DigLitWeb: Digital Literature Web

E-E


http://www.rossettiarchive.org/

Ana Catarina Garrido


 

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Introdução

Edição Tipográfica versus Edição Electrónica

Crítica Textual e Edição Electrónica

Indexação e Pesquisa

Virtualidades e Limites

Aplicação ao Ensino, à Aprendizagem e à Investigação

Conclusão

Bibliografia e Webografia

 


Introdução

 

O aparecimento e consequente democratização do computador, veio alterar irremediavelmente e de forma imprevisível o panorama tecnológico, social e cultural. Há algumas décadas atrás era quimérico pensar que poderíamos, por exemplo, comunicar, em tempo real, com alguém que está distante ou ainda ler um romance ou um qualquer documento informativo no ecrã de um computador. Contudo, hoje esta “machine of knowledge” (McGann, 1996), dá-nos a possibilidade de aceder a um conjunto potencialmente infinito de documentos, de forma fácil e rápida, e aos quais só teríamos acesso através de manuscritos guardados numa biblioteca e que, na sua maioria, não estariam disponíveis.

No decurso da última década do século XX, muitos foram os projectos de edição electrónica que procuraram superar este tipo de constrangimento. Projectos como The William Blake Archive ou The Rossetti Hypermedia Archive, que será objecto de análise neste trabalho, foram concebidos para facilitar o acesso de qualquer utilizador da World Wide Web a materiais raros ou reservados a uma minoria de estudiosos. No entanto, ainda que os arquivos on-line tenham objectivos semelhantes, os critérios pelos quais se regem podem ser bastante diferentes, o que marca também a diferença na qualidade. Ao proceder à análise de The Rossetti Hypermedia Archive, procurarei dar conta do funcionamento geral do sítio, bem como dos critérios textuais e editoriais adoptados e das ferramentas de indexação e pesquisa ao serviço do utilizador.

 

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Edição Tipográfica versus Edição Electrónica

 

Os projectos de edição electrónica permitiram ultrapassar muitas das limitações associadas ao texto impresso.

O manuscrito tem sido, desde os seus primórdios, o modo ideal de armazenar, preservar e difundir informação. Muito do conhecimento que temos, por exemplo, de civilizações antigas, foi-nos transmitido através de documentos escritos, sejam eles papiros, pergaminhos ou livros impressos. Todavia, estes materiais apresentam um importante constrangimento que os afasta das potencialidades oferecidas pelos suportes electrónicos, a adaptabilidade. Com efeito, se pretendermos introduzir um elemento novo ou fazer uma correcção na edição impressa de uma obra, teremos obrigatoriamente de reproduzir a totalidade do texto, pois não há possibilidade de ajustar apenas a parcela do documento que apresenta anomalias. Muitas foram as técnicas geradas por académicos ao longo do tempo para superar as restrições impostas pelo livro, nomeadamente edições críticas, edições anotadas e edições fac-similadas. Porém, “symmetry between the tool and its subject” (McGann, 1996) leva a que ferramenta e sujeito tenham as mesmas limitações. Jerome McGann defende que a semelhança entre a ferramenta que reproduz e o material reproduzido limita o produto final. De facto, ao socorrermo-nos, no processo produtivo, de elementos que operam ao mesmo nível, é difícil superar constrangimentos.

A obra em formato digital permite-nos navegar por entre um vasto número de documentos e estabelecer ligações entre eles, algo que seria fisicamente incomportável no âmbito tipográfico. A estrutura dos suportes electrónicos tem a particularidade de ser permeável à mudança. Se for detectada uma incorrecção num documento ou partes de documentos que compõem a estrutura, é possível seleccionar apenas um fragmento e proceder à sua rectificação. Deste modo, a possibilidade de reproduzir todo o sistema de produção é eliminada, pois apenas precisamos de corrigir uma pequena parte do material.

Outra das virtualidades da edição electrónica é a capacidade de incorporar vários tipos de materiais, quer sejam textuais, visuais ou auditivos. A edição tipográfica falhava, muitas vezes, em dar conta da importância das características visuais do texto. Ao proceder à passagem do texto escrito, por vezes anotado pelo próprio autor, para a impressão, muitas das particularidades visuais eram ignoradas. No caso particular da obra de Emily Dickinson, onde o efeito visual é importante, nomeadamente a mancha gráfica do texto, o local preciso da página onde ela escreveu e a ocorrência de uma imagem, muitas foram as edições e reedições que se ocuparam apenas da transcrição textual e escolheram ignorar a exploração que esta autora faz do espaço da página. A edição tipográfica peca, então, pela omissão das características globais do texto, designadamente daquelas que ultrapassam o âmbito meramente verbal. A edição electrónica, pelo contrário, tenta dar conta de todas as potencialidades do documento, o que se revela essencial na edição da obra de autores multifacetados como Dante Gabriel Rossetti. Efectivamente, Rossetti destacou-se em diversas áreas, nomeadamente na escrita, na pintura, na tradução e ainda como designer. É preciso ainda atentar no facto de muitas das suas obras apresentarem uma vertente dupla, isto é, serem constituídas, de forma simultânea, por texto e imagem.

Na origem da criação deste arquivo, esteve a necessidade sentida por Jerome McGann de uma edição da obra de Rossetti que conseguisse lidar de modo eficaz e o mais fiel possível com a sua complexidade e variedade. Á semelhança do que terá acontecido com outros autores, os editores que, ao longo de várias décadas, foram lidando com o espólio artístico de Rossetti terão negligenciado muitas das suas potencialidades.

No site The Rossetti Hypermedia Archive, em desenvolvimento desde os anos 90, Jerome McGann procura ilustrar a estreita e, por vezes, interdependente ligação entre material pictórico e textual. Algumas das suas pinturas mais famosas, como The Blessed Damozel e Astarte Syriaca, são acompanhadas por versos, que se assumem como a sua tradução para a linguagem verbal. Assim, a publicação em separado destes materiais poria em risco a sua compreensão por parte do leitor. No arquivo em análise, temos acesso livre e simultâneo aos dois tipos de materiais, pelo que, há possibilidade de estabelecer múltiplas ligações entre eles e entrevermos a sua verdadeira dimensão.

Por último, a edição on-line de um documento contribui para a sua preservação. Os elementos, quer textuais quer pictóricos, que fazem parte da obra de Rossetti têm cerca de um século e, como tal, começam a sofrer os efeitos do tempo. Com efeito, as cores dos quadros vão começando a esbater-se e o vasto conjunto de papéis escritos pelo punho do próprio autor, bem como os materiais impressos, vão-se tornando mais sensíveis aos elementos, nomeadamente á luz e á temperatura. Perante esta situação, a sua exposição vai sendo cada vez mais rara, pois as entidades, privadas ou institucionais que os tutelam, têm como objectivo prolongar o mais possível a sua existência. Ao digitalizar todo esse espólio, um projecto de edição electrónica como The Rossetti Hypermedia Archive garante, por um lado, a sua acessibilidade a todos os utilizadores da World Wide Web e, por outro, a sua segurança. Qualquer navegador da World Wide Web pode desfrutar de forma absoluta e por tempo indeterminado de uma pintura ou texto sem sair de casa e, o mais importante, na óptica dos guardiães, a distância física entre o objecto a preservar e o espectador minimiza o risco de furto ou de outro tipo de danos que advenham do contacto humano.     

 

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Crítica Textual e Edição Electrónica

 

«It is therefore the modern editorial practice to choose whatever extant text may be supposed to represent most nearly what the author wrote and to follow it with the least possible alteration» (Greg, SB 03)

 Ao publicar um texto, o editor tem, em primeiro lugar, de estabelecer qual é o seu copy-text, isto é, «that early text of a work which an editor selected as the basis of his own» (Greg, SB 03) e alterá-lo o menos possível. De acordo com a crítica textual tradicional, o objectivo último de uma edição deve ser o estabelecimento da versão definitiva de um texto que seja o mais fiel possível á intenção autoral. Os críticos intencionalistas – assim chamados porque crêem na intenção do autor como princípio regente de qualquer edição – defendem o “idealismo textual” (Tanselle, 1996), ou seja, pretendem a criação ou recriação de um texto ideal.

A edição electrónica rompe com estas práticas, pois permite apresentar todas as variantes do mesmo texto, bem como materiais contextuais relevantes acerca das razões que possam estar na origem das mesmas. O utilizador pode comparar o material que lhe é disponibilizado e fazer as suas próprias escolhas e juízos críticos. Contrariamente ao que acontece noutros arquivos, nomeadamente no projecto Romantic Circles, The Rossetti Hypermedia Archive não brinda o seu utilizador com várias edições do mesmo texto. Nenhum dos textos impressos que foram alvo de digitalização por parte de Jerome McGann pode ser analisado de forma comparativa, pois apenas uma das versões está disponível. Ao ter acesso apenas a uma das várias edições, o estudo e juízo crítico do leitor estão a ser limitados. Com efeito, o editor está a condicionar o leitor, inibindo-o de fazer escolhas, através da imposição de uma determinada publicação.

No caso particular do Rossetti Archive, temos primeiras edições de algumas obras, o que nos levaria a supor que os seus editores pretenderiam facultar ao leitor a versão mais próxima da intenção do autor. No entanto, alguns documentos apresentados são provenientes da sexta edição, situação que nos levaria a reconsiderar a primeira hipótese. Os documentos apresentados no arquivo são pertença de instituições[1] públicas, nomeadamente da Universidade da Virgínia, onde está alojado o servidor deste arquivo, e de colecções particulares, pelo que, a apresentação dos materiais será arbitrária. Os documentos exibidos obedecem apenas á disponibilidade mostrada pelas entidades de que são pertença, em ceder, a título provisório, alguns dos seus bens.

Temos de considerar ainda que “(…) the Rossetti project is an archive rather than an edition.” (McGann 1996) Se tivermos em conta que o objectivo último do arquivo em questão é armazenar dados acerca da vida e obra de Rossetti e, não, analisar criticamente a sua produção escrita, facilmente entendemos o porquê de sermos confrontados com um único exemplar de cada uma das obras apresentadas e não com várias, que nos permitiriam uma análise comparativa. O Rossetti Archive pretende ser uma compilação de materiais e não uma edição crítica.

No que concerne aos materiais pictóricos, particularmente pinturas, o projecto dá-nos a conhecer não só o seu aspecto final mas também alguns estudos prévios feitos por Rossetti. O utilizador do arquivo tem acesso á evolução da obra, designadamente de elementos que foram incorporados e de outros que foram excluídos da tela. As escolhas passam a ser visíveis, ao contrário do que sucede com os textos impressos, onde surge apenas a versão pela qual os editores optaram. Aqui, o investigador pode realizar um estudo comparativo e formar a sua própria opinião.

Jerome McGann refere que “The interface one encounters in the actual Rossetti archive is… anything but decentered” (1996). Esta afirmação conduz-nos a outra questão fundamental da edição electrónica, a sua organização. Para os responsáveis pelo Rossetti Archive, o arquivo electrónico ideal seria aquele que actuaria de forma descentralizada, isto é, que não estivesse dependente de um “texto” (entenda-se “texto” como elemento ou estrutura) central que organizasse o hipertexto de documentos. Na realidade, o hipertexto, enquanto tal, encoraja a descentralização, pois potencia a existência de um número infinito de “centros” que podem ser expandidos. No entanto, Jerome McGann refere que nenhum hipertexto académico ou pedagógico actua de forma descentrada. Pelo contrário, os hipertextos mencionados são estruturas hierarquizadas e, como tal, pouco dinâmicas, dado que giram em torno de um elemento central e não actuam de forma independente.

Um importante dado a reter é o facto de a Internet ter sido concebida para actuar como uma estrutura descentrada, não-hierárquica. O propósito era construir uma rede de informação passível de ser destruída ou modificada a qualquer momento e em qualquer ponto, sem pôr em causa o significado geral da rede. De facto, a teoria hipertextual assenta na ideia de uma estrutura não-centralizada de relações complexas (McGann 1996). A estrutura hipertextual potencia a existência de cada ficheiro presente na Internet enquanto unidade estruturada de forma independente, assegurando que as relações e conexões que se estabelecem são arbitrárias e não obedecem a qualquer regra previamente determinada. Cada texto ou porção de texto tem um valor absoluto dentro do todo. Teríamos, então, “that fabulous circle whose center is everywhere and whose circumference is nowhere.”(McGann 1996)

“The Rossetti Archive imagines an organization of its texts, pictures, and other documents in this kind of non centralized form. So when one goes to read a poetical work, no documentary state of the work is privileged over the others. All options are presented for the reader’s choice. “ (McGann 1996) A esperança dos editores do Rossetti Archive é, precisamente, que ele funcione de forma não-centralizada. Idealmente, nenhum aspecto de um trabalho deve assumir uma posição de destaque em relação aos outros e todas as opções devem ser colocadas à disposição do utilizador.   

A questão da organização hierárquica e do “descentramento” da estrutura hipertextual conduz-nos à mudança dos papéis do editor e do leitor. De acordo com Kelvin Everest (2001), o utilizador do hipertexto tem a fantasia de ser inteiramente responsável pelas suas opções. Ao criar o seu percurso, percorrendo as hiperligações que lhe são disponibilizadas, o navegador do hipertexto é levado a acreditar que está sozinho na viagem pelo vasto conjunto de documentos que tem á sua frente. Contudo, está a ser guiado e condicionado pelas escolhas prévias da entidade editorial.Com efeito, ao deparar-se com um sem-número de hiperligações, e ao optar por uma em detrimento de todas as outras, está a descobrir um caminho já previsto, pois a abertura de um documento traz consigo a abertura de vários sub-documentos que têm com ele uma relação intrínseca e indissociável e, como tal, programada. Porém, não podemos ver o editor como uma entidade autoritária, que faz valer apenas os seus juízos e não permite discordâncias ou actos de livre-arbítrio. É possível argumentar que o leitor deveria estar, por assim dizer, entregue a si mesmo, isto é, fazer livremente as suas opções. Mas, é importante destacar que em sites mais específicos ou especializados, designadamente os académicos, é do interesse do utilizador deixar-se conduzir pelas mãos de uma entidade mais apta, pois o carácter único do material pode trazer dificuldades a um utilizador menos avisado ou preparado. Na edição electrónica, o editor não se dilui perante a crescente liberdade do leitor, mas acaba por relegar no primeiro algumas das responsabilidades que lhe eram inerentes na edição impressa.

Como já foi abordado no capítulo anterior, o hipertexto, por oposição ao livro impresso, é uma estrutura flexível, pois a sua estrutura foi gerada para se moldar facilmente a qualquer alteração de software. Na verdade, um dos princípios fundadores do hipertexto é o nunca estar completo, o admitir a inclusão virtualmente infinita de novos materiais. Então, é impossível, no âmbito digital, estabelecer um texto único, uma versão definitiva, correcta e estável de um texto. O meio electrónico não oferece a estabilidade textual professada pelos críticos intencionalistas. O processo de mudança é demasiado célere para permitir a mais ténue esperança de equilíbrio.

De acordo com a teoria social da edição, as intenções autorais raramente controlam a transmissão do texto. Ao longo do tempo, há outras entidades que invadem os códigos linguísticos e acabam por deixar as suas marcas. “As the process of textual transmission expands, whether vertically (i.e., over time), or horizontally (in institutional space), the signifying processes of the work become increasingly collaborative and socialized.” (McGann, 1991) Á medida que os textos se tornam cada vez mais acessíveis, quer seja através do tempo ou do meio institucional, os seus processos de significação tornam-se cada vez permeáveis à colaboração e à socialização. A expansão do processo de transmissão dos textos permite a interferência de um número crescente de intervenientes e, consequentemente, de alterações. Ao projectar a reedição de um texto do século XIX, por exemplo, há que ponderar a possibilidade de modificar elementos ortográficos, de pontuação ou que se prendam com a organização das palavras na frase, tornando-o mais próximo do leitor contemporâneo.

A ocorrência simultânea de intenções autorais e de intenções não-autorais abre caminho a edições eclécticas. Perante esta pluralidade, é fundamental reajustar a estrutura que preside aos conceitos e ferramentas de edição e crítica textual. A intenção autoral passa a ser apenas um dos critérios para tomar decisões acerca do copy-text e nenhum procedimento editorial pode ser tido como correcto, dado que a mutação é constante.

Por fim, não poderíamos passar ao próximo capítulo sem mencionar o facto de o Rossetti Hypermedia Archive se encaixar, em traços gerais, nos moldes do guia editado por The Modern Language Association’s Committee on Scholarly Editions no que concerne aos princípios editoriais que devem nortear uma edição electrónica.

 

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Indexação e Pesquisa

 

O Rossetti Hypermedia Archive é composto por onze secções distintas e, por um motor de busca. Ao navegar por entre todas estas secções, é preciso ter em conta que, devido ao tamanho da maioria dos ficheiros que constituem o arquivo, os utilizadores acharão, por vezes, mais conveniente fazer uso do back button para voltarem a um link anterior. No topo e/ou no fundo de cada página, o navegador terá ao seu dispor um botão que lhe permitirá voltar á página de entrada[2] ou recorrer ao motor de busca, o Search Engine[3].Todas as secções do arquivo incluem um vasto conjunto de materiais que são estruturas complexas, com múltiplos níveis sub-documentais, e que estabelecem ligações com outras áreas do arquivo e com documentos específicos.

Ao escolher uma área para visitar, logo na página de entrada do arquivo, o utilizador acede a uma introdução geral da secçãoe encontra à sua esquerda uma barra vertical com links para a lista cronológica e para a lista alfabética dos trabalhos guardados naquela secção, bem como um link para a página de entrada e outro para o motor de busca. Qualquer das hiperligações escolhidas leva o navegador a ficheiros que organizam o complexo corpus de materiais disponíveis e que permitem ao utilizador localizar e consultar documentos específicos das listas Search for Related Objects e Search for Related Images. Os ficheiros de organização oferecem ao investigador notas e comentários que guiam escolhas e que explicam os materiais em estudo. Ao proceder à análise de um documento em particular, outro ficheiro surge contendo a transcrição textual do texto, mais comentários críticos e uma ligação à imagem digital do objecto.

Cada documento e, parte de documento, existente no Rossetti Hypermedia Archive possui um código próprio. No nível mais básico, um volume de uma obra de Dante Gabriel Rossetti existe enquanto ficheiro, com um código, e cada poema dentro desse mesmo volume também tem o seu próprio código. Deste modo, o utilizador interessado em encontrar todas as referências a determinada obra pode fazê-lo de forma fácil e rápida.

Num futuro próximo, os editores do arquivo pretendem introduzir um ícone, uma estrela, junto do título de cada obra literária, que será a ligação à página dos comentários editoriais e críticos, bem como a todos os documentos relacionados com o trabalho em questão. Actualmente, o utilizador depende da lista disponibilizada na página de entrada e do motor de busca para obter comentários.  

O motor de busca permite ao utilizador fazer pesquisas complexas, e está acessível tanto da página principal[4] como da página de entrada do arquivo, e de cada página de cada texto ou imagem. O Search Engine pode perscrutar todo o arquivo. Todavia, é possível limitar a procura a um conjunto específico de documentos, nomeadamente datas, locais, nomes, títulos e géneros literários. Também é possível procurar referências a uma determinada figura em várias áreas documentais. Ao solicitar referências de Elizabeth Siddal, por exemplo, encontraremos dados acerca da sua obra e do seu trabalho enquanto modelo de Rossetti.

O mecanismo de pesquisa do Rossetti Hypermedia Archive é uma ferramenta flexível, que tem vindo a ser melhorada de forma progressiva e eficaz mas, tem ainda importantes obstáculos a superar, designadamente a dificuldade em lidar com elementos conceptuais, assunto a que me referirei no capítulo que se segue.  

 

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Virtualidades e Limites   

 

“The Rossetti Hypermedia Archive is a hypertextual instrument designed to facilitate the scholarly study of Dante Gabriel Rossetti, the painter, designer, writer, and translator (…)” (McGann, "General Introduction to the Archive")

Como se depreende da afirmação supra citada, o Rossetti Hypermedia Archive pretende ser uma ferramenta, hipertextual, no estudo académico da obra de Rossetti. A citação levaria qualquer cibernauta a concluir que o arquivo é vocacionado apenas para o mundo académico. Todavia, os dados fornecidos pela página web Metadata: [Rossetti, Dante Gabriel] Dante Gabriel Rossetti Hypermedia Research Archive [5], definem-no como um site acessível tanto a investigadores, como a licenciados, estudantes e curiosos. Com efeito, ao navegar pelo arquivo, o utilizador não encontra linguagem demasiado específica, isto é, especializada.

Se tivermos em conta que, a obra de Dante Gabriel Rossetti é praticamente desconhecida para além das fronteiras do mundo académico, há que salientar um ponto importante, a maioria dos visitantes deste arquivo são leigos em termos da cultura Rossettiana. Logo, a linguagem tem de ser acessível a esse público pouco informado e ávido de conhecimento.

O arquivo é bastante rigoroso, uma vez que procura fornecer o maior número possível de dados acerca de cada um dos materiais que o integra. A título de exemplo, se um utilizador decidir pesquisar o volume de poemas de Rossetti intitulado Poems. A New Edition (1881)[6] vai encontrar um comentário crítico acerca dessa obra, um pequeno texto ilustrativo da sua história de edição e, a bibliografia utilizada para escrever ambos os resumos mencionados. No início da página, o utilizador tem ainda à sua disposição duas imagens digitalizadas do livro impresso. Ao clicar sobre a imagem à esquerda, surge um ficheiro que contém imagens digitais relativas ao interior do livro. Efectivamente, temos acesso a particularidades como a paginação e a mancha gráfica. Dentro desta hiperligação, há ainda a salientar outras ligações que nos desvendam a transposição do texto impresso no livro para o ecrã do computador. Os editores tiveram o cuidado de publicar, de forma simultânea, a versão digitalizada e a tipográfica, respeitando inclusive a paginação, permitindo ao utilizador julgar até que ponto o código bibliográfico foi ou não respeitado. O exemplo que melhor ilustra, quanto a mim, o rigor deste arquivo é a digitalização de notas manuscritas do autor. Como é próprio de qualquer anotação ou esboço, as rasuras abundam e, como seria de esperar, a maioria das edições contempla apenas o texto final, limpo de qualquer imperfeição. Porém, no Rossetti Archive, a equipa dirigida por Jerome McGann teve o cuidado de incluir não só a imagem digitalizada desses rascunhos mas também a sua transposição para o ecrã, mantendo inclusive as rasuras.

A imagem à direita oferece-nos a possibilidade de espreitar as imagens digitalizadas do aspecto físico exterior do livro, designadamente a capa, a lombada e pormenores da ilustração utilizada na encadernação.

O material pictórico que constitui o arquivo é acessível através da página de entrada, clicando nos botões Pictures[7] e Double Works[8] ou através do motor de busca. Se solicitarmos, por exemplo, informação relativamente à pintura The Blessed Damozel (1876) deparamo-nos com uma organização do interface semelhante à do documento textual. No topo da página, surge a imagem digitalizada do quadro escolhido e, imediatamente abaixo, dividida em duas colunas, a informação acerca do mesmo, que vai desde o comentário crítico, passando pela história de produção, aspectos iconográficos, aspectos pictóricos, ligações literárias relevantes, o tema, os modelos que para ele posaram, a localização actual, as dimensões da tela e, em alguns casos, o preço pelo qual foi vendido. Por último, temos o código do ficheiro que se constitui como fonte do arquivo.

O organismo que permite a visualização de cada tela é, sem sombra de dúvida, uma das mais-valias do Rossetti Archive. Ao clicar na imagem digitalizada, surge no ecrã uma versão aumentada da pintura, de excepcional qualidade e, para o navegador mais minucioso, ou seja, para aquele que atente mais no pormenor, o mecanismo de visualização abre as portas a uma observação mais detalhada. O Zoomifyer permite manipular a imagem através dos botões (+), (-),←,→, ↑, ↓. Deste modo, o utilizador pode aumentar ou reduzir, mover para esquerda ou para direita, para cima ou para baixo a imagem, a seu bel-prazer.

O arquivo fornece-nos ainda meta-informação. Na secção About the Archive[9], na página principal do arquivo, temos conhecimento das suas fases de criação. A primeira versão remonta ao ano 2000 e contemplou a obra Poems (1870), bem como todos os elementos textuais e pictóricos a ela associados. No que concerne à segunda fase do projecto, que teve lugar em 2002, a atenção voltou-se para The Early Italian Poets. Actualmente, está em curso a terceira actualização, centrada no volume Ballads and Sonnets. A derradeira etapa, em 2008, contemplará materiais póstumos a Dante Gabriel Rossetti.

O acesso à lista de colaboradores e das instituições a que pertencem os materiais é disponibilizado nas páginas “Credits and Acknowledgements”[10] e “Contributing Institutions”[11], respectivamente. O endereço electrónico de Bethany Nowviskie, responsável pelo design, é indicado para questões ou dúvidas. Na secção Exhibits and Objects[12], temos listagem dos objectos que constam do projecto e, no final de cada página, são disponibilizadas hiperligações ao IATH (Institute for Advanced Technology in the Humanities), ao consórcio NINES, à Creative Commons License, os programas que presidiram à criação do arquivo hipermédia, e ao e-mail de Jerome McGann [13], o principal responsável.

No respeitante aos males de que padece o Rossetti Hypermedia Archive, é de capital importância aludir às limitações do search engine e à ausência de hiperligações externas.

Como foi notado pela Dra. Julia Thomas[14], na conferência “Word and Image in the Digital Archive” realizada a 2 de Junho de 2006, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, o motor de busca do Rossetti Hypermedia Archive tem ainda graves constrangimentos a superar. Se atentarmos no exemplo dado por ela no mencionado discurso, sundial (“relógio de sol”), apercebemo-nos da dificuldade do software em lidar com alguns elementos. Com efeito, se introduzirmos um vocábulo, neste caso sundial, e não restringirmos a pesquisa a um conjunto específico de documentos, o ecrã oferece ao utilizador uma sucessão de hipóteses, desde imagens a excertos de textos. No que concerne às imagens, estas acabam por fornecer uma informação válida, pois corresponde às expectativas de quem faz a pesquisa. No caso particular dos documentos escritos, os dados obtidos nem sempre são relevantes. De facto, se pretendermos aceder, por exemplo, a um poema sobre um relógio de sol, será uma tarefa difícil, pois o que surge perante os nossos olhos é apenas um conjunto de fragmentos onde Rossetti usou o termo e, como tal, a pesquisa é pouco esclarecedora.

Ao realizar, recentemente, uma pesquisa acerca de William Morris no Rossetti Hypermedia Archive deparei-me com alguns obstáculos. A base de dados do arquivo possui apenas retratos de William Morris e da sua esposa, Jane Morris, da autoria de Rossetti e acompanhados da respectiva história de produção e não fornece qualquer informação biográfica ou artística. Poderíamos argumentar que o Rossetti Hypermedia Archive é um projecto digital dedicado exclusivamente ao estudo da vida e obra de Dante Gabriel Rossetti e que, como tal, a biografia de William Morris não teria aí lugar. No entanto, Morris foi um dos mais importantes e influentes discípulos de Rossetti e, Jerome McGann e a sua equipa deveriam ter incluído hiperligações externas que conduzissem o utilizador a uma base de dados mais adequada. Outra dificuldade com que me deparei durante a pesquisa foi a proliferação de hiperligações que me “empurravam” para William Michael Rossetti e não para William Morris. O software seleccionou, de entre os nomes introduzidos, William, conduzindo-me para locais que não eram relevantes no momento.

O mecanismo de pesquisa do Rossetti Hypermedia Archive apresenta ainda sérias contrariedades ao lidar com conceitos. O facto de serem elementos abstractos, isto é, que se traduzem em palavras e ideias e, não em objectos físicos, inibe o Search Engine de conduzir uma busca válida e eficaz.

Apesar dos esforços feitos pela equipa responsável por este projecto electrónico, no sentido de suprimir todo o tipo de falhas, penso que ainda estamos longe de conceber um software capaz de imitar a capacidade inata dos humanos para lidar com factores tão abstractos quanto os conceptuais.

 

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Aplicação ao Ensino, à Aprendizagem e à Investigação

 

O Rossetti Hypermedia Archive pode revelar-se um importante aliado no âmbito pedagógico e de investigação. Tal como foi referido no capítulo precedente, o Rossetti Archive é acessível a qualquer utilizador da World Wide Web. Este suporte electrónico não apresenta qualquer restrição e a sua linguagem é passível de ser manipulada por “popular, undergraduate, graduate, professional”[15].

O docente que, durante a leccionação, se deparar com a necessidade de saber mais sobre o indivíduo ou artista Dante Gabriel Rossetti, quer para satisfazer um interesse pessoal ou dos seus discentes, pode socorrer-se desta ferramenta hipertextual. Para além de nos presentear com a digitalização de materiais impressos e manuscritos, de telas, desenhos e esboços, temos ainda dados biográficos e documentos que nos permitem fazer a contextualização de todo esse espólio. A cronologia[16] elaborada por Jerome McGann facilita a compreensão geral da existência e do trabalho de Rossetti. Com hiperligações a um número variado de documentos, a cronologia guia-nos de forma ordenada por diversas partes do arquivo, sejam elas “habitadas” por elementos textuais ou pictóricos. 

No que diz respeito aos últimos, há que salientar o papel que o Rossetti Archive pode assumir na educação cultural do público. O espólio artístico de Rossetti, espalhado por várias instituições e colecções privadas em vários países, nunca enfrentaria os olhos do público se não fosse pela iniciativa em análise. A raridade e fragilidade de alguns materiais impossibilitaria o conhecimento da obra pictórica de Rossetti por parte da comunidade menos familiarizada com o artista, ou seja, o fragmento social que está distante da vida académica.

Podemos então concluir que, ao incorporar elementos diversos, nomeadamente contextuais, e oferecer acesso ilimitado aos mesmos, esta edição electrónica promove a descoberta e aproximação ao autor por parte da comunidade global.

 

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Conclusão

 

“In development since the early 1990’s, the Rossetti Archive has constituted the leading edge of electronic scholarly editions (...)” (Andrew Stauffer, 1998)

Em desenvolvimento desde a década de 90, o Rossetti Hypermedia Archive é um dos projectos pioneiros na área da edição académica digital. Consagrado à obra e vida do artista vitoriano Dante Gabriel Rossetti, o arquivo da responsabilidade de Jerome McGann assume-se como único no tratamento do material que integra.

O arquivo, que está na sua terceira fase de actualização e se debate ainda com alguns constrangimentos, nomeadamente no que concerne ao motor de busca, é um projecto pleno de potencialidades e uma ferramenta essencial ao estudo de Dante Gabriel Rossetti. O seu acesso ilimitado, fácil e rápido, bem como a sua linguagem não-especializada, aproxima-o do vulgar utilizador da World Wide Web. Ao aceder a http://www.rossettiarchive.org/ , qualquer cibernauta se depara com a hipótese de manipular um número virtualmente infinito de documentos, organizados e acompanhados de comentários críticos e materiais contextuais, compilados por académicos reputados como Jerome McGann.  

Finalmente, confesso que a proposta de análise de um arquivo electrónico me despertou alguma desconfiança. Na verdade, enquanto consumidora de edições tipográficas, questionei-me sobre a validade dos arquivos e das edições electrónicas em geral. Porém, a análise do Rossetti Hypermedia Archive levou-me a concluir que as edições em meio digital vão sendo cada vez mais elaboradas, complexas e, na sua maioria, mais fiáveis, pelo que, se vão assumindo como uma ferramenta essencial ao estudo e à investigação. Acredito que arquivos como o Rosssetti podem ser um substituto melhorado, em alguns casos, das edições impressas e um complemento valioso noutros.

 

Julho de 2006

Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra

© Ana Catarina Garrido, acgpg@hotmail.com

 

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Notas

[1] http://www.rossettiarchive.org/about/institutions.html

[2] http://www.rossettiarchive.org/

[3] http://www.rossettiarchive.org/rose/

[4] http://www.rossettiarchive.org/

[5] http://www.anglistikguide.de/cgi-bin/ssgfi/anzeige.pl?db=lit&nr=000086&ew=SSGFI

[6] http://www.rossettiarchive.org/docs/1-1881.raw.html#

[7] http://rossettiarchive.org/pictures.html

[8] http://www.rossettiarchive.org/doubleworks.html

[9] http://www.rossettiarchive.org/about/index.html

[10] http://www.rossettiarchive.org/about/credits.html

[11] http://www.rossettiarchive.org/about/institutions.html

[12] http://www.rossettiarchive.org/exhibits/index.html

[13] jjm2@lizzie.engl.virginia.edu

[14] Nota: A Dra. Julia Thomas é docente na Universidade de Cardiff e coordenadora do CEIR (Centre for Editorial and Intertextual Research). Actualmente, está envolvida na criação de uma base de dados digital dedicada a xilogravuras do período vitoriano. O projecto Database of Mid-Victorian Wood-Engraved Illustrartions só estará acessível on-line a partir de Janeiro do próximo ano.

[15] http://www.anglistikguide.de/cgibin/ssgfi/anzeige.pl?db=lit&nr=000086&ew=SSGFI

[16] http://www.rossettiarchive.org/racs/chronology.rac.html

 


Bibliografia e Webografia

Everest, Kelvin, "Historical Reading and Editorial Practice" (2000) in Joe Bray, Miriam Handley & Anne Henry (eds.), Ma(r)king the Text: The Presentation of Meaning on the Literary Page, Aldershot: Ashgate

Greg, W.W., "The Rationale of Copy-Text" (1950-51) in Studies in Bibliography, Volume 3  in  http://etext.virginia.edu/bsuva/sb/ (consulta 31-07-2006)

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