website Homepage apresenta-se como um complemento à obra. Não discorre sobre as decisões editoriais porque simplesmente não é o seu objectivo criar uma nova ou uma super-edição. Contrariamente aos outros dois arquivos dedicados também a obras manuscritas, e já referidos neste trabalho, este sítio não pretende ser uma nova edição. O seu propósito é claramente educativo e, talvez, didáctico [4]. Como todas as ferramentas educativas, tem como objectivo contribuir para uma melhor compreensão da obra.

Em termos textuais não afecta a transmissão da obra, porque, em primeiro lugar não tem claramente o intuito de fornecer uma obra electrónica. Os seus responsáveis afirmam várias vezes ao longo dos textos que apresentam (conferir as secções "Translations" e "Teach yourself Chaucer") que é desejável que o utilizador do sítio tenha uma boa edição da obra, em papel, à mão. Em relação à transmissão de conhecimento sobre o autor, este sítio fornece a informação básica, centrando-se mais noutras informações contextuais.

O grafismo é outro dos pontos a ter em conta quando falamos de textualidade. Não sendo qualificados para nos pronunciarmos sobre o assunto do ponto de vista do web designer ou de outro responsável pelo desenvolvimento dos sítios, apenas podemos falar sob o ponto de vista de utilizadores. É um sítio bem estruturado, não muito extenso, é certo, mas com uma boa acessibilidade. Possui uma página de entrada simples, que é, ao mesmo tempo apelativa e prática. Apresenta de uma forma directa aquilo que o utilizador quer ver. Se comparamos este sítio com o sítio dedicado a Langland, podemos ver que este (The Geoffrey Chaucer Website Homepage) segue uma lógica muito mais aproximada dos princípios defendidos por SHILLINGSBURG (1993): ser "user-friendly".

Normalmente, a página de entrada de um sítio tem uma dupla função: é a "capa" ou "cartão de visita" do sítio e é ao mesmo tempo o índice. É claro que há sítios que não procuram este tipo de grafismo, mas julgamos que isso não é positivo. Uma página de entrada que sirva apenas para entrar no sítio é uma perda de tempo. O utilizador quer a informação em primeiro lugar e essa "capa" real atrasa o acesso à informação. Por outro lado, um sítio que tenha logo à entrada um índice, mas que não se preocupe com a estética da página, contribui para a desorientação do utilizador. Julgamos que, neste ponto, o sítio sobre Chaucer consegue a harmonia.

 

Limitações

Apesar de ser um sítio alojado num servidor da Universidade de Harvard e gozar, por essa razão, de credibilidade, penso que o sítio, feito por especialistas e destinado à formação inicial de outros especialistas em literatura inglesa medieval, deveria apresentar um maior rigor científico. A referência aos textos utilizados não é completa e não há identificação das fontes da iconografia. The Piers Plowman Electronic Archive é, nesta medida, muito mais rigoroso. Claro que, mais uma vez, o objectivo define o rigor com que se produzem os sítios. Ainda assim, por uma questão de coerência [5], os responsáveis deveriam também ter em conta este aspecto.

Quando lidamos com uma obra que foi escrita depois da invenção da imprensa, não é muito importante lidar com um fac-símile. O mesmo não sucede com os manuscritos. Um sítio que pretende oferecer informação contextual a iniciantes em Chaucer não deveria deixar de lado uma parte importante do texto: a sua materialidade. Não penso que fosse necessário ir ao extremo, como é sugerido pelos defensores da Teoria Social da Edição, mas a representação pictórica da forma do texto, no seu original, é importante para a ambientação ao texto em si. Ainda no que diz respeito ao texto, e à acessibilidade ao texto [6] em si, julgamos que há uma falha neste sítio. O acesso é feito a partir da secção intitulada "The Canterbury Tales" e remete-nos para uma página que apresenta um índice dos contos. Este índice, supostamente, permite o acesso a cada um deles, pelo simples "clicar" na hiperligação.

Ora isso não aconteceu durante as nossas visitas ao sítio. As hiperligações não funcionaram bem [7] e, para aceder aos textos, foi necessária alguma imaginação. Será um problema de navegação (caso ocorra em todos os sistemas) ou de acessibilidade (caso se verifiquem anomalias apenas em sistemas específicos). Uma limitação óbvia do nosso trabalho prende-se com a impossibilidade que tivémos de testar esta funcionalidade em ambiente Windows.

 

Potencialidades

Sob o ponto de vista textual, as potencialidades deste sítio são, tal como para todos os outros sítios em geral, grandes. Em primeiro lugar, há o espaço. Ao contrário do que Kelvin EVEREST afirma, julgamos que a expandibilidade dos sítios e o seu carácter perpetuamente inacabado, permitem ao editor ou responsável pela criação de um projecto como este, a sensação boa de que é possível estender e aumentar este projecto até ao infinito. Uma das vantagens que uma edição hipertextual tem, mesmo quando não se apresenta logo como excelente, é a de que pode ser melhorada, incrementada e pode desenvolver novos projectos e integrá-los, sem prejuízo do que já está feito. É claro que será preciso ter cuidado para não criar uma base de dados tão vasta e tão ampla, sem que a mesma se organize de forma cuidadosa. É que o excesso de informação pode, muitas vezes, levar à desorientação cognitiva.

 

3.2. Ensino, aprendizagem e investigação

Neste ponto será discutida a adequação do sítio aos três objectivos referidos acima: o ensino, a aprendizagem e a investigação.

 

O que faz

Já foi sobejamente referido no nosso texto que este é um sítio dedicado aos alunos que iniciam o seu estudo sobre Chaucer. Para além da contextualização sobre o autor (secções "Life of Chaucer" e "Chronology") e sobre a época em que a obra foi escrita (secções como as que apontam para outros autores que foram importantes para Chaucer e relacionadas com as questões sócio-culturais – "Literary Subjects", "Courtly Love", "Life and Manners", "Pilgrimage" e "Medieval Science"), há um tipo de secções que demonstra o esforço depositado por parte dos responsáveis em democratizar o acesso à informação e facilitar a auto-formação. A secção "Teach yourself Chaucer", acompanhada de outras que a complementam ("Chaucer’s Language", "Middle English" e "Translations"), incentiva os alunos a aprenderem os rudimentos do inglês medieval, com o objectivo final de proporcionar uma leitura da obra no original. É uma autêntica ferramenta para a autoformação.

Como ferramenta para o ensino, dentro de uma sala de aula normal, pode ser também bastante útil. As suas características do ponto de vista da apresentação e do design gráfico permitem que o professor possa dar maior autonomia aos alunos na busca de informação. Confirmando as teorias de LANDOW no seu artigo "Reconfiguring Literary Education" (1997), e na senda do Construtivismo, o aluno passa a dominar o processo de aprendizagem e isso é positivo[8].

No que diz respeito ao terceiro ponto, a investigação, este sítio não permite grandes expectativas. É simples, o que é positivo quando se pensa naqueles que desejam iniciar o estudo, mas, se pensarmos no nível desejável para investigadores, torna-se simples em demasia e não traz nenhuma ferramenta útil a investigações mais avançadas. A este respeito, todavia, e mais uma vez, temos de ter em conta o público-alvo. E se tivermos isso em conta, o sítio acaba por se manifestar muito bem sucedido.

 

Limitações

O que limita este sítio em relação à educação e ao ensino (e também à investigação) é a falta de níveis diferenciados de informação, que permitam uma progressão. O nível apresentado e as estratégias de aproximação ao assunto são apropriados ao público a que se destina, mas ao fim de algum tempo, esse público não tem mais interesse neste sítio, porque já domina os seus recursos. Outros sítios, como o dedicado a Langland, sofrem do mal contrário: têm um nível demasiado elevado para um iniciante. São exclusivamente dedicados a investigadores de expectativas bastante mais altas.

 

Potencialidades

Haverá solução possível para este dilema? Julgamos que a solução pode encontrar-se nos jogos de computador. Da mesma maneira que, inspirada nas teorias de LANDOW e no conceito de paisagem conceptual desenvolvido por Rand Spiro, comparámos a aquisição de conhecimento com o percorrer de vários níveis de complexidade num jogo de computador (SOUSA; 2004b: 9), pensamos que a solução para sítios desta natureza seria criar níveis de profundidade de informação. Ou seja, o utlizador poderia ter acesso à informação mais especializada após uma formação (que, desejavelmente será autoformação) mais básica. Iria progredindo de nível para nível, tornando-se, pouco a pouco, num especialista.

 

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Conclusão

 

The Geoffrey Chaucer Website Homepage é um bom exemplo de como o hipertexto está a ser usado para transformar o modo de transmissão da literatura. Além disso também demonstra novas potencialidades na forma de ensinar e aprender literatura. Com as suas características mais importantes (espaço ilimitado; convivência de vários formatos num mesmo espaço; não hierarquização de informação) o hipertexto permite a criação de uma edição democrática. Num ambiente de múltiplas hierarquias, os documentos existem lado a lado no espaço electrónico. Ao mesmo tempo, os interfaces através dos quais interagimos com os textos e imagens contêm hierarquias que estruturam a navegação, definindo percursos lógicos segundo o modelo dos índices de um livro.

É uma ferramenta que cumpre os propósitos para que foi concebida: auxiliar os alunos da Universidade de Harvard a iniciarem o seu estudo sobre o poeta inglês medieval Geoffrey Chaucer. Neste sentido, pensamos que os seus criadores podem sentir-se realizados. Claro que, algumas críticas feitas neste artigo chamam a atenção para certos aspectos que um projecto desenvolvido por uma instituição com este prestígio não pode esquecer. O rigor científico na apresentação das fontes (tanto textuais, como iconográficas) e alguns problemas a nível técnico que dificultam a acessibilidade a uma das secções mais importantes – os textos – devem ser alvo de correcção.

Também a sugestão da organização por níveis poderá ser interessante, caso os autores desejem, lentamente, criar uma verdadeira base de dados de referência sobre o assunto, acessível a todos os públicos – o que julgamos seria muito vantajoso, tanto para alunos, como para professores, editores e investigadores.

Este ponto leva-nos também para a questão do papel do editor. Uma edição electrónica que tente abarcar o máximo de informação sobre um assunto, não é, necessariamente, negativa para o editor. Pode ser uma ferramenta que ajude na criação da edição em papel. Historicamente, nós passámos rapidamente da escassez de livros para a super abundância. No entanto, pensamos que a transição total, de livros em papel para livros exclusivamente em formato electrónico, levará ainda algum tempo. O editor não será, tão cedo, uma figura a abater, já que, por um lado, o formato em papel não tende a desaparecer, e, mesmo com a transição, aquilo que muda é o formato de edição, pelo que o editor continuará a ter o seu papel na tomada de decisão sobre a informação que vai chegar ao leitor.

As discussões que giram à volta da teoria da edição dependem dos objectivos e do público-alvo pretendidos. Uma edição de bolso não pode ter os mesmos critérios editoriais que uma edição destinada a especialistas. No entanto julgamos que é possível que uma edição electrónica abranja todos estes níveis.

 

Julho de 2004

Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra

© Ana Sousa, anasousa@zmail.pt

 

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Notas

[1] Mais do que perguntas, o que aqui procurámos foram hipóteses de trabalho. Julgamos que num estudo desta dimensão não poderia ser objectivo chegar a respostas cabais sobre tão complexas questões como as que enumerámos.

[2] Consideramos aqui não só as alterações feitas por copistas, editores e tipógrafos, mas também a valorização da materialidade dos objectos textuais e dos contextos em que os textos surgem.

[3] Eles tomam esta posição mesmo considerando que o copy-text é apenas uma das várias versões a ter em conta, que ele é muitas vezes uma escolha arbitrária, e que não pode haver apenas uma única versão autorizada.

[4] A nossa dúvida quanto à adjectivação de didáctico prende-se com o facto de, no sítio, não ficar claro se se trata de um corpora para ser usado no ensino ou na aprendizagem. Como entendemos por didáctico o ponto de vista de quem ensina, fica a dúvida de saber se esta informação vai ser usada para ensinar ou para aprender. Da nossa leitura, é mais para aprender.

[5] Mais cedo ou mais tarde, os alunos que se baseiam no sítio dedicado a Chaucer vão produzir trabalhos escritos e ser-lhes-á pedida uma referenciação correcta.

[6] Este é outro principio geral das edições electrónicas defendidas por Schillingsburg.

[7] Usámos o sistema MAC OSX, com os Browsers IE:Mac Edition 5.2 e Safari 1.0(v85).

[8] Ainda assim, nem todos entendem a questão desta forma. Há autores que consideram que o facto de a informação ser simples e directa, acaba por ter outras consequências. P. Aaron POTTER (citado em ABRAHAM: 2001) contesta esta ideia de liberdade do utilizador. Na verdade, na sua opinião, o utilizador é mais controlado agora do que quando trabalhava com o texto em papel. Há uma falsa sensação de liberdade e de autonomia. Afinal, o utilizador apenas pode navegar por rotas previamente escolhidas. Na opinião de Potter, este tipo de ferramenta ao invés de ser um conceito libertador, apenas esconde os mecanismos de controlo.

 

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