1 a 15 de Dezembro de 1996
02 Dez - MACAU : O jornal "Macau Hoje" anuncia que o Governador de Macau, Rocha Vieira, vai assistir em Oslo à cerimónia de entrega do prémio Nobel da Paz ao bispo timorense D. Ximenes Belo e a José Ramos Horta.
Rocha Vieira foi convidado para a cerimónia de Oslo pelo Comité Nobel num aparente reconhecimento pelas iniciativas que têm sido desenvolvidas pelo Governo de Macau a favor dos refugiados timorenses.
O afluxo de refugiados de Timor-Leste a Macau intensificou-se a partir do massacre de Santa Cruz, em 12 de Novembro de 1991, e desde então já passaram pelo território sob Administração portuguesa cerca de 500 timorenses.
De acordo com o padre timorense Francisco Fernandes, dos cerca de 500 refugiados que chegaram a Macau nos últimos cinco anos, mais de 200 viajaram para Portugal e 90 para a Austrália com o apoio do Governo macaense e muitos outros foram entretanto integrados na sociedade local, onde encontraram trabalho.
Actualmente, cerca de 70 timorenses estão alojados no centro de refugiados da Ilha Verde, pertencente ao Instituto de Acção Social de Macau.
Os refugiados de Timor-Leste recebem também apoios do Governo de Macau, através dos Serviços de Educação e Juventude, para a aprendizagem da Língua Portuguesa e para a frequência de cursos do ensino superior.
O bispo D. Ximenes Belo visitou Macau no final de Maio e foi recebido pelo governador Rocha Vieira, que manifestou ao prelado a intenção do Governo local de auxiliar a diocese de Díli na construção do novo seminário maior de Timor-Leste.
02 Dez - LISBOA : O Presidente da República, Jorge Sampaio, recebe em audiência o vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, a quem alerta para as questões dos Direitos Humanos e da cultura em Timor-Leste.
Sampaio sublinha a Al Gore que não tem havido avanços significativos em relação à causa de Timor-Leste e o vice-presidente norte-americano elogia Portugal pela sua persistência neste caso.
O encontro decorre à margem da cimeira de Lisboa da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa.
02 Dez - OTAVA : Peter Gabriel, Sting, Loreena McKennitt, Xutos e Pontapés e Bonga são alguns dos nomes da música que participam numa colectânea dedicada a Timor-Leste editada no Canadá.
Intitulado "Twenty", o disco lembra o 20/o aniversário da invasão militar de Timor-Leste pela Indonésia.
As receitas do disco revertem a favor da "East Timor Hope Foundation", uma organização com fins de solidariedade e de assistência humanitária ao povo de Timor-Leste.
02 Dez - SIDNEY : Um relatório da resistência divulgado em Sidney denuncia que dois timorenses foram mortos, dezenas de outros feridos ou detidos e algumas mulheres violadas na últimas semanas em Timor-Leste.
Datado de 24 e 25 de Novembro, o documento refere que os jovens Zeferino Mascarenhas e Marcel Antunas foram mortos a tiro pelas forças indonésias em 3 de Outubro, por alegado envolvimento na resistência timorense.
O relatório - que denuncia alegados casos de violação dos direitos humanos em Timor-Leste - foi enviado de Díli para a Austrália pelo Comité Executivo da Luta/Frente Clandestina.
02 Dez - SEIXAL : José Ramos revela no Seixal, onde participa no Forum Internacional sobre Timor-Leste, que o discurso que vai fazer quando receber o Nobel da Paz, em Oslo, é constituído, sobretudo, por "directivas e instruções" de Xanana Gusmão.
Ramos Horta afirma também que o seu discurso em Oslo, a 10 de Dezembro, vai ser "uma mensagem de paz e de diálogo".
"Repetimos a nossa mensagem de diálogo com a Indonésia sem condições, no quadro das Nações Unidas", sublinha.
No Forum do Seixal, Ramos Horta profere uma conferência sobre o tema "Os passos que faltam para a independência" e apela para que os jovens de todo o mundo "assumam como sua a libertação de Timor-Leste".
Segundo João Diogo Pinto, presidente do Conselho Nacional da Juventude, entidade que organizou o forum, a iniciativa pretende desenvolver nos jovens "capacidade para desencadear acções em maior número", de modo a tornar mais visível e com mais "consequências políticas" a realidade timorense.
03 Dez - LISBOA : O empenho de Portugal no apoio da União Europeia a Timor e a diocese de Díli são temas abordados no encontro do Primeiro-Ministro português, António Guterres, e o secretário de Estado do Vaticano, Angelo Sodano.
O encontro decorre à margem da cimeira de Lisboa da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa.
03 Dez - MACAU : Uma fonte da diocese de Díli revela que o bispo D. Ximenes Belo deverá encontrar-se com o chanceler alemão Helmut Kohl e com o Papa João Paulo II depois de receber em Oslo o prémio Nobel da Paz.
"Depois de Oslo, o senhor bispo deverá ir a Bona e ao Vaticano, mas não está prevista uma deslocação a Lisboa", refere a mesma fonte, contactada telefonicamente em Díli a partir de Macau.
O administrador apostólico de Díli deverá partir no sábado para Oslo, provavelmente via Dempasar, Bali, deslocando-se à Alemanha e ao Vaticano após a cerimónia dos prémios Nobel, que se realiza no dia 10.
03 Dez - JACARTA : Três jovens timorenses deixam a embaixada da França em Jacarta, algumas horas depois de ali se terem refugiado, para viajarem para Portugal com o apoio do Comité Internacional da Cruz Vermelha.
Os jovens são Narciso José Manuel, de 25 anos, Lino Fernandes, de 22, e Honório Carvalho, de 19.
04 Dez - LISBOA : Os jovens timorenses Narciso José Manuel, Lino Fernandes e Honório Carvalho chegam a Lisboa provenientes de Jacarta, onde se refugiaram na embaixada da França.
A viagem de Jacarta para Lisboa, via Amesterdão, foi organizada pela Cruz Vermelha Internacional.
Esta foi a sexta vez que timorenses se refugiaram na embaixada da França em Jacarta para poderem abandonar a Indonésia.
Desde Setembro de 1993, pelo menos 112 timorenses seguiram para Portugal, com a ajuda da Cruz Vermelha Internacional, depois de terem procurado asilo em diversas embaixadas em Jacarta.
05 Dez - JACARTA : O ministro dos Negócios Estrangeiros indonésio, Ali Alatas, anuncia que o Governo de Jacarta não estará representado na cerimónia de entrega do Prémio Nobel da Paz a D. Ximenes Belo e a José Ramos Horta.
Intervindo no Parlamento, Ali Alatas refere que o embaixador da Indonésia não vai comparecer à cerimónia, como é habitual, porque "seria politicamente embaraçoso caso Ramos Horta decidisse" atacar o Governo indonésio no seu discurso.
Alatas anuncia, no entanto, que o embaixador vai organizar uma festa de homenagem a D. Ximenes Belo na embaixada indonésia em Oslo.
05 Dez - SURABAYA : A Indonésia projecta comprar em 1997 "uma grande quantidade" de barcos de guerra, nomeadamente de fabrico australiano, anuncia o chefe do Estado-Maior da Marinha indonésia, contra-almirante Arief Kusharijadi.
"No próximo ano, vamos comprar uma grande quantidade de novo equipamento, entre o qual barcos, aviões e carros de combate para a nossa marinha", afirma em Surabaya, Indonésia, o contra-almirante Kusharijadi.
A Indonésia comprará igualmente barcos anfíbios, submarinos e aviões Nomad N-22S, de fabrico australiano, acrescenta.
05 Dez - BRUXELAS : A timorense Odélia Viktor denuncia que a violação sistemática e o sequestro de mulheres, transformadas em escravas sexuais dos soldados indonésios, é umas formas habituais da política de intimidação e terror aplicada em Timor-Leste.
A denúncia é feita durante uma conferência sobre o tema "A Situação das Mulheres nos Territórios Ocupados", promovida conjuntamente pela Representação Permanente de Timor-Leste junto da UE e pela associação de funcionários europeus "SOSO Timor".
Durante a sua intervenção na conferência, realizada num espaço cedido pelo Parlamento Europeu, Odélia Viktor apela para que a União Europeia "exerça pressão sobre a Indonésia, a fim de acabar com os actos desumanos" praticados pelas forças indonésias em Timor-Leste.
06 Dez - RIO DE JANEIRO : O ex-presidente brasileiro José Sarney considera que as relações comerciais do Brasil com a Indonésia "não podem ser maiores que a defesa dos direitos humanos em Timor-Leste".
Para Sarney, o Brasil deve "ser duro nas relações bilaterais e nos organismos multinacionais para exigir o fim da ocupação de Timor pela Indonésia".
"A causa de Timor é também brasileira", defende José Sarney num artigo publicado no jornal "Folha de São Paulo".
Em Timor "defendemos as nossas raízes comuns da cultura portuguesa e, mais ainda, a nossa pátria, como dizia Pessoa, a língua portuguesa", escreve ainda o ex-presidente brasileiro.
06 Dez - LISBOA : A Confederação Internacional dos Sindicatos Livres (CISL) convida as organizações filiadas a apelarem para que os respectivos governos pressionem a Indonésia a respeitar o direito do povo timorense à autodeterminação.
O apelo consta de uma "Resolução sobre Timor-Leste" aprovada pelo Comité Executivo da CISL.
Com 140 milhões de filiados, a CISL é a maior organização sindical do mundo e conta com a União Geral dos Trabalhadores de Portugal entre os seus membros.
06 Dez - LISBOA : Em entrevista à Agência de Informação Internacional dos Salesianos, divulgada em Lisboa, o bispo D. Ximenes Belo anuncia que vai realçar a "doutrina social da Igreja em relação à dignidade humana e a reconciliação" no discurso que fará em Oslo, quando receber o Prémio Nobel da Paz.
Na entrevista, D. Ximenes Belo reafirma-se disposto a morrer pelo seu povo e pela paz.
Sublinha que nunca mais teve paz desde que lhe foi atribuído o Nobel da Paz e refere que foi alvo de manifestações de solidariedade durante a recente reunião da Conferência Episcopal Indonésia.
"Todos eles me manifestaram a sua solidariedade, afirmando que, pelo menos em Timor, temos alguém que pode falar e levantar a voz:", salienta D. Ximenes Belo.
06 Dez - BISSAU : O MNE guineense, Fernando Delfim da Silva, anuncia que o Presidente da Guiné-Bissau, João Bernardo "Nino" Vieira, vai a Oslo para assistir à cerimónia de entrega do Prémio Nobel da Paz a D. Ximenes Belo e a José Ramos Horta.
Segundo uma fonte do MNE guineense, "Nino" Vieira desloca-se a Oslo na sequência de um convite que lhe foi dirigido pessoalmente pelo seu homólogo português, Jorge Sampaio.
Em Outubro, o PAIGC inviabilizou, com o seu voto maioritário na Assembleia Nacional Popular, a aprovação de uma moção de congratulação pela atribuição do Prémio Nobel da Paz a D. Ximenes Belo e a José Ramos Horta.
Segundo a mesma fonte, o "chumbo" desagradou à oposição guineense e causou "alguma apreensão em Lisboa".
Em Julho, após ter sido recebido em audiência pelo Primeiro-Ministro português, António Guterres, "Nino" Vieira assegurou que a Guiné-Bissau não tinha relações diplomáticas nem financeiras com a Indonésia.
06 Dez - JACARTA : D. Ximenes Belo viaja de Díli para Jacarta, de onde seguirá para Oslo, noticia a Agência France-Presse, citando fontes na capital timorense.
A partida do bispo apanhou muitos timorenses de surpresa, pois tinha sido anunciado que D. Ximenes Belo só seguiria para Oslo no dia 7 de Dezembro, via Bali, sem passar por Jacarta.
A população de Díli contava deslocar-se ao aeroporto para se despedir de D. Ximenes Belo, propósito que ficou sem efeito com a partida antecipada do prelado para Jacarta.
06 Dez - LISBOA : Uma fonte dos Padres Salesianos anuncia em Lisboa que D. Ximenes Belo não se deslocará a Portugal depois de receber em Oslo o Prémio Nobel da Paz.
O bispo timorense terá, contudo, oportunidade de se avistar em Oslo com "muitos dos seus amigos portugueses" que ali se deslocarão para assistir à cerimónia do Prémio Nobel, refere a mesma fonte.
De acordo com o programa oficial da deslocação de D. Ximenes Belo, o prelado chegará no dia 8 a Oslo, de onde viajará no dia 11 para Bona para um encontro com o chanceler Helmut Kohl.
O bispo timorense permanecerá alguns dias na Alemanha antes de seguir para Roma, onde será recebido pelo Papa João Paulo II no dia 17 ou 18, regressando alguns dias depois a Díli.
06 Dez - CIDADE DA PRAIA : A Federação Nacional da Juventude de Cabo-Verde manifesta, em comunicado, a sua "solidariedade e apoio incondicional à causa do povo maubere", comprometendo-se a contribuir para a liberdade "deste povo lusófono".
O comunicado, divulgado a propósito do 21º aniversário da invasão de Timor-Leste pela Indonésia, condena a "ineficácia da comunidade internacional em tomar medidas efectivas para a resolução do conflito".
06 Dez - LISBOA : O comandante militar da resistência timorense, Konis Santana, anuncia que declarará um cessar-fogo indefinido se a Indonésia concordar em libertar os presos políticos e reduzir drasticamente o número de militares em Timor-Leste.
06 Dez - OSLO : A Agência de notícias norueguesa NTB anuncia que a irmã de Xanana Gusmão foi impedida de viajar de Timor para Oslo, onde pretendia assistir à cerimónia de entrega do Nobel da Paz.
Alexandrina Gusmão foi convidada para se deslocar a Oslo para assistir à cerimónia pelo Comité do Nobel norueguês.
07 Dez - LISBOA : O Presidente da República, Jorge Sampaio, afirma que estaria disponível para um encontro com o seu homólogo indonésio, Suharto, se "existissem condições efectivas para resolver a questão de Timor-Leste, com a garantia da realização de um acto livre e democrático de autodeterminação".
Nestas condições "não poderia recusar esse encontro", afirma Jorge Sampaio, numa entrevista que concedeu, por escrito, à Agência Lusa, a propósito da entrega do Prémio Nobel da Paz de 1996 a D. Carlos Filipe Ximenes Belo e a José Ramos Horta.
Na opinião do PR, a atribuição do galardão aos dois timorenses representa "uma viragem histórica na luta pela paz e pela liberdade do povo de Timor-Leste" e "prestigia o Prémio Nobel da Paz", já que este vem "servir uma causa justa e contribuir para a resolução da questão".
"A atribuição do Prémio Nobel da Paz a duas eminentes personalidades timorenses - prossegue Jorge Sampaio - reflecte e reforça a projecção da causa timorense na opinião pública internacional".
"Os timorenses não estão sozinhos: a sua resistência heróica contra uma brutal opressão e a sua luta pela autodeterminação prolongam-se num movimento de solidariedade sem fronteiras. A causa timorense tornou-se uma grande causa internacional", acrescenta o PR.
Sampaio promete ainda aos timorenses que Portugal "continuará a defender, intransigentemente, o exercício livre e democrático do direito à autodeterminação de Timor-Leste".
"É esse o nosso dever e o nosso compromisso solene, em nome dos vínculos indestrutíveis com que a História nos uniu aos timorenses", sublinha.
Questionado sobre se acredita que as conversações sob a égide do Secretário-Geral da ONU terão resultados práticos ou se, como outras personalidades portuguesas, crê que apenas uma mudança no regime indonésio poderá resolver a questão, Jorge Sampaio responde:
"Portugal tem-se empenhado no processo de conversações, sob a égide do Secretário-Geral das Nações Unidas, e no sentido de encontrar uma resolução justa e pacífica para a questão de Timor-Leste, cujo pressuposto é a livre decisão da comunidade timorense sobre o seu destino, expressa num acto livre e democrático de autodeterminação".
E conclui: "Pela nossa parte, continuaremos a apoiar os esforços do Secretário-Geral das Nações Unidas no cumprimento do mandato que lhe foi conferido pela Assembleia Geral".
07 Dez - JACARTA : O Governo de Jacarta rejeita uma proposta de cessar-fogo avançada pelo comandante militar da resistência timorense, Konis Santana, alegando que "não há guerra em Timor-Leste".
"Quando se fala de um cessar-fogo, é porque existe uma guerra, mas não há guerra em Timor-Leste, não há luta", afirma à AFP o porta-voz do MNE, Ghaffar Fadyl.
Konis Santana anunciou que declarará um cessar-fogo indefinido se a Indonésia concordar em libertar os presos políticos e reduzir drasticamente o número de militares em Timor-Leste.
07 Dez - OSLO : A próxima ronda de conversações entre Portugal e a Indonésia sobre Timor-Leste marcada para 21 de Dezembro deverá ser adiada, anuncia um elemento da resistência, citando o responsável pelo "dossier" de Timor no MNE português, Rui Quartin Santos.
Segundo a fonte da resistência, Quartin Santos comunicou a José Ramos Horta que o encontro deverá ser adiado por não ter sido convenientemente preparado.
As diplomacias portuguesa e indonésia estiveram desde o princípio do ano empenhadas com actividades no Conselho de Segurança da ONU pelo que não dispuseram de tempo suficiente para preparar a próxima ronda de conversações.
Portugal candidatou-se e conseguiu ser admitido, para 1997, como membro não permanente do Conselho de Segurança, enquanto que a Indonésia, membro não permanente daquele órgão, defendeu sem sucesso a candidatura da Austrália em alternativa à portuguesa.
A resistência timorense concorda com o adiamento, considerando que não se justifica realizar o encontro apenas para "cumprir calendário".
07 Dez - OSLO : Dirigentes timorenses no exílio e residentes anunciam que vão aproveitar a deslocação a Oslo, onde decorre no dia 10 de Dezembro a entrega do Prémio Nobel da Paz, para se reunirem naquilo a que chamam um "mini-encontro intra timorense".
No encontro, cuja data não é anunciada, deverão participar os responsáveis pela Comissão Coordenadora da Frente Diplomática da resistência timorense , todos no exílio: José Ramos Horta (CNRM), João Carrascalão e Zacarias da Costa (UDT) e José Luís Guterres e Mari Alkatiri (FRETILIN).
Quanto a timorenses provenientes do território, é esperada a presença de Manuel Carrascalão, deputado ao parlamento de Timor-Leste, Armindo Maia, vice-reitor da Universidade de Timor-Leste, e Florentino Sarmento, director do Programa de Desenvolvimento da Agricultura de Timor-Leste (ETADEP).
07 Dez - PORTO : O secretário para as Relações Exteriores da FRETILIN, Mari Alkatiri, considera inviável a proposta do comandante da guerrilha timorense, Konis Santana, relativa a um cessar-fogo em Timor.
"Não creio que seja uma proposta viável", afirma Alkatiri a propósito da iniciativa de Konis Santana, argumentando que a Indonésia "pretende reforçar a sua posição militar em Timor".
Alkatiri defende também que a próxima reunião entre os MNE de Portugal e da Indonésia, marcada para 21 de Dezembro, deve ser adiada devido ao processo de substituição do Secretário-Geral da ONU.
Sobre a alegada proibição imposta pela Indonésia ao bispo D. Ximenes Belo de não se deslocar a Portugal após a entrega do Prémio Nobel da Paz, sob pena de não ser autorizado a regressar a Timor, Alkatiri comenta: "o mais importante é que o bispo Ximenes Belo possa regressar a Díli".
Mari Alkatiri assiste no Porto aos trabalhos do XV Congresso do Partido Comunista Português na qualidade de representante da FRETILIN. Os congressistas aprovam, por unanimidade e aclamação, um voto de solidariedade para com o povo timorense.
07 Dez - JACARTA : Fontes em Jacarta denunciam que oito indonésios saíram da capital da Indonésia com a missão de "incomodar" D. Ximenes Belo em Oslo, ou numa outra etapa da viagem do bispo timorense ao exterior.
As fontes, que não podem ser identificadas por razões de segurança, alertam que os oito indivíduos poderão ter instruções para "provocar" D. Ximenes Belo ou mesmo "atentar contra a vida" do prelado. "
Não se sabe qual é o plano, mas o alvo é o bispo", sublinham as fontes que contactaram a agência Lusa.
A operação, referem, foi preparada pelo major-general Prabowo, genro do presidente Suharto e comandante da KOPASSUS (Komandu Pasukan Khusus), as forças especiais de comandos das Forças Armadas Indonésias, também referenciadas em Timor por "boinas vermelhas".
Os oito "homens" do major-general Prabowo saíram de Jacarta em voos diferentes para "não dar nas vistas", acrescentam os mesmos informadores.
07 Dez - LISBOA : A Livraria Bertrand inicia uma recolha de livros para Timor-Leste, com o objectivo de divulgar a língua portuguesa e oferecer um presente de Natal ao povo timorense.
Os livros, que serão recolhidos ao longo de uma semana, serão enviados progressivamente para Timor-Leste através da Associação dos Ex-Presos Políticos.
07 Dez - FAMALICÃO : O Presidente da República, Jorge Sampaio, escusa-se a comentar a decisão do bispo D. Ximenes Belo de não se deslocar a Portugal para ser condecorado, face a alegadas pressões indonésias.
"Terá de ser ele a comentar a sua decisão", diz o Presidente da República.
"Quem vive em ditadura, e Portugal sabe o que isso é, apesar de ter passado por uma situação muito mais suave, tem o direito de escolher os momentos que considera melhores para agir", acrescenta Jorge Sampaio.
07 Dez - OSLO : José Ramos Horta chega a Oslo para receber, juntamente com o bispo D. Ximenes Belo, o Prémio Nobel da Paz de 1996, e considera que a atribuição do galardão a dois timorenses é "o primeiro grande passo" para a autodeterminação de Timor-Leste.
Confrontado com a intenção da companhia estatal de petróleo norueguesa - Statoil - de explorar gás natural no Mar de Timor, Ramos Horta afirma não ter objecções a colocar, desde que a empresa contribua, ainda que discretamente, para a causa da autodeterminação de Timor-Leste.
Segundo Ramos Horta, as companhias que invistam no Mar de Timor devem criar "um fundo especial para apoiar os jovens timorenses nos seus estudos, os órfãos e as viúvas".
O Nobel da Paz manifesta-se também favorável a um adiamento da próxima ronda de negociações entre Portugal e a Indonésia, marcada para 21 de Dezembro.
08 Dez - JACARTA : O exército indonésio reafirma a amnistia para os guerrilheiros timorenses que queiram render-se, noticia a Agência noticiosa oficial Antara.
"A amnistia não tem prazo e aplica-se a todos os membros do GPK que se rendam ou sejam capturados e arrependidos", afirma o comandante militar de Timor-Leste, coronel Mahidin Simbolon, citado pela Antara.
GPK (Grupo de Distúrbios contra a Segurança) é o termo militar aplicado a todos os movimentos separatistas na Indonésia, incluindo a resistência timorense.
Os militares indonésios iniciaram o processo de amnistia em 1993, quando libertaram dois dirigentes da FRETILIN, Mauhudu e Mauhunu, detidos no início do mesmo ano.
08 Dez - OSLO : O bispo D. Ximenes Belo chega a Oslo para receber, em 10 de Dezembro, o Prémio Nobel da Paz juntamente com José Ramos Horta, que já se encontra na capital norueguesa.
O bispo timorense escusa-se a prestar quaisquer declarações, limitando-se a dirigir "saudações ao povo norueguês".
À espera do bispo no aeroporto estava o embaixador de Portugal na Noruega e um representante da embaixada da Indonésia em Oslo.
D. Ximenes Belo chega a Oslo acompanhado da sua irmã, Julieta, do seu secretário pessoal, o padre Domingos Sequeira, da freira Luísa Gusmão e do seu motorista, Amândio Araújo.
08 Dez - OSLO : José Ramos Horta denuncia que o programa oficial da entrega do Nobel da Paz poderá ser alterado devido a pressões indonésias sobre D. Ximenes Belo.
O programa oficial prevê a realização, no dia 9, de uma conferência de imprensa conjunta dos dois laureado, mas as pressões indonésias podem levar Ramos Horta e D. Ximenes Belo a responder às questões dos jornalistas em separado.
A decisão final sobre a conferência de imprensa será tomada durante uma reunião dos dois laureados com o presidente do Comité Nobel.
As pressões sobre D. Ximenes Belo foram exercidas pelo ministro dos Negócios Estrangeiros da Indonésia, Ali Alatas, antes de o prelado embarcar em Jacarta para Oslo, afirma Ramos Horta.
Alatas terá advertido "muito formalmente" o bispo de que não deveria aparecer publicamente junto de Ramos Horta, nem fazer declarações públicas contra a Indonésia. Não deveria, igualmente, visitar Lisboa ou Bruxelas (para onde foi convidado pelo Parlamento Europeu).
Segundo Ramos Horta, o bispo poderá ser impedido de regressar a Timor-Leste, caso não cumpra as determinações indonésias.
"É muito importante para ele voltar a Timor-Leste. Por isso, está preparado para fazer certas concessões. Compreendo o dilema dele", diz Ramos Horta, deixando a D. Ximenes Belo a decisão sobre quaisquer alterações ao programa oficial da entrega do Prémio Nobel da Paz.
"É ele que está sob pressão, é ele que está a ser ameaçado. Farei o que puder para minimizar qualquer problema", acrescenta.
08 Dez - MACAU : O governador Rocha Vieira parte de Macau para Oslo, onde assistirá no dia 10 de Dezembro à cerimónia de entrega do Nobel da Paz ao bispo timorense D. Ximenes Belo e a José Ramos Horta.
O Governador de Macau desloca-se a Oslo a convite do Comité Nobel.
"Era um convite que não poderia recusar, porque o considero como uma homenagem e o reconhecimento da solidariedade de Macau para com o povo e os refugiados timorenses", afirma Rocha Vieira, momentos antes de deixar o território.
O Governador assistirá ainda no dia 11 de Dezembro, em Oslo, ao concerto de gala em honra dos laureados com o prémio Nobel, que contará com a participação do maestro timorense Simão Barreto, radicado em Macau.
08 Dez - OSLO : José Ramos Horta anuncia que o bispo D. Ximenes Belo vai jantar na embaixada da Indonésia em Oslo, mas considera que o prelado aceitou o convite porque "não teve escolha".
"Tenho a certeza de que ele não veio de tão longe para jantar na embaixada indonésia. Ele gostaria muito mais de se encontrar com amigos, com jornalistas, com estudantes", acrescenta Ramos Horta.
08 Dez - OSLO : O líder de um movimento de estudantes de solidariedade para com povos do Terceiro Mundo revela que José Ramos Horta teme pela sua segurança, pelo que poderá abster-se de aparecer em locais públicos em Oslo.
Yannis Tavridis, que se reuniu com Ramos Horta, afirma ter informações seguras de que chegaram a Oslo "homens enviados pelos serviços secretos indonésios" que poderão atentar contra a vida dos laureados.
A polícia norueguesa já foi alertada para a situação, acrescenta.
Fontes em Jacarta tinham alertado anteriormente que o general Prabowo, genro do presidente Suharto, tinha preparado uma operação contra o bispo D. Ximenes Belo, tendo enviado, para o efeito, oito dos seus homens para Oslo.
08 Dez - OSLO : José Ramos Horta anuncia que o seu discurso na cerimónia de entrega do Nobel da Paz, no dia 10 de Dezembro, será centrado no plano de Paz do Conselho Nacional da Resistência Maubere (CNRM).
O plano prevê três fases, a primeira das quais, com a duração de um a dois anos, consiste na realização de conversações entre Portugal e a Indonésia, sob os auspícios do Secretário-Geral da ONU, e com a participação de representantes do povo timorense.
Dessas conversações deveriam resultar o fim das actividades armadas no território, a libertação dos presos políticos, a redução do número de efectivos militares indonésios e a retirada dos armamentos.
Simultaneamente, o Comité Internacional da Cruz Vermelha expandiria as suas actividades, seria realizado um censo da população, o território seria aberto às agências das Nações Unidas, seria criada uma comissão independente dos direitos humanos e nomeado um representante permanente do Secretário-Geral da ONU.
A segunda fase, a concretizar em cinco anos, consiste num período transitório de autonomia de Timor-Leste, com a realização de eleições sob a supervisão da ONU para uma assembleia (parlamento) com um mandato de cinco anos. Nas eleições apenas participariam e poderiam ser eleitos timorenses.
A assembleia elegeria o governador e teria poderes para legislar no domínio das relações comerciais internacionais, investimento, propriedade e imigração, entre outros.
Nesta segunda fase, terminaria a retirada dos militares da Indonésia, bem como da maior parte dos civis indonésios que se encontram no território. A ONU organizaria uma força policial colocada sob o comando do governador.
O plano prevê que o período para aplicação desta fase poderá ser prorrogado por acordo entre a Indonésia e os timorenses, auscultados em referendo.
A terceira fase prevê a autodeterminação dos timorenses no prazo de um ano. A população poderia então optar pela integração ou associação com a Indonésia, ou plena independência.
08 Dez - OSLO : O bispo D. Ximenes Belo preside à celebração de uma missa solene na Igreja de Santo Olavo, em Oslo, e na homilia afirma que a paz em Timor-Leste não pode ser conseguida através da "força e intimidação", mas sim pelo "respeito pela liberdade individual e pela dignidade humana".
"A paz não pode ser conseguida com o uso da força e intimidação, mas apenas com o respeito pela liberdade individual e pela dignidade humana. Isto aplica-se a Timor-Leste", diz D. Ximenes Belo.
Entre os fiéis que enchiam por completo a igreja e escutaram a homilia do bispo timorense - proferida em inglês - estavam o embaixador da Indonésia na Noruega e a mulher, mas José Ramos Horta não assistiu à celebração religiosa.
D. Ximenes Belo considera que o facto de ter sido distinguido com o Prémio Nobel da Paz representa "uma grande responsabilidade" e que aceitou o galardão "em nome dos que aderem as suas vidas ao longo dos anos e dos que ainda sofrem pelas causas da verdade, da liberdade, da justiça e da paz".
"Aceitei também o prémio em nome do povo da Indonésia e dos que em todo o mundo lutam em defesa dos direitos do cidadão comum na sociedade", nomeadamente por um "tratamento imparcial e justo perante a lei, sem discriminação", sublinha ainda o prelado.
08 Dez - LISBOA : O primeiro-ministro António Guterres afirma que aguarda que a entrega do Prémio Nobel da Paz a D. Ximenes Belo e a José Ramos Horta incentive "uma solidariedade cada vez maior com a luta digna e justa" do povo timorense por parte da comunidade internacional.
Em declarações à Agência Lusa a propósito da entrega do Nobel da Paz, António Guterres considera que o apoio à causa de Timor-Leste deve ter como objectivos "não apenas o respeito pelos direitos humanos, como também à liberdade e autodeterminação" do povo timorense.
Segundo o PM, o Governo português vai "continuar com toda a acção" que tem desenvolvido em prol da questão timorense e "procurar que se concretizem", por parte da União Europeia, as "medidas especiais" que o Conselho de Assuntos Gerais prometeu tomar em relação a Timor-Leste.
Pela parte portuguesa, António Guterres assegura que as principais iniciativas se destinarão ao "apoio à actividade da população (timorense), do seminário (católico) e a outras formas de educação que possam ajudar a preservar a identidade cultural e nacional do povo de Timor-Leste".
Guterres defende ainda que devem continuar as conversações entre Portugal e a Indonésia sobre Timor-Leste, sob os auspícios do Secretário-Geral da ONU, até que o regime de Jacarta ceda nas suas posições.
"Não tenho ilusões. A Indonésia tem um regime ditatorial e não será fácil fazê-la mover", reconhece António Guterres, apesar de continuar a alimentar a esperança: "com a nossa determinação e, sobretudo, com a determinação do povo timorense, estou certo de que mais tarde ou mais cedo a causa (timorense) vai vencer".
08 Dez - LISBOA : O duque de Bragança, D. Duarte Pio, manifesta-se convicto de que as pressões internacionais irão, mais tarde ou mais cedo, obrigar a Indonésia a negociar a independência de Timor-Leste.
"A actual atitude é própria das ditaduras, mas a força da opinião pública irá fazer a Indonésia compreender, a dado momento, que terá mais vantagens em negociar", afirma o duque de Bragança, ao partir para Oslo para assistir à entrega do Prémio Nobel da Paz.
D. Duarte Pio defende que seria politicamente vantajoso para Timor-Leste, um estatuto de"autonomia progressiva", considerando que essa opção provisória tornaria mais fácil uma negociação com a Indonésia nesta fase.
"Uma autonomia progressiva, semelhante à solução encontrada para a Palestina, tornaria mais fácil obter uma cedência dos indonésios", afirma o Duque de Bragança, que acrescenta: "tal estatuto não exigiria uma cedência de posições de princípio por parte da Indonésia, nem de Portugal, mas os timorenses passariam a ser menos reprimidos, teriam mais liberdade e direitos, sobretudo o direito à sua própria cultura".
08 Dez - OSLO : D. Ximenes Belo e José Ramos Horta participam em conferências de imprensa separadas, em vez de um encontro conjunto com os jornalistas, como estava previsto, devido a pressões indonésias para que o bispo não pareça em público com o dirigente da resistência timorense.
D. Ximenes Belo é o primeiro a falar aos jornalistas e reconhece "o esforço da Indonésia para desenvolver Timor-Leste", mas sublinha que "nenhum desenvolvimento pode ser verdadeiramente apreciado sem a participação responsável do povo na sua concepção e execução e sem o respeito pela liberdade e dignidade" das pessoas.
"Os habitantes de Timor-Leste continuam a aguardar propostas que correspondam às suas legítimas aspirações", afirma o prelado.
"Estou perfeitamente consciente de que um líder religioso deve ficar afastado de posições políticas concretas, mas como bispo tenho o dever moral de falar pelos pobres e doentes, pelos que são intimidados e não se podem defender", diz D. Ximenes Belo.
Inquirido sobre a possibilidade de lhe ser vedado o regresso a Timor-Leste, no caso de não cumprir as determinações indonésias, D. Ximenes Belo afirma: "Não há problema em regressar a Timor-Leste. Fui livre para vir aqui e serei livre para regressar".
Mas acrescenta: "Falar de fora (como fazem os jornalistas) é muito bonito, mas viver lá dentro (em Timor-Leste) é outra coisa".
A conferência de imprensa de José Ramos Horta realiza-se logo a seguir à de D. Ximenes Belo e o dirigente do CNRM reafirma que compreende as reservas do bispo nas suas declarações em Oslo: "Não há comparação entre o que eu posso fazer e dizer e o que ele pode fazer e dizer".
Ramos Horta compara o genocídio dos judeus, dos arménios e de outros povos com a repressão sofrida pelos timorenses e responsabiliza também a maioria dos governos ocidentais por terem morrido mais de 200.000 pessoas em Timor-Leste desde a invasão indonésia, porque "fornecem armas", "negoceiam com a Indonésia" e "fingem que o problema não existe".
O dirigente do CNRM compara ainda Xanana Gusmão a Nelson Mandela, dizendo que tal como o actual Presidente da África do Sul, o líder histórico da resistência timorense está preso por "um único crime: lutar pela liberdade e pela independência do seu país".
08 DEZ - OSLO : Dezenas de activistas manifestam-se em frente à embaixada da Indonésia em Oslo exigindo o fim da ocupação de Timor-Leste.
Na manifestação participa Luís Côrte-real, o único timorense residente na Escandinávia.
Os activistas dispersam depois de um funcionário da embaixada receber um documento de protesto contra a actuação da Indonésia em Timor-Leste.
08 Dez - LISBOA: O primeiro-ministro António Guterres considera que a decisão da Noruega de explorar gás natural no Mar de Timor é uma acção que "viola a legalidade internacional".
Afirmando que "Portugal não tem à sua disposição" os meios jurídicos para "impor" a sua posição, António Guterres diz que o Governo "não tem dúvidas, como potência administrante do território", que esta é uma "acção ilegal, à luz do direito internacional.
"Mas, no plano diplomático, não poderemos deixar de fazer sentir ao Governo norueguês o nosso repúdio por esta atitude", acrescenta o PM.
09 Dez - BISSAU : O Presidente guineense, João Bernardo "Nino" Vieira, anuncia que a Guiné-Bissau e a Indonésia vão estabelecer relações diplomáticas "a todo o momento", justificando que esta é "a melhor forma de se poder pressionar" Jacarta em relação à questão de Timor-Leste.
O anúncio é feito momentos antes de "Nino" Vieira partir para Oslo, via Lisboa, para assistir à entrega do Prémio Nobel da Paz a D. Ximenes Belo e a José Ramos Horta.
"Tal como dizia Amílcar Cabral, o inimigo não se devia afastar do inimigo, devia estar sempre ao lado do inimigo para saber com que inimigo estamos a lutar, mas claro que penso que, se viermos a realmente a ter relações, isto não tem nada a ver com o nosso princípio de defesa dos interesses da autodeterminação do povo de Timor-Leste", afirma "Nino" Vieira.
"É nesse quadro que eu me desloco a Oslo, para mostrar, mais uma vez, a nossa solidariedade para com o povo timorense", acrescenta o presidente guineense.
A intenção da Guiné-Bissau é desdramatizada momentos depois do anúncio de "Nino" Vieira pelo MNE guineense, Fernando Delfim da Silva, ao assegurar que "não há qualquer incompatibilidade" entre o estabelecimento de relações diplomáticas entre Bissau e Jacarta e a questão de Timor-Leste.
"É preferível falar com a Indonésia, mesmo sobre Timor, do que não falar, sendo ambos os países membros não-permanente do Conselho de Segurança da ONU, da OCI (Organização da Conferência Islâmica) e do Movimento dos Não-Alinhados", justifica Delfim da Silva.
A declaração é feita momentos antes de Delfim da Silva partir para Jacarta, onde vai participar na cimeira da OCI, à margem da qual tenciona assinar com o seu homólogo indonésio, Ali Alatas, o acordo de estabelecimento de relações diplomáticas entre a Guiné-Bissau e a Indonésia.
09 Dez - LISBOA : Uma fonte do Ministério dos Negócios Estrangeiros nega o adiamento da próxima ronda de conversações entre Portugal e a Indonésia sobre Timor-Leste, marcada para 21 de Dezembro.
"Nada nos faz crer que haja alterações" na data do encontro entre Jaime Gama e Ali Alatas, diz a fonte, contrariando assim informações da resistência timorense, segundo as quais a reunião iria ser adiada.
No entanto, a mesma fonte admite que o processo de eleição do novo Secretário-Geral da ONU poderá levar à alteração da data do encontro Gama-Alatas, embora nada esteja decidido nesse sentido.
Qualquer adiamento nunca ocorrerá por falta de preparação da reunião - argumento utilizado pela resistência timorense para explicar o adiamento -, pois "está tudo preparado para o encontro", acrescenta a fonte do MNE português.
Segundo a resistência timorense, o responsável pelos assuntos de Timor no MNE, Rui Quartim Santos, comunicou a José Ramos Horta que o encontro deverá ser adiado por não ter sido convenientemente preparado.
09 Dez - BISSAU : O Parlamento da Guiné-Bissau aprova por unanimidade uma moção de congratulação ao povo de Timor-Leste e, em particular a D. Ximenes Belo e a José Ramos Horta, galardoados com o Prémio Nobel da Paz de 1996.
A moção foi apresentada pela Resistência da Guiné-Bissau/Movimento Bafatá, na oposição, e obteve o consenso dos partidos representados na Assembleia Nacional Popular.
Trata-se da segunda vez que o mesmo partido, o maior da oposição, propõe idêntica iniciativa, após o ter feito em Outubro, em que foi rejeitada.
A moção é aprovada poucas horas depois de o presidente "Nino" Vieira ter anunciado que a Guiné-Bissau vai estabelecer relações diplomáticas com a Indonésia.
09 Dez - LISBOA : Fonte oficial anuncia que o ex-PR Mário Soares não vai assistir à entrega do Prémio Nobel da Paz a D. Ximenes Belo e a José Ramos Horta por estar constipado.
Jorge Sampaio tinha convidado os seus antecessores Ramalho Eanes e Mário Soares, também convidados para a cerimónia, a viajarem no seu avião.
Maria Barroso, mulher de Mário Soares, declara que o ex-chefe do Estado "ficou muito triste" por não poder ir a Oslo.
09 Dez - LISBOA : O Presidente da República, Jorge Sampaio, reafirma a importância da atribuição do Prémio Nobel da Paz a D. Ximenes Belo e a José Ramos Horta no reforço da resistência à opressão indonésia.
Ao partir para Oslo, onde vai assistir à entrega do galardão aos dois timorenses, Jorge Sampaio destaca ainda o aumento de visibilidade da luta de Timor-Leste pela autodeterminação e reafirma a sua disponibilidade para se encontrar com o presidente Suharto da Indonésia "se e quando" os timorenses puderem determinar o seu futuro político.
09 Dez - LISBOA : Em mensagem enviada a D. Ximenes Belo e a José Ramos Horta, o presidente da Assembleia da República, Almeida Santos, assegura que "Portugal sente o maior orgulho" pela atribuição do Nobel da Paz aos dois dirigentes timorenses.
Na mensagem, Almeida Santos explica que não se pode deslocar a Oslo para assistir à cerimónia de entrega do galardão por falta de autorização médica, dado ainda se encontrar em convalescença da operação ao coração a que foi sujeito.
09 Dez - RIO DE JANEIRO : O jornal "Folha de São Paulo" revela que José Ramos Horta recebeu ameaças de morte durante a sua visita ao Brasil, entre 17 e 22 de Novembro.
As ameaças foram feitas, segundo o jornal, quando Ramos Horta se encontrava em Brasília, Campinas e Rio de Janeiro.
A Polícia Federal brasileira chegou a sugerir ao dirigente timorense que cancelasse a agenda dos dois últimos dias de estada no Brasil, sugestão que não foi aceite por Ramos Horta, revela o jornal.
10 Dez - MACAU : Fontes em Díli denunciam que as autoridades indonésias levaram para Jacarta 78 representantes dos 13 concelhos de Timor-Leste, aparentemente para participarem em manifestações contra D. Ximenes Belo, caso o bispo timorense se "exceda" em Oslo.
"Viajaram para Jacarta seis elementos de cada um dos concelhos e a ideia parece ser a de encenar uma manifestação liderada por supostos 'representantes' do povo timorense, caso o bispo ponha em causa, em Oslo, o estatuto do território como província da Indonésia", refere uma fonte.
No entanto, sublinha, os alegados representantes não têm qualquer mandato para "expressar o sentimento do povo timorense, até porque foram obrigados a participar na encenação".
Um elemento da frente clandestina da resistência contactada pela Lusa em Díli assegura que "os jovens timorenses estão atentos e reagirão se o inimigo fizer algo contra" D. Ximenes Belo ou José Ramos Horta.
Domingos Oliveira, dirigente da UDT, denunciou anteriormente que o "recrutamento" dos representantes dos concelhos de Timor-Leste foi planeado pelo major-general Prabowo, genro do presidente Suharto e comandante da KOPASSUS (Komandu Pasukan Khusus), as forças especiais de comandos das Forças Armadas Indonésias.
Oliveira disse à Lusa que a manifestação ocorrerá caso D. Ximenes Belo refira no seu discurso em Oslo "o direito do povo timorense à autodeterminação".
Fontes contactadas por Domingos Oliveira disseram que muitos dos "manifestantes" se teriam mostrado indisponíveis mas que foram coagidos a aceitar o "convite".
10 Dez - MACAU : Residentes em Díli admitem que a cerimónia de entrega do Prémio Nobel da Paz a D. Ximenes Belo e José Ramos Horta vai ser acompanhada com "muita expectativa" em Timor-Leste através da RTPi.
"Há uma enorme expectativa e várias pessoas até compraram parabólicas nos últimos dias, porque querem ver a cerimónia de Oslo em directo através da RTPi", refere uma das fontes contactadas telefonicamente em Díli a partir de Macau.
10 Dez - LISBOA : A Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa congratula-se pela atribuição do Prémio Nobel da Paz a D. Carlos Ximenes Belo, ex-aluno daquela instituição entre 1976 e 1979.
"A Faculdade de Teologia sente-se honrada com a atribuição do Nobel a um dos seus ex-alunos, fazendo votos para que a paz seja uma realidade efectiva no território timorense", refere uma nota da universidade.
10 Dez - LONDRES : O jornal londrino "The Independent" considera que a atribuição do Nobel da Paz a D. Ximenes Belo e a José Ramos Horta "tanto pode constituir um perigo como uma esperança" para a resolução do conflito em Timor-Leste.
Segundo o jornal, diplomatas estrangeiros em Jacarta consideram que o galardão oferece tanto perigo como esperança, "pois pode tornar menos provável a paz em Timor-Leste, por colocar o Governo da Indonésia contra a parede".
Mas os mesmos observadores pensam que o Nobel da Paz pode também abrir caminho para uma resolução deste conflito, que dura há 21 anos.
Para o jornal, a Indonésia "ressente-se do facto de, apesar de ser respeitada nas capitais do Terceiro Mundo, o reconhecimento internacional do lado positivo do seu regime ser abafado pelo horror causado pelo seu desrespeito face aos direitos humanos".
O principal obstáculo a uma solução do conflito em Timor-Leste, diz o jornal, "é o presidente Suharto da Indonésia que não aceita qualquer iniciativa que dê aos timorenses alguma autonomia".
O jornal "The Independent" conclui que "talvez seja preciso esperar que Suharto, 77 anos, desapareça de cena".
10 Dez - OSLO : Perante os reis da Noruega e uma plateia que integra diversos chefes de Estado e de Governo, incluindo o presidente Jorge Sampaio e o primeiro-ministro António Guterres, o bispo D. Ximenes Belo e José Ramos Horta recebem, na Câmara Municipal de Oslo, o Prémio Nobel da Paz.
Cerca de 175.000 contos, dois diplomas e duas medalhas constituem o galardão entregue aos dois timorenses, numa cerimónia acompanhada em directo por milhões de telespectadores, incluindo a população de Timor, que acompanha o acontecimento através das transmissões da RTPinternacional e da Antena Um.
10 Dez - OSLO : O presidente do Comité Nobel Norueguês, Francis Sejersted, considera, ao intervir na cerimónia de entrega do Nobel da Paz, que a anexação de Timor-Leste pela Indonésia não pode ser encarada como um facto consumado.
"Tem-se dito que a anexação indonésia de Timor-Leste é um facto histórico, mas a História nunca estabeleceu nada como um facto permanente. A História move-se continuamente, Se algo aprendemos na década passada foi que os regimes mais repressivos são os mais frágeis", afirma Sejersted.
"Há forças na História mais poderosas que a mais poderosa força militar. A violência e o terror não conduzem à paz. Até que alguém ganhe a coragem de quebrar o círculo vicioso da violência não nascem oportunidades para uma paz duradoura", sublinha.
Sobre o alheamento das grandes potências em relação a Timor-Leste nas duas últimas décadas, Francis Sejersted considera que "raramente o cinismo dos políticos mundiais foi mais claramente demonstrado".
"Numerosas considerações de 'real politik' permitiram que uma forma excepcionalmente brutal de neo-colonialismo ocorresse. De uma população de 600.000 a 700.000 pessoas aproximadamente, 200.000 morreram como resultado directo ou indirecto da ocupação indonésia e as violações continuam a ocorrer actualmente", acrescenta.
Sobre os dois laureados, Francis Sejersted considera José Ramos Horta como principal porta-voz internacional da causa timorense, destacando a sua constante busca de oportunidades para uma solução pacífica do conflito. D. Ximenes Belo representa a esperança do povo timorense num futuro melhor, pelas suas tentativas de reconciliar, mediar e atenuar o conflito.
10 Dez - OSLO : O bispo D. Ximenes Belo apela para a libertação de todos os presos políticos timorenses no discurso que profere em Oslo depois de receber o Prémio Nobel da Paz.
Para o prelado, essa libertação, que deveria ser feita à luz da própria doutrina oficial do Estado indonésio, o Pancasila, "criaria uma importante abertura no caminho para a paz".
D. Ximenes Belo afirma também ser necessário fazer "um sincero esforço para mudar a gravíssima situação dos direitos humanos em Timor-Leste" e desafia as autoridades indonésias a colaborarem com a Igreja: "Nós (a Igreja timorense) criámos uma Comissão de Justiça e Paz que está sempre pronta para cooperar com as autoridades na resolução dos problemas".
"O povo de Timor-Leste não é intransigente. Está disposto a perdoar e a superar a sua amargura. Anseia pela paz, paz na sua comunidade e na paz na sua região. Deseja construir pontes com as suas irmãs e irmãos indonésios para encontrar formas de construir a harmonia e a tolerância", sublinha D. Ximenes Belo.
"Chegou a hora de as armas se calarem em Timor-Leste de uma vez por todas, chegou a hora de a tranquilidade regressar às vidas do povo da minha terra nata, chegou a hora de haver diálogo autêntico", afirma.
Segundo D. Ximenes Belo, o que o povo timorense quer "é a paz, o fim da violência e o respeito pelos direitos humanos. É minha profunda esperança que o Prémio Nobel da Paz 1996 promova estes objectivos".
"Falo destas coisas como alguém que tem a responsabilidade de testemunhar aquilo que viu e ouviu", refere, sublinhando: "Falo como um líder espiritual, não como um político, que de facto não sou".
"Como homem, como ser humano, não posso ficar indiferente ao que se relaciona com o homem. Como membro de um povo, tenho de partilhar o destino desse povo, assumindo completamente este mandato, mesmo sabendo os riscos que tal atitude envolve. (...) Como membro da Igreja, assumo a missão de esclarecimento e denúncia de todas as situações humanas que estejam em desacordo com o conceito cristão e sejam contrárias aos ensinamentos da Igreja", sublinha.
"Acredito que estou aqui essencialmente como a voz do povo sem voz de Timor-Leste", afirma D. Ximenes Belo, que considera que para se atingir a paz é, porém, necessário que as partes em conflito sejam "flexíveis, bem como sensatas".
"Temos de reconhecer verdadeiramente as nossas próprias faltas e trabalhar para nos mudarmos a nós próprios, no interesse da construção da paz", refere.
No seu discurso, o bispo elogia a actuação das Nações Unidas no processo timorense, afirmando "que tem sido de importância capital para manter a questão viva durante muitos e longos anos".
"Perante grandes obstáculos, apesar de todas as dificuldades, as Nações Unidas insistiram no fomento do diálogo que possa um dia criar uma estrutura de paz duradoura em Timor-Leste e em muitos outros lugares em todo o mundo", salienta D. Ximenes Belo, recordando que a ONU desempenhou "um papel importante" na libertação da própria Indonésia do colonialismo holandês, nos anos 40.
"A jovem República Indonésia lutou sozinha, com suprema coragem, contra a força bruta do colonialismo e seus aliados, recebendo o indispensável apoio moral das Nações Unidas", sublinha.
D. Ximenes Belo evoca ainda outros povos que, como o timorense, "buscam a paz e a dignidade", nomeadamente na Irlanda do Norte, no Tibete, no Médio Oriente e Afeganistão, na zona dos Grandes Lagos, na África do Sul e na Birmânia.
"O mundo censura os que pegam em armas para defender as suas causas e exorta-os a usarem meios não violentos para fazerem ouvir o seu sofrimento. Mas quando um povo escolhe o caminho da não violência, muitas vezes ninguém lhe dá atenção. É trágico que o povo tenha de sofrer e morrer e que as câmaras de televisão tenham de levar diariamente essas imagens a casa das pessoas para que o mundo admita que exista um problema", refere.
"Diariamente, recebemos nas nossas casas notícias e imagens de sofrimento, de dor e destruição causados pela guerra. 'A guerra, esse monstro' - como afirma o padre António Vieira - 'com o que ela faz, nem Deus está seguro no altar'", acrescenta D. Ximenes Belo, Prémio Nobel da Paz de 1996.
10 Dez - OSLO : José Ramos Horta centra o seu discurso de recepção do Prémio Nobel no plano de paz do Conselho Nacional da Resistência Maubere (CNRM) e na antevisão do lugar a ocupar por Timor-Leste independente na comunidade internacional.
Segundo Ramos Horta, se o plano de paz for aplicado levará à autodeterminação dos timorenses no prazo mínimo de sete anos. Defende que uma vez independente, Timor-Leste beneficiaria do "cruzamento de culturas" - melanésia, malaio-polinésia e católica latina ("um legado de Portugal", sublinha) - que esteve na sua génese para ocupar uma "posição única na construção de pontes de diálogo e cooperação entre os povos da região".
Ramos Horta fala também da futura ligação privilegiada a Portugal, bem como da integração de Timor-Leste nos organismos da região em que se insere - a ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático) e APEC (Cooperação Económica Ásia-Pacífico).
Garante que o país será uma zona de paz, sem exército, com uma especial preocupação pelos direitos humanos e onde será promovida a reconciliação entre independentistas e integracionistas, bem como a fixação de imigrantes indonésios que pretendam contribuir para a "reconstrução nacional".
Ramos Horta sublinha que o discurso - e as ideias nele contidas - pertence a Xanana Gusmão, o líder histórico da Resistência Timorense encarcerado em Cipinang, Jacarta.
"Ele é um homem de extraordinária coragem, tolerância e sentido de Estado. Contudo, este homem está na prisão pelo único crime das suas ideias e visão de paz, liberdade e dignidade para o seu povo", afirma.
Conforme tinha previamente anunciado, Ramos Horta começa o seu discurso em português, "língua secular" que "persiste teimosamente" em Timor-Leste, "apesar da brutal colonização indonésia e da repressão cultural dos últimos 21 anos".
"Faltaria à minha herança histórica e consciência se não começasse esta minha intervenção na língua que hoje une mais de 200 milhões de pessoas nas cinco regiões do mundo", justifica.
Já em inglês, Ramos Horta agradece o apoio dos PALOP à causa timorense e de Portugal, país que "durante muitos anos travou uma batalha solitária na União Europeia contra a indiferença e mesmo a hostilidade de alguns dos seus parceiros".
E, dirigindo-se ao Presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio, prossegue: "Vocês mostraram, não apenas aos timorenses, mas também a outras pequenas nações do mundo, que os princípios e a moral não foram ainda completamente vencidos pelos interesses mercantis".
Ramos Horta lembra ainda que os timorenses "não são as únicas vítimas do regime da Nova Ordem", liderado pelo general Suharto.
"Ao longo de mais de 30 anos, o povo indonésio conheceu massacres, prisões, torturas, proibições a escritores, jornalistas, académicos e líderes sindicais. Muçulmanos, católicos, budistas e hindus, todos sofreram a sua quota-parte da repressão. A única política não discriminatória do regime da Nova Ordem é a repressão", afirma.
Ramos Horta critica também as potências ocidentais: "Consideramos repugnante que os países ocidentais que mais discursos retóricos fazem sobre os direitos humanos sejam os mesmos que fabricam a maioria das armas que mataram mais de 200 milhões de pessoas no mundo em desenvolvimento desde a Segunda Guerra Mundial".
10 Dez - MACAU : A comunidade timorense residente em Macau assinala a atribuição do Nobel da Paz a D. Ximenes Belo e a José Ramos Horta com a celebração de uma missa na Sé Catedral do território e um jantar de confraternização.
Cerca de duas centenas de pessoas participam no jantar e assistem à cerimónia de Oslo, transmitida em directo pela Teledifusão de Macau, via RTPi.
A Rádio Macau também transmite a cerimónia, em cadeia com a Antena 1.
10 Dez - OSLO : O ex-presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, Freitas do Amaral, manifesta-se convicto de que o processo conducente à autodeterminação do povo timorense é irreversível.
"Já não volta atrás", afirma Freitas do Amaral em Oslo, após a cerimónia de entrega do Prémio Nobel da Paz a D. Carlos Ximenes Belo e a José Ramos Horta.
E justifica: "Há 15 anos, quando eu era ministro dos Negócios Estrangeiros, ninguém conhecia a situação timorense. Ninguém falava em Timor-Leste. Hoje é muito diferente. A questão está na agenda internacional".
"A autodeterminação não será, contudo para já. Há que esperar uma mudança de regime na Indonésia e que trabalhar para se estar preparado para esse momento", refere. E, nesse processo, "Portugal ainda tem muito a dar a Timor-Leste".
Depois da atribuição do Nobel da Paz, "muita coisa vai mudar", porque, para Freitas do Amaral, este não é um prémio simbólico: "O Prémio Nobel tem um significado muito grande. É uma força inimaginável a nível internacional".
10 Dez - LISBOA : Os partidos com assento parlamentar e o Governo acordam na inclusão, no Orçamento de Estado, de um novo artigo sobre Timor-Leste, com o fim de apoiar acções humanitárias relacionadas com aquele território.
A verba a incluir, não quantificada, sairá da dotação provisional do Ministério das Finanças e será utilizada mediante as necessidades.
A proposta com a redacção do novo artigo foi subscrita por Jorge Lacão (PS), Vieira de Castro (PSD), Jorge Ferreira (PP), Octávio Teixeira (PCP) e Heloísa Apolónia (PEV).
O novo articulado apresenta quatro pontos:
- No ano de 1997, o Governo reforçará o apoio às acções, programas e projectos de índole humanitária, cultural, de defesa dos direitos humanos e da identidade cultural e religiosa do Povo de Timor-Leste, bem como destinados à promoção da visibilidade internacional da causa timorense;
- O Governo, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, seleccionará as acções, programas e projectos com finalidades referidas no número anterior submetidos por associações, fundações existentes ou a criar e outras organizações não-governamentais, constituídas em Portugal ou no estrangeiro, representativas da defesa dos direitos e interesses dos timorenses;
- As verbas destinadas aos apoios previstos neste artigo serão suportadas pela dotação provisional do Ministério das Finanças;
- O Governo informará a Comissão Eventual de Acompanhamento da Situação em Timor-Leste da Assembleia da República sobre os apoios concedidos ao abrigo do presente artigo.
10 Dez - OSLO : A polícia norueguesa detém, durante cerca de oito horas, dois indonésios que pretendiam entrar no país, provenientes de Jacarta, devido a irregularidades nos respectivos passaportes.
Segundo a polícia do aeroporto de Fornebu, em Oslo, os dois indivíduos transportavam quatro passaportes cada um e material de propaganda hostil ao dirigente timorense José Ramos Horta.
Após as investigações, os dois indonésios são autorizados a entrar no país.
Fontes em Jacarta e Oslo tinham dito à Agência Lusa que teriam viajado para a capital norueguesa agentes indonésios, enviados pelos serviços secretos indonésios para "perturbar" D. Ximenes Belo e José Ramos Horta e "eventualmente" atentar contra a vida dos dois timorenses laureados com o Prémio Nobel da Paz.
10 Dez - WASHINGTON : Em artigo publicado no jornal "New York Times", o bispo D. Carlos Ximenes Belo apela para a libertação dos presos timorenses.
"Espero que os prisioneiros de Timor-Leste sejam libertados das suas células prisionais a tempo do Natal", escreve o bispo, recordando que os líderes indonésios que lutaram pela independência do seu país foram libertados em 1949, depois de uma iniciativa das Nações Unidas.
Sob o título "É tempo de paz em Timor-Leste", D. Ximenes Belo diz que o seu povo deseja "o fim da violência e o respeito pelos direitos humanos".
D. Ximenes Belo recorda que Timor-Leste conheceu a "miséria" nos princípios deste século quando "Portugal cruelmente esmagou uma rebelião nacionalista. Mais tarde, foi a vez da ocupação japonesa durante a Segunda Guerra, em que morreu um décimo da população, e, agora, o conflito com a Indonésia".
Refere-se a números de organizações internacionais que calculam que 200 mil pessoas terão morrido como resultado da ocupação indonésia e consequente fome e doenças.
O bispo diz que os timorenses não podem viajar ou falar livremente sem medo da polícia e dos militares indonésios.
D. Ximenes Belo considera ter o "dever moral de falar em nome dos pobres e dos simples que, intimidados e aterrorizados, não podem defender-se ou tornar conhecido o seu sofrimento".
Recordando que a situação de Timor-Leste é objecto de negociações entre a Indonésia e Portugal, sob os auspícios da ONU, e que a independência da Indonésia foi igualmente conseguida sob os auspícios daquela organização, D. Ximenes Belo diz que os timorenses querem nesta altura "uma verdadeira mudança".
Nesse sentido, propõe, como modesto primeiro passo, a libertação de todos os presos, "um passo que poderia renovar as esperanças de paz e ajudar a próxima ronda das conversações patrocinadas pela ONU".
10 Dez - OSLO : O presidente da Comissão Pontifícia, cardeal Etchegaray, manifesta, em Oslo, uma evidente admiração pelo bispo D. Carlos Ximenes Belo, considerando-o um pastor com uma visão universal da Terra, que fez do diálogo a palavra-chave da sua intervenção em Timor-Leste.
"É um homem de diálogo, um homem aberto a todos, sem distinção de culturas", afirma o cardeal Etchegaray, em declarações após a cerimónia de entrega do Prémio Nobel da Paz.
"O diálogo é a palavra-chave de tudo o que D. Ximenes faz pelo seu país. Foi com emoção que o ouvi falar, porque ele é um pastor muito próximo do seu povo, um pastor que se preocupa não só com o sofrimento de Timor-Leste, mas de todo o mundo", sublinha o cardeal Etchegaray, que em Fevereiro de 1996 se deslocou a Timor-Leste.
10 Dez - OSLO : D. Ximenes Belo e José Ramos Horta são entrevistados em directo pela CNN, num programa de uma hora sobre a atribuição do Nobel da Paz de 1996 - o mais longo jamais realizado pela estação televisiva norte-americana sobre Timor-Leste -, em que intervêm também o Presidente da República, Jorge Sampaio, o embaixador indonésio na ONU e o conselheiro especial do presidente Suharto, Francisco Lopes da Cruz.
D. Ximenes Belo afirma que não tem medo de morrer, justificando que só se morre uma vez, e considera que a invasão de Timor-Leste pela Indonésia trouxe uma "nova experiência" aos timorenses, uma "experiência de sofrimento e de falta de respeito pelos direitos humanos".
Sublinhando que o povo timorense "não é feliz", D. Ximenes Belo reconhece que terem sido construídas mais escolas, estradas e edifícios desde a anexação de Timor pela Indonésia, mas considera que tal "não é importante".
"Para mim, o que importa é se as pessoas são felizes com este desenvolvimento material, e elas não são felizes", afirma, acrescentando que o que é importante é prestar atenção ao desenvolvimento social, ecológico, religioso, cultural, em todas as dimensões do ser humano.
Ramos Horta sustenta, por sua vez, que Timor-Leste tem o condições para ser independente, económica e politicamente, sublinhando que o território possui a maior jazida de petróleo da região e dirigentes capazes de governarem o país, nomeadamente Xanana Gusmão, líder da resistência que se encontra preso em Jacarta.
Sobre a aceitação de uma eventual integração na Indonésia, D. Ximenes Belo escusa-se a responder, alegando tratar-se de uma questão política, mas afirma que os timorenses esperam "que chegue o dia da ressurreição".
Quanto a uma solução para o território, Ramos Horta reafirma que a base tem de ser o respeito pelo direito do povo timorense à autodeterminação, mas admite aceitar uma mudança gradual, com a saída faseada da Indonésia e a libertação dos presos políticos, considerando que este último passo seria um sinal de boa vontade de Jacarta.
O fim da tortura e da colonização de Timor-Leste por indonésios são outros dos passos defendidos por Ramos Horta.
O mesmo dirigente defende ainda a autonomia do território, a eleição de representantes pelos próprios timorenses, admitindo que, satisfeitas todas as condições anteriores, daqui a cinco ou dez anos, em referendo, o povo timorense possa optar por uma solução que não a independência, como, por exemplo, uma associação com Portugal.
Ramos Horta afirma também que a FRETILIN já se mostrou disponível para uma investigação internacional sobre o papel que teve na guerra civil em Timor-Leste, em 1975, mas defende que a actuação da Indonésia na invasão do território seja também investigada.
O embaixador da Indonésia na ONU desvaloriza o papel de Ramos Horta, declarando que as suas propostas já são conhecidas há muito tempo, e sublinha que Jacarta rejeita negociar com o líder da resistência no exterior.
"Nós estamos a negociar com Portugal e concordo com o Presidente português quando diz que temos de olhar para o futuro e encontrar uma solução justa e internacionalmente aceitável", afirma.
10 Dez - OSLO : O Presidente da República, Jorge Sampaio, apela para que o Governo indonésio dê garantias à comunidade internacional de que está de facto envolvido numa solução para Timor-Leste, lamentando que até agora isso não tenha acontecido.
"Ajudaria (a resolução do problema de Timor-Leste) se a comunidade internacional recebesse sinais por parte de Jacarta de que estamos todos, de facto, envolvidos numa solução, o que infelizmente não tem sido o caso", sublinha Jorge Sampaio, ao intervir num programa da CNN, em directo desde Oslo, sobre a atribuição do Prémio Nobel da Paz a D. Carlos Ximenes Belo e a José Ramos Horta.
Fortemente aplaudido pela assistência, Jorge Sampaio centra a sua intervenção no que afirma ser a sua preferência de "olhar para o futuro" e advoga a continuação de discussões e conversações "que conduzam, pelo menos, à possibilidade de os timorenses terem direito à autodeterminação".
O PR saúda o diálogo intra timorense como um passo essencial para uma solução final e considera muito importante a atribuição do Prémio Nobel da Paz a D. Carlos Ximenes Belo e a José Ramos Horta, porque chama a atenção para o problema e mostra ao mundo o que está em causa.
Considera igualmente importante o discurso do presidente do Comité Nobel, por este ser uma pessoa independente na questão timorense.
"Espero que países que votam no seio das Nações Unidas estejam finalmente conscientes de que o problema dos direitos humanos continua a existir", afirma Jorge Sampaio.
O PR volta a insistir na realização de um acto de autodeterminação por parte dos timorenses, acrescentando que o único objectivo dos portugueses é que seja dada aos timorenses a possibilidade de dizerem o que querem, de uma forma democrática e aceite pela comunidade internacional.
Referindo-se às declarações do embaixador indonésio na ONU, que afirmou ter havido uma consulta ao povo timorenses no sentido da integração na Indonésia, Jorge Sampaio afirma: "não digam ao mundo que houve um acto de autodeterminação, porque não houve".
10 Dez - OSLO : O bispo D. Carlos Ximenes Belo pede a inclusão de Timor-Leste na Comunidade de Países de Língua Portuguesa, pelo menos com o estatuto de observador, ao intervir num banquete em que participam representantes dos sete países de expressão portuguesa.
11 Dez - MACAU : Os três diários portugueses de Macau destacam em primeira página a entrega do Nobel da Paz a D. Ximenes Belo e José Ramos Horta, mas apenas dois dos oito jornais chineses locais noticiam o assunto.
A cerimónia de Oslo é referida na página 12 do "Ou Mun", o jornal de maior tiragem em Macau, e na página dois do "Va Kio", mas é ignorada pelo "Tai Chung", "Si Man", "Correio Sino-Macaense", "Today Macau", "Cheng Pou" e "Seng Pou".
Entre os jornais portugueses, o "Macau Hoje" titula a toda a largura da capa "Orgulho de ser timorense", e dedica as páginas sete e nove à cerimónia de terça-feira em Oslo.
O director do "Macau Hoje", João Severino, o único jornalista local que se deslocou a Oslo, assinala que "Ramos Horta não fez referência aos partidos tradicionais, a UDT e a FRETILIN", no discurso que proferiu após ter recebido o prémio Nobel da Paz, juntamente com D. Ximenes Belo.
"Timor histórico" é o título na capa do "Futuro de Macau", que dedica também duas páginas ao tema, a segunda e a terceira. Com uma fotografia a toda a largura da página dois em que se vê o administrador apostólico de Díli a receber o Nobel da Paz, o jornal dirigido por Severo Portela destaca em título que "Ximenes pede libertação dos presos políticos".
O "Jornal de Macau", de João Fernandes, considera em manchete que "Discursos de Oslo abalam Indonésia". Nas centrais, dedicadas ao tema, o "JM" insere ainda os títulos "Indonésia trouxe sofrimento a Timor", uma denúncia de D. Ximenes Belo em entrevista à CNN, "Sampaio interveio e foi aplaudido", "Uma cerimónia bonita e cumprida ao relógio" e "Presidente do Comité o mais duro crítico".
Em Hong Kong, o "Standard" ignora a entrega do prémio, mas o "South China Morning Post" destaca na página onze que em Oslo se apelou para a paz, ilustrando o artigo com uma fotografia a quatro colunas que ilustra o momento em que o presidente do Comité Nobel se baixou para apanhar a medalha de ouro que José Ramos Horta deixou cair no palco da capital norueguesa.
Timor-Leste é também tema de um artigo publicado na última edição da revista semanal "Asiaweek", sediada em Hong Kong. Na capa surge o título "O herói de Timor" e na página 24 uma fotografia a cores identifica esse mesmo herói: o bispo D. Ximenes Belo. "
Um novo dilema em Díli" é o título do artigo assinado por Keith Loveard, que se deslocou à capital timorense em final de Novembro, no qual é referido que os militares indonésios têm estado mais brandos em Timor-Leste, o que leva, segundo o repórter, alguns dos residentes a pensar que Jacarta poderá pensar numa autonomia para o território.
11 Dez - MACAU : Residentes em Díli manifestam-se "mais animados e esperançados" numa solução para a questão de Timor-Leste, um dia depois de terem assistido em directo à cerimónia de entrega do Nobel da Paz, em Oslo.
Contactados telefonicamente pela Lusa em Díli, diversos residentes consideram também que as emissões da RTPi e da RDP sobre a cerimónia de Oslo fizeram "renascer" Portugal em Timor-Leste.
Alguns residentes sublinham que a entrega do Nobel da Paz a D. Ximenes Belo e José Ramos Horta foi celebrada com cerveja "Sagres" e um "tinto" português à venda no território com o rótulo "Timor", produtos que voltaram a ser comercializados em Díli, via Singapura, depois de alguns anos de interrupção.
Em geral, os discursos de D. Ximenes Belo e José Ramos Horta em Oslo são elogiados pelos residentes de Díli contactados pela Lusa, mas pelo menos duas pessoas manifestam algumas reservas sobre o que disse cada um dos laureados.
As referências a Portugal são uma constante nos depoimentos recolhidos telefonicamente a partir de Macau, sendo mesmo especialmente sublinhadas por elementos da frente clandestina da resistência em Díli, que se congratulam por terem constatado, através das inúmeras entrevistas incluídas nas emissões da RTPI e RDP, que os "líderes políticos portugueses estão a trabalhar por Timor". "
"A RTPi e a RDP aproximaram Portugal e Timor-Leste de uma forma que nunca tinha acontecido, pelo menos nos últimos 21 anos, e havia muita gente que, apesar de ouvir falar dos esforços portugueses, não tinha consciência de que o nosso problema era vivido de uma forma tão intensa pelo povo português", comenta a mesma fonte.
"De acordo com as diversas fontes contactadas pela Lusa, as ruas de Díli ficaram praticamente desertas a partir das 18:00 do dia 10 (hora local) e as pessoas que não têm antenas parabólicas (que esgotaram nos dias anteriores) procuraram as casas de familiares e amigos para seguirem em directo a cerimónia de Oslo.
Em Díli há informações de que a entrega do Nobel da Paz também foi vista (ou ouvida pela rádio) noutros pontos do território, mas não há relatos de represálias por parte das autoridades indonésias.
As mesmas fontes admitem que o povo timorense receberá o bispo D. Ximenes Belo em triunfo quando o prelado regressar da Europa.
"Já se fala que a população das montanhas vem à cidade receber o bispo e até já se estão a preparar camisolas com a cara dele e com a do Ramos Horta para que a festa seja completa", sublinha uma das fontes.
11 Dez - OSLO : O dirigente da FRETILIN Mari Alkatiri anuncia que a reunião de timorenses residentes no exterior com compatriotas seus provenientes de Timor-Leste, que deveria decorrer em Oslo, foi anulada porque estes últimos sofreram "muita pressão" das autoridades indonésias.
Segundo Alkatiri, o encontro foi "noticiado com muita antecipação", o que permitiu a Jacarta pressionar os timorenses provenientes de Timor para que não participassem na reunião.
11 Dez - JACARTA : O MNE indonésio, Ali Alatas, condena os comentários feitos na véspera pelo PR português, Jorge Sampaio, e acusa Portugal de violações dos direitos humanos nas suas antigas colónias.
"É muito engraçado ouvir o presidente (português) colocar o seu país como campeão dos direitos humanos e autodeterminação. Veja-se o que fizeram em Angola", afirma Ali Alatas, que qualifica Portugal como "o pior colonizador".
12 Dez - BERLIM : Os serviços de imprensa do Governo alemão anunciam que o bispo D. Carlos Ximenes Belo será recebido no dia 16 de Dezembro, em Bona, pelo chanceler Helmut Kohl.
Durante a sua mais recente visita oficial à Indonésia, em fins de Outubro, Helmut Kohl chegou a ter um encontro marcado, em Jacarta, com D. Ximenes Belo, mas este não compareceu, alegando não ter recebido nenhum convite oficial para se avistar com o chanceler alemão.
12 Dez - JACARTA : Uma fonte diplomática norte-americana em Jacarta anuncia que o congressista Patrick Kennedy vai passar o Natal em Timor-Leste em companhia do bispo D. Carlos Ximenes Belo.
Patrick Kennedy, sobrinho do falecido presidente Kennedy, é o representante democrata do Estado de Rhode Island na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos.
Segundo a mesma fonte, Kennedy visitará Díli sem passar por Jacarta, fazendo apenas uma curta visita do Prémio Nobel da Paz.
12 Dez - LISBOA : O Ministério dos Negócios Estrangeiros rejeita a possibilidade de a Noruega vir a mediar o conflito entre Portugal e a Indonésia sobre Timor-Leste, defendendo que as conversações devem continuar sob a égide das Nações Unidas.
"Não vemos vantagens em fazer substituir a ONU por outro 'forum' negocial", refere um comunicado do MNE, reagindo a uma notícia do "Diário de Notícias", segundo a qual o Governo da Noruega se teria disponibilizado para mediar a questão de Timor-Leste.
Apesar disso, refere o comunicado, o Governo português considera "desejáveis" todas "as iniciativas diplomáticas que possam conduzir a Indonésia a uma postura mais construtiva nas negociações" que têm vindo a realizar-se sob a égide da ONU.
O comunicado do MNE acrescenta que o Governo da Noruega "não fez a Portugal qualquer proposta dessa natureza".
14 Dez - BERLIM : O bispo D. Carlos Ximenes Belo chega à Alemanha para uma visita que inclui uma audiência com o chanceler Helmut Kohl.
José Ramos Horta inicia também uma visita à Alemanha, mas com um programa separado do anunciado para D. Ximenes Belo, com quem recebeu o Prémio Nobel da Paz de 1996.
O programa do bispo timorense inclui ainda a celebração de duas missas em Bona e a sua participação no Clube de Imprensa local na apresentação do livro "Carlos Belo - a Voz de Um Povo", de George Evens, conselheiro do Instituto Científico das Missões, em Aachen.
Do programa da visita de Ramos Horta, fazem parte deslocações a Leipzig e a Dresden, a convite do governo regional da Saxónia, e um encontro em Estugarda com representantes da Igreja Protestante.
14 Dez - LONDRES : A única forma de decidir quem deveria governar Timor-Leste é através da realização de um referendo, defende a revista britânica "The Economist", num artigo intitulado "Deixem Timor votar".
"Desde que a Indonésia invadiu Timor-Leste, em 1975m o Governo do Presidente Suharto tem tido a esperança de que o mundo se esqueça do caso", refere.
Mas, em vez disso, a Indonésia teve de "contorcer-se" esta semana quando o "mundo assistia à cerimónia de entrega do Prémio Nobel da Paz a dois vigorosos críticos da sua ocupação", o bispo D. Carlos Ximenes Belo e José Ramos Horta.
Para a revista britânica, a Indonésia receia que se os timorenses fossem autorizados a votar pela independência, o resto do império indonésio talvez começasse a desfazer-se.
"E se o povo de Timor-Leste deseja liberdade, devia ser autorizado a obter a independência", escreve a revista, que considera que, mesmo depois da morte de Suharto, ou depois de o actual Presidente abandonar o cargo, "o caminho para uma solução final será longo e tortuoso".
14 Dez - BISSAU : Uma fonte do MNE guineense anuncia que a Guiné-Bissau e a Indonésia estabeleceram relações diplomáticas, no âmbito de um acordo assinado no dia 13 de Janeiro, em Jacarta, pelos ministros dos Negócios Estrangeiros dos dois países.
O acordo assinado por Fernando Delfim da Silva e Ali Alatas prevê que os dois países troquem embaixadores, criando, para o efeito, as missões diplomáticas nas respectivas capitais.
14 Dez - DUBLIN : Os líderes da União Europeia saúdam as iniciativas comunitárias para a melhoria das condições de vida dos timorenses, dando um novo impulso político à campanha de Portugal a favor de Timor-Leste.
"O Conselho Europeu congratula-se com as iniciativas tomadas no âmbito da União Europeia com o objectivo de melhorar (...) a situação do povo de Timor-Leste", lê-se nas conclusões da Cimeira Europeia, que reuniu em Dublin os chefes de Estado e de Governo dos Quinze.
A Comissão Europeia tinha sido anteriormente mandatada pelos ministros dos Negócios Estrangeiros da União para apresentar, no início de 1997, propostas concretas de projectos para o desenvolvimento de Timor-Leste.
A Comissão tem instruções para actuar nas áreas da educação, formação, saúde e infra-estruturas, através de financiamentos às organizações não-governamentais a operar no terreno.
15 Dez - BONA : José Ramos Horta, de visita à Alemanha, exorta o Governo alemão a exercer maior pressão sobre a Indonésia.
"A Alemanha é o mais importante parceiro comercial da Indonésia e tem de utilizar as suas relações como meio de pressão para libertar presos políticos e dar mais campo de manobra ao movimento democrático", afirma Ramos Horta, em entrevista ao jornal "Sachsishe Zeitung", de Dresden.
"Não é possível fazer negócios e ignorar simultaneamente as graves violações dos direitos humanos na Indonésia e a ocupação ilegal de Timor-Leste", acrescenta.
15 Dez - BONA : O bispo D. Carlos Ximenes Belo promete que se deslocará a Portugal "mais tarde", sem indicar quando, para receber a Ordem da Liberdade que lhe foi atribuída pelo Presidente da República.
Em conferência de imprensa nas instalações da igreja salesiana de Saint Winfried, em Bona, após ali ter celebrado uma missa, o bispo pede "mais justiça e respeito pelos direitos humanos do povo de Timor-Leste".
Afirmando-se um homem da igreja e não da política, D. Ximenes Belo garante que pode fazer o seu trabalho na diocese de Díli sem interferência das autoridades indonésias.
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