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Timor - Resenha quinzenal

1 a 15 de Novembro de 1996

01 Nov - JACARTA: A publicação de uma entrevista do bispo D. Ximenes Belo na revista alemã "Der Spiegel" provoca reacções negativas em Jacarta.

A revista atribui a D. Ximenes Belo a acusação de que os soldados indonésios tratam os timorenses como "cães tinhosos" e como "escravos" e que "os militares, que beneficiam de privilégios, dos quais abusam muitas vezes, são o obstáculo principal à instauração da confiança entre Timor e a Indonésia".

"A soldadesca indonésia, que nos rouba a liberdade e destrói a nossa cultura, trata-nos como cães tinhosos. Não sabem o que é justiça e tratam-nos como escravos", afirma D. Ximenes Belo na entrevista ao correspondente da revista alemã em Pequim, Juergen Kremp, durante uma deslocação que o jornalista fez a Timor-Leste no Verão deste ano.

A revista  "Der Spiegel" refere também que D. Ximenes Belo disse que foi alvo de nove tentativas de assassínio.

A propósito da entrevista, o ministro de Estado indonésio, Murdiono, critica a atribuição do Prémio Nobel da Paz ao bispo D. Ximenes Belo, interrogando-se sobre "quais os critérios seguidos" pelo Comité Nobel.

Também o ministro da Defesa e da Segurança indonésio, general Edi Sudrajat, se insurge contra o bispo timorense, declarando: "só posso perguntar se é realmente conveniente que monsenhor Belo assuma tal atitude, principalmente depois de lhe ter sido atribuído o Prémio Nobel da Paz".


02 Nov - MACAU: Cerca de 300 soldados timorenses revoltam-se em Baucau em protesto contra a morte do seu comandante, o sargento Júlio Fraga, abatido a tiro em 24 de Outubro naquela cidade.

Fonte em Díli diz que "os 300 soldados timorenses exigem a verdade sobre a morte do seu comandante, porque há suspeitas de que ele terá sido abatido por militares indonésios".

A mesma fonte precisa que os soldados timorenses estão desde há três dias no cemitério de Baucau onde o sargento Júlio Fraga foi sepultado e recusam-se a obedecer às ordens do comandante militar indonésio, o tenente coronel Herman Tedes, para regressarem ao quartel da unidade a que pertencem.

A frente da clandestina da resistência desmente alegações indonésias de que o sargento Júlio Fraga foi morto por guerrilheiros.  "Ele não foi morto pelos nossos, mas sim pelas forças do inimigo", assegura uma fonte da resistência em Díli.

Antigo soldado das Forças Armadas Portugueses, Júlio Fraga, 48 anos, foi abatido em 24 de Outubro por desconhecidos com oito tiros quando abandonava um ginásio em Baucau, que foi posteriormente incendiado, em atitude de protesto, por habitantes daquela cidade situada a leste de Díli.

Conhecido como Julião ou comandante Saka, Júlio Fraga comandava uma unidade de soldados timorenses ao serviço das ABRI (Forças Armadas da Indonésia), criada em finais dos anos 70 com o objectivo de combater a guerrilha timorense.

Segundo uma fonte em Díli, "os homens do Julião nunca capturaram ou mataram um guerrilheiro timorense e os militares indonésios desconfiavam até que eles ajudavam as FALINTIL, porque muitos dos elementos desta unidade eram antigos elementos da resistência que foram capturados e forçados a trabalhar para as ABRI", referiu a fonte da agência Lusa.

"A suspeita de ligações à resistência poderá ter sido o motivo da morte do Julião", admite outra fonte em Díli, sublinhando que dias antes do atentado o sargento timorense "teve uma violenta discussão com o comandante militar indonésio de Baucau".


02 Nov - RIO DE JANEIRO: O analista e activista político brasileiro Frei Betto sugere que o Governo do Brasil autorize a abertura de uma representação do povo timorense em Brasília.

Num artigo publicado no  "Jornal do Brasil", do Rio de Janeiro, Frei Betto apela também para que os órgãos de comunicação social brasileiros façam "um esforço para desocidentalizar um pouco mais a sua óptica e a sua pauta (agenda)", abrindo espaço para questões como a de Timor-Leste.

Para o frade dominicano e activista político, o bispo D. Ximenes Belo e José Ramos horta, laureados com o Nobel da Paz, "representam a conjugação de esforços entre cristãos e movimentos sociais pela independência" de Timor-Leste.

Partidário da chamada teologia da libertação, Frei Betto afirma que o prelado de Díli "nunca mereceu as bênçãos do Vaticano".

Caso D. Ximenes Belo fosse "alvo do mesmo tratamento que Roma dá ao bispo nicaraguense Obando y Bravo, talvez Timor-Leste não fosse ignorado no Ocidente", acrescenta Frei Betto.


04 Nov - LISBOA: Os partidos portugueses representados no Parlamento Europeu (PE) anunciam que "vão fazer tudo" para que os co-laureados com o Nobel da Paz deste ano, D. Ximenes Belo e José Ramos Horta, sejam convidados a visitar aquela instituição.

A informação é divulgada no final de uma almoço do Presidente da República, Jorge Sampaio, com Luís Marinho (PS), Eurico de Melo (PSD), Girão Pereira (PP) e Joaquim Miranda (PCP), líderes dos grupos parlamentares representados no PE.


04 Nov - MANILA: José Ramos Horta envia uma carta ao presidente das Filipinas, Fidel Ramos, a solicitar autorização para entrar no país, onde pretende dar aulas em 1997.

O Nobel da Paz pede igualmente desculpas por "qualquer inconveniente pessoal" resultante da controvérsia provocada pela recente decisão do Governo filipino de proibir a sua entrada no país durante da cimeira da APEC, que decorre em Manila de 20 a 25 de Novembro com a participação do presidente Suharto da Indonésia.

O governo filipino alegou motivos de segurança para proibir a entrada de Ramos Horta nas Filipinas, onde o dirigente timorense deveria participar numa conferência do Forum Popular de Manila, a realizar paralelamente à cimeira da APEC.

"Quero assegurar ao presidente Ramos que entendo perfeitamente a situação que provocará a minha presença em Manila e estou seguro de que, em outras circunstâncias, a minha visita não constituirá um problema", escreve Ramos Horta.


04 Nov - KUALA LUMPUR: O Governo da Malásia anuncia que decidiu proibir a realização da II Conferência da Ásia-Pacífico sobre Timor-Leste, cujo início está marcado para o dia 9 de Novembro.

Segundo o vice-ministro do Interior malaio, Megat Junid, o Governo pediu à organização da conferência para a anular com o argumento de que a reunião prejudicaria as relações amigáveis entre a Malásia e a Indonésia.

"Este acontecimento colocaria a Malásia numa situação difícil, particularmente quanto à amizade com a Indonésia", afirma Megat Junid à agência Bernama, após uma reunião com representantes da organização da conferência.

O Nobel da Paz José Ramos Horta é um dos oradores da conferência, em que estão inscritos representantes de 75 organizações de 24 países.


05 Nov - LISBOA: A eventual democratização da Indonésia "não resolveria imediatamente" o problema de Timor-Leste, porque a actual líder da oposição, Megawati Sukarnoputri, defende também a integração do território na Indonésia, afirma em Lisboa Nico Warouw, do Partido Democrático do Povo (PRD).

O oposicionista indonésio considera, no entanto, que a instauração de um regime democrático na Indonésia criaria condições para discutir o problema, o que não acontece actualmente.

O PRD, acusado pelo presidente Suharto de estar na origem das manifestações contra o regime ocorridas em Jacarta em Julho, defende o direito do povo de Timor-Leste à autodeterminação, ao contrário do partido de Megawati Sukarnoputri.

Nico Warouw manifesta-se ainda optimista sobre a possibilidade de o regime do general Suharto ser derrubado antes de 2000, mas não acredita que a viragem possa ocorrer nas eleições de Abril de 1997.


05 Nov - LISBOA: O presidente da Comissão Eventual de Acompanhamento da Situação em Timor-Leste, Krus Abecassis, considera ser "totalmente contrário aos interesses nacionais" a inscrição de uma verba para a causa timorense no Orçamento do Estado.

"Temos de tornar muito claro que o nosso apoio é humanitário, não é um apoio de guerra. Senão tornamo-nos numa Líbia", afirma o presidente da comissão parlamentar.

A inscrição de uma verba para Timor-Leste no OE foi sugerida por José Ramos Horta, representante no exterior do Conselho Nacional da Resistência Maubere e co-laureado com o Prémio Nobel da Paz.

Ramos Horta afirmou que ficaria satisfeito com um terço da verba dispensada pelo Estado português para a missão de paz na Bósnia, o que rondaria os quatro milhões de contos.

Segundo Krus Abecassis, a orçamentação de uma verba para apoiar a causa timorense, em particular a resistência, é um erro, a não ser que se nomeie um Alto Comissário para as questões de Timor.

Abecassis manifesta-se de acordo com a posição assumida pelo Governo português de financiar projectos para apoiar a causa do povo de Timor.

Neste sentido, a Comissão começou a reflectir sobre as formas de apoio humanitário, cultural e de salvaguarda da identidade e expansão da Língua Portuguesa, "sem comprometer o Estado português", refere Krus Abecassis.


05 Nov - HELSÍNQUIA: Questionado sobre a posição de Krus Abecassis, presidente da Comissão Eventual de Acompanhamento da Situação de Timor-Leste, em relação à inscrição de verbas para a causa timorense no Orçamento do Estado, José Ramos Horta sublinha nunca ter pedido a Portugal financiamento para apoiar a componente armada da resistência.

Ramos Horta, que visita a Finlândia, afirma concordar "completamente"com a nomeação de um Alto Comissário para as questões de Timor-Leste, uma condição considerada necessária por Krus Abecassis para a inscrição no OE de uma verba para a causa timorense, mas considera ser desprovido de sentido relacionar-se as duas questões.

"De que é que o Parlamento está à espera? Criem o Alto Comissário para as questões de Timor-Leste, mas não faz sentido a relação entre isso e a verba orçamental para apoiar a causa timorense", sublinha Ramos Horta, que acrescenta: "Timor-Leste não é uma causa de Portugal? Não é uma questão em que o país está empenhado"?


05 Nov - HELSÍNQUIA: José Ramos Horta é recebido em Helsínquia pelos ministros dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação finlandeses e anuncia que o Governo da Finlândia comprometeu-se a uma maior cooperação com Portugal em relação a Timor-Leste, no quadro da União Europeia e da ONU.

O dirigente timorense laureado com o Nobel da Paz aproveita a ocasião para desmentir que o Presidente da Finlândia se tenha recusado a recebê-lo, alegando que não fez qualquer pedido de audiência.

"A imprensa é que tentou embaraçar o presidente Martti Ahtisaari", refere Ramos Horta, sublinhando que a visita que efectua à Finlândia já estava programada há alguns meses.

Ramos Horta esclarece também que o Governo da Malásia não proibiu a sua entrada no país, onde foi anunciada a sua presença na II Conferência da Ásia-Pacífico sobre Timor-Leste.

O dirigente timorense sublinha não poder deslocar-se a Kuala Lumpur por ter planeada para a mesma altura uma visita aos Estados Unidos.


05 Nov - KUALA LUMPUR: Os organizadores da II Conferência da Ásia-Pacífico sobre Timor-Leste anunciam que tencionam realizar o encontro, apesar da oposição do Governo da Malásia.

"A Malásia tem-se esforçado em procurar soluções pacíficas para os conflitos da Palestina, África do Sul, Cambodja, Bósnia e Mindanao (Filipinas). Devemos adoptar uma posição semelhante e apoiar uma solução rápida e pacífica para a situação de Timor-Leste", justifica Sanusi Osman, porta-voz da conferência.

O Governo de Kuala Lumpur pediu à organização para anular a conferência, alegando que a sua concretização lesaria as relações entre a Malásia e a Indonésia.


05 Nov - LUXEMBURGO: A embaixada de Portugal no Luxemburgo anuncia que a Associação Timor Oriental promove uma festa de solidariedade intitulada  "Free Timor 96" no dia 10, a propósito da passagem do quinto aniversário do massacre de 12 de Novembro, em Díli.

A iniciativa é divulgada pela embaixada portuguesa no âmbito de uma decisão do Governo de Lisboa de colocar as representações nacionais no exterior ao serviço da causa timorense.

O objectivo da organização, refere um nota da embaixada de Portugal no Luxemburgo, é lembrar à opinião pública que Timor-Leste vive desde 1975 sob ocupação indonésia.

Participam na festa, a realizar no Luxemburgo, seis artistas e três grupos musicais, incluindo o cantor Tozé Brito.


05 Nov - LISBOA: O ministro das Finanças, Sousa Franco, remete para a Assembleia da República, sem adiantar pormenores, a questão da inscrição de uma verba de apoio à resistência timorense no Orçamento do Estado, ao ser questionado por jornalistas sobre o assunto.

Segundo a imprensa diária, o ministro da Presidência, António Vitorino, reuniu-se com os líderes parlamentares para os sensibilizar para a não inscrição de tal verba no OE, evitando, assim, uma medida internacionalmente polémica: pôr o Estado português a financiar uma organização que prossegue os seus objectivos através da luta armada.


06 Nov - LISBOA: Fonte oficial indica que o Presidente da República, Jorge Sampaio, não vai tomar qualquer posição oficial quanto à eventual inscrição no Orçamento do Estado para 1997 de uma verba destinada a apoiar a causa timorense, conforme pedido feito ao Governo por José Ramos Horta.

Segundo o chefe da Casa Civil do PR, António Franco, o facto de o OE ser discutido na Assembleia da República inviabiliza uma tomada de posição oficial, na medida em que constituiria uma interferência em matéria da competência do Governo e dos deputados.


06 Nov - MANILA: Em declarações a um jornal filipino, José Ramos Horta afirma crer que há uma conspiração do Governo da Indonésia para o assassinar.

Ramos Horta declara ao "Philippine Daily Inquirer" que tem recebido mensagens, através da Internet, advertindo-o de que viverá "só até 31 de Dezembro".

"Dizem que se continuo a criticar a Indonésia me matarão", diz José Ramos Horta, acrescentando que investigações das autoridades australianas e portuguesas indicam que as mensagens, em nome do  "Grupo Gorrião", têm origem no general Trabo, chefe das tropas especiais indonésias.


06 Nov - BRUXELAS: Os deputados socialistas portugueses ao Parlamento Europeu anunciam que vão propor ao presidente da instituição, Klaus Hansch, que D. Ximenes Belo e José Ramos Horta sejam convidados a visitar oficialmente aquele órgão da UE.

Segundo os socialistas portugueses, o momento ideal para a visita será quando os dois galardoados com o Nobel da Paz se encontrarem em trânsito para Oslo, onde receberão o galardão a 10 de Dezembro.


06 Nov - LISBOA: A dirigente do partido ecologista "Os Verdes", Isabel Castro, manifesta-se contra a inclusão de uma verba no Orçamento do Estado para apoiar a causa timorense.

"A diplomacia portuguesa não deve ficar cerceada no campo internacional", dado que o eventual auxílio financeiro à resistência "poderá servir para a Indonésia alegar apoio português à guerrilha", defende Isabel Castro à saída de uma audiência com o ministro da Presidência, António Vitorino.


06 Nov - LISBOA: O líder parlamentar do PCP, Octávio Teixeira, manifesta-se favorável à inclusão de uma verba no Orçamento do Estado para apoiar a resistência timorense.

"Não haverá prejuízo para Portugal no campo internacional se se incluir uma verba no Orçamento do Estado" para apoiar a causa timorense, diz Octávio Teixeira no final de uma audiência com o ministro da Presidência, António Vitorino.


06 Nov - LISBOA: O presidente da Comissão Eventual de Acompanhamento da Situação em Timor-Leste e deputado do PP, Krus Abecassis, anuncia ter proposto ao Governo a criação do cargo de Alto Comissário para o território timorense.

No final de uma audiência com o ministro da Presidência, António Vitorino, o deputado centrista sublinha que o PP "sempre tem defendido" a criação do Alto Comissário para Timor-Leste, que funcionaria como "um interface entre Portugal e as Nações Unidas" para resolver a questão timorense.

Krus Abecassis manifesta-se, por outro lado, contrário à inclusão de uma verba no Orçamento do Estado para apoiar a resistência timorense, alegando que "tudo o que seja favorecer a Indonésia e o que tem feito contra o povo timorense não deve ser feito".

"Não podemos deixar que Portugal se compare com a Líbia", acrescenta Abecassis, numa alusão à possibilidade de o apoio do Governo à resistência poder ser interpretado como auxílio à guerrilha timorense.


06 Nov - LISBOA: O líder parlamentar do PSD, Marques Mendes, defende a inclusão de uma verba no OE para apoiar a resistência timorense, através da fundação que vai ser criada em Lisboa, mas considera que a sua aplicação deverá ser fiscalizada pelo Estado português.

Falando à saída de uma audiência com o ministro da Presidência, António Vitorino, Marques Mendes sublinha, no entanto, que "nunca o Estado português poderá financiar directa ou indirectamente a luta armada" em Timor-Leste.

"Apoiar a luta armada teria um efeito contrário ao que nós pretendemos", refere Marques Mendes.


06 Nov - LISBOA: O líder parlamentar do PS, Jorge Lacão, afirma que estão reunidas as condições para um consenso entre partidos e Governo para apoiar a resistência timorense.

"A questão que se coloca é a de apoiar iniciativas concretas", diz Jorge Lacão após ser recebido em audiência pelo ministro da Presidência, António Vitorino.


06 Nov - LISBOA: Após audiências com os cinco líderes parlamentares, o ministro da Presidência, António Vitorino, anuncia que o Governo vai apoiar "acções concretas humanitárias e de cariz político e diplomático" referentes a Timor-Leste.

António Vitorino esclarece que as verbas para o apoio que o Governo quer incrementar sairão do Orçamento do Estado através de dotações provisionais do Ministério das Finanças.

Vitorino esclarece que "nunca" foi apresentada ao Governo qualquer proposta de atribuição de uma verba do OE à resistência timorense e considera mesmo "fantasiosas" as notícias que indicavam que José Ramos Horta solicitou ao Executivo uma verba de quatro milhões de contos para esse fim.

Segundo o ministro, a fundação que José Ramos Horta pretende criar em Lisboa terá apoio do Governo, como outras organizações, humanitárias ou religiosas, nacionais ou internacionais, que defendem a causa contra a ocupação de Timor-Leste pela Indonésia.

Este tipo de apoio já é, em parte, prestado através da ajuda aos timorenses que se refugiam em Portugal e aos dirigentes da resistência que desenvolvem acções diplomáticas pelo Mundo em prol de Timor-Leste.

Sobre a criação de um Alto Comissário para Timor-Leste, sugerida por Krus Abecassis, presidente da Comissão Eventual da Assembleia da República que acompanha a situação no território, António Vitorino refere apenas que a questão não deve ser colocada neste âmbito.

Após uma reunião com o primeiro-ministro António Guterres, em 28 de Outubro, José Ramos Horta afirmou que tinha pedido auxílio monetário, que seria aplicado através da fundação que pretendia criar em Lisboa com os 70.000 contos que correspondem à sua parte do Prémio Nobel da Paz, com que foi galardoado juntamente com o bispo D. Ximenes Belo.

Ramos Horta não especificou na altura o valor que solicitara, mas disse que ficaria satisfeito com "um terço do que Portugal gastou este ano com a missão (da IFOR) na Bósnia", que totaliza cerca de 12 milhões de contos.

Só que, como confessaria mais tarde, quando os jornalistas lhe disseram que o seu "pedido" equivalia a quatro milhões de contos, Ramos Horta desconhecia quanto é que Portugal gastou com o contingente militar nacional destacado na Bósnia.

Confrontado com esse valor, Ramos Horta admitiu mesmo "ficar satisfeito com muito menos do que isso".

Quando revelou o pedido feito ao Governo português, José Ramos Horta disse que estava fora de questão a hipótese de um eventual financiamento de Portugal ser usado para apoiar militarmente os guerrilheiros timorenses.

Essa verba, assegurou na altura, destinar-se-ia exclusivamente para apoio humanitário aos timorenses residentes no território ou exilados no exterior e para acções diplomáticas da resistência.


06 Nov - CIDADE DO MÉXICO: Fonte diplomática revela que o Presidente do México, Ernesto Zedillo, ofereceu ao Primeiro-Ministro de Portugal, António Guterres, os seus bons ofícios para intervir junto da Indonésia no sentido de tornar mais flexível a posição de Jacarta face à questão timorense.

A oferta do presidente Zedillo foi formulada durante uma conversa privada que manteve com António Guterres, que efectua uma visita oficial ao México, antes de viajar para o Chile para participar na VI Cimeira Ibero-Americana, a realizar entre 9 e 11 de Novembro.


07 Nov - DÍLI: Fontes em Díli dizem que pelo menos duas pessoas (um timorense e um indonésio de Sulawesi) ficaram feridas durante distúrbios iniciados no mercado municipal da cidade.

Uma fonte da resistência conta que os distúrbios começaram no mercado municipal de Díli "quando dois timorenses foram surpreendidos por um indonésio de Sulawesi a falar sobre o aniversário do massacre de Santa Cruz", ocorrido em 12 de Novembro de 1991.

"O de Sulawesi provocou os timorenses, houve discussão e o indonésio puxou de uma faca e feriu um dos nossos. O povo revoltou-se e perseguiu o agressor", refere a fonte.

"Em face do sucedido, os estudantes da universidade vieram para as ruas e apedrejaram as tropas do batalhão 744, que foram mandadas para o local e encerraram as ruas", acrescenta o mesmo informador, contactado telefonicamente em Díli.

Os distúrbios, que se prolongaram por algumas horas, cessaram devido à chuva que entretanto começou a cair em Díli, segundo o testemunho de diversos residentes na cidade.


07 Nov - MADRID: Em declarações ao jornal espanhol "El Pais", José Ramos Horta reclama da União Europeia uma "posição mais dura, mais crítica, sobre a situação dos direitos humanos em Timor-Leste e na Indonésia" e um "embargo de armas utilizadas contra a população civil".

O Nobel da Paz afirma que na UE "só há um vilão e esse vilão é o Reino Unido", pois é "o país que menos princípios tem e que bloqueia, no campo dos direitos humanos, todas as iniciativas, ao mesmo tempo que é o maior fornecedor de armas à Indonésia".

Segundo Ramos Horta, países como "a Espanha e a Irlanda têm sido sempre solidários quando se discute o problema dos direitos humanos" em Timor-Leste.


07 Nov - CIDADE DO MÉXICO: Fonte diplomática revela que Portugal está a negociar a inclusão da questão timorense no comunicado final da VI Cimeira Ibero-Americana, que decorrerá no Chile entre 9 e 11 de Novembro.

Segundo a mesma fonte, a Colômbia colocou reservas à inclusão da questão timorense no comunicado final da cimeira.


08 Nov - KUALA LUMPUR: Os organizadores da II Conferência da Ásia-Pacífico sobre Timor-Leste, prevista para decorrer entre 9 e 11 de Novembro em Kuala Lumpur, garantem que avançarão com o encontro apesar das ameaças do Governo da Malásia.

"Estamos esperançados em que não haverá retaliações", afirma Debbie Stockard, da organização da conferência.

O Governo de Kuala Lumpur solicitou o cancelamento da conferência, alegando que o encontro poderá afectar as relações entre a Malásia e a Indonésia.


08 Nov - MACAU: O maestro e compositor timorense Simão Barreto vai executar em Oslo obras de sua autoria durante a cerimónia da entrega dos Prémios Nobel, a convite do Instituto Nobel Norueguês.

Simão Barreto, 56 anos, funcionário da RDP requisitado pelo Instituto Cultural de Macau (ICM), vai executar uma peça para quarteto de cordas durante a cerimónia de entrega do prémio Nobel da Paz ao bispo D. Carlos Ximenes Belo e a José Ramos Horta, em 10 de Dezembro.

No dia 11, Simão Barreto dirigirá uma orquestra no concerto de gala do Prémio Nobel, no "City Hall" de Oslo, que executará obras do maestro e compositor timorense.

"Este convite, que é para mim um motivo de grande orgulho, é um reconhecimento tácito da identidade cultural do povo timorense e da sua luta para a preservar. O convite do Instituto Nobel significa que somos reconhecidos internacionalmente como um povo com uma identidade e uma cultura próprias. Por ser fruto da cultura portuguesa, entendo que este convite deve ser também um motivo de orgulho para Portugal e ainda para Macau, terra que me acolheu e onde estudei e trabalho", afirma Simão Barreto.

O maestro timorense adianta que no dia da cerimónia da entrega do Nobel da Paz vai apresentar a peça para quarteto de cordas "Sequência Thei", composta em 1984, em que cuja execução participará com uma violeta (viola de arco). "Thei significa canção na língua Bunac do reino Lamac Hitu, a que pertenço", explica.

Simão de Araújo Barreto nasceu em 24 de Fevereiro de 1940 na aldeia de Zoil Phó, Lolotoc, concelho de Bobonaro, a sudoeste de Díli, e ingressou em 1958 no Seminário de S. José de Macau. Em 1968 recebeu uma bolsa da Fundação Gulbenkian, atribuída a estudantes de Macau, e foi para Lisboa para frequentar o Conservatório Nacional de Música, onde concluiu o curso superior de Composição.

Ingressou em 1973 na Orquestra Sinfónica da antiga Emissora Nacional como violinista e foi convidado em 1986 pelo Governo de Macau para criar o Conservatório do território, tendo sido, para o efeito, requisitado pelo ICM à RDP, da qual é funcionário. Actualmente, Simão Barreto é delegado do ICM na Academia de Música Pio X, pertencente à Diocese de Macau.

Simão Barreto é autor de cerca de três dezenas de peças musicais, incluindo "Hossoroa (Timor-Leste), Memória de um Sonho", um poema sinfónico sobre a luta do povo timorense contra a ocupação indonésia. Aquela obra foi encomendada em 1993 pelo Festival de Música Internacional de Macau, durante o qual foi executada pela Orquestra Sinfónica de Xangai, China, e pelo Coro do Teatro de S. Carlos.

"Todas as minhas obras são baseadas em ideias e motivos de Timor", acrescenta o maestro timorense, cujas obras já foram apresentadas em Macau, Portugal, Espanha, França, Bélgica, Grã-Bretanha, Áustria, Jugoslávia, Polónia, Brasil, Índia, China, Japão e Austrália.


09 Nov - KUALA LUMPUR: Centenas de manifestantes pertencentes a uma organização de juventude do partido no poder na Malásia impedem a realização da II Conferência da Ásia-Pacífico sobre Timor-Leste, invadindo a sala onde o encontro deveria decorrer até ao dia 11 de Novembro.

Os manifestantes forçam as portas da sala de conferências de um hotel da capital malaia pouco antes de o encontro ter início, cercam os participantes no encontro e gritam-lhes "não sejam manipulados pelos estrangeiros, vão para casa".

A intervenção dos manifestantes ocorre na presença da polícia, que não interfere, pelo que os 100 activistas malaios no encontro tiveram de formar um anel em volta dos 35 delegados estrangeiros para os proteger de eventuais agressões.

O Governo da Malásia tinha dito anteriormente que a conferência iria causar embaraços relativamente à vizinha Indonésia, que é um seu forte aliado na Associação das Nações do Sudeste Asiático.

Os organizadores da conferência acusam o Governo de Kuala Lumpur de ter permitido a actuação dos manifestantes e denunciam a detenção de muitos delegados ao encontro, incluindo 40 estrangeiros.

"Estamos preocupados, temos medo e estamos muito indignados", declara um dos participantes.

Testemunhas referem que a polícia de intervenção malaia chegou ao local cerca de uma hora depois da sala ter sido invadida pelos manifestantes. A polícia separou os delegados estrangeiros dos nacionais, confiscou os passaportes dos estrangeiros e conduziu os conferencistas detidos a um centro de imigração onde foram depois interrogados.

Entre os detidos, dizem as testemunhas, contam-se o presidente da União Democrática Timorense, João Carrascalão, os bispos Aloisius Soma, do Japão, e Hilton Deakin, da Austrália, bem como diversos jornalistas estrangeiros, incluindo Paulo Ferraz, enviado do "Comércio do Porto".

Activistas dos direitos humanos que organizaram a conferência admitem que os delegados estrangeiros poderão ser deportados em menos de 24 horas.


10 Nov - KUALA LUMPUR: As autoridades da Malásia deportam dezenas de delegados estrangeiros à II Conferência da Ásia-Pacífico sobre Timor-Leste, cuja realização foi impedida no dia 9 por centenas de manifestantes da organização de juventude do partido do primeiro-ministro Mahatir Mohamad.

O presidente da UDT, João Carrascalão, e o jornalista português Paulo Ferraz, do "Comércio do Porto", figuram entre os estrangeiros deportados.

A conferência foi suspensa na sequência da acção dos partidários da Frente Nacional da Malásia e a polícia deteve 59 delegados locais, 47 estrangeiros e sete dos manifestantes.

Muitos dos delegados detidos ameaçam entrar em greve de fome se não forem libertados ou autorizados a contactar advogados.

O PM Mahatir Mohamad, que efectua uma visita ao Gana, afirma à agência malaia que o seu Governo "não quer fazer nada que prejudique as relações com os (países) vizinhos" e considera que "a realização da conferência era um acto irresponsável", prometendo que as autoridades irão actuar contra aqueles que violaram a lei.

Os organizadores da conferência clamam que o Governo da Malásia nunca decretou a proibição do encontro, apesar de se ter manifestado contra a sua realização em Kuala Lumpur, pelo que consideram ilegal a decisão das autoridades de deter e deportar os delegados ao encontro.


10 Nov - COIMBRA: A Universidade de Coimbra anuncia que vai transformar a sua base de dados sobre Timor-Leste na rede Ternet, que até agora tinha características textuais, num suporte informativo multimédia que conterá imagens fotográficas, vídeo e som.

Segundo o responsável pela TimorNet, Joaquim Ramos de Carvalho, o suporte multimédia será disponibilizado a partir de 12 de Novembro, dia em que se assinalam os cinco anos do massacre de Santa Cruz.

A data será também evocada com a inauguração de um serviço especial na TimorNet que reunirá imagens do vídeo do massacre de Santa Cruz comentadas por um estudante da Universidade de Coimbra e protagonista daquele drama.

O suporte multimédia incorporará igualmente telefotos relacionadas com o problema de Timor-Leste, disponibilizadas pela Agência Lusa, música tradicional, canções de presos em cadeias indonésias e a voz de Xanana Gusmão a explicar o dia-a-dia na cadeia de Cipinang, em Jacarta, onde cumpre uma pena de 20 anos de prisão.

A TimorNet reúne um conjunto de informação actualizada sobre Timor-Leste e ainda sobre história, costumes, geografia e diversos aspectos da arte timorense, bem como uma cronologia da invasão do território pela Indonésia.


10 Nov - SANTIAGO: O Presidente do Brasil anuncia que o Presidente do Senado brasileiro, José Sarney, representará o seu país na cerimónia de atribuição do Prémio Nobel da Paz a D. Ximenes Belo e a José Ramos Horta, a realizar em 10 de Dezembro, em Oslo.

Falando à imprensa no final de uma audiência com o Primeiro-Ministro de Portugal, Fernando Henrique Cardoso considera que esta representação "é um gesto de simpatia do Brasil para com a causa timorense".

Fernando Henrique Cardoso e António Guterres encontram-se na capital chilena para participarem na Conferência Ibero-Americana.


11 Noz - SIDNEY: O Primeiro-Ministro australiano, John Howard, recusa-se a criticar a decisão do Governo da Malásia de deter e deportar dezenas de activistas que participavam na II Conferência da Ásia-Pacífico sobre Timor-Leste, em Kuala Lumpur.

"Eles foram para lá com os olhos abertos. Não penso que os organizadores possam referir ignorância sobre isso. Os organizadores sabiam claramente que o encontro era proibido. As regras dizem que quando se está no estrangeiro, tem que se fazer o que outros países querem", afirma John Howard, escusando-se a criticar directamente a detenção e deportação dos cidadãos australianos presentes na conferência.

"Nós orientamos o nosso país da nossa maneira e outros países orientam-se da sua. O que é importante é negociar um bom relacionamento com os países da região, reconhecendo que cada um tem atitudes diferentes para assuntos diferentes", refere o PM australiano, que considera, no entanto, que o incidente é "triste".

Fontes governamentais em Camberra admitem à Agência Lusa que os comentários de Howard visam "não prejudicar as relações bilaterais" com a Indonésia e Malásia.

Além de laços diplomáticos, Camberra teme que qualquer crítica directa ponha em risco a venda ao Governo da Malásia de 27 navios de patrulha australianos, cujas negociações estão em curso. "Não só a conferência é contra a Indonésia, mas também é na Malásia o que coloca ambos os países com quem Camberra mais tem tido problemas, no mesmo barco", refere uma das fontes.


11 Nov - SIDNEY: Num comunicado destinado a assinalar o massacre de 12 de Novembro de 1991 em Santa Cruz, Díli, José Ramos Horta considera que o Prémio Nobel da Paz atribuído à população de Timor-Leste, através de D. Ximenes Belo e de si próprio, foi um dos mais importante eventos dos últimos cinco anos.

No comunicado, o representante especial do Conselho Nacional da Resistência Maubere apela também para que os líderes internacionais continuem a pressionar Jacarta em relação a Timor-Leste.

"A principal reviravolta para a campanha de Timor-Leste, depois de Santa Cruz, surgiu recentemente com a atribuição do Prémio Nobel da Paz ao nosso povo, através do Bispo Belo e de mim próprio, marcando o início de uma nova fase na nossa luta", lê-se no comunicado.

"Esta prestigiosa distinção serve como expressão do reconhecimento da legitimidade da nossa causa, e como lembrança para a comunidade internacional dos passos que tem que ser dados urgentemente para resolver o problema de Timor-Leste", refere o comunicado.

"O nosso actual desafio é tentar usar, da melhor maneira, esta importante marca de reconhecimento para dar resposta às esperanças do Comité Nobel de que o prémio irá apoiar a resolução do problema de Timor-Leste, trazendo paz, liberdade e justiça ao nosso povo", considera ainda Ramos Horta.

"Neste dia importante, apelo a todos para que entrem com vigor na nova fase da nossa campanha de liberdade da opressão e pelo direitos à auto-determinação e independência da população de Timor Leste", sublinha a mensagem, que evoca "os que perderam a vida brutal e injustificadamente" no cemitério de Santa Cruz.

"Eram na sua maioria jovens cheios de esperança de um futuro de paz e liberdade", acrescenta Ramos Horta.


11 Nov - SIDNEY: O presidente da UDT, João Carrascalão, acusa o Governo de Malásia de ter orquestrado a manifestação que impediu a realização, em Kuala Lumpur, da II Conferência da Ásia-Pacífico sobre Timor-Leste e compara o incidente com o ataque contra a sede do Partido Democrático Indonésio, em Julho em Jacarta.

"Foram operações idênticas. O Governo orquestrou tudo e, em nome de populares descontentes com a conferência, atacou a reunião para forjar motivos para a intervenção policial", refere o líder da UDT, um dos participantes no encontro sobre Timor-Leste deportados pelas autoridades da Malásia.

Para João Carrascalão, "o facto de a policia só comparecer no local mais de uma hora e meia depois da entrada do grupo, apesar de a esquadra estar localizada a cerca de 400 metros do hotel onde decorreu a conferência, deixa bem claro que foi tudo organizado pelo Governo".

Ao regressar à Austrália, o líder da UDT esclarece ainda que não foi espancado pelos manifestantes malaios, como foi noticiado. "No meio dos empurrões e com o calor da situação, comecei a sangrar do nariz e penso que isso levou alguém a afirmar que teria sido espancado, o que de facto não aconteceu", sublinha João Carrascalão.

O bispo australiano Hilton Deakin, outro dos estrangeiros deportados pela Malásia, considera como "um dos piores dias" da sua vida aquele em que a conferência sobre Timor-Leste em Kuala Lumpur foi invadida por um grupo de apoiantes do governo da Malásia.

"Nunca tinha estado numa situação como aquela, foi um momento perfeitamente assustador", afirma o bispo australiano, sublinhando que o ataque dos manifestantes contra os conferencistas foi "extremamente violento" e que chegou a pensar que "poderia haver um banho de sangue".

Hilton Deakin denuncia, por outro lado, que alguns dos manifestantes que entraram no local da conferência pertenciam às forças especiais da policia da Malásia, tendo auxiliado a polícia regular na detenção dos participantes.


11 Nov - KUALA LUMPUR: Pelo menos 29 pessoas continuam detidas na sede da polícia de Kuala Lumpur, dois dias depois de centenas de manifestantes pró-governamentais terem impedido a realização da II Conferência da Ásia-Pacífico sobre Timor-Leste, denunciam os organizadores do encontro.

Outras 20 pessoas que estiveram também detidas e que entretanto foram libertadas decretam uma greve de fome até que todos os activistas sejam libertados.

Os organizadores da conferência insistem que o Governo da Malásia nunca proibiu o encontro, apenas se manifestou contra a sua realização, pelo que foi decidido levar por diante a iniciativa.


11 Nov - JACARTA: O bispo D. Ximenes Belo chega a Jacarta para participar, como observador, na reunião anual da Conferência Episcopal Indonésia, mas é recebido no aeroporto por cerca de três dezenas de manifestantes hostis.

Empunhando cartazes com as frases "Timor-Leste pertence à Indonésia" e "A unidade da República da Indonésia é mais importante que tudo", os manifestantes cercam D. Ximenes Belo à saída do aeroporto e insultando-no. Alguns dos manifestantes chegam mesmo a apedrejar a viatura em que segue o prelado.


11 Nov - JACARTA: Activistas indonésios denunciam que foram interrogados pela polícia secreta militar ao regressarem a Jacarta depois de terem sido deportados pela Malásia, onde se deslocaram para participar na II Conferência da Ásia-Pacífico sobre Timor-Leste.

O director do Instituto para a Defesa dos Direitos Humanos, Hadji Princen, revela que está sob vigilância desde que regressou de Kuala Lumpur e que já foi interrogado três vezes pela polícia.

Além de Hadji Princen, foram deportados para a Indonésia os activistas indonésios Adhi Ayu Yanthy e Bonar Tigor Naipospos e o professor universitário timorense Hélder da Costa.

Segundo Hadji Princen, Hélder da Costa foi indevidamente enviado para Jacarta pelas autoridades malaias, já que possuía um bilhete de avião para a Austrália, onde reside actualmente.

Hélder da Costa e Adhi Yanthy foram interrogados durante quatro horas pelos militares indonésios, que pretendiam saber o que se pretendia discutir na conferência e a razão por que tinham participado na mesma, acrescenta Princen.

Numa primeira reacção oficial do Governo de Jacarta ao que aconteceu em Kuala Lumpur, o ministro dos Negócios Estrangeiros indonésio, Ali Alatas, declara: "apreciamos a política da Malásia, que entende ser Timor-Leste um assunto interno da Indonésia".


11 Nov - DÍLI: Estudantes timorenses reúnem-se na Universidade de Timor-Leste, em Díli, com três elementos da Comissão Nacional dos Direitos Humanos da Indonésia, pró-governamental, a quem entregam um documento de protesto contra a forma como o bispo D. Ximenes Belo foi recebido em Jacarta.


12 Nov - DÍILI: Centenas de jovens timorenses concentram-se na Universidade de Timor-Leste, em Díli, e tentam marchar até ao cemitério de Santa Cruz, para evocar o massacre ali ocorrido em 12 de Novembro de 1991, mas são impedidos de o fazer por efectivos das forças de segurança indonésias.

Testemunhas dizem que se registaram alguns confrontos entre os jovens e os agentes de segurança indonésios.

Apesar das fortes medidas de segurança decretadas pelas autoridades indonésias, ao longo do dia estudantes e outros timorenses acendem velas nas ruas de Díli em memória das vítimas do massacre.

Fontes na capital timorense sublinham que a cidade está "fortemente patrulhada por efectivos da segurança, uns fardados e outros à paisana" e que as lojas, repartições públicas e escolas mantêm-se encerradas durante praticamente todo o dia, enquanto que a circulação automóvel se resume praticamente a viaturas militares.

"O ambiente é de grande tensão e teme-se o pior, até porque toda a população está revoltada com a manifestação de ontem (segunda-feira, dia 11) à chegada do bispo D. Carlos Belo a Jacarta. Pediram em Jacarta o afastamento do nosso bispo e isso revoltou a população aqui em Díli", diz uma fonte na capital timorense.

"Há quem diga que lhe vão tirar o passaporte e que não o deixam ir a Oslo para receber o Nobel da Paz e também se diz que o deixam ir, mas que não o autorizam a voltar. A população está preocupada com D. Ximenes Belo e só ficará descansada quando o vir de novo em Díli", refere a mesma fonte.

O massacre de Santa Cruz ocorreu em 12 de Novembro de 1991, quando tropas indonésias dispararam indiscriminadamente sobre milhares de timorenses que se tinham deslocado em romagem ao cemitério para homenagear o jovem Sebastião Rangel, morto a tiro dias antes na igreja de Motael.

As autoridades indonésias admitiram que foram mortas 50 pessoas, mas a resistência timorense refere que o massacre resultou em cerca de 200 mortos e centenas de feridos.

Na sequência do massacre, que ocorreu algum tempo depois de ter sido cancelada a deslocação de uma missão parlamentar portuguesa a Díli, a questão de Timor-Leste passou a merecer uma maior atenção por parte da comunidade internacional e este ano duas das figuras carismáticas da luta do povo timorense contra a ocupação indonésia, o bispo D. Ximenes Belo e José Ramos Horta, foram distinguidas com o Prémio Nobel da Paz.

A Indonésia invadiu Timor-Leste em 1975 e anexou unilateralmente a antiga colónia portuguesa no ano seguinte, declarando o território como a sua 27/a província. Organizações humanitárias calculam que mais de 200.000 timorenses, cerca de um terço da população, foram mortos na sequência da invasão e ocupação de Timor-Leste pela Indonésia. A comunidade internacional não reconheceu a anexação de Timor-Leste e as Nações Unidas consideram que Portugal continua a ser a potência administrante do território.


12 Nov - JACARTA: Cerca de 3.000 pessoas vestidas de amarelo, a cor do partido Golkar, no poder, manifestam-se em Jacarta contra D. Ximenes Belo e a favor da integração de Timor-Leste na Indonésia, criticando, nomeadamente, a atribuição do Prémio Nobel da Paz ao bispo timorense.

"Belo disse que a Indonésia não é boa para Timor-Leste, mas não é verdade. A Indonésia gastou lá muito dinheiro na construção de estradas", comenta à agência France-Press um dos manifestantes, Ojak Hutagael, de uma organização próxima do Golkar.

Além da atribuição do Nobel da Paz, que não agradou a Jacarta, o clima de animosidade contra D. Ximenes Belo tem como causa directa declarações recentes do prelado à revista alemã "Der Spiegel", que motivaram reacções violentas por parte das autoridades políticas e religiosas da Indonésia.

Segundo a imprensa de Jacarta, nomeadamente o jornal "Republika", o bispo timorense acusou a Indonésia de tratar os timorenses como "cães" e como "escravos". Ao comentar as alegadas afirmações de D. Ximenes Belo, o ministro Ali Alatas considerou que o bispo timorense foi "longe de mais", enquanto que o ministro-coordenador Soesilo Soedarman prometeu que o Governo irá investigar o caso para decidir sobre uma eventual aplicação de sanções.

As reacções mais violentas surgiram, porém, das organizações islâmicas do país (a Indonésia é a maior nação islâmica do mundo), com algumas delas a exigirem mesmo que o bispo seja declarado "persona non grata" e expulso do solo indonésio (o que, na perspectiva de Jacarta, inclui Timor-Leste).

Um dos grupos islâmicos exigiu que os líderes da Igreja Católica timorense apresentem desculpas ao Governo e às Forças Armadas da Indonésia e considerou, numa declaração de protesto de três páginas, que palavras "como "cães" e "escravos" deveriam ser usadas em relação à presença de Portugal em Timor-Leste.

A "chuva" de críticas foi de tal ordem que, segundo o "Republika", D. Ximenes Belo emitiu no dia 8 um comunicado em Díli para explicar que não prestaria declarações sobre o caso enquanto não tivesse acesso ao que foi publicado na revista alemã.


12 Nov - SIDNEY: O presidente da UDT, João Carrascalão, defende que a influência do Prémio Nobel da Paz atribuído a D. Ximenes Belo e a José Ramos Horta deve ser usada o mais rapidamente possível e considera que "muitas portas podem abrir-se nos próximos seis meses".

"Depois do massacre do cemitério de Santa Cruz, sem dúvida que o momento mais importante para a questão timorense foi a atribuição do Nobel da Paz a José Ramos Horta e ao Bispo Ximenes Belo", salienta Carrascalão, para quem "é importante, em particular, tentar sensibilizar países onde questões de direitos humanos não parecem ser muito importantes", tal como a Malásia, cujo Governo impediu a realização de uma conferência internacional sobre Timor-Leste.

"É importante que se envie uma mensagem bem clara a Jacarta de que não pode continuar a teimar que a situação se mantém estável em Timor-Leste. O mundo está cada vez mais aberto em relação à questão de Timor-Leste e isso deve ser mostrado claramente a governos mundiais e em particular ao regime de Suharto", acrescenta o presidente da União Democrática Timorense.


12 Nov - JACARTA: Quatro timorenses refugiam-se na embaixada de Espanha em Jacarta e manifestam o desejo de seguir para Portugal, com a ajuda da Cruz Vermelha Internacional.

Desde Setembro de 1993, 112 timorenses viajaram para Portugal depois de terem participado em duas dezenas de incursões em embaixadas em Jacarta.


12 Nov - LISBOA: O quinto aniversário do massacre de Santa Cruz é assinalado em Portugal com a emissão de um novo selo alusivo a Timor-Leste e com o qual os CTT pretendem homenagear a luta do povo timorense.

Além da estampa postal, destinada a franquear correspondência com o estrangeiro, os CTT emitem um sobrescrito para circular em território nacional, que evoca igualmente o problema de Timor-Leste.

A efeméride é assinalada em Coimbra com um concerto do maestro António Vitorino de Almeida e com uma sessão de divulgação da TimorNet, a base de dados sobre Timor-Leste que a Universidade local disponibiliza na rede Internet.

No Porto, o aniversário do massacre de 12 de Novembro de 1991 é evocado numa vigília junto à Câmara Municipal.


12 Nov - PARIS: A Associação Agir por Timor promove uma concentração na Esplanada dos Direitos do Homem, na praça do Trocadeor, em Paris, em memória das vítimas do massacre de Santa Cruz.

O presidente da associação, Alexandre Milheiro, acusa as autoridades francesas de estarem "mais interessadas em defender os seus interesses económicos com a Indonésia, do que em defender os Direitos do Homem em Timor-Leste.


12 Nov - MANILA: Activistas filipinos manifestam-se junto das embaixadas da Indonésia e da Malásia em Manila para protestar contra a prisão dos participantes na II Conferência da Ásia-Pacífico sobre Timor-Leste, cuja realização em Kuala Lumpur foi impedida pelo Governo malaio.

A acção de protesto assinala também a passagem do aniversário do massacre de 12 de Novembro de 1991 no cemitério de Santa Cruz, em Díli.


12 Nov - SIDNEY: A secção australiana da Amnistia Internacional (AI) critica o PM australiano, John Howard, por este ter defendido a decisão do governo da Malásia de deter e deportar participantes numa conferência sobre Timor Leste, em Kuala Lumpur.

Em comunicado, a AI critica Howard por ter defendido que diferenças culturais constituem razão suficiente para não criticar governos da Ásia em relação a questões de direitos humanos.

O director da AI em Sidney, Ced Simpson, considera que os comentários e a postura do Governo australiano denotam não só "ignorância em relação às mudanças político-sociais na região", mas levantam também "dúvidas sobre a postura de Camberra em relação a questões de direitos humanos".


12 Nov - AUCKLAND: Dezenas de pessoas participam numa cerimónia religiosa na catedral de São Benedicto, em Auckland, Nova Zelândia, para assinalar o quinto aniversário do massacre do cemitério de Santa Cruz em Díli.

A cerimónia foi organizada pelo grupo Pax Christi, que considera, em comunicado, que a atribuição do Nobel da Paz a José Ramos Horta e ao bispo D. Ximenes Belo deve servir como incentivo para pressionar os governos da região a apoiarem a criação de um processo de paz para Timor-Leste.


12 Nov - MACAU: Uma fonte religiosa contactada telefonicamente em Díli refere que o clima de animosidade que o bispo D. Ximenes Belo enfrenta em Jacarta está a preocupar os timorenses e a própria Igreja Católica em Timor-Leste.

"Estamos preocupados com a segurança do nosso bispo, porque desta gente que está no poder (em Jacarta) pode-se esperar tudo, até que mandem um demente matá-lo e depois lavem as mãos como se não fosse nada com eles. Em Jacarta, o nosso bispo não está seguro e a comunidade internacional não o pode perder de vista, tem de o proteger", afirma a fonte da diocese de Díli.

Segundo a mesma fonte, o clima de tensão vivido em Díli no dia em que se assinala o massacre de 12 de Novembro de 1991 no cemitério de Santa Cruz tem a ver com a evocação daquele acontecimento, mas também "com rumores que circulam, por exemplo, sobre a possibilidade de o bispo (D. Ximenes Belo) se deslocar a Oslo e não ser autorizado pela Indonésia a regressar a Timor-Leste".

"Tudo é possível e já nada nos pode surpreender, pois vivemos há 20 anos com a prepotência e a impunidade dos nossos carcereiros indonésios", acrescenta a fonte religiosa.


12 Nov - COIMBRA: O estudante timorense Zito Soares, um dos sobreviventes do massacre de Santa Cruz, afirma que, cinco anos depois, continua a sentir "grande dor" quando vê as imagens do tiroteio no cemitério de Díli.

"O dia 12 de Novembro foi um dia horrível, porque vi os meus amigos, colegas de escola e outros manifestantes morrerem. Pretendíamos uma manifestação pacíficas, mas as tropas indonésias surgiram de surpresa e massacraram", recorda Zito Soares, actualmente estudante da Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra.

Zito Soares é a "voz" que comenta o vídeo do massacre disponível na TimorNet, um serviço multimédia lançado na rede Internet pela equipa do professor Joaquim Ramos de Carvalho, da Universidade de Coimbra.


12 Nov - KUALA LUMPUR: A organização "Human Rights Watch", sediada em Nova Iorque, Estados Unidos, comenta que o respeito pelos direitos humanos no sudeste asiático desceu para o "mínimo denominador comum" com a decisão do Governo da Malásia de impedir a realização da II Conferência da Ásia-Pacífico sobre Timor-Leste.

Em comunicado, a "Human Rights Watch" exige a libertação dos delegados à conferência ainda detidos e acusa a Indonésia de ter fornecido aos seus parceiros na Associação das Nações do Sudeste Asiático "um modelo de como usar desordeiros políticos para desencadear actos de violência", numa referência aos manifestantes malaios que impediram a realização do encontro em Kuala Lumpur.


12 Nov - LEIRIA: O secretário da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), D. Januário Torgal Ferreira, admite que, relativamente a Timor-Leste, a Igreja portuguesa manteve, em determinado período, "demasiado silêncio", mas actualmente está a fazer "o que lhe é possível".

Falando em Fátima, onde está reunida a Assembleia Plenária da CEP, D. Januário Torgal Ferreira evoca a viagem que efectuou a Díli este ano para sublinhar que a Igreja foi a única instituição portuguesa que "teve a coragem e a tranquilidade" de enviar um representante a Timor-Leste.


12 Nov - LISBOA: Cinco estudantes timorenses são detidos e depois libertados na cidade indonésia de Malang durante uma manifestação junto ao parlamento local, revela uma fonte da resistência contactada telefonicamente na Indonésia.

Os cinco detidos eram líderes dos 350 estudantes timorenses que se manifestaram naquela cidade de Java Oriental para assinalar o quinto aniversário do massacre de Santa Cruz, exigir a retirada das tropas indonésias de Timor-Leste e "respeito pelo bispo" D. Ximenes Belo.


13 Nov - JACARTA: A imprensa de Jacarta noticia que o bispo D. Ximenes Belo foi convidado a testemunhar perante o Comité I, uma secção do parlamento indonésio que controla as áreas de defesa, segurança, informação e negócios estrangeiros.

Segundo o "Republika", o inquérito visa apurar a posição de D. Ximenes Belo sobre os comentários "insultuosos" contra o Governo indonésio que terá feito numa entrevista à revista alemã "Der Spiegel".

"Este testemunho perante o parlamento indonésio irá aprofundar as investigações sobre o assunto. No entanto, dará também ao bispo Belo uma oportunidade, sem precedentes, para dizer toda a verdade", escreve o jornal.


13 Nov - DÍLI: Milhares de estudantes manifestam-se em Díli a favor do bispo D. Ximenes Belo, ausente em Jacarta, onde tem sido alvo de manifestações hostis.

Testemunhas referem que os manifestantes apedrejaram o edifício do parlamento de Díli e o automóvel do presidente do Conselho Legislativo local, António Freitas Parada, depois de as autoridades terem recusado receber uma delegação de estudantes.

O edifício ficou danificado e há relatos de que dois filhos do deputado timorense Daniel Batista, que em Jacarta tem liderado as críticas ao bispo D. Ximenes Belo, foram atacados por alguns dos manifestantes.

Fontes em Díli dizem também que milhares de residentes em concelhos do interior do território dirigem-se para a capital para participarem nas manifestações de apoio a D. Ximenes Belo.

As manifestações a favor do prelado timorense foram suscitadas por reportagens da televisão indonésia sobre as acções de hostilidade contra o prelado promovidas em Jacarta, onde D. Ximenes Belo participa, como observador, na reunião anual da Conferência Episcopal Indonésia.

Os estudantes de Díli decidem criar uma comissão que se propõe entregar no dia seguinte (14 de Novembro) no Parlamento local um protesto contra as críticas que têm sido feitas em Jacarta ao bispo D. Ximenes Belo.


13 Nov - DARWIN: O activista australiano Stewart Higway é detido em Darwin durante uma manifestação junto ao parlamento local, onde se encontravam reunidos representantes do Governo da Malásia.

O activista é detido pela polícia australiana por se ter sentado no interior da viatura oficial do Alto Comissário para a Malásia.

A manifestação, em que participam dezenas de pessoas, destina-se a protestar contra a decisão do Governo da Malásia de impedir a realização em Kuala Lumpur da II Conferência da Ásia-Pacífico sobre Timor-Leste.


13 Nov - MACAU: O presidente do Conselho Legislativo de Timor-Leste, António Freitas Parada, admite que as manifestações ocorridas em Jacarta contra o bispo D. Ximenes Belo foram "precipitadas" e garante que a situação em Díli está "normalizada".

"Não podemos atribuir-lhe culpas sem ouvir as suas explicações, pelo que as manifestações em Jacarta foram precipitadas", afirma António Parada, aludindo a acções de protesto na capital indonésia contra D. Ximenes Belo, na sequência de uma entrevista do bispo timorense a uma revista alemã.

A imprensa indonésia noticiou que D. Ximenes Belo acusou as forças armadas do país de tratarem os timorenses como "cães" e como "escravos", o que originou manifestações de protesto por parte de organizações islâmicas ligadas ao partido Golkar, no poder em Jacarta.

D. Ximenes Belo encontra-se em Jacarta para participar, como observador, na reunião anual da Conferência Islâmica Indonésia.

"O senhor bispo já disse que vai explicar o que disse à revista alemã, pelo que temos de aguardar pelas suas explicações", afirma Parada, contactado telefonicamente em Díli.

O presidente do Conselho Legislativo de Timor-Leste refere também que a situação em Díli está "normalizada", depois de "algumas centenas de pessoas" terem participado em acções de protesto contra a forma hostil como D. Ximenes Belo foi recebido em Jacarta.

Admite que cerca de 600 pessoas compareceram na sede do Conselho Legislativo para exigirem que as autoridades indonésias cessem com as críticas a D. Ximenes Belo e refere que "alguns malandros atiraram pedras e provocaram alguns estragos".

"Disse-lhes que aceitaria as suas queixas se tudo fosse feito segundo as normas em vigor e as queixas que me foram apresentadas serão enviadas ao Governador", assegura António Parada.


13 Nov - WASHINGTON: José Ramos Horta admite que o seu discurso na cerimónia de entrega do Prémio Nobel da Paz, a realizar em Dezembro, em Oslo, deverá conter novas propostas para a solução pacífica do conflito de Timor-Leste.

Falando no Clube Nacional de Imprensa, em Washington, Ramos Horta não especifica as propostas que poderá apresentar em Oslo, mas admite que uma consulta ao povo timorense sobre o seu futuro poderia não ter de assumir a forma de referendo, sublinhando, no entanto, a necessidade de se efectuar uma consulta.

Segundo Ramos Horta, as autoridades de Jacarta receiam que a cerimónia de Oslo seja aproveitada para uma campanha anti-Indonésia a propósito de Timor-Leste. O Prémio Nobel da Paz antecipa, contudo, que a cerimónia será acentuadamente positiva.

José Ramos Horta manifesta ainda o receio de que as autoridades indonésias impeçam D. Ximenes Belo de viajar até Oslo para receber o Nobal da Paz, ou, no caso de o deixarem sair, queiram impedir o seu regresso a Timor-Leste.

Na Universidade de Georgetown, José Ramos Horta revela que militares indonésios o felicitaram por ter sido galardoado com o Prémio Nobel da Paz.


13 Nov - SIDNEY: Timorenses residentes na Austrália manifestam a sua preocupação pela situação que se vive actualmente em Díli e consideram que só a chegada do bispo D. Ximenes Belo poderá evitar "um banho de sangue".

O único padre timorense que reside na Austrália, António Alves, afirma que o bispo D. Ximenes Belo "é tudo" para o povo de Timor-Leste.

"O povo vê o bispo como o pastor, o chefe, o líder e até o pai. A palavra dele tem muita influência na população. É ouvir e calar. Penso que se alguém tentar impedir o bispo de alguma maneira, ou o tentar prender, vamos ter uma grande matança (em Timor-Leste", afirma o padre António Alves.

Harold Moucho, porta-voz da FRETILIN em Sidney, mostra-se também preocupado e avisa que "com a tropa indonésia tudo pode acontecer", enquanto que o presidente da UDT, João Carrascalão, considera que a população timorense "está numa altura em que não aceitará qualquer provocação.

"Se a tropa (indonésia) reagir e tomar qualquer iniciativa, então tudo pode acontecer. Penso que eles (os indonésios) têm consciência disso e, por esse motivo, estão mais comedidos" diz João Carrascalão.


13 Nov - LISBOA: Um membro da resistência timorense a residir na Indonésia refere que o bispo D. Ximenes Belo estará a ponderar o convite que lhe foi feito para se deslocar ao Parlamento de Jacarta por ter sido convidado na condição de "cidadão indonésio".

Segundo a mesma fonte, contactada telefonicamente a partir de Lisboa, a própria imprensa de Jacarta admite que o bispo timorense poderá recusar comparecer perante um comité do Parlamento indonésio para prestar esclarecimentos sobre as suas declarações à revista alemã "Der Spiegel".

Essas declarações foram publicadas pelo semanário alemão em 14 de Outubro, mas só recentemente motivaram protestos dos dirigentes políticos, militares e religiosos indonésios, ao ponto de grupos de extremistas islâmicos terem exigido a sua expulsão da Indonésia.

"A soldadesca indonésia, que nos rouba a liberdade e destrói a nossa cultura, trata-nos como cães tinhosos. Não sabem o que é justiça e tratam-nos como escravos", afirma D. Ximenes Belo na entrevista ao correspondente da revista alemã em Pequim, Juergen Kremp, durante uma deslocação que o jornalista fez a Timor-Leste no Verão deste ano.

O administrador apostólico de Díli considera ainda, na entrevista de meia página acompanhada de uma pequena foto sua, que os militares "são o principal problema, porque gozam de privilégios que conduzem a um enorme abuso de poder".

"Diariamente vêm pessoas ter comigo que foram torturadas. Passam-se as piores coisas e já tentaram matar-me nove vezes", acrescenta o prelado.

Mas D. Ximenes Belo não confirma as suas declarações sem ouvir a gravação da entrevista, segundo disse em Jacarta, colocando mesmo dúvidas sobre a sua veracidade, nomeadamente no que se refere ao número de vezes em que atentaram contra a sua vida.


14 Nov - JACARTA: D. Ximenes Belo continua a ser alvo de críticas por parte da imprensa de Jacarta, com o jornal "Republika" a considerar, em editorial, que o bispo timorense aparenta cada vez mais ser uma figura política.

"Como Belo não usou o seu direito de resposta às acusações e não explicou tudo à população indonésia, então a ideia de que ele é um jogador político pode ser verdade", considera o "Republika" num editorial intitulado "Quem é Belo".

O jornal acusa D. Ximenes Belo de se recusar a dar justificações sobre os comentários que alegadamente fez em entrevista à revista alemã "Der Spiegel", considerando que a sua postura é inconsistente.

"A fé da população em Belo irá diminuir e, face ao seu comportamento nesta situação, não seria errado se pensassem cada vez mais que o bispo é um político", escreve o "Republika".


14 Nov - DÍLI: Milhares de timorenses voltam a manifestar-se em Díli a favor do bispo D. Ximenes Belo, concentrando-se em frente ao Palácio do Governador, no Largo Infante D. Henrique.

Uma comissão de 15 estudantes pretendia entregar uma petição de apoio a D. Ximenes Belo ao Governador de Timor-Leste, mas Abílio Osório Soares encontra-se ausente em Same.

A manifestação decorre sem que se registem incidentes e termina depois de o administrador do concelho, Domingos Soares, ter prometido aos estudantes que os seus protestos serão "transmitidos" a Jacarta.


14 Nov - JACARTA: Um membro da Comissão Nacional dos Direitos Humanos da Indonésia sugere que D. Ximenes Belo visite imediatamente o embaixador do Vaticano em Jacarta e o chefe das Forças Armadas indonésias para explicar as suas declarações à revista alemã "Der Spiegel".

A. Baramuli, citado pela agência oficial indonésias Antara, considera que essas visitas serão a única maneira de pôr fim à controvérsia gerada pela publicação da entrevista de D. Ximenes Belo à revista alemã.

"Considerando que a diocese de Díli depende directamente do Vaticano e as suas palavras ofenderam as Forças Armadas, é melhor que o bispo Belo mantenha um encontro com o embaixador do Vaticano e com o chefe das Forças Armadas para explicar o assunto", defende Baramuli.

Segundo a Antara, a explicação do bispo sobre as suas declarações é necessária para evitar opiniões contra e a favor do caso que "podem resultar em graves problemas na sociedade".


14 Nov - NOVA IORQUE: José Ramos Horta apela para um renovado esforço por parte da ONU nas negociações com Portugal e a Indonésia para encontrar uma solução para o conflito de Timor-Leste.

Falando numa conferência de imprensa, Ramos Horta defende ser necessário fixar um prazo para a libertação dos presos políticos, reduzir o número de tropas indonésias em Timor-Leste e abrir em Díli uma delegação do Alto Comissariado da ONU para os direitos humanos.

Segundo Ramos Horta, a abertura da delegação da ONU responderia aos interesses da Indonésia e dos timorenses por "poder ser um elemento moderador".

O Nobel da Paz lamenta o facto de as negociações ministeriais entre Portugal e a Indonésia, patrocinadas pelo Secretário-Geral da ONU, não terem registado progressos.

"Seja quem for o Secretário-Geral em 1997, é muito importante fomentar as negociações de forma muito mais enérgica, aproveitando o impulso que a concessão do Prémio Nobel deu à questão de Timor-Leste", defende Ramos Horta.


15 Nov - MACAU: Milhares de timorenses voltam a manifestar o seu apoio a D. Ximenes Belo nas ruas de Díli, circulando em caravanas automóveis por toda a cidade.

Diversos residente contactados telefonicamente em Díli afirmam que se trata da maior manifestação realizada em Timor-Leste pelo menos desde 1975.

Testemunhas contam que o pai de Xanana Gusmão, Manuel Gusmão, evita que manifestantes incendeiem a casa do deputado Daniel Batista, um timorense acusado de ter proferido insultos contra D. Ximenes Belo em Jacarta.

"Os manifestantes pararam em frente à casa do Daniel Batista, situada em frente à Catedral de Díli, e preparavam-se para a incendiar, mas o senhor Manuel Gusmão, que é vizinho do Batista, falou com eles e conseguiu convencê-los a não provocarem a destruição", refere uma fonte na cidade.

"Se não fosse o pai do Xanana, a casa do Batista tinha sido incendiada e isso poderia motivar uma reacção por parte das forças de segurança", refere a mesma fonte.

Residentes em Díli dizem que na manifestação participam muitas pessoas que chegaram nos últimos dias à capital vindas de outros concelhos do território e que acções idênticas têm sido organizadas em diversas outras cidades de Timor-Leste.

Cerca do meio-dia local, milhares de manifestantes dirigem-se para o aeroporto de Comoro na expectativa de que D. Ximenes Belo regresse de Jacarta e que no mesmo avião viajem os timorenses que em Jacarta criticaram o prelado.

Seis pessoas são referenciadas por residentes em Díli como sendo os "traidores" que insultaram D. Ximenes Belo em Jacarta: Labut Melo, alegado chefe de um grupo de "ninjas" que em 1995 aterrorizou a população da capital, o deputado Daniel Batista, Cláudio Vieira, antigo administrador de Lospalos, Martinho, antigo chefe do posto de Ossu, José Kari Beramau, ex-chefe da povoação de Comoro, e um indivíduo sem profissão conhecida identificado por "Meco".

"Afinal, o bispo e os 'traidores' não chegaram, pelo que as pessoas começaram a circular por toda a cidade em centenas de viaturas, enquanto outras ficaram à porta das suas casas a saudar os manifestantes e a gritar vivas a D. Carlos (Ximenes Belo", conta um residente em Díli.

Segundo a mesma fonte, "a maioria da população está nas ruas a mostrar aos indonésios que, ao ofenderem D. Carlos Belo, estão a ofender todo o povo de Timor".

"O nosso bispo, com a sua coragem, simboliza a dignidade do povo de Timor e isso é o que nos resta, pois já perdemos tudo. Por isso, o povo de Timor está pronto para lutar até à morte para defender D. Carlos Belo e tudo o que ele representa para nós. Ele é o nosso pastor, o nosso Pai da Liberdade, e não vamos permitir que o enxovalhem e que o insultem como fizeram em Jacarta, onde lhe chegaram a chamar 'demónio' e outros nomes piores", diz o mesmo residente em Díli.

Este é o quarto dia consecutivo em que se realizam manifestações em Díli, que está praticamente paralisada desde 12 de Novembro, quando foi assinalado o quinto aniversário do massacre no cemitério de Santa Cruz.

Todas as pessoas contactadas nos últimos dias em Díli são unânimes em sublinhar que as forças de seguranças indonésias se mantêm à distância, não interferindo com os manifestantes.


15 Nov - LISBOA: José Ramos Horta apela para um renovado esforço por parte da ONU nas negociações com Portugal e a Indonésia para encontrar uma solução para o conflito de Timor-Leste.14 Nov - NOVA IORQUE: José Ramos Horta apela para um renovado esforço por parte da ONU nas negociações com Portugal e a Indonésia para encontrar uma solução para o conflito de Timor-Leste.

Falando numa conferência de imprensa, Ramos Horta defende ser necessário fixar um prazo para a libertação dos presos políticos, reduzir o número de tropas indonésias em Timor-Leste e abrir em Díli uma delegação do Alto Comissariado da ONU para os direitos humanos.

Segundo Ramos Horta, a abertura da delegação da ONU responderia aos interesses da Indonésia e dos timorenses por "poder ser um elemento moderador".

O Nobel da Paz lamenta o facto de as negociações ministeriais entre Portugal e a Indonésia, patrocinadas pelo Secretário-Geral da ONU, não terem registado progressos.

"Seja quem for o Secretário-Geral em 1997, é muito importante fomentar as negociações de forma muito mais enérgica, aproveitando o impulso que a concessão do Prémio Nobel deu à questão de Timor-Leste", defende Ramos Horta.

Entrevistado pela cadeia de televisão norte-americana CNN, José Ramos Horta refere que conta encontrar-se com representantes da Administração norte-americana quando regressar aos Estados Unidos, em Fevereiro e Março de 1997, acrescentando que deverá ser acompanhado nessa deslocação por D. Ximenes Belo.


15 Nov - ROMA: O ministro dos Negócios Estrangeiros indonésio, Ali Alatas, afirma em Roma que a atribuição do Prémio Nobel da Paz a D. Ximenes Belo e a José Ramos Horta "piorou as relações entre a Indonésia e Portugal".

Segundo Alatas, a decisão do Comité Nobel "deu um sinal errado no tempo errado ao mundo e a todas as nações" ao distinguir os dois timorenses.

"Não creio que venha ajudar ao processo que quer encontrar uma solução e em que estamos envolvidos (Portugal e a Indonésia) desde 1991", refere Alatas, numa alusão ao processo de conversações entre os dois países que decorre desde aquela altura sob a égide do Secretário-Geral das Nações Unidas.

Alatas critica a decisão do Comité Nobel por entender que "Ramos Horta não é um homem de paz e de reconciliação" e refere que se o prémio fosse apenas para D. Ximenes Belo, "talvez o caso fosse diferente", por considerar que o bispo timorense, além de "ser indonésio", é "um homem de Fé católica que tentou trazer o progresso para o povo de Timor-Leste".

"Partilhamos o esforço de D. Ximenes para resolver a situação humanitária em Timor-Leste", acrescenta Ali Alatas, presente em Roma na conferência da FAO, em que participa também o presidente Suharto, que se recusa a falar à imprensa.


15 Nov - JACARTA: Um porta-voz da embaixada da Noruega em Jacarta anuncia que o Governo norueguês concedeu um visto de entrada no país a D. Ximenes Belo, para que o bispo timorense possa deslocar-se a Oslo para a cerimónia de entrega do Prémio Nobel da Paz, que receberá em 10 de Dezembro juntamente com José Ramos Horta.

"Ele (D. Ximenes Belo) pediu um visto e foi-lhe concedido hoje", afirma o porta-voz da embaixada norueguesa em Jacarta.


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