DigLitWeb: Digital Literature Web

E-E


'Breaking the Spell of Romantic Hermeneutics': Som e Silêncio na UbuWeb

Miguel Sousa Santos


 

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1.

2.

3.

Bibliografia / Webografia

 


1.

 

I’m no prophet and I hope I’m no Prufrock either. But there´s a slow train coming and its song goes something like this: In the next 50 years the entirety of our inherited archive of cultural works will have to be re-edited within a network of digital storage, access, and dissemination. This system, which is already under development, is transnational and transcultural.

Jerome McGann

UbuWeb embodies an unstable community, neither vertical nor horizontal but rather a Deleuzian nomadic model: a 4-dimensional space simultaneously expanding and contracting in every direction, growing "rhizomatically" with ever-increasing unpredictability and uncanniness.

UbuWeb (The editors)

Segundo o princípio de Lavoisier, “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". Este princípio poderia adequar-se à cada vez mais premente necessidade de transposição de objectos culturais para o meio digital. Não se fala aqui dos potenciais comerciais do turismo virtual — visitar, por exemplo, Tiahuanaco ou Angkor Wat por intermédio de um simples menu num banal DVD que emule virtualmente os destinos predilectos de uma potencial clientela no mundo ocidental — mas da reconversão de texto do formato analógico para o digital.

Perante a realidade da Internet (que representa uma potencialização de espaço virtualmente ilimitado e de tempo e o acesso ao mundo num monitor manipulado através de um teclado em fracções de segundo), os 50 anos estimados por McGann para a reedição de todo o património cultural da humanidade num meio digital acessível a todos parecem até ser uma profecia algo modesta. Mas será que é, de facto, assim? Loss Glazier constata que, no caso dos Estados Unidos, onde tem sido desenvolvido importante e significativo trabalho na edição de arquivos electrónicos (casos de, por exemplo, The William Blake Archive e The Rossetti Archive), parece haver um estranho estreitamento das perspectivas culturais transnacionais e, em especial, translinguísticas. Glazier observa que

given the speed of communication around the globe, especially to the immediately “adjacent” cultures of Europe, Latin América, and Canada, such a cultural myopia is even more astonishing. It is as if the lack of borders in communication seems to have caused practitioners to put up an accordingly thicker ideological wall, a virtual Berlin wall secured with barbed ASCII. What possible counter arguments are there for this mono-cultural stance? One might answer that there is enough going in the U.S. to satisfy our needs here. But, ironically, nothing could be further from the truth (GLAZIER, 2002:151).  

Aparentemente, os meios tecnológicos não são suficientes para o debelar das barreiras inter-linguísticas. É necessário sublinhar que a transmissão do conhecimento cultural está dependente do ultrapassar do factor da discriminação linguística. Se isto não suceder, e uma vez que mesmo dentro da própria Língua Inglesa existem cisões com base em fronteiras de natureza geográfica e política, a tendência para limitar o espectro de informação disponível e acessível online será responsável por uma selecção cultural não apenas reduzida, mas também representativa apenas de uma visão canónica particularmente exclusiva.

Nas páginas que se seguem, a análise que proponho sobre o sítio UbuWeb procurará mostrar uma forma de edição que, não correspondendo a uma utilização verdadeiramente original das propriedades do hipertexto — em um ou outro aspecto até aparece como deveras convencional (leia-se livresca)[1] — revela um esforço conceptual que marca uma certa diferença. O tratamento do texto no contexto UbuWeb, deixa expostos simultaneamente os potenciais de silêncio e de som do texto (note-se, a propósito, a presença de uma imagem de Beckett na página de entrada <www.ubu.com>). Daí o nome deste ensaio, que parte, acrescente-se, de uma frase de Jerome McGann:

One breaks the spell of romantic hermeneutics by socializing the study of texts at the most radical levels (MCGANN, 1991:12).

 

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2.

 

O arquivo UbuWeb não constitui propriamente uma socialização do estudo do texto, mas é a prova viva da dimensão social que o texto possui, particularmente quando esta dimensão procura ser transnacional e transcultural. Sublinho “procura”, pois trata-se de “a neverending work in progress: many hands are continually builing it on many platforms”[2].

 A UbuWeb surgiu em Novembro de 1996 enquanto “repository for visual, concrete and, later, sound poetry”, tendo posteriormente crescido de forma a incorporar “all forms of the avant-garde and beyond”[3]. Esta política dos seus editores é responsável pelo formato e organização presente do arquivo, que rejeita uma catalogação sustentada por critérios estilísticos dos documentos que o constituem. Por outras palavras, a política de inclusividade praticada na UbuWeb, com o crescimento do número de obras e de autores, obliterou categorias e formas de organização baseadas neste tipo de classificação. A indexação passou pois a ser feita de forma genérica ou conceptual, tal como a barra lateral — o principal auxiliar de navegação do visitante — na página principal demonstra. Assim, os materiais disponíveis são preferencialmente indexados segundo as suas propriedades específicas — filme, som ou texto linguístico — e/ou segundo conceptualizações — “365 Days Project”, “Aspen Magazine”, “Conceptual Writing”, “Contemporary”, “Ethnopoetics”, “Historical”, “Outsiders”, “Papers”.

Não é objectivo da presente exposição descrever exaustivamente estas secções, mas é importante fazer referência a esta forma de indexação pois esta é responsável pelo funcionamento orgânico do sítio. Ou seja, apesar de as práticas discursivas das matérias editadas serem frequentemente concorrentes ou contraditórias entre si, a indexação permite que aquelas se cruzem e se intersectem de formas historicamente e socialmente complementares.

Este processo de crescimento e de reconceptualização da UbuWeb não é apenas tornado possível pelas propriedades intrínsecas do meio de edição digital, como sejam a capacidade virtualmente ilimitada de armazenamento ou a mutabilidade — esta em oposição clara ao formato livro. O manifesto dos editores da UbuWeb revela uma importante convergência entre a prática da poesia concreta e os meios disponibilizados pelas novas tecnologias de informação:

Concrete poetry's utopian pan-internationalist bent was clearly articulated by Max Bense in 1965 when he stated, "…concrete poetry does not separate languages; it unites them; it combines them. It is this part of its linguistic intention that makes concrete poetry the first international poetical movement." Its ideogrammatic self-contained, exportable, universally accessible content mirrors the utopian pan-linguistic dreams of cross-platform efforts on today's Internet; Adobe's PDF (portable document format) and Sun System's Java programming language each strive for similarly universal comprehension. The pioneers of concrete poetry could only dream of the now-standard tools used to make language move and morph, stream and scream, distributed worldwide instantaneously at little cost[4].    

A evolução da UbuWeb encarna pois o ensejo utópico da poesia concreta: o corpo de textos editados combina e recombina linguagens. Particularmente, importa notar que esta convergência de ideal poético e de tecnologia permite concretizar não apenas este carácter internacionalista da Ubuweb — tal como é demonstrado pela presença de documentos em várias línguas naturais e de autores das mais diversas estéticas e dos mais diversos locais — mas também fazê-lo com base numa política de quase orçamento zero:

UbuWeb has no need for money, funding or backers. Our web space is provided by an alliance of interests sympathetic to our vision. Donors with an excess of bandwidth contribute to our cause. All labour and editorial work is voluntary; no money changes hands. Totally independent from institutional support, UbuWeb is free from academic bureaucracy and its attendant infighting, which often results in compromised solutions; we have no one to please but ourselves[5].

O referido carácter inclusivo que dita a política de edições da UbuWeb transforma este arquivo num precioso recurso para aqueles que procuram documentos excluídos dos cânones ou dos currículos educativos das escolas ou das universidades. A presença num arquivo facilmente acessível de nomes aceites pelo cânone ou previstos pelos referidos currículos tais como Samuel Beckett, Guillaume Apollinaire, Roland Barthes, Picasso ou mesmo Andy Warhol, ao lado de outros nomes de artistas desconhecidos ou obscuros, representa um efectivo contrabalançar do poder canónico que tende para a preservação de um conhecimento de índole tradicional ou tradicionalista e que não é susceptível a mudanças radicais. George Landow analisa a acção dos mecanismos canónicos:

One sees the kind of privileges and power belonging to canonization in the conception that something is a work of art; the classification of some object or event as a work of art enters it into a form of the canon. Such categorization means that the work receives certain values, meanings, and modes of being perceived. A work of art, as some modern aestheticians have pointed out, is functionally what someone somewhere takes to be a work of art. Saying it’s so makes it so (LANDOW, 1997:246,247).

Esta última frase que cito de Landow é significativa para a praxis editorial da UbuWeb, pois esta procura não ditar a posição de poder dos objectos que contém, rejeitando uma hierarquização. Isto é facilmente visível na secção que indexa a totalidade dos autores presentes no arquivo[6] mantendo a organização conceptual previamente referida, os artistas são agrupados por ordem alfabética sem privilégio visual de um nome em relação a outro. Na verdade, em igual posição hierárquica (o nível zero da hierarquia), é possível ver, ao lado de nomes como os acima citados, as referências aos “Assorted Street Posters” recolhidos nas ruas de New York e que os próprios editores definem como “insane visual poetry”[7] ou como “mad scribblings, political screeds, religious rants, and paranoid raves”[8]. Se a qualidade artística de alguns destes exemplares é francamente duvidosa, o mesmo não se pode dizer do que representa este acto editorial de equiparar hierarquicamente o que são, à partida, níveis artísticos tão diferentes. A verdade é que, desta forma, realiza-se algo absolutamente impensável não apenas no contexto das “leis” do cânone mas também nos regimes de publicação e da lógica comercial do mercado do livro.   

O domínio canónico tem como consequência imediata a permanente presença no prelo dos objectos considerados como obras de arte de valor cultural superior. E se este facto não é só por si negativo, isto significa no entanto que outras obras e outros autores estão a ser constantemente esquecidos ou ignorados. O acesso a estes objectos em particular é dificultado ainda pela lei da oferta e da procura e pelos circuitos de distribuição. A prática da edição hipertextual pode contrariar este facto e permitir uma presença constante a textos que, de outra forma, estariam condenados ao esquecimento (cf. LANDOW, 1997:249). A política de publicação online da Ubuweb está atenta a estas situações, tentando manter disponíveis materiais que já não estejam comercialmente acessíveis, mesmo quando isso significa desrespeitar a lei do copyright:

If it's out of print, we feel it's fair game. Or if something is in print, yet absurdly priced or insanely hard to procure, we'll take a chance on it. But if it's in print and available to all, we won't touch it. The last thing we'd want to do is to take the meager amount of money out of the pockets of those releasing generally poorly-selling materials of the avant-garde. UbuWeb functions as a distribution center for hard-to-find, out-of-print and obscure materials, transferred digitally to the web. (…) Should something return to print, we will remove it from our site immediately. Also, should an artist find their material posted on UbuWeb without permission and wants it removed, please let us know. However, most of the time, we find artists are thrilled to find their work cared for and displayed in a sympathetic context.[9]

Ou seja, a digitalização de materiais comercialmente pouco ou nada apelativos ou raros e indisponíveis permite, com sucesso, contornar a lei do copyright. Naturalmente, isto só poderia ser possível num sítio sem fins comerciais que rejeita anunciantes ou a venda dos seus conteúdos. A Ubuweb é precisamente a excepção à regra da World Wide Web, pois, como diz Jay David Bolter, “our culture chose to turn the Web into a carnival of commercial and self-promotional Web sites” (BOLTER, 2001:20).

Apesar da disponibilização de materiais obscuros, a Ubuweb não efectua verdadeiramente uma rejeição do Cânone, torna-o apenas relativo, utilizando alguns dos seus nomes mais sonantes para mostrar todo um universo de autores “menores” que merecem, pelo menos, ser ouvidos, estabelecendo assim uma ligação entre autores canónicos e autores não-canónicos[10]. Efectiva-se assim uma potencial democratização do acesso aos vários discursos artísticos, negando-se, pelo menos no interior do sítio (é obviamente impossível ao visitante formatar a sua aprendizagem canónica e esquecer o que representam literariamente um Borges ou um Mallarmé, por exemplo), o privilégio canónico dos nomes, tal como exemplificado pelo Índice de Artistas.

 

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3.

 

A esmagadora maioria dos materiais disponibilizados pela UbuWeb são digitalizações de livros, textos e registos analógicos de vídeo e som[11]. A forma relativamente harmónica como todas estas formas se intersectam no arquivo não é apenas produto do trabalho conceptual efectuado pelos seus editores mas também pelas propriedades do próprio hipertexto. Afinal, e como refere McGann (2001:58), “hypermedia editons that incorporate audial and/or visual elements are preferable since literary works are themselves always more or less elaborate multimedia forms”. Ou seja, as formas textuais ao serem transformadas em elementos digitais vêem o seu próprio potencial material amplificado pela presença de elementos visuais ou sonoros, o que remete imediatamente para a afirmação de Michael Joyce de que “hypertext is the word’s revenge on T.V.” (JOYCE, 2002:47), ou seja, a capacidade informativa do hipertexto é superior àquela demonstrada pela televisão. Não estamos perante apenas uma transformação da materialidade analógica para a digital mas perante um fenómeno de reconfiguração do “conhecimento da semiose em geral” (PORTELA, 2003:2).

Segundo Landow (1997:36), “one of the fundamental characteristics of hypertext is that it is composed of bodies of linked texts that have no primary axis of organization” (tal como se observa na organização não hierárquica dos conteúdos da UbuWeb). Ou seja, convertidos ao meio digital, os textos originalmente impressos são transformados nas lexias tal como conceptualizadas/idealizadas por Roland Barthes. Ainda a partir do texto de Landow, são estas lexias que possibilitam a formação de uma “network”[12] que, como um todo, constitui um metatexto.

Do ponto de vista da orgânica hipertextual da UbuWeb, é nesta realização metatextual que se consubstancia a harmonização dos múltiplos discursos que coexistem no seio do arquivo. Esta harmonização deriva do próprio processo de constituição da rede de lexias (“network”) que, unidas através de hiperligações, possibilita a coexistência de “a wide range of often contraditory taxonomies, observations, interpretations, categories, and rules of observation”[13].

Uma vez que nos seus arquivos inclui não apenas texto mas também documentos sonoros e filmes, a Ubuweb torna-se uma experiência multimédia (ou hipermédia) verdadeiramente próxima dos mecanismos cognitivos humanos por força do seu potencial associativo. Paul Delany e George Landow (1995:7) explicam:

Hypermedia takes us even closer to the complex interrelatedness of everyday consciousness; it extends hypertext by re-integrating our visual and auditory faculties into textual experience, linking graphic images, sound and video to verbal signs. Hypermedia seeks to approximate the way our waking minds always make a synthesis of information received from all five senses.

Esta superação da materialidade original dos objectos e posterior reconfiguração sob a forma de hipermédia comprova, no contexto da UbuWeb, a definição de D. F. McKenzie (2004:13) dos objectos que podem de facto constituir texto por força das suas possibilidades simbólicas:

I define texts to include verbal, visual, oral and numeric data, in the form of maps, prints, and music, of archives of recorded sound, of films, and any computer-stored information, everything in fact from epigraphy to the latest forms of discography. There is no evading the challenge which those new forms have created.   

Basicamente, o que McKenzie e também McGann (1991: 57) consideram culturalmente fundamental é o ultrapassar da ideia de Saussure de que apenas se pode retirar significado das simbologias linguísticas. Como o segundo refere (ibidem), toda a hermenêutica tradicional assenta sobre este princípio, ignorando pois a importância dos códigos bibliográficos. Acrescentarei que ignora também a produção artística e cultural de grande parte da humanidade, tanto no presente como no passado histórico. O grafocentrismo e o logocentrismo dominante nas instituições literárias desde o advento da escrita são assim postos em causa.

Desta forma, será possível repensar a cultura mundial e as suas produções sem que estas estejam condicionadas por uma visão eurocêntrica que se mantém como a maior força da hermenêutica tradicional. Uma visão cultural alternativa não exclusiva das produções artísticas não ocidentais é o que a UbuWeb propõe na forma da secção Ethnopoetics[14], que se encontra dividida em quatro secções: “soundings”; “visuals”; “poems”; “discourses”. Cada uma destas secções e cada um dos documentos nelas representados incluem um texto que pretende servir de introdução ao leitor, contrariando a distância cultural que o separa de formas textuais que num primeiro contacto serão marcadas pelo factor do estranho. Porque invulgares, porque estrangeiras:

The search here is for a range of poetries outside the domain of customarily accepted literature. In particular we’re interested, in the spirit of other segments of Ubuweb, in soundings and visionings that are the traditional and often culturally acceptable counterparts to what in our own surroundings have been seen and heard as radical, even disturbing departures from conventional practice. In exploring these we will also be mindful of occasions on which the avant-garde experimental line has merged with or deliberately drawn from other culturally specific traditions[15].  

Estas produções artísticas, muitas vezes colocadas numa situação de margem, terão que ser levadas em linha de conta no processo de re-edição electrónica da cultura humana a que a epígrafe de Jerome MacGann que escolhi para esta reflexão faz referência. Para que uma nova visão das realidades humanas possa de facto ser possível (só assim a criação desse grande arquivo cultural — que seria uma espécie de meta-arquivo verdadeiramente colossal — será possível), é necessário abandonar as visões de centro definidoras de políticas hermenêuticas centrífugas (geradoras de margens). Se, por ora, esta transição epistemológica estará apenas em vias de poder ocorrer, será no entanto possível observar como um novo paradigma poderia catalisar a apresentação de discursos artísticos marginais através da política editorial da UbuWeb. Não pretendo dizer que os esforços democratizantes que este sítio representa sejam já uma manifestação desse paradigma, mas o seu mérito intrínseco está em poder ser, e recorro aqui a uma imagem bem à maneira do Zaratustra de Nietzsche, uma ponte para um estado futuro ainda difícil de conceber.

A organização de um arquivo electrónico não exclui a presença de uma certa organização hierárquica que possibilite ordenar os conteúdos a partir da sua página de entrada. No entanto, como testemunhado pela inexistência de uma hierarquia no Índice de Autores da UbuWeb, as estruturas hipertextuais são constituídas fundamentalmente por unidades independentes, o que garante ao leitor a possibilidade de escolher o seu próprio percurso de leitura (cf. McGann, 2001:72). Como consequência deste predomínio da lexia, o hipertexto promoverá a dispersão textual e o descentramento do design (cf. Ibidem, 71), estimulando assim as leituras associativas. Na sua totalidade, o arquivo hipertextual é “a scene of complex dialogue and interchange, of testing and texting” (McGann 1991:6). No caso da UbuWeb este fenómeno é particularmente visível, pois trata-se de um autêntico laboratório da condição textual onde a complexidade polifónica dos discursos artísticos — Bakhtinianamente falando — assume uma preponderância relevante. Por outro lado, uma vez que a acção interpretativa é “performative/deformative” (MacGann, 2003), poder-se-á argumentar que a presença de múltiplos textos em múltiplas formas e formatos gera antes uma cacofonia de difícil acesso. Uma vez que, e explorando esta metáfora musical, Lopes-Graça dizia que o público não estava educado para compreender a música moderna e contemporânea, será que a condição do arquivo não se assemelha a esta dificuldade perante formas externas ao mainstream? A concepção de “textual field” de Jerome McGann significa que a prática da leitura contemporânea (ou pós-moderna) é um acto solitário de interacção com dispositivos semióticos linguísticos e não-linguísticos e que o hipertexto é o campo de eleição para o desenrolar do desafio da interpretação.

Isto só é possível enquanto consequência da fragmentação da voz do texto em lexias cujo acesso é controlado pelo leitor. O descentramento do texto obriga ao salto de lexia em lexia no jogo simbólico de seguir hiperligações e de ordenar interpretativamente essa experiência. No fundo, este é um princípio autodidacta, semelhante ao do neófito que procura descodificar a partir da experiência auditiva significados que a música dodecafónica lhe possa incutir. Menciono a música dodecafónica devido à negação da tonalidade, esse centro ordenador da experiência musical do mundo ocidental desde a idade média, o que estabelece um outro paralelo entre a música do século XX e a concepção da textualidade na viragem do milénio.

À primeira vista “this absence of a center can create problems for the reader but it means that who uses hypertext makes his or her own interests the organizing principle for the investigation at the moment” (LANDOW, 1997:37). Na verdade, o centro não desaparece efectivamente, uma vez que o foco de atenção do leitor torna uma lexia em particular o centro momentâneo, sendo por este motivo que Derrida considera a função do centro indispensável (vide ibidem): a actividade de contínuo descentramento e recentramento é a medida da experiência hipertextual.

Esta experiência consiste na procura de sentido, o que motiva, de uma forma um tanto ou quanto monádica, a construção de percursos no hipertexto de forma a apreender nova informação através de

an activity of ceaseless metaphoric production. These metaphoric constructs are the reader’s “insights” into the meaning he desires. For the traditional interpreter, the constructs re-present a version or vision of the Truth, one that is more or less adequate, more or less exemplary. For the deconstructive reader, the visions are, with respect to the ideal of Truth, simply different styles of failure. The “truth” they reveal is the special form of blindness to which a particular reader is prone (McGann, 1991:6).

Para concluir, diga-se que o trabalho realizado pelos editores da UbuWeb se manifesta de grande importância nesta procura de informação e de construção metafórica por constituir percursos de leitura extra-canónicos de cariz hipermediático. Ao mesmo tempo, a UbuWeb reclama uma audiência (pelo ser carácter “performative”, para reutilizar o termo de McGann), pois os intérpretes são fundamentais para que os textos não sejam apenas grandes silêncios ou grandes cacofonias indecifráveis.

Mais do que uma utopia internacionalista, a UbuWeb amplifica silêncios e cacofonias que sustentam a variação tanto na produção como na interpretação. Só assim, perante a instabilidade do texto, como refere McGann (1991:185) — e de novo sob espectro de Zaratustra — será possível obter conhecimento fiável — “reliable knowledge”.

 

Julho de 2006

Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra

© Miguel Sousa Santos, miguelssantos@aeiou.pt

 

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Notas

[1] As “/ubu Editions”, por exemplo, são verdadeiras emulações do formato livro, como confirma Brian Kim Stefans em <http://www.ubu.com/ubu/> “people are willing to read long, complex works of literature from the internet provided they can print them out. By formatting these books with professional typesetting tools and publishing them as Adobe Acrobat files, not only is the amount of paper needed to print out a book lessened because web page items like menu bars and graphics are absent, but the letter-size (8.5 x 11) page is transformed into a visually pleasing "book" page, its seductive gutters, leading and tracking making Cinderellas out of the plain-Jane ream of photocopy paper.”

[2] “ABOUT UBUWEB” <http://www.ubu.com/resources/index.html>

[3] cf. “Frequently Asked Questions”, <http://www.ubu.com/resources/faq.html>

[4]cf. “ABOUT UBUWEB”

[5] Ibidem

[6] “ARTIST INDEX”, <http://www.ubu.com/artist_index.html>

[7] cf. OUTSIDERS <http://www.ubu.com/outsiders/>

[8] ASSORTED STREET POSTERS <http://www.ubu.com/outsiders/ass.html>

[9] cf. “Frequently Asked Questions”

[10] Nas palavras de George Landow: “A work outside the canon is forgotten, unnoticed, and if a canonical author is under discussion, any links between the uncanonical work and the canonical tend not to be noticed” (LANDOW, 1997:249)

[11] “we rip out-of-print LPs into sound files; we scan as many old books as we can get our hands on; we post essays as fast as we can OCR them. UbuWeb is an unlimited resource with unlimited space to fill. It is in this way that the site has grown to encompass hundreds of artists, hundreds of gigabytes of sound files, books, texts and videos”. “ABOUT UBUWEB”, in <http://www.ubu.com/resources/index.html>

[12] “…any gathering of lexias, wether assembled by the original author of the verbal text or by someone gathering together texts created by multiple authors, also takes the form of a network; thus, document sets, whose shifting borders make them in some senses the hypertextual equivalent of a work, are called, in some present systems, a web.” (LANDOW, 1997:42)

[13] Landow chega a esta conclusão a partir de uma citação de Michel Foucault de The Order of Things: “one must reconstitute the general system of thought whose network, in its positivity, renders an interplay of simultaneous and apparently contradictory taxonomies possible. It is this network that defines the conditions that make a controversy or problem possible, and that bears the historicity of knowledge”. (cf. LANDOW 1997:44)

[14] i n <http://www.ubu.com/ethno/>. Para uma explicação do termo “ethnopoetics”, vide o artigo de Jerome Rothenberg in <http://www.ubu.com/ethno/discourses.html>

[15] ROTHENBERG, Jerome, “UBUWEB: ETHNOPOETICS”, in <http://www.ubu.com/ethno/>

 


Bibliografia / Webografia

BOLTER, JAY DAVID (2001): Writing Space: Computers, Hypertext, and the Remediation of Print, Mahwah, New Jersey: Lawrence ErlBaum Associates Publishers [new revised edition; 1st ed. 1991].

DELANY, PAUL and GEORGE LANDOW (1995): "Hypertext, Hypermedia and Literary Studies: The State of the Art", in Hypermedia and Literary Studies, Cambridge, MA: MIT [1991, 1995], pp. 3-50.

GLAZIER, LOSS P. (2002): Digital Poetics: The Making of E-Poetries, Tuscaloosa, Alabama: The University of Alabama Press.

JOYCE, MICHAEL (2002): Of Two Minds: Hypertext Pedagogy and Poetics, Ann Arbor: The University of Michigan Press [1995/2002].

LANDOW, GEORGE P. (1997): Hypertext 2.0: The Convergence of Contemporary Critical Theory and Technology, Baltimore: Johns Hopkins UP [1992, 1997].

MCGANN, JEROME (1991): The Textual Condition, Princeton, New Jersey: Princeton University Press.

MCGANN, JEROME (2001): "The Rationale of Hypertext", in Radiant Textuality: Literature after the World Wide Web. New York: Palgrave/St. Martin’s, pp. 53-74; ou in <http://iath.virginia.edu/public/jjm2f/rationale.html>.

MCGANN, JEROME (2003): "Texts in N-Dimensions and Interpretation in a New Key", in <http://www.ciberscopio.net/artigos/tema2/clit_02.html> (acesso em 26-06-2006).

MACKENZIE, D. F. (2004): Bibliography and the sociology of texts, Cambridge: Cambridge University Press [1999, 1986].

PORTELA, MANUEL (2003): "Hipertexto como Metalivro", in Ciberscópio, <http://www.ciberscopio.net/artigos/tema2/clit_05.html> (acesso em 26-06-2006).

 

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