As gravuras

António José Marques da Silva

Representação de um cavalo
(Penascosa, V. N. de Foz Côa)

No vale do Côa existem centenas, talvez milhares de gravuras do período Paleolítico. O seu estudo está a ser realizado por uma equipa de arqueólogos coordenada por Mário Varela Gomes e António Martinho Baptista e demorará anos, talvez décadas. O que se segue baseia-se nos estudos científicos já publicados e representa o estado dos conhecimentos em Março de 1995. Encontrará neste texto a resposta às perguntas mais elementares acerca das gravuras propriamente ditas: o que são, onde se encontram, porquê são tão importantes e quando foram feitas?


Introdução

O que são?

Onde estão ?

Por que é que as gravuras são tão importantes?

Quando é que as gravuras foram feitas ?

Bibliografia

Ficha técnica


Figuras sobrepostas
(Penascosa, V. N. de Foz Côa)

O que são?

As gravuras têm como suporte superfícies verticais de xisto, com exposição preferencial a nascente. A dimensão das gravuras oscila entre 15 cm e 180 cm, embora predominem as de 40-50 cm de extensão. As técnicas de gravação usadas são a picotagem e o abrasão, que por vezes coexistem, com o abrasão regularizando a picotagem. Os traços são largos, embora sejam por vezes acompanhados de uma grande quantidade de finos traços, que serviram de esboço ou complementavam os anteriores. Noutros casos, estes traços finos desenham formas dificilmente perceptíveis. Existem também gravuras preenchidas com traços múltiplos.

As gravuras representam essencialmente figuras animalistas, embora se conheça uma representação humana e outra abstracta. Em Março de 95, ainda não se conheciam representações de signos, característicos da arte rupestre paleolítica. Os animais mais representados são os cavalos e os bovídeos (auroques). Exclusivos em certos núcleos, eles podem também coexistir com caprídeos e cervídeos. Os animais aparecem isolados ou em associação, constituindo autênticos painéis. As representações de animais podem sobrepor-se mais ou menos densamente, como podem também estar bem individualizadas.

Vista panorâmica
do vale do Côa

Onde estão ?

Em Março de 95 já tinham sido identificados 14 locais de arte rupestre paleolítica, distribuindo-se ao longo de uma dezena de km. São eles, de norte a sul:

1 Vale de Cabrões (V. N. de Foz Côa)

Traços lineares cérvico-dorsais.

2 Vale de José Esteves (V. N. de Foz Côa)

Um veado inciso preenchido com traços múltiplos.

3 Broeira (Castelo Melhor)

Traços lineares cérvico-dorsais.

4 Vale dos Moinhos (V. N. de Foz Côa)

Duas rochas com zoomorfos incisos preenchidos com de traços múltiplos.

5 Canada do Amendoal I (Castelo Melhor)

Pequeno painel sob abrigo, com figuras incisas preenchidas com traços múltiplos.

6 Canada do Inferno/Rego da Vida (V. N. de Foz Côa)

Rocha 1, com figuras densamente sobrepostas, mostrando a associação de dois bovídeos e a gravura de um cavalo, ou cervídeo. Gravuras incisas preenchidas com traços múltiplos. O caprídeo também está, embora escassamente, representado. Existem mais 10 painéis, submersos pelas águas do regolfo da barragem do Pocinho. Incluem um possível veado em sobreposição e um cavalo com cerca de 180 cm.

7 Vale Videiro (V. N. de Foz Côa)

Não divulgadas.

Estilo II (Gravetense/Solutrense)
segundo A. Leroi-Gourhan

8 Vale de Figueira II (V. N. de Foz Côa)

Representação exclusiva de bovídeos.

9 Foz dos Piscos / Quinta dos Poios (Muxagata)

Representação exclusiva de bovídeos, sendo de destacar um pequeno touro com 15 cm de comprimento.

10 Ribeiro dos Piscos I (Muxagata)

Rocha II com representação de um cervídeo, sem haste (possível fêmea) executado em traço fino por abrasão, grandes bovídeos com cerca de 180 cm, uma cena de acasalamento de dois equídeos, em sobreposição parcial, e a representação de um homem.

11 Quinta da Barca I-II (Chãs)

Representação exclusiva de caprídeos.

12 Quinta da Barca III (Chãs)

Representação exclusiva de caprídeos.

13 Penascosa (Castelo Melhor)

Dois caprídeos, medindo 15 cm de comprimento. A rocha 3 apresenta um grupo de bovídeos, densamente sobrepostos, executados por abrasão, sobrepondo-se a uma cabeça de cavalo executada por percussão.

14 Faia VI (Cidadelhe)

Figuras gravadas no granito (único caso conhecido na altura), representando dois bovídeos afrontados e a sequência de quatro cabeças de bovídeo apontadas em direcção ao chão. As gravuras estão associadas a pinturas esquemáticas da Pré-história recente. Certos traços pintados acrescentam pormenores não gravados, admitindo-se a hipótese de alguns dos elementos pictóricos serem paleolíticos.

Representação de um auroque supostamente perfurado por vários projectiles. Madgdalenense.
(Niaux, Ariège, França)

Por que é que as gravuras são tão importantes?

A imprensa divulgou abundantemente a importância patrimonial e científica das gravuras de Foz Côa. Contudo foi pouco explicada a razão de ser dessa importância.

O seu valor patrimonial é fácil de explicar. Até à década de 80, a arte do Paleolítico Superior só estava representada no território nacional pelas pinturas da gruta do Escoural (Montemor-o-Novo). Deverá esperar-se por 1981, para que seja identificada a primeira estação de arte rupestre paleolítica ao ar livre, em Mazouco (Freixo de Espada-à-Cinta), a cerca de 25 km do vale do Côa. Trata-se de uma gravura representando um cavalo com cerca de 62 cm de comprimento. O complexo do vale do Côa é, portanto, a terceira estação de arte rupestre paleolítica conhecida em Portugal. Não estamos perante uma rocha com uma gravura isolada, mas sim centenas, talvez milhares, de gravuras distribuídas ao longo de um vale.

280 grutas e só 5 estações ao ar livre

A importância do achado transcende o território nacional, porque se é verdade que conhecemos hoje cerca de 280 grutas com pinturas paleolíticas na Europa Ocidental, também é verdade que só foram identificadas até hoje quatro outras estações de arte rupestre paleolítica ao ar livre no mundo inteiro: Mazouco, que já citámos, Fornols-Haut (Campôme, França), Domingo Garcia (Segóvia, Espanha) e Siega Verde (Ciudad Rodrigo, Espanha), nas margens do Rio Águeda, a poucas dezenas de quilómetros do Vale do Côa. O que existe no Côa não é, portanto, somente raro, é, de facto, quase único.

Propulsor ornamentado com dois cabritos-monteses afrontados. Magdalenense.
(Grotte des Trois-Frères, Ariège, França)

Explicar o valor científico das gravuras obriga-nos a fazer um rápido apanhado de mais de um século de investigação da arte paleolítica. Quando nasce a Pré-história como disciplina científica no século passado, a imagem que se tem do homem pré-histórico é a de um selvagem, vivendo próximo do estado "animal". Desde meados do século passado, foram encontradas em camadas arqueológicas datadas do Paleolítico objectos com interesse artístico: estatuetas femininas e representando animais, gravuras sobre plaquinhas, de pedra ou osso, objectos de carácter utilitário decorados... De "semianimais", passou-se a considerar os homens do Paleolítico como seres capazes de produzir algo de estético. É em 1879 que Marcelino de Sautuola descobre as pinturas da Gruta de Altamira, em Espanha, atribuindo-as ao período paleolítico. A ideia encontra então uma grande resistência, à qual a grande beleza estética das pinturas não é estranha. Continuavam vivos os preconceitos da "bestialidade" do homem pré-histórico.

Da "arte pela arte" à "arte mágica"

É graças à conjugação do amadurecimento das mentalidades e da multiplicação das descobertas de grutas "pintadas" que fica assente, no início do nosso século, que a arte parietal é de cronologia paleolítica. Considerou-se então a arte paleolítica como "arte pela arte", ou seja, tendo uma função puramente estética. Recorrendo à Antropologia e ao comparativismo etnográfico, certos autores dão uma nova dimensão à arte paleolítica: a função ritual e mágica, da qual a arte seria o vestígio material. Segundo essa interpretação, o homem representava os animais com que se alimentava, num ritual mágico que tinha por objectivo propiciar a caça e a reprodução dos próprios animais.

Vénus de Lespugue em marfim. Gravetense.
(Grotte des Rideaux, Haute-Garonne, France).

Nos anos 60, um investigador francês, André Leroi-Gourhan, revoluciona o conhecimento da arte paleolítica. Analisando estatisticamente a disposição dos motivos na gruta, considerada pela primeira vez como um todo, ele descobre que existe uma organização espacial, quase invariável de uma gruta para outra, dos temas de ornamentação.

A gruta é um santuário... mas também existem santuários ao ar livre

Uma análise temática de cada unidade topográfica da gruta permitiu a Leroi-Gourhan verificar que a temática da arte paleolítica é binária, baseando-se na associação de temas masculinos e femininos. A recorrência dessa associação deixa adivinhar um sistema simbólico complexo, impossível de decifrar actualmente. Ele chega então à conclusão de que a gruta é um autêntico santuário, associado a práticas "religiosas", das quais a arte paleolítica é o vestígio material.

Fica então com a ideia de que a arte paleolítica era um arte cavernícola.

A descoberta no vale do Côa de centenas, porventura milhares de gravuras, pemite pensar hoje que a arte paleolítica terá tido inicialmente uma maior representação ao ar livre. Mais expostas aos fenómenos naturais de degradação, as figurações ao ar livre estão hoje menos representadas do que as pinturas e gravuras em grutas. Em regiões como o vale do Côa, onde as condições naturais foram mais favoráveis, a regra geral não se aplicou. Por outro lado, a distribuição das gravuras ao longo do rio numa extensão de quase duas dezenas de quilómetros permite-nos pensar que estamos perante um autêntico santuário ao ar livre. A exposição preferencial das gravuras a nascente e a associação dos animais ao rio, sugere uma veneração das águas do rio, que seria sagrado.

Quando é que as gravuras foram feitas ?

Foi muito discutida a atribuição das gravuras do Vale do Côa ao período Paleolítico. É necessário por isso esclarecermos como é que se chegou a esta conclusão. O Paleolítico superior ou "Idade da Rena" é o período que se estende desde cerca de 38 000 a. C. até 9 000 a. C., em que o Homo sapiens sapiens, o nosso semelhante, apareceu na Europa. Dentro desse longo período distinguem-se várias culturas, identificáveis pelos vestígios materiais que deixaram. A cultura Chatelperronense acaba por volta de 28 000 a. C., momento quando começa o Gravetense, que dura até cerca de 18 000 a. C. A esse momento acaba também a cultura Aurignacense, que começa por volta de 32 000 a.C.. A Solutrense situa-se entre 18 000 a. C. e 15 000 a.C. e a Magdalenense dura de 15 000 a. C. a 9 000 a. C. As gravuras mais antigas conhecidas no vale do Côa (até Março de 95) eram identificáveis com o Solutrense médio antigo, ou seja, teriam sido feitas há mais ou menos 20 000 anos.

A datação por métodos estilísticos

André Leroi-Gourhan
Foto tirada do magazine Géo

Baseando-se em parâmetros estilísticos e estratigráficos, André Leroi Gourhan elaborou, nos anos 60, uma cronologia dos diferentes estilos da arte paleolítica. Há poucos anos atrás, a sua classificação foi, de um modo geral, confirmada pela datação directa de pinturas das grutas, através da análise química dos pigmentos negros das pinturas de origem orgânica (como o carvão de madeira). Ora, as gravuras mais antigas do vale do Côa numa primeira análise integram-se no estilo II de Leroi-Gourhan, que ele data do Solutrense Médio Antigo.

Em meados de 1995, a EDP encomendou datações directas, pelo métodos Cloro 36 e de micro-erosão, aos cientistas Robert Bednarik, Alan Watchmann, Ronald Dorn e Fred Phillips, assim como a dois laboratórios americanos: Lawrence Livermore e Beta Analitic.Os resultados forneceram datações divergentes entre si, quase todas pós-paleolíticas, o que levou a pôr em causa que as gravuras do vale do Côa tivessem realmente sidos realizadas no Paleolítico.

Os limites dos métodos "exactos"

Essas datações foram no entanto rapidamente criticadas pelos arqueólogos e por A. Monge Soares, do Laboratório de Isótopos Ambientais do Instituto Tecnológico e Nuclear. Segundo ele, Bednarik, que utiliza o método de micro-erosão, não calibrou os parâmetros localmente. Quanto às datações obtidas por A. Watchman e R. Dorn, Monge Soares argumentou que só permitem afirmar que as gravuras são anteriores às datas que eles obtiveram. Essa crítica encontrou eco no Congresso Internacional de Arte Rupestre que decorreu em meados do ano de 1995 em Turin, onde os especialistas confirmaram a atribuição da arte do Côa ao período Paleolítico. Os métodos utilizados por esses cientistas ainda estão na pré-história da sua utilização, e só a longo prazo se tornarão fiáveis. Hoje em dia, o único método de datação capaz de fornecer resultados fiáveis, será o método radiocarbono, utilizado há várias décadas, mas que, em contrapartida, não permite a datação directa das gravuras, a não ser que elas tenham sido cobertas, imediatamente após a sua feitura, por pigmentos com matéria orgânica. A sua aplicação implica um programa coerente de escavações arqueológicas em locais de habitat ou junto aos painéis gravados, que permitirá, com certeza, a descoberta de restos de matéria orgânica, condição sine qua non para datação por este método. O projecto da barragem no vale do Côa, estando hoje definitivamente cancelado, permitirá a aplicação desse método.

O autor agradece a Domingos J. Cruz e Joaquim R. Carvalho, pela sua leitura do texto e sugestões.


Bibliografia

JORGE, S.O. e JORGE, V.O. e ALMEIDA, C. A. F. e SANCHES, M.J. e SOEIRO, M. T. (1981), "Gravuras rupestres de Mazouco", Arqueologia nº3, Porto, pp. 3-12.

GOMES, M. V. (1994), "Escoural et Mazouco", in Les Dossiers de l'Archéologie, 198, novembro 1994, pp. 4-9.

JORGE, V. O. (1995), "Côa: Cosmos ou Caos?", in Boletim da Universidade do Porto, nº.25, Ano V/ Junho 95, Porto, pp. 5-10.

LEROI-GOURHAN, A. (1964), Les religions de la préhistoire, 1deg.edição, P.U.F., Paris.

MELO, F. (1995), "Côa: uma viagem no tempo", Visão, Cultura, nº143, pp. 106-111.

REBANDA, N. (1995), Os trabalhos arqueológicos e o complexo de arte rupestre do Côa, Lisboa, Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico.

SOARES, A. M. (1995), Será possível a datação directa das gravuras paleolíticas do Côa?, artigo na posse da Associação Olho Vivo.

ZILHÃO, J.(1995), The archaelogical context of the paleolithic open air rock art site of the Côa valley (Portugal), Comunicação apresentada no Congresso Internacional de Arte Rupestre de Turin, Italia.


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Ficha Técnica


Autor: António José Marques Silva

Título: As gravuras

Site: As gravuras paleolíticas do vale do Côa

Endereço: http//www.uc.pt/fozcoa/gravuras.html

Data de edição: Março 1996

Local de edição: Coimbra

Processamento html:António José Marques Silva

Grafismo: António José Marques da Silva

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Última actualização no dia 20 de Março 96
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