DigLitWeb: Digital Literature Web

E-E


Uma edição electrónica de Lyrical Ballads

Daniela Maduro


 

índice | contents

Introdução

O percurso das Lyrical Ballads

As Lyrical Ballads online

I. Apparatus Criticus em análise

II. Limitações

Conclusão

Bibliografia  

 


Introdução

 

A true critical representation does not accurately (so to speak) mirror its object; it consciously (so to speak) deforms its object. The critical act therefore involves no more (and no less) than a certain perspective on the object, its acuity of perception being a function of its self-conscious understanding of its own powers and limitations. (Jerome McGann in "Visible and Invisible Images in N-Dimensional Space", p.173)

O advento do computador revolucionou o nosso sentido de materialidade. “Ler” deixou de significar exclusivamente virar a folha de um livro, ao passo que interpretamos o seu código linguístico e gráfico. “Ler” pode ser agora visto como uma operação labiríntica ou uma excursão, que se desenrola numa sequência de “cliques”. Trata-se de uma operação durante a qual temos um movimento arbitrário e que nos coloca perante processos físicos, que fornecem uma materialidade aparentemente transparente e uma projecção do que conhecíamos como “texto”.

Neste sentido, “ler” em ambiente electrónico é uma operação que decorre simultaneamente a “escrever”. Ao passo que delineamos o caminho através de nodes, links e paths, abrindo e fechando janelas, produzimos um texto individual. A fronteira entre autor e leitor dilui-se dando forma ao velho sonho estruturalista do texto descentralizado e infinito. Trata-se de um texto geral, que não esconde a intertextualidade e que destrói o sentido unilateral da comunicação entre autor e leitor.

As ferramentas oferecidas pelo ambiente electrónico, facilitam o acesso à informação. Ao inserir uma palavra-chave num motor de busca, como o Google, é-nos fornecida uma lista de ocorrências. Esta lista traz até nós um vasto número de locais na rede onde pode estar contida a informação que pretendemos. Ao alcance de um simples clique está uma vasta biblioteca onde a informação pode ser cruzada e ampliada infinitamente. Para além disso, podemos tirar partido da componente hipermédia do formato electrónico, sendo possível recorrer a diferentes media, desde o vídeo até à fotografia.

A indexação de informação no meio electrónico funciona de forma associativa. Vannevar Bush, no artigo “As We May Think” (1945), havia apontado esta forma de organização de dados como a mais compatível com o nosso cérebro. Na World Wide Web constatamos que o conhecimento está interligado segundo um universo de intertextualidade. Quando pesquisamos na WWW, não só temos acesso ao texto pretendido, mas a um rol de hipóteses alternativas que se fazem anunciar na mesma página sob a forma de link.

A WWW pôs em prática a ideia de uma Biblioteca Universal, organizada segundo parâmetros editoriais semelhantes ao livro impresso. Acontece que a transferência de um medium para o outro, evidenciou as limitações do antigo medium. O códice tem uma capacidade de armazenamento restrita. A fim de superar esta limitação, foi criado um aparato de edições críticas, erratas ou adendas. O esforço feito pelos editores a fim de suplantar a rigidez física de um livro, comprova que este é um produto inacabado. O seu conteúdo e forma original podem ser facilmente corrompidos devido a erros de impressão e alterações feitas pelo autor ou pelo editor. Esta situação, faz com que o livro impresso tenha uma natureza volátil e, por isso mesmo, de difícil standardização. Perante o projecto de uma nova edição, o editor tem vindo a preferir a edição mais próxima da intenção autoral. Muitas das vezes as restantes edições contêm aspectos significativos para o estudo de uma obra, que são despoticamente omitidos. O leitor não chega a ter acesso a esse tipo de informação e o crítico literário tem que se dedicar a uma investigação exaustiva para chegar até ela. A publicação em ambiente electrónico evita todos estes constrangimentos. O editor não necessita de escolher uma edição entre muitas. O hipertexto pode abarcar todas as versões de um mesmo texto, graças à “colação”, deixando ao critério do leitor a tarefa de selecção.

O ambiente electrónico não amplia apenas as capacidades técnicas do livro. Ele permite abordagens alternativas de um texto literário, desafiando a leitura que fazemos sobre o mesmo. Sabemos que o número de ocorrências de um adjectivo num determinado livro pode ser significativo para a interpretação do mesmo. A contagem manual destas ocorrências tornar-se-ia numa tarefa morosa, em alguns casos impossível, mas o computador desempenha essa função de forma automática. O formato electrónico permite tornar evidentes certas características que estavam camufladas pela natureza inflexível de um livro.

“(…), electronic tools in literary studies don't simply provide a new point of view on the materials, they lift one's general level of attention to a higher order. (in “The Rationale of Hypertext”, Jerome McGann)”

A página que me proponho a analisar é uma edição electrónica das Lyrical Ballads, uma obra elaborada em conjunto por William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge. Esta obra teve a sua primeira edição em 1798, após a qual se seguiram mais três, a de 1800, 1802 e 1805. Ela tem a peculiaridade de ter ser sido sujeita a várias alterações ao longo destas quatro edições. Essas alterações foram introduzidas quer pelos próprios poetas quer pelos editores. A metamorfose a que as Lyrical Ballads terão sido sujeitas revela muito acerca das convenções bibliográficas adoptadas por ambas as entidades, autor e editor. Revela também muito acerca da leitura desta obra ao longo dos tempos.

Como teremos oportunidade de constatar, a edição electrónica criada por Ronald Tetreault e Bruce Graver, não é dedicada meramente à leitura como actividade de lazer. Para além disso, ela também não encaixa na descrição de um hipertexto como um texto aberto, que torna óbvia a sua intertextualidade. Como o próprio subtítulo indica (an electronic scholarly edition), ela pretende ser acima de tudo uma edição electrónica para fins académicos. Ao publicar as quatro versões das Lyrical Ballads, e não apenas uma, esta edição desafia a concepção do texto como um produto final e uniforme.

 

índice | contents


O percurso das Lyrical Ballads

 

Samuel T. Coleridge e William Wordsworth decidiram publicar esta obra em 1798 em Bristol. A fase de impressão da primeira edição das Lyrical Ballads foi acompanhada de perto por Wordsworth, o que resultou num volume de grande qualidade. Contava apenas com cinco erros corrigidos numa errata, os outros foram corrigidos ao longo do processo. O editor Cottle estava a cargo da impressão. Em Agosto o volume estava pronto para ser impresso, até que ambos os poetas decidiram fazer duas alterações. O poema “The Nightingale” foi retirado e substituído por “Lewti”. Foi também introduzida uma nota introdutória intitulada “Advertisement”. Alguns volumes foram entretanto compostos e distribuídos dentro do ciclo de amigos de Wordsworth e Coleridge. Por este motivo, esta primeira edição das Lyricall Ballads contou com múltiplas versões. Das catorze cópias, que sobreviveram até aos nossos dias, três contêm “Lewti” e não contêm o poema “The Nightingale” e o “Advertisement”. Apenas nove destas edições contêm ambos os poemas.

Entretanto, Cottle estava a enfrentar graves problemas financeiros e decidiu não publicar as Lyrical Ballads. Eis então que Wordsworth decide contactar o editor Joseph Johnson. Simultaneamente, Cottle vendia o copyright das Lyrical Ballads a uma empresa desconhecida, a J. & A. Arch. Foi com esta editora que as Lyrical Ballads foram publicadas pela primeira vez.

Em Junho de 1800, os autores tinham material suficiente para lançar uma nova edição das Lyrical Ballads. A edição desta obra iria ficar a cargo da firma de T.N Longman e a impressão a cargo da Biggs and Cottle. Esta edição contaria com um segundo volume de poemas e um novo prefácio, enquanto que o poema “The Convict” de Wordsworth seria substituído pelo poema “Love” de Coleridge. Porém, foi sujeita a alguns problemas devido a uma falha de comunicação constante entre escritores e editores, tornando esta edição na mais complexa de todas. Ambos os poetas viviam agora em Lake District, a milhas de distância de Londres, não tendo hipótese de controlar a edição de forma permanente. Foi nesta edição que os poetas Coleridge e Worsworth levaram a cabo uma das decisões mais controversas: a substituição do poema “Christabel” de Coleridge pelo poema “Michael” de Wordsworth. Esta alteração fez com que a publicação da obra se atrasasse e com que um erro grave comprometesse a integridade do poema “Michael”: foram omitidos quinze versos deste poema. A solução encontrada foi publicar uma errata que incluísse os quinze versos em falta. Isto aconteceu em Abril de 1891. Esta errata foi anexada a algumas edições, o que resultou num volume inestético e incompleto. As incongruências entre os vários exemplares eram tantas que os autores se viram obrigados a pensar numa outra edição. Esta terceira edição seria lançada a Junho de 1802.

A terceira edição tinha um elemento inovador. Ela incluía publicidade a outras obras publicadas pela Longman, contudo não teve o sucesso esperado. As Lyrical Ballads sofreram a concorrência de outras obras publicadas nesse mesmo ano. Entre elas destaca-se a obra de Robert Bloomfield, Rural Tales, Ballads, and Songs que vendeu milhares de cópias. As Lyrical Ballads tiveram uma nova edição apenas em 1805.

Desta vez, a impressão das baladas de Coleridge e Wordsworth não estaria entregue a Biggs and Cottle mas a R. Taylor of Shoe-Lane. O design gráfico das Lyrical Ballads foi sujeito a alguma modernização. O “s” longo, por exemplo, foi substituído pelo “s” como o conhecemos agora. Esta tipografia tinha critérios rígidos de impressão, o que resultou numa edição consistente e de qualidade. Nesta edição, a obra foi alvo de poucas alterações, o que segundo os autores da edição electrónica das Lyrical Ballads, a torna menos interessante do ponto de vista académico.

Como é possível ver através da biografia das Lyrical Ballads tecida neste capítulo, esta obra sofreu várias alterações, que tornam a história da sua edição num objecto de estudo pertinente. Na edição electrónica, o leitor não só é confrontado com o texto integral, como também com várias versões do mesmo. Graças à ferramenta “dynamic collation” o leitor é livre de comparar as várias versões e de seleccionar a mais indicada. Esta função deixa de estar reservada unicamente ao editor. No capítulo seguinte irei fazer uma reflexão sobre o impacto desta revolução instaurada pelo hipertexto.

 

índice | contents


As Lyrical Ballads online

 

What makes a hypertext system on a computer different from such a book is the provision of mechanical aids to following such links: with a book you have to leaf back and forth to get to the places where the links point, but in a computer hypertext the machine can take you there at once. (Lavagnino, 1995)

Lyrical Ballads – an electronic scholarly edition, proporciona ao leitor uma panóplia de ferramentas críticas que seriam impossíveis de incluir no formato impresso. O projecto em questão foi levado a cabo por Ronald Tetreault e Bruce Graver. O site reproduz as quatro edições das Lyrical Ballads. Está incluído na secção “Electronic Editions” do arquivo intitulado de Romantic Circles. Criado em 1996, este site está indicado para o estudo da cultura e literatura do período romântico.

A instituição que patrocina financeiramente este projecto é a Social Sciences and Humanities Research Council of Canada. Quanto ao server usado, este está alojado na divisão Academic Computing Services na Universidade Dalhousie, Canadá.

O site Lyrical Ballads – an electronic scholarly edition reproduz as quatro edições das Lyrical Ballads utilizando a linguagem SGML segundo as directrizes da Text-Encoding Initiative. As transcrições são baseadas na edição de 1798 de Bristol fornecida pela Universidade de Princeton e nas edições de 1800, 1802 e 1805 fornecidas pela Universidade Simon Fraser.

Esta edição propõe uma estrutura organizada que guia o utilizador através de caminhos pré-estabelecidos. Não se trata portanto de confrontar o leitor com um texto descentrado, pleno em ramificações, mas de colocar à sua disposição quatro versões de um mesmo texto, as quais o leitor pode comparar de forma coesa.

Quando acedemos à homepage desta edição electrónica, são-nos fornecidos seis separadores internos: o “Editor’s Preface”; “The Texts: 1798-1805”, onde encontramos o texto integral e a sua versão fac-similada; um separador que contém o instrumento “Dynamic Collation”; um separador que apresenta algumas referências bibliográficas denominado “Scholarly Studies” e outro intitulado de “Reader´s Responses”. Para além disto, temos a hipótese de escolher um link que nos remete para o arquivo ao qual esta edição é subjacente e outro para a página da conceituada editora “Cambridge University Press”.

No primeiro destes separadores (“Editors’ Preface”) temos acesso à meta-informação do site. É-nos primeiro apresentada uma biografia da obra Lyrical Ballads e os princípios editoriais usados por Ronald Tetreault e Bruce Graver na sua transição para o formato electrónico. Posteriormente, os editores tecem uma explicação sobre a ferramenta Dynamic Collation, bem como uma bibliografia na qual os editores se terão baseado para construir esta edição electrónica.

O segundo separador (“The texts: 1789-1805”) tem a particularidade de nos fornecer uma edição fac-similada de cada edição das Lyrical Ballads, apresentada paralelamente a uma edição em SGML. Neste separador encontramos uma grelha de duas colunas. Uma coluna é destinada às diferentes edições com as respectivas versões fac-similadas. A outra, aos apêndices que compreendem as correcções feitas ao poema “Michael”. Nesta última existe ainda uma área onde é possível comparar as várias edições lado a lado.

Quanto ao separador “Dynamic Collation”, que é intitulado de “an electronic apparatus criticus”, é possível seleccionar entre as obras de Wordsworth e as de Coleridge, ambas com a possibilidade de serem exploradas segundo um processo de “colação”. Os apêndices, encontrados no separador (“The texts: 1789-1805”) são novamente colocados à disposição do utilizador. Durante a navegação, os diferentes separadores estão sempre visíveis no topo do ecrã, o que facilita a exploração do site e dos seus recursos sem perder um encadeamento lógico. O hipertexto é frequentemente considerado como um texto anárquico, onde o leitor se perde numa malha de hiperligações que se estendem até ao infinito. Segundo os próprios editores desta versão electrónica das Lyrical Ballads num artigo intitulado “Editing the Lyrical Ballads for Electronic Environment” (1998), a principal dificuldade em construir um hipertexto é formular uma estrutura organizada que resguarda os utilizadores de qualquer incursão labiríntica. De facto, os leitores não estão a lidar com um texto uno, mas com quatro versões do mesmo texto, cada uma delas adicionando nova informação.

Where the text of a work is not one but many, readers must cope with an excess of information, must keep track of which version they are examining, and must be able to relate one version to another in an intelligible fashion. None of this can be accomplished without organization, yet the principles for organizing electronic editions remain to be established. The dizzying possibility of getting lost in cyberspace is the abiding problem of hypertext. http://www.erudit.org/revue/ron/1998/v/n9/005783ar.html

Contudo, é possível detectar nesta edição electrónica das baladas de Colerige e Wordsworth uma organização que não se resume apenas à reprodução do texto central. A página é composta por seis secções, que foram criadas pelos editores, justamente para ajudar o leitor a utilizar as ferramentas que criaram. É no seu design que reside a sua organização. Um site tem uma estrutura semiótica que guia o utilizador ao seu destino. O editor não é excluído desta operação, visto que há uma preocupação organizativa, evitando que o leitor se torne vítima de uma encruzilhada. Jerome McGann descreve como a pesquisa do utilizador pode ser direccionada:

To say that a HyperText is not centrally organized does not mean -- at least does not mean to me -- that the HyperText structure has no governing order(s), even at a theoretical level. Clearly such a structure has many ordered parts and sections, and the entirety of the structure is organized for directed searches and analytic operations. In these respects the HyperText is always structured according to some initial set of design plans that are keyed to the specific materials in the HyperText, and the imagined needs of the users of those materials. (in “Rationale of Hipertext”)

No separador “Scholarly Studies”, vamos encontrar uma lista das obras usadas pelos editores durante a construção do seu projecto. Nesta lista estão incluídas as edições em que os editores se terão baseado para elaborar a transferência do formato impresso para o electrónico.

Tetreault e Graver contam também com a reacção dos utilizadores. Sendo assim, adicionaram um separador (“Reader’s Responses”) onde estes podem deixar sugestões ou comentários acerca deste site. Os editores prepararam também uma área onde cada uma das ferramentas críticas é avaliada. Num outro separador, os editores deixam o seu agradecimento a quem colaborou neste projecto (“Acknowledgements”).

O site Lyrical Ballads – an electronic scholarly edition conta comuma estrutura em círculo, organizada de forma a proporcionar uma pesquisa coesa do seu conteúdo. Durante a navegação neste site os sete separadores estão permanentemente visíveis. O separador “Home” permite ao utilizador regressar à home page deste site. Em todas as páginas também é possível ter acesso ao site principal intitulado “Romantic Circles” e à página da editora “Cambridge University Press”. O facto de este site ser comparticipado por uma editora dedicada ao antigo formato, evidencia um elo entre estes dois tipos de edição, a impressa e a electrónica. Existe aqui uma tentativa de legitimar o novo formato, garantindo ao utilizador do hipertexto o mesmo prestígio que está associado às edições impressas da “Cambridge University Press”. Segundo os editores, não se trata de substituir um formato por outro, mas remediá-lo, ampliando as suas capacidades: “The new medium should neither replace nor reproduce the book, but must strive to do things books could never accomplish.” http://www.erudit.org/revue/ron/1998/v/n9/005783ar.html

Ainda existe um certo estigma em utilizar edições publicadas online. Este fenómeno de cepticismo não tem que ver apenas com a novidade do medium, mas como Shillingsburg referiu na sua obra, Electronic Editions (1999) com a facilidade com que a WWW cria editores, não existindo uma entidade que garanta aos leitores a qualidade das edições. Shillingsburg, observando o desenvolvimento do projecto Gutenberg (www.gutenberg.org), lamenta que este não tenha feito um controle mais restrito em matéria de edição. Este site reclama ter sido o primeiro a disponibilizar livros electrónicos gratuitos. Conta com a boa vontade de voluntários que são encarregados de rever os textos. No processo de facilitar o acesso aos livros, o projecto Gutenberg ignora a marcação dos textos, o que faz com que, segundo Shillingsburg, este site se transforme num “textual junkyard” (Shillingsburg, 1999: 161).

O facto de esta edição das Lyrical Ballads ser apoiada por uma editora que conta já com uma longa tradição, garante aos leitores que o site de Tetreault e de Graver é uma fonte fidedigna, coordenada por uma entidade há muito legitimada no mercado do livro.

Prosseguindo com a análise da edição electrónica, no fundo de cada página o utilizador pode ter acesso a um registo da sequência de links que o levaram até à página onde se encontra, podendo a qualquer momento premir um deles para regressar a uma determinada página. No fundo de cada página é apresentada a possibilidade de regressar à secção do arquivo Romantic Circles, onde podemos encontrar Lyrical Ballads – an electronic scholarly edition. O link que possibilita esta acção tem o nome “Electronic Editions”. Seguem-se outros links que nos fornecem informações acerca do site principal. A sua disposição é a seguinte:

Electronic Editions | Features & Events | Reviews | Praxis Series
Scholarly Resources | Publications | RC High School | Villa Diodati

O copyright e outras informações assinalam o fim dos separadores da seguinte forma:

Romantic Circles is published by the University of Maryland.
General Editors: Neil Fraistat, Steven E. Jones, Carl Stahmer
-
Conditions of Use - Inquiries and Comments

Como podemos ver pelo tipo de organização levada a cabo pelos editores deste site, as necessidades dos seus leitores foram cautelosamente previstas. A quantidade de ferramentas que eles disponibilizam parece ir de encontro às expectativas do público em relação a uma edição electrónica crítica. Embora facultando alguns links externos, que apenas desembocam no arquivo Romantic Circles, o leitor não faz um movimento associativo entre vários textos, como é usual num hipertexto. Isto porque estamos perante uma edição dedicada à crítica literária. Esta edição não se limita apenas à transposição das Lyrical Ballads para o formato digital, mas acima de tudo à criação de um ambiente onde elas possam ser facilmente analisadas ao nível formal. As suas variantes são desvendadas de forma clara, evitando toda a logística que seria necessária para recolher as várias edições, manuscritos e notas subjacentes ao título Lyrical Ballads.

But the actual focus of hypertext editions has not generally been on scholarship. People who work on hypertext from other perspectives tend to find these editions rather strange for just this reason: they are inclined to say, ``Why do they call this hypertext?'' The focus of these editions is not on moving from one text to another in an associative manner: it's on having complete versions, single documents that we can read without having to move off to other texts--just the kind of reading that we normally do with paperbacks.(Lavagnino, 1995)

  

índice | contents


I. Apparatus Criticus em análise

Their problems arise because they deploy a book form to study another book form. This symmetry between the tool and its subject forces the scholar to invent analytic mechanisms that must be displayed and engaged at the primary reading level -- e.g., apparatus structures, descriptive bibliographies, calculi of variants, shorthand reference forms, and so forth. The critical edition's apparatus, for example, exists only because no single book or manageable set of books can incorporate for analysis all of the relevant documents. (in “The Rationale of Hypertext”)

A edição electrónica das Lyrical Ballads apresenta um conjunto de recursos que visa oferecer ao crítico literário a oportunidade de reunir num ecrã de um computador vários instrumentos de análise textual. Antes da chegada do hipertexto, o códice colmatava as suas falhas graças a edições críticas no mesmo formato. O hipertexto trouxe consigo a promessa de conter em si todo o tipo de informação necessária à crítica textual. Trouxe também consigo uma nova geração de ferramentas interactivas que se revelaram eficientes e mas também dinamizadoras de uma nova abordagem crítica sobre as obras.

A edição da obra de Wordsworth e de Coleridge no ambiente electrónico é um exemplo de como o hipertexto pode responder de forma abrangente às necessidades da crítica literária. Esta edição apresenta uma versão fac-similada de cada uma das suas edições das Lyrical Ballads acompanhada pela versão em SGML. Por seu turno, o instrumento intitulado Dynamic Collation, permite a comparação simultânea das quatro edições desta obra.O objectivo dos autores é apresentar as Lyrical Ballads aos leitores do séc. XXI assim como elas foram apresentadas no séc. XIX. Para isso, foram conservados alguns erros editoriais, pois estes revelam a mutação sofrida por esta obra ao longo de quatro edições.

No topo do separador “The Texts: 1789-1805”, os autores apresentam uma breve explicação acerca da finalidade da versão fac-similada das Lyrical Ballads: “Electronic facsimiles of each of the lifetime versions of the Lyrical Ballads collection may be studied here. A careful and complete transcription of each volume is accompanied by a digital image of every page.” http://www.rc.umd.edu/editions/LB/readtxts.html

Nesta pequena indicação, os editores declaram que a versão fac-similada das Lyrical Ballads está direccionada para o estudo desta obra. Não se trata somente de colocar à disposição do leitor a versão electrónica da obra em questão, mas também de fornecer ao leitor uma projecção das edições do séc. XIX. Na altura em que os autores se envolveram neste projecto, já havia versões fac-similadas no formato impresso da obra de Coleridge e de Wordsworth. Contudo, os editores pretendiam ir mais além: "…we were concerned that our efforts would merely seem to repeat work that was already well done. We needed to find in the electronic medium ways to present our material that would be clearly distinct from print editions". http://www.erudit.org/revue/ron/1998/v/n9/005783ar.html

A versão fac-similada de uma obra permite aos utilizadores entrarem em contacto com o livro assim como ele terá sido apresentado aos leitores do séc. XIX. Ao mesmo tempo, permite um estudo mais aproximado da sua formatação original. Esta ferramenta aproxima-nos do livro impresso dando-nos a impressão de interactividade. Desta forma, o hipertexto tenta simular as propriedades físicas do códice, fazendo-nos crer que estamos de facto a virar as páginas de um livro.

Quanto à entrada “Dynamic Collation”, os autores explicam a função principal deste instrumento: "The scheme of "dynamic collation" uses a text with links in the left-hand frame to map revisions in the texts displayed in the right-hand frames. Scroll down the "Variant Map" on the left and click on these descriptive links to see a textual variation in context on the right." http://www.rc.umd.edu/editions/LB/html/dcoll/dcoll_index.html

Eles intitulam-na de “electronic apparatus criticus”, o que denota a intenção de criar novos instrumentos de análise textual fazendo uso das capacidades do hipertexto. O objectivo é criar um site onde a informação possa ser facilmente acedida, evitando o que os editores, no prefácio à sua edição chamam de “a good deal of preliminary legwork”.

Esta edição digital possibilita o armazenamento de informação de forma expansível, proporciona também um fácil acesso ao seu conteúdo. Tendo em conta que a obra de Coleridge e Wordsworth sofreu várias alterações de 1798 até 1805, torna-se necessário criar uma edição que englobe as várias diferenças tipográficas. O seu objectivo é romper com a ideia de uma obra literária una, como uma versão final. Os autores pretendem respeitar cada versão, porque cada uma delas reflecte uma intenção diferente, quer do autor, quer do editor.

No mapa de variantes, apresentado à esquerda desta página como uma janela paralela, é possível encontrar as diferenças de edição para edição. Trata-se de uma forma de alertar o utilizador que em determinado verso há uma incongruência entre as várias edições. Este mapa é composto por links que remetem para as alterações em cada uma das janelas. As variantes de edição para edição estão destacadas pelo uso da cor laranja. Ao seleccionar os diferentes “hotspots”, somos imediatamente remetidos, para a página onde se detectou a variante. Esta ferramenta funciona como uma âncora, que evita que o utilizador se alheie do texto, enquanto percorre as quatro janelas, que ilustram cada edição. Mais uma vez, apercebemo-nos que esta edição não se resume à tarefa de fornecer as quatro versões da obra Lyrical Ballads, mas de colocar à disposição do utilizador ferramentas eficientes para um estudo comparativo das suas várias edições.

Tetreault e Graver, os editores de Lyrical Ballads: an electronic scholarly edition, não pretendem dar a conhecer a obra segundo a versão do autor. Para ambos será importante, tal como explicitado no prefácio a esta edição, “preservar o artefacto”. No artigo "Editing Lyrical Ballads for the Electronic Environment." (1998), publicado no site Romanticism on the Net, ambos defendem que existe uma evolução no trabalho de Wordsworth que é impossível descurar. Daí que afirmem que: “(…)there is not one but many Wordsworths, the young poet in his twenties evolving toward the old man of eighty with many stages in between, each with some claim to mastery and each therefore with some claim on our attention.” http://www.erudit.org/revue/ron/1998/v/n9/005783ar.html

A obra literária surge como um “work-in-progress” e todas as suas edições têm significância para o estudo da mesma. No ambiente electrónico é possível dar voz a cada uma dessas versões sem ser preciso proceder a uma selecção. O editor já não precisa de se cingir a um único “copy-text”, o que representa a derrocada do que W. W. Greg chamou de tirany of copy-text (Greg, 27). Os editores da versão electrónica das Lyrical Ballads explicam: “…rather than supplying a single "best" reading text, as editors of letterpress editions have traditionally done, we decided to supply a multiplicity of reading texts, which readers can study and compare with each other .” http://www.erudit.org/revue/ron/1998/v/n9/005783ar.html  

Face a manuscritos medievais, a função do editor, tal como G. Thomas Tanselle referiu na sua obra Textual Criticism and Scholarly Editing, resume-se à emendatio e recensio. O editor limita-se a construir uma análise genealógica da relação entre vários manuscritos (recensio) e a correcção de possíveis erros (emendatio). Perante textos impressos, que é o caso das Lyrical Ballads, a tarefa do editor complica-se. As Lyrical Ballads conheceram apenas a publicação em formato impresso. Os editores actuais contam com várias fontes, desde manuscritos redigidos pelos autores até às quatro edições a que estas obras foram sujeitas. Todas estas versões reclamam a sua autoridade. O editor tem agora de escolher entre várias versões, seleccionando um único “copy-text”. Quanto mais aproximado este for da versão do autor, maior será a sua autoridade. O papel do editor está circunscrito à expressão da intencionalidade do autor. W.W. Greg, numa teoria conhecida como “teoria eclética da edição”, considera que o editor tem o direito de deliberar sobre a adopção ou rejeição de substantives (certas palavras que podem mudar o sentido do texto) ou sobre a marcação do texto ou detalhes como a pontuação e a capitalização, aos quais Greg chama de accidentals. Para este autor é impossível não haver qualquer tipo de intervenção por parte do editor na obra. O editor não deve reprimir a sua influência, quanto ao tratamento dos substantives, pois para Greg é aqui que se distingue a qualidade do seu trabalho. No entanto, Greg tem em conta que um copy-text deve ser consultado para definir a marcação ou os accidentals.

The true theory is, I contend, that the copy-text should govern (generally) in the matter of accidentals, but that the choice between substantive readings belongs to the general theory of textual criticism and lies altogether beyond the narrow principle of the copy-text. (…) The failure to make this distinction and to apply this principle has naturally led to too close and too general a reliance upon the text chosen as basis for an edition, and there has arisen what may be called the tyranny of the copy-text, a tyranny that has, in my opinion, vitiated much of the best editorial work of the past generation (Greg, 1950-51: 27)

Com Jerome McGann, a função do editor ganha novos contornos. Jerome McGann acredita que não existe um texto acabado, defendendo que cada edição tem a sua integridade. O hipertexto é para Jerome McGann um elemento libertador, já que permite dar voz a todas as versões de uma obra, sem subjugá-la a uma versão final. Os documentos que compõem a WWW circulam de forma autónoma. A capacidade de armazenamento da WWW é expansível até ao infinito e os recursos que disponibiliza não encontram paralelo no códice.

The exigencies of the book form forced editorial scholars to develop fixed points of relation -- the "definitive text", "copy text", "ideal text", "Ur text", "standard text", and so forth -- in order to conduct a book-bound navigation (by coded forms) through large bodies of documentary materials. Such fixed points no longer have to govern the ordering of the documents. As with the nodes on the Internet, every documentary moment in the hypertext is absolute with respect to the archive as a whole, or with respect to any subarchive that may have been (arbitrarily) defined within the archive. (in “The Rationale of Hipertext”)

Segundo Kathryn Abram, no artigo “Electronic Textuality: A Bibliographic Essay”, vários autores começaram a olhar para o texto electrónico como a solução dos problemas referentes a instabilidade textual. Esses autores foram Peter Donaldson, D.C. Greetham, Susan Hockey e Peter Robinson. Greetham chama a atenção para a transferência do papel do editor para o leitor, que deverá ter ao seu dispor várias variantes de um mesmo texto.

Greetham suggests that decisions that were once the responsibility of the editor can be largely transferred to the reader as hypertext allows all possible variants to be included and linked in an electronic edition. This means that editors do not have to wrestle with the problem of authorial intention or give priority to one text but can incorporate several variants, allowing readers to select the most appropriate text for their particular needs. (Abram, 2002)

No entanto, Kelvin Everest chamou a atenção para a necessidade de existir uma mediação entre o leitor e a edição electrónica. O fornecimento de informação sem qualquer orientação por parte do editor, depara o leitor com o que Shillingsburg intitulou de “an indigested chaos of material”. Ele reclama a intervenção do editor, que deve agir para manter a integridade dos textos, os quais são considerados por Everest como um legado cultural dos nossos antepassados. Jerome McGann prevê a mutabilidade dos textos e a total liberdade do leitor para seleccionar a versão que considere mais adequada, Everest acrescenta que este poder pode tornar-se nocivo para a cultura quando colocado nas mãos de um leitor inexperiente.

The editorial function is indispensable, by which I mean an effort of scholarship, that has to be historically responsible, and imaginative, which  brings the history of a textual transmission to a specific textual focus for its period, and of its period. This authority can only work from authentic documentary witnesses, and it has to exercise the utmost caution in any mixing of textual sources. (Everest, 2000: 199)

 

índice | contents


II. Limitações

 

No separador “The Texts: 1789-1805”, a edição electrónica do texto integral é feita de forma fiel à original, salvo alguns detalhes que não foram observados talvez devido à existência da versão fac-similada. No prefácio das Lyrical Ballads, obedeceu-se à paginação do texto original. Contudo, alguns aspectos não foram contemplados, como por exemplo: o número de linhas; a translineação e alguns elementos tipográficos como o tipo de letra. Quanto aos poemas, podemos observar uma preocupação acrescida no que respeita à paginação, para a qual foi adoptada somente a original; à translineação; ao avanço de cada parágrafo e à pontuação.

Durante toda a edição digital em texto SGML não são reproduzidos os seguintes aspectos: o tipo de letra; as páginas em branco, que são apenas indicadas com um link para a imagem; a numeração das páginas surge identificada por um link e não destacada a meio da página como na edição original e o corpo tipográfico não é representado fielmente.

Sendo um site que se compromete a analisar as diferentes variantes dos textos, creio que teria sido pertinente apresentar versões fac-similadas dos manuscritos produzidos por Wordsworth e Coleridge. A análise das correcções feitas pelos poetas às suas próprias obras poderia resultar numa investigação reveladora. As versões fac-similadas das cartas que os autores trocaram com os editores poderiam ser igualmente um objecto de estudo promissor, visto que algumas incongruências entre as edições surgiram devido a falhas de comunicação entre as duas entidades.

Não é feito qualquer comentário às variantes que vão sendo assinaladas. Os autores não explicitam o contexto em que terão ocorrido e limitam-se a alertar o leitor para a existência das mesmas. Esta omissão viola uma das directivas da MLA para edições electrónicas, veja-se a alínea 2/C (“Parts of the apparatus) da secção “Parts of the Edition”: "The apparatus or collation software should distinguish, where possible, between what the author has done to the text and what was done by scribes, printers, compositors, advisors, and editors (including the present one)." http://sunsite.berkeley.edu/MLA/guidelines.html

Apesar de os autores apenas se comprometerem a construir uma edição electrónica crítica das baladas de Coleridge e Wordsworth e de esta edição estar incluída no arquivo “Romantic Circles”, creio que teria sido pertinente motivar os utilizadores a prosseguirem a sua investigação remetendo para sites externos com o mesmo campo de estudo.

George Landow teceu na obra “Is this hypertext any good? Evaluating quality in hypermedia.” um conjunto de directivas para avaliar uma edição electrónica. Nela, Landow defende que uma edição electrónica tem que promover o interesse por parte do leitor. Para isso acontecer a edição tem que levantar uma série de questões que funcionam como agente motivador de uma prospecção levada a cabo pelo leitor.

…the current lexia readers encounter has to have enough interest, like any text, to convince them to keep reading, and yet at the same time it must also leave enough questions unanswered that reader feels driven to follow links in order to continue reading. (Landow, 2004)

Acontece que a edição electrónica das Lyrical Ballads é demasiado rígida para isso acontecer. Ao leitor não é deixado qualquer espaço de manobra para reflectir sobre o texto. As ferramentas criadas pelos editores dissecam o texto, transferindo a atenção do leitor para a sua forma e não para a sua mensagem

A forma como os editores desta edição electrónica ergueram a estrutura do seu site resultou numa influência extrema sobre a escolha de um itinerário por parte do leitor. Não há a flexibilidade que seria de esperar num ambiente electrónico. A simplicidade do layout e a impossibilidade de criar uma cadeia de links alternativa é um dos aspectos em que esta edição falha. No artigo “Electronic Textuality: A Bibliographic Essay”de Kathrin Abram, esta autora comenta a posição de P. Aaron Potter chamando a atenção para a escala de influência que um editor de uma página Web pode exercer sobre o leitor. Para Potter, o formato digital é mais repressivo do que o impresso, visto que é o editor que define os links que o leitor irá seleccionar. Tal como acontece nesta edição electrónica das Lyrical Ballads, Potter defende que ao leitor apenas é permitido aceder aos espaços que o editor deseja desvendar.

No prefácio à edição electrónica, Tetreault e Graver sugerem que a leitura integral do texto pode ser feita na secção “The Texts: 1789-1805”, visto que é aqui que o leitor entra em contacto com o texto integral. Contudo, julgo que o layout usado nesta página não foi desenhado de forma apelativa, nem de modo a facilitar uma leitura agradável do texto. O espaço reservado ao texto integral é diminuto e torna a leitura numa actividade extenuante. Tal como John Lavagnino comentou na sua obra “Reading, Scholarship, and Hypertext Editions”, o aparato utilizado neste tipo de edições não está indicado para a leitura, mas para um estudo comparativo entre várias versões de um texto. A ferramenta “dynamic collation” pode não ser o instrumento indicado para uma leitura contemplativa, mas torna-se num instrumento crucial na comparação entre diversos textos. Ao apresentar de forma dinâmica as várias faces de um texto, ela facilita a tarefa do crítico literário.

Apparatus may be a "pis-aller détestable'' for providing reading texts, but it is very advantageous for comparative study: it summarizes in a concise way the differences between texts. We cannot do without that in studying multiple versions of works. (Lavagnino, 1995)

Esta edição não corresponde às expectativas de utilizadores que procuram ler uma obra da mesma forma que leriam um livro no formato impresso. Tal como Shillingsburg referiu no capítulo “Electronic Editions” da obra Scholarly Editing in the Computer Age: Theory and Practice, a verdadeira função das edições electrónicas vai mais além do simples acto de ler:

The electronic edition is not primarily, then, a place to sit and read through a novel or a poem for a first-time experience of the work or for the pleasure of a good read. It is a tool for students of a work, returning to it with the intention of exploring its history, its connective tissues, its roots and ramifications. (Shillingsburg, 1990)

Tetreault e Graver advertiram que a forma como se lê estas edições não é compatível com a do códice. A materialidade de um livro continua a ser uma característica altamente apreciada por qualquer leitor. Esta sua propriedade continuará a ser valorizada acima de qualquer instrumento interactivo proporcionado pelo ambiente electrónico. A edição electrónica das Lyrical Ballads prevê que o leitor faça uma leitura especulativa, como parte de um processo de investigação.

True, an electronic Wordsworth may not be eagerly sought out by the general reader; I've met very few lovers of reading who prefer a screen-image over an affordable book you don't need elaborate equipment to use. Indeed, such a Wordsworth edition may not in fact be meant to be "read" at all, at least not in the sense in which we still use the term today. Instead, any edition of Wordsworth in the new medium would be meant to be explored and argued over. http://www.erudit.org/revue/ron/1998/v/n9/005783ar.html

 

índice | contents


Conclusão

 

Na impossibilidade de o livro responder de forma satisfatória às exigências da crítica literária, o meio electrónico disponibilizou um aparato crítico sem precedentes. Para além de fornecer um rol de ferramentas preciosas a esta actividade, está também a revolucionar a própria crítica literária, colocando novos problemas e novas lacunas por preencher.

A página que me propus a analisar reflecte a preocupação crescente por parte da crítica textual em encontrar ferramentas cada vez mais eficientes na análise do corpus literário. A crítica literária aproximou-se da investigação científica e ambas se encontram em diálogo aberto, colaborando para encontrar uma resposta satisfatória à questão de incomensurabilidade do conhecimento.

A ferramenta dynamic collation e a versão fac-similada das Lyrical Ballads, surgem como reacção à tentativa repressiva de resumir as obras literárias a uma perspectiva única, seja ela de um autor, de um editor ou de um elemento de censura. Este tipo de edições permitem ao leitor adquirir uma autonomia nunca antes atingida. Num sentido mais lato, as edições electrónicas de livre acesso permitem colocar no domínio público o direito ao próprio conhecimento.

A linearidade do livro não propunha uma solução eficiente para o estudo da literatura. A WWW conseguiu disponibilizar uma avultada quantidade de textos online, mudando a nossa concepção de “Biblioteca”. Esta rede permitiu também uma rápida troca de dados, dinamizando a relação entre universidades ou entre diferentes focos de investigação. O hipertexto, por seu turno, colocou em evidência as propriedades físicas dos textos, tornando possível a análise meticulosa de elementos formais como a capitalização ou a translineação. Estes elementos, até aqui encobertos pela hegemonia do signo linguístico, adquiriram um significado próprio.

O tipo de edição que foi analisada neste trabalho reclama uma leitura diferente da cultivada durante séculos de cultura impressa. Como pudemos observar ao longo deste trabalho, a edição electrónica das Lyrical Ballads tece uma leitura séria e cientifica de uma obra que revelou a sua instabilidade formal ao longo de quatro edições. Não estamos perante um rompimento derradeiro com o velho formato, mas de uma urgência em responder aos desafios que o hipertexto nos coloca. Para isso, a crítica literária terá de saber aproveitar as ferramentas de análise que este formato disponibiliza e não poderá deixar-se influenciar por mensagens proféticas que anunciam o fim do códice.

Em suma, a introdução do meio digital promoveu novas abordagens no campo da literatura, revolucionando conceitos como “autor”, “editor “ ou mesmo “texto”. Graças à heterogeneidade de perspectivas, proporcionadas por instrumentos como a “dynamic collation”, o hipertexto trouxe consigo a promessa de acender um debate aceso, agindo como uma força revigorante no campo da crítica literária.

The virtually infinite extensibility of digital resources allows for the inclusion of multiple versions, and these linked hypertextually could then be placed side by side and compared. This new sort of edition could then become the basis for new interpretations and new debates among readers of the poet, who now would be empowered to make and defend their own choice of preferred text. In these exchanges, the options could be studied closely in a fashion that the linear structure of print makes difficult, and used at a distance by scholars who don't enjoy the privilege of proximity to a major research library. http://www.erudit.org/revue/ron/1998/v/n9/005783ar.html

 

Agosto de 2006

Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra

© Daniela Maduro, cortesmaduro@hotmail.com

 

índice | contents


Bibliografia

Abram, Kathryn (2002): “Electronic Textuality: A Bibliographic Essay”, in http://www.mantex.co.uk/ou/resource/elec_txt.htm (consulta 31-07-2006)

Bush, Vannevar (1945): “As We May Think”, in David Trend, ed., Reading Digital Culture, Oxford: Blackwell 2002, pp. 9-13. [2001]

Everest, Kelvin (2000). "Historical Reading and Editorial Practice" in Joe Bray, Miriam Handley & Anne Henry (eds.), Ma(r)king the Text: The Presentation of Meaning on the Literary Page. Aldershot: Ashgate, pp 193-200.

Greg, W.W. (1950-51). “The Rationale of Copy-Text”, in Studies in Bibliography, Volume 3 (1950-51) <http://etext.virginia.edu/bsuva/sb/ (consulta 31-07-2006)

Graver, Bruce and Ronald Tetreault. Lyrical Ballads – an electronic scholarly edition http://www.rc.umd.edu/editions/LB/index.html (consulta 31-07-2006)

Graver, Bruce and Ronald Tetreault. "Editing Lyrical Ballads for the Electronic Environment." Romanticism On the Net 9 (February 1998) http://www.erudit.org/revue/ron/1998/v/n9/005783ar.html (consulta 31-07-2006)

Landow, George P. (1997): “Hypertext: an Introduction”, “Hypertext and Critical Theory” Baltimore, Johns Hopkins UP [1992, 1997]

Landow, George  (2004): “Is this hypertext any good? Evaluating quality in hypermedia”, in dichtung-digital: journal für digitale ästhetik 2004/3, http://www.brown.edu/Research/dichtung-digital/2004/3/Landow/index.htm (consulta 31-07-2006)

Lavagnino, John (1995): “Reading, Scholarship, and Hypertext Editions”, in TEXT: Transactions of the Society for Textual Scholarship 8 (The University of Michigan Press) Also in <http://www.stg.brown.edu/resources/stg/monographs/rshe.html> (consulta 31-07-2006)

McGann, Jerome (2001): “The Rationale of Hypertext” , in Radiant Textuality: Literature after the World Wide Web. New York: Palgrave/St. Martin’s <http://www2.iath.virginia.edu/public/jjm2f/rationale.html> (consulta 31-07-2006)

McGann, Jerome (2001): “Visible and Invisible Books in N-Dimensional Space”, in Radiant Textuality: Literature after the World Wide Web. New York: Palgrave/St. Martin’s

Modern Language Association of America (Committee on Scholarly Editions) (2002): “Guidelines for Electronic Scholarly Editions”, in <http://sunsite.berkeley.edu/MLA/guidelines.html> (consulta 31-07-2006)

Shillingsburg, Peter L. (1999): “Electronic Editions”, in Scholarly Editing in the Computer Age: Theory and Practice, Ann Arbor: University of Michigan Press [1ª ed. 1996], pp. 161-171.

Tanselle, G. Thomas (1990): "Classical, Biblical, and Medieval Textual Criticism and Modern Editing" [1983], Textual Criticism and Scholarly Editing, Charlottesville: University Press of Virginia, pp. 274-321.

 

índice | contents


Valid CSS!| Valid XHTML 1.0 Transitional| Site Map | Contact | Updated 11 Feb 2013 | ©2005-2013 Manuel Portela